Budismo Geral

8 Perigos Espirituais, e você provavelmente já caiu em alguma armadilha destas

A prática espiritual não está livre de armadilhas, e é muito fácil o praticante cair numa delas e pensar que está progredindo quando na verdade não está. É fácil o praticante se deixar enganar pela sua própria mente.

Até mesmo pessoas com vários anos de prática e em grupos bem orientados podem sofrer de alguns dos desvios expostos de seguida, e a tendência é se agravar naqueles que não têm um bom acompanhamento.

Para se evitar cair nestas armadilhas ou identificar quando se está numa e sair mais facilmente, é importante que a pessoa tenha seriedade na prática e, no caso dos budistas, siga escolas e professores autênticos de budismo.

1. Materialismo Espiritual

O termo foi cunhado pelo mestre budista Chögyam Trungpa nos anos 70. O materialismo espiritual são os inúmeros desvios que levam a uma distorção egocêntrica da espiritualidade. É a ilusão de que se está desenvolvendo espiritualmente quando na realidade se está fortalecendo o egocentrismo por meio de técnicas espirituais.

O praticante vai por exemplo acumulando livros, objetos, palestras, aulas, retiros e viagens espirituais, mas em vez de progredir espiritualmente, vai alimentado a sua vaidade, surge um senso de superioridade e torna-se num narcisista espiritual. Usa constantemente todo o tipo de linguajar associado à espiritualidade como “namastê”, “energia” entre tantos outros jargões, apenas para reforçar a sua “máscara espiritual”. Consome todo o tipo de moda espiritual, sem entender realmente o propósito e sem qualquer real benefício. A pessoa se diz espiritualizada, mas está tão ou mais iludida que qualquer outra pessoa.

Não se está a criticar o praticante por adquirir livros, fazer retiros, viajar, etc. Esse esforço tem a sua importância. Ao longo dos séculos os budistas tiveram mesmo de viajar milhares de quilómetros para receberam os ensinamentos budistas. Livros, retiros, viagens, etc, tudo isso são ferramentas e meios hábeis uteis para a prática, algumas muito importantes, outras menos importantes. Também é normal que existam mudanças no estilo de vida do praticante. O problema está quando a utilização dessas ferramentas e a adoção de certo estilo de vida está a servir para alimentar a vaidade e o egocentrismo.

Este problema é tão comum que um estudo da Universidade de Southampton e da Universidade de Mannheim, publicado recentemente no Psychological Science Journal, mostrou que a maioria dos praticantes de yoga e meditação estudados, tendem a ser mais egocêntricos. Os investigadores testaram 93 praticantes de yoga, tendo utilizado para isso alguns testes, como um Inventário de Personalidade Narcisista, o teste mais usado para medir egocentrismo e o narcisismo. Os resultados mostraram uma vaidade e egocentrismo muito maior naqueles que fizeram recentemente aulas de yoga em comparação aos que não tiveram qualquer tipo de aula. Um outro estudo avaliou 162 pessoas praticantes de meditação, tendo o resultado sido semelhante.

O materialismo espiritual pode-se manifestar de uma forma grosseira ou às vezes mais subtilmente. Uma grande parte dos praticantes passaram ou passarão por algum nível de materialismo espiritual.

Saiba mais sobre o este tópico no post:
Materialismo Espiritual, um perigo à espreita

2. Desvio Espiritual

Este termo foi cunhado pelo psicoterapeuta John Welwood nos anos 80. Desvio Espiritual e Materialismo Espiritual estão relacionados entre si, ambos são amplos e abarcam vários aspetos; mas neste caso é enfatizada a supressão de emoções e sentimentos, originando a possibilidade da ocorrência de problemas a nível da saúde mental.

O praticante desviado espiritualmente se engana a si próprio não reconhecendo as suas emoções negativas e o seu lado mais escuro. Contorna esse lado negro criando uma “personagem santificada” que não existe. Quando esse tipo de supressão se manifesta a longo prazo, poderá eventualmente dar origem a consequências psicológicas.

Cair neste tipo de desvio também é bastante comum, seja de uma forma mais grosseira ou mais subtil, uma grande parte dos praticantes passa ou passará por esta situação.

Saiba mais sobre este tópico no post:
Desvio Espiritual: a supressão de sentimentos e emoções e a falsa positividade

Algumas das seguintes armadilhas, na verdade também já estão contendias dentro do Materialismo Espiritual e Desvio Espiritual, mas são aqui expostas separadamente para ficarem mais destacadas.

3. Compaixão burra

A compaixão está entre os ensinamentos mais importantes do budismo, mas a compaixão e a sabedoria andam juntos. Ter compaixão não significa ser tolo e deixar que os outros “pisem” em nós. Além disso a compaixão também se pode manifestar de forma irada, como por exemplo dar um grito a uma criança para evitar que ela se magoe por algum motivo, esse não é um momento para falinhas mansas. E quando se está a ser vitima de algum tipo de agressão, para o bem do agredido e do próprio agressor, é necessário atitudes para resolver a situação.

