A prática do altar é uma forma de alimentarmos a mente com o Dharma, de a nutrirmos com boas qualidades, de estabelecermos uma conexão emocional e enraizarmos a prática em nós.
Conteúdo:
- O que representa? É idolatria?
- Como se originou o Altar Budista?
- Elementos de um Altar Budista e a sua simbologia
- Onde colocar um altar pessoal?
- A pratica do altar / prática devocional (puja)
O que representa? É idolatria?
Um altar budista representa principalmente as 3 Jóias (Buda, Dharma e Sangha) e o nosso potencial de nos tornarmos num Buda. Existe muita simbologia no altar que nos comunica e nos relembra determinados aspetos do Caminho.
Não se trata de endeusar ou de idolatria. Nós somos influenciados pelas coisas com as quais contactamos. A prática do altar é uma forma de alimentarmos a mente com o Dharma, de a nutrirmos com boas qualidades, de estabelecermos uma conexão emocional e enraizarmos a prática em nós. É um treino da mente. É uma forma de treinar generosidade e outras qualidade. É um meio hábil para a prática budista.
Conforme diz* Ven Narada:
“Os budistas não prestam culto a uma imagem esperando favores mundanos ou espirituais, mas prestam homenagem ao que ela representa.
Um budista esclarecido, ao oferecer flores e incenso a uma imagem, induz intencionalmente em si o sentimento de estar na presença do Buda vivo e, desse modo, obtém inspiração da sua nobre personalidade e respira profundamente a sua compaixão ilimitada. Procura seguir o seu nobre exemplo.”
Lama Gyurme afirma* que:
“Quando somos adolescentes às vezes gostamos de ter imagens dos nossos heróis. Para uns poderão ser heróis de música, do desporto, ou mesmo de um certo ativismo; que de alguma forma recordam que há certas qualidades excepcionais que temos como seres humanos.
Podemos dizer que ao ter este altar com as representações do corpo, fala e mente iluminados, nos recordam da nossa verdadeira natureza, nos recordam que somos muito mais que meramente as ideias que convencionalmente temos sobre nós.”
Antigamente a maioria das pessoas eram analfabetas, não havia os livros como agora nem um acesso fácil a professores. A prática do altar era uma das formas das pessoas terem os ensinamentos presentes.
Apesar de hoje os tempos serem outros, a prática do altar continua a ser relevante e a ter a sua utilidade. Mas claro que o praticante não é obrigado a ter um altar e a fazer esse tipo de prática, há quem se sinta mais inclinado à pratica devocional e quem se sinta menos, há escolas que dão mais importância, e outras que dão menos.
Nós somos seres ritualísticos, são vários os rituais presentes no nosso dia a dia, fazemos rituais de tal forma automáticos que na maioria das vezes nem percebemos. Por exemplo: Cantar os parabéns a alguém, dar um aperto de mão (expressando amizade e mostrando uma mão vazia de armas), etc.

O altar serve para a prática budista e não tem como objetivo a decoração ou as pessoas passarem uma imagem de si mesmas para os outros, por isso quando se monta um altar ou se usa objetos budistas é importante refletir sobre a motivação, se não pode acabar se transformando em materialismo espiritual. Muitas pessoas até montam um altar com o “Buda gordo” (que na realidade nem é o Buda), colocam uma moeda e colocam o “Buda” de costas para a porta para dar sorte; isso é superstição e não tem nada haver com o budismo e do ponto de vista budista não serve para nada.
Um altar budista, assim como qualquer material budista, pelo que representam devem ser tratados com respeito, mas é importante também manter o bom senso.
Como se originou o Altar Budista?
Monge Genshõ refere que:
“Na verdade, não haviam estátuas de Budas, nos altares, durante os 300 primeiros anos da história do budismo. Ninguém se atrevia a colocar uma estátua de Buda num altar, o que se colocavam eram impressões de pés ou uma árvore, porque ele havia se iluminado embaixo de uma árvore e diziam: “ele passou por aqui”.
As estátuas de Buda só aparecem depois do chamado “Período Gandhara”, e este período aconteceu na região que hoje engloba o Afeganistão. Ela era um reino grego, e como os gregos haviam invadido a Índia e dominaram aquela região, os gregos influenciaram o budismo para que o budismo produzisse estátuas, e as primeiras estátuas de Buda são gregas. Nariz grego, feitio grego, etc. Então, a existência da estatuária budista, é uma influência do ocidente grego sobre o budismo, assim como a existência do estoicismo na filosofia grega tem uma influência do budismo.
Essa conexão cultural entre o budismo oriental, o oriente e o ocidente normalmente é ignorada, porque nós na faculdade estudamos uma história que isola o oriente, é como se ele não existisse, e toda a história partisse da Grécia e de Roma, é a chamada “História Eurocêntrica”. E ninguém sabe quase nada aqui do que aconteceu na Índia, na China e no Japão, nesses séculos anteriores, quando nós sabemos que a civilização chinesa é mais antiga que a civilização grega, mais antiga que a civilização romana, só não é mais antiga que a civilização egípcia e babilônica.
Então, o que representa o altar para nós? É só um mecanismo de lembrança, porque as pessoas gostam de altares. Nós precisamos realmente de altares? Não, não precisamos de altares. Nós reverenciamos a lembrança do seu ensinamento e a verdade de que nós somos homens como ele, porque ele tem a água na frente dele porque morreu desidratado, mas morreu porquê? Porque comeu em casa de um ferreiro, passou muito mal, teve um enfarto agudo do mesentério, e teve uma diarréia sanguinolenta. Eu sempre pergunto nas minhas primeiras palestras: “vocês já tiveram diarréia?” Então vocês são como Buda! Vocês podem se iluminar.” – Excerto do artigo “Qual a bengala a que você está agarrado?” (blog Pico da Montanha)
Elementos de um Altar Budista e a sua simbologia
Os elementos que compõem um altar budista, a sua simbologia e a forma de praticar, varia de tradição para tradição.
Num altar pessoal por vezes as pessoas não seguem integralmente o estilo tradicional ou formal, retirando alguns elementos e adicionando outros que consideram importantes e inspiradores. Mas a forma de montar o altar vai depender também de como a pessoa está a seguir o budismo e do aconselhamento do professor ou professora espiritual.
Alguns dos seguintes elementos, todos, ou até mais, estão presentes num altar típico:
- Imagem de Buda: É a imagem principal. Deve ficar centrada e mais elevada que todas as outras. Normalmente é uma estátua mas também pode ser um fotografia do Buda. Representa o Buda histórico, os mestres iluminados, os ensinamentos, as boas qualidades do Buda e o potencial de nos tornamos num Buda.
- Imagens de Bodhisattvas: Na tradição Mahayana e Vajrayana também é comum a estátua ou fotografia de Bodhisattvas. Um Bodhisattva é um ser com um certo grau de iluminação e o que representa varia. Por exemplo: Avalokiteshvara, que em tibetano se chama de Chenrezig, em chinês de Guanyin e em japonês de kannon, é a Bodhisattva que representa a compaixão. Já o Bodhistattva Manjusri, representa a sabedoria e inteligência. O panteão de Bodhisattvas é vasto.
- Imagens de outros mestres: É comum incluir no altar uma estátua ou fotografia do mestre da linhagem, fotografia do mestre que se segue ou outros mestres inspiradores.
- Flores: As flores podem ser naturais ou artificiais. Representam a impermanência, pois belas folhas surgem mas com o passar do tempo caiem e a sua beleza perece. Lembram-nos da vida cíclica no Samsara, do nascimento, velhice e morte; instigam à paciência e ao esforço para o progresso espiritual.
- Vela (ou outra fonte de luz): Pode ser uma vela artificial. Representa uma mente desperta, a iluminação. É a luz da sabedoria que ilumina na escuridão; é a luz que dissipa a ignorância.
- Incenso: Representa o perfume do Dharma, a virtude e as boas ações; representa os ensinamentos do Buda a espalharem-se por todas as direções; representa a realidade absoluta. O seu aroma torna o ambiente propício à calma e introspeção.
- Livro/sutra budista: Representa os ensinamentos budistas.
- Stupa: Representa a mente de um Buda, o estado búdico. O altar com um Stupa é mais utilizado pelo budismo tibetano.
- Sino: O sino ou outro objeto que produza som, como o gongo, serve para pontuar o ritmo da recitação de sutras; também representa a impermanência, pois o som que emite é efêmero, não pode ser capturado nem guardado. Assim como na vida, tudo muda, é impossível “congelar” ou manter algo sempre igual, sem nenhuma deterioração ou mudança. O som que o sino emite também se mistura com outros sons, representa por isso a vacuidade, a interdepêndencia e a não substancialidade.
- Água: O Buda morreu desidratado devido à doença que padecia, por isso com a água também queremos dizer: “se eu estivesse lá eu lhe daria água.” Lembra-nos que somos humanos como ele, sujeitos à doença, velhice e morte; e se ele despertou, nós também podemos despertar. A água também simboliza a purificação do karma negativo e das ilusões. No budismo tibetano geralmente são utilizadas 7 pequenas tigelas com água, a cada uma é atribuído um significado; nas outras tradições normalmente se utiliza apenas uma tigela ou pote de água.
- Comida: Pode ser arroz, fruta, frutos secos, bolinhos, ou qualquer outro tipo de comida vegetariana. Simboliza a mente clara e estável e o precioso néctar do caminho que leva à iluminação.

Outros itens relacionados com o Dharma podem ser colocados num altar, tais com: Mala (algo parecido com um rosário de contas), vajra, etc.
É de evitar colocar no altar coisas como chaves, canetas, recados, carteira, telefone, etc. A única excepção talvez possa ser um relógio para marcar o tempo de meditação, caso seja utilizado um e não haja um local mais apropriado para colocá-lo.
Na parede pode-se colocar imagens relacionadas com o Dharma, como thangkas, entre outras. Não devem ser colocados itens que não tenha relação com o Dharma.
O mínimo para o altar é imagem de Buda, não sendo obrigatório, os outros elementos são adicionados conforme a tradição do budismo e a inclinação do praticante. Por exemplo, no Mosteiro Suddhavāri, para diminuir o risco de incêndios não são utilizadas velas e incensos, apesar de serem itens encontrados em grande parte dos altares tradicionais.
O altar deve ser uma fonte de inspiração, deve estar bonito, limpo e arrumado.
Onde colocar um altar pessoal?
Isso depende das circunstâncias e possibilidades de cada um. O melhor é num lugar nobre e/ou local de prática.
O praticante tem a possibilidade de construir um edifício só para o altar? Excelente! Mas a maioria de nós não está nessas circunstâncias. Então se possível numa divisão da casa exclusiva para o altar; se não, na sala; se não, no quarto. Em situações em que o praticante vive com outras pessoas e o altar exposto é um problema, até pode ter escondido dentro por exemplo de um armário. Talvez o único local onde não se deve mesmo colocar o altar seja o WC. Cada um deve colocar no local conforme as suas possibilidades. E também é possível ter mais que um altar, por exemplo um na sala e um no quarto.
O altar normalmente fica situado numa altura acima da cintura, na direção dos olhos ou até mais elevado, mas também nem sempre é assim.
A prática do altar / prática devocional (puja)
A prática varia entra as tradições, geralmente inclui acender uma vela e/ou incenso, prostrações, e cânticos perante o altar. Podem ser desde sessões curtas de 5 minutos, até sessões bem mais longas. Há pessoas que preferem fazer diariamente, outras semanalmente, mensalmente, ou só em retiros; umas fazem com mais frequências outras com menos. As pessoas podem preferir fazer antes ou depois de uma sessão de meditação, ou fazer as duas práticas em diferentes momentos. A prática devocional também pode servir como uma forma de meditação mais ativa ou de auxilio e preparação para a meditação formal; a prática feita com plena atenção ajuda a serenar a mente e pode ser útil para superar o obstáculo da sonolência.
Por diversos séculos, os ensinamentos budistas foram mantidos vivos unicamente pela tradição oral. Mesmo quando o registo escrito se consolidou, o costume de cantar passagens doutrinárias e versos em homenagem às Três Joias – o Buda, o Dhamma e a Sangha – permaneceu uma prática constante. A trajetória dos grandes mestres ao longo da história reflete como a devoção diária, expressa no puja, sempre ocupou um lugar central na vida espiritual. Além disso, ao saber que esses mesmos versos continuam e continuarão a ser entoados por praticantes do presente e do futuro, a recitação funciona como um elo atemporal. Esse hábito antigo nos integra diretamente a uma vasta comunidade de caminhantes dedicados à busca da espiritual.
Abaixo são partilhadas palestras sobre a prática devocional feita em diferentes tradições, e links com mais informações e instruções.
Budismo Theravada: Puja na prática do Dhamma | Ajahn Mudito
(a partir do minuto 27:20)
Ajahn Mudito refere a importância do comportamento na prática budistas e que uma prática corporal que ajuda muito é a puja, o aspeto devocional, que também tem o seu lugar, e é uma coisa saudável.
O textos nutrem muito o cérebro, mas a puja nutre muito o coração. Tem um aspeto emocional que cria um vinculo de respeito. Quando nos prostramos para uma imagem, não é uma questão de idolatria, é um gesto físico de respeito, admiração, gratidão, humildade… Nutre as emoções positivas.
Recitar as palavras em páli também é muito útil, porque tem um som melodioso, e o facto de não ser uma linguagem que nós entendemos diretamente na nossa língua natal, tem um efeito interessante na mente, é como se o som ganhasse um significado mais profundo do que o intelecto. Além de que existe tradução, então sabemos associar o significado.
É uma forma muito interessante de nutrir o subconsciente com o Dharma.
Segundo a experiência de Ajahn Mudito, é curioso, por exemplo, quando uma pessoa (que está familiarizada com o páli) vê um carro velho enferrujado e abandonado que no passado já foi luxuoso, a frase que vai vir para essa pessoa não vai ser “todos os sankharas são impermanentes”, mas sim “sabbe sankhara anicca”. As frases surgem na mente em páli. A razão para isso talvez seja porque não é uma coisa intelectual, é uma emoção, a pessoa vê aquilo e surge uma emoção e o som que a emoção regista são essas palavras em páli.
Além das recitações em páli também podem ser recitadas as traduções.
Ajahn Mudito fala também da fé. Se não temos determinada experiência, não conseguimos organizar uma ideia que justifique esse ato. E é aí que entra a fé, que é como dar um voto de confiança. É a mesma fé que temos por exemplo quando compramos um remédio, acreditamos que isso vai resolver um problema; ou quando compramos outra coisa qualquer como um produto de limpeza, acreditamos que vai limpar o chão. Antes de usarmos não sabemos se vai funcionar ou não, mas avaliamos, vemos o conteúdo, e depois de usarmos descobrimos se realmente funciona ou não. É uma fé baseada na inteligência e na esperança que vai tornar-se conhecimento. A fé no budismo é um recurso a ser usado a curto prazo, não indefinidamente, esse é um aspeto muito importante.
No início, se alguém diz que a puja é benéfica, não sabemos se realmente é, então temos que dar um voto de confiança, fazer a puja durante um tempo e ver o que acontece. Depois de um mês podemos avaliar se realmente está dando bom resultado ou não, se está sendo benéfico. A fé dentro do budismo deveria ser assim, embasada na razão: “Eu decidi acreditar nisso, mas tenho uma razão, não é só porque alguém falou”. A fé é como uma hipótese, avaliamos a situação e projetamos no futuro, temos fé na possibilidade. É como quando avaliamos o mercado e adquirimos um curso porque temos fé que nos vai trazer um certos benefícios. A fé deverá depois ser transformada em sabedoria, em experiência real.
Não devemos acreditar em coisas que nunca vamos poder conferir, caso contrário será uma fé cega. Mesmo fé em certas coisas como renascimento, tem que ser verificável. Quem não se sente confortável em acreditar nisso então deixe de lado por enquanto, mas quem vai decidir acreditar nisso que tenha planos para conseguir verificar essa informação mesmo que agora ainda não tenha como verificar, não fique só acreditando indefinidamente. Essa informação pode ser verificável e a pessoa não precisa morrer, porque o processo envolvido é o processo mental, entendendo profundamente como a mente funciona, já começa a ter uma boa ideia de como esse processo se realiza. Ao inferir e fazer vínculos, e ao adquirir mais experiência, o entendimento vai-se desenvolvendo mais e mais.
Se uma pessoa acha que a puja não é compatível consigo, então que deixe de lado, o ensinamento é amplo o suficiente para escolher por onde quer começar o trabalho. Essa atitude é importante para resguardar um tesouro nosso que é a inteligência. Se vamos só acreditar porque alguém disse, estamos a deitar fora completamente a nossa inteligência. Começar por onde já temos um pouco de experiência e sabedoria é útil porque isso exercita a nossa inteligência ainda mais. Mais para a frente pode-se começar a expandir, a aprender mais e a adicionar outros elementos. Vamos caminhando mas com a mente aberta, mantendo a fé no que é útil e apenas com a quantidade necessária.
Ter uma prática devocional equilibrada é algo saudável.
Mais informações (links externos): Cânticos e instruções para a prática (Mosteiro Suddhavari); Cânticos gravados no Mosteiro Sumedharama.
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Budismo Zen: Quer se aprofundar no budismo? Ter um altar em casa? | Monja Coen
Mais informações (link externo): Altar de Buda – Butsudan (Web Sotozen)
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Budismo Tibetano: A Prática do Altar | Alessandra Pizzigatti
Mais informações (link externo): A prática do altar, por Padma Dorje (Youtube Tendrel)
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Artigos e Palestra complementar (links externos):
- Adoradores de Ídolos? – 1, 2, 3, 4 (No Que Os Buddhistas Acreditam)
- Edificações religiosas – Ajahn Mudito (YouTube)
Veja também:
- Preces de Dedicação de Méritos
- Mantras, Dharanis e Cânticos
- Lugares Sagrados: Os melhores locais para uma Peregrinação Budista ou Viagem Espiritual
- Como uma estátua do Buda ajudou a transformar um bairro com problemas de criminalidade
- 20 Grandes estátuas de Buda ou Bodisatvas, algumas entre as maiores do mundo
- [Fotos] A beleza arquitectónica de Stupas e Pagodes
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– Olhar Budista > Recursos > Budismo: comece aqui! –
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