Budismo Geral

O Altar Budista e a prática devocional

Um altar budista representa principalmente as 3 Jóias (Buda, Dharma e Sangha) e o nosso potencial de nos tornarmos num Buda. Existe muita simbologia no altar que nos comunica e nos relembra determinados aspetos do caminho.

Não se trata de endeusar ou de idolatria. Nós somos influenciados pelas coisas com as quais contactamos. A prática do altar é uma forma de alimentarmos a mente com o Dharma, de a nutrirmos com boas qualidades, de estabelecermos uma conexão emocional e enraizarmos a prática em nós.

Conforme diz Ven Narada:

“Os Budistas não adoram imagens esperando favores espirituais ou terrenos, mas prestam reverência ao que elas representam.

Um Budista consciente, oferecendo incenso e flores a uma imagem, se faz sentir expressamente a si mesmo na presença de Buddha em vida, e assim, ganha inspiração da sua personalidade nobre e respira profundamente da sua compaixão ilimitada. Tenta seguir o nobre exemplo de Buddha.”

Antigamente a maioria das pessoas eram analfabetas, não havia os livros como agora nem um acesso fácil a professores. A prática do altar era uma das formas das pessoas terem os ensinamentos presentes.

Apesar de hoje os tempos serem outros, a prática do altar continua a ser relevante e a ter a sua utilizado. Mas claro que o praticante não é obrigado a ter um altar e a fazer esse tipo de prática, há quem se sinta mais inclinado à pratica devocional e quem se sinta menos.

Nós somos seres ritualísticos, são vários os rituais presentes no nosso dia a dia, fazemos rituais de tal forma automáticos que na maioria das vezes nem percebemos. Por exemplo: Cantar os parabéns a alguém; dar um aperto de mão (expressando amizade e mostrando uma mão vazia de armas).

Elementos de um Altar Budista e a sua simbología

Os elementos que compõem um altar budista, a sua simbologia e a forma de praticar, varia de tradição para tradição.

Num altar pessoal é comum as pessoas não seguirem integralmente o estilo tradicional ou formal, retirando alguns elementos e adicionando outros que consideram importantes e inspiradores.

Um altar típico normalmente tem os seguintes elementos:

  1. Imagem de Buda: É a imagem principal e fica centrada. Normalmente é uma estátua mas também pode ser um fotografia do Buda. Representa o Buda histórico, os mestres iluminados, os ensinamentos, as boas qualidades do Buda e o potencial de nos tornamos num Buda.
  2. Imagem de Bodhisatvas: Na tradição Mahayana e Vajrayana também é comum a estátua ou fotografia de Bodhistatvas. Um Bodhistatva é um ser com um certo grau de iluminação e o que representa varia. Por exemplo: Avalokiteshvara, que em tibetano se chama de Chenrezig, em chinês de Guanyin e em japonês de kannon, é a Bodhistatva que representa a compaixão. Já o Bodhistatva Manjusri, representa a sabedoria e inteligência. O panteão de Bodhistatvas é vasto.
  3. Imagem de outros mestres: É comum incluir no altar uma estátua ou fotografia do mestre da linhagem, fotografia do mestre que se segue ou outros mestres inspiradores.
  4. Livro/sutra budista: Representa os ensinamentos budistas.
  5. Flores: As flores podem ser naturais ou artificiais. Representam a impermanência, pois belas folhas surgem mas com o passar do tempo caiem e a sua beleza perece. Lembram-nos da vida cíclica no Samsara, do nascimento, velhice e morte; instigam à paciência e ao esforço para o progresso espiritual.
  6. Incenso: Representa o perfume do Dharma, a virtude e boas ações; representa os ensinamentos do Buda a espalharem-se por todas as direções; representa a realidade absoluta. O seu aroma torna o ambiente propício à calma e introspeção.
  7. Vela: Pode ser uma vela artificial. Representa uma mente desperta, a iluminação. É a luz da sabedoria que ilumina na escuridão; é a luz que dissipa a ignorância.
  8. Sino: O sino ou outro objeto que produz som, como o gongo, serve para pontuar o ritmo da recitação de sutras; também representa a impermanência, pois o som que emite é efêmero, não pode ser capturado nem guardado. Assim como na vida, tudo muda, é impossível “congelar” ou manter algo sempre igual, sem nenhuma deterioração ou mudança. O som que o sino emite também se mistura com outros sons, representa por isso a vacuidade, a interdepêndencia e a não substancialidade.
  9. Água: O Buda morreu desidratado devido à doença que padecia, por isso com a água também queremos dizer: “se eu estivesse lá eu lhe daria água.” Lembra-nos que somos humanos como ele, sujeitos à doença, velhice e morte; e se ele despertou, nós também podemos despertar. A água também simboliza a purificação do karma negativo e das ilusões. No budismo tibetano geralmente são utilizadas 7 pequenas tigelas com água, a cada uma é atribuído um significado; nas outras tradições se utiliza apenas um tigela ou pote de água.
  10. Comida: Normalmente é arroz e/ou fruta. Simboliza a mente clara e estável e o precioso néctar do caminho que leva à iluminação.

Como se originou o altar budista?

Monge Genshõ refere que:

“Na verdade, não haviam estátuas de Budas, nos altares, durante os 300 primeiros anos da história do budismo. Ninguém se atrevia a colocar uma estátua de Buda num altar, o que se colocavam eram impressões de pés ou uma árvore, porque ele havia se iluminado embaixo de uma árvore e diziam: “ele passou por aqui”.

As estátuas de Buda só aparecem depois do chamado “Período Gandhara”, e este período aconteceu na região que hoje engloba o Afeganistão. Ela era um reino grego, e como os gregos haviam invadido a Índia e dominaram aquela região, os gregos influenciaram o budismo para que o budismo produzisse estátuas, e as primeiras estátuas de Buda são gregas. Nariz grego, feitio grego, etc. Então, a existência da estatuária budista, é uma influência do ocidente grego sobre o budismo, assim como a existência do estoicismo na filosofia grega tem uma influência do budismo.

Essa conexão cultural entre o budismo oriental, o oriente e o ocidente normalmente é ignorada, porque nós na faculdade estudamos uma história que isola o oriente, é como se ele não existisse, e toda a história partisse da Grécia e de Roma, é a chamada “História Eurocêntrica”. E ninguém sabe quase nada aqui do que aconteceu na Índia, na China e no Japão, nesses séculos anteriores, quando nós sabemos que a civilização chinesa é mais antiga que a civilização grega, mais antiga que a civilização romana, só não é mais antiga que a civilização egípcia e babilônica.

Então, o que representa o altar para nós? É só um mecanismo de lembrança, porque as pessoas gostam de altares. Nós precisamos realmente de altares? Não, não precisamos de altares. Nós reverenciamos a lembrança do seu ensinamento e a verdade de que nós somos homens como ele, porque ele tem a água na frente dele porque morreu desidratado, mas morreu porquê? Porque comeu em casa de um ferreiro, passou muito mal, teve um enfarto agudo do mesentério, e teve uma diarréia sanguinolenta. Eu sempre pergunto nas minhas primeiras palestras: “vocês já tiveram diarréia?” Então vocês são como Buda! Vocês podem se iluminar.” – Excerto do artigo “Qual a bengala a que você está agarrado?” (blog Pico da Montanha)

A pratica do altar / prática devocional (puja)

Budismo Theravada: Puja na prática do Dhamma | Ajahn Mudito
(a partir do minuto 27:20)

Cânticos e instruções para a prática – mais informações em: Suddhavari

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Budismo Zen: Como é um altar Budista? | Monja Coen

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Budismo Tibetano: A Prática do Altar | Alessandra Pizzigatti

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Veja também:

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