A motivação por detrás do ato compassivo também pode não ser a mais correta. Se existe uma busca de reconhecimento ou se serve para engradecer o ego, não é uma motivação pura, é uma ato de vaidade e estamos perante o materialismo espiritual.

Saiba mais sobre este tópico no post:
Ter compaixão implica deixar que “pisem” em nós?

4. Não avaliar e seguir todo o tipo de coisa considerada “espiritual”

Hoje em dia proliferam todo o tipo de ideias espirituais, todo o tipo de aulas e cursos relacionados com espiritualidade e meditação. Muitas dessas ideias, aulas e cursos são credíveis, mas também existe muita coisa de fraca qualidade, que não trazem qualquer beneficio, que levam ao materialismo e desvio espiritual, que apenas serve para enriquecer alguns e enganar outros. E se existir uma fé cega a situação ainda se pode complica mais. É por isso importante avaliar e ter consciência do que se está a seguir.

Sobre a legitimidade de escolas budistas consulte o post:
Sinais que estamos perante uma legítima e boa escola budista ou uma má escola budista

5. Fé cega

No budismo a fé ou confiança no ensinamento, professor e instituição, é importante, mas essa fé deve surgir fruto de uma investigação e avaliação. O professor ou mestre deve estar qualificado para ensinar budismo, não deve deturbar os ensinamentos e deve seguir uma conduta ética adequada.

Quando o professor ou a professora budista não está a ter um comportamento adequado e quando existe uma fé cega, o aluno ou aluna pode ser vitima de vários tipos de abusos ou receber ensinamentos incorretos.

Saiba mais sobre este tópico nos posts:
Investigue a fundo, Cuidado com as seitas e cultos e Os 4 níveis de Fé (ou confiança)

6. Desapego equivocado e passividade

O praticante avançado pode conseguir ter uma maior imperturbabilidade mental, mas o desapego não significa que a pessoa seja passiva, apática, indiferente ao mundo e a pessoas, que não possa possuir nada, etc. Muitas pessoas em vez de cultivarem um estado de tranquilidade na meditação o que estão a fazer é a cultivarem um estado de apatia. Ideias como essas surgem fruto de um não entendimento dos ensinamentos sobre o desapego, equanimidade, entre outros, e podem levar ao desvio espiritual e a uma relação desajustada com o mundo material, como veremos no tópico seguinte. Também existe a situação da pessoa fabricar um desapego, fingir o desapego para reforçar a sua imagem espiritual, isso é materialismo espiritual.

Saiba mais sobre este tópico nos posts:
Desapego e Apego e O Caminho do Meio implica passividade? Uma vida equilibrada é uma pasmaceira?

7. Desenvolver uma relação negativa com o dinheiro e os bens materiais

O dinheiro em si não é bom nem mau, é apenas uma ferramenta de organização social. É legitimo que a pessoa queira seguir um caminho monástico e se libertar o mais possível das coisas mundanas, mas para o praticante leigo, também é legitimo a posse de riqueza. O praticante leigo que possui riqueza, pode mesmo trazer grandes benefícios para a sociedade e comunidade budista. A riqueza bem utilizada não é um problema, a pessoa não precisa de não ter nada para ser “espiritual.”

Saiba mais sobre este tópico no post:
Budismo e o Dinheiro

8. Entender erroneamente os ensinamentos e o contexto

O entendimento erróneo dos ensinamentos e do contexto em que foram proferidos, levam a que se cai em desvios espirituais, que não se evolua ou que se regrida, ou que se tenha condutas inapropriadas. No budismo muitas vezes também não existem respostas fechadas, o que é ensinado “depende” da situação, do momento, da circunstância. Pode ser para ser aplicado na generalidade, mas em algumas situações pode não se aplicar, depende… Vejamos alguns exemplos de possíveis entendimentos incorretos:

  1. Um dos preceitos budistas é não mentir e hoje em dia fala-se muito na frontalidade. Mas o que significa a frontalidade e a honestidade? Imagine que encontra um velho amigo que já não o via há muito tempo, ao encontrá-lo reparava como ele estava envelhecido, eram notórios os problemas de saúde. Sendo uma pessoa que evita mentir, frontal e honesta, diz ao velho amigo que notou como ele está velho, que já não se aguenta em pé, que parece uma chaga andante e que já deve estar com os pés para a cova. Tudo isso pode ser verdade, mas será que é apropriado o dizer? Muitas vezes a frontalidade é uma desculpa para se atacar o outro, é ser egoísta e insensível, neste exemplo não se entendeu corretamente o preceito de não mentir, faltou sabedoria e compaixão. Além disso, mesmo quando é necessário dizer a verdade, existem formas e formas de o fazer, é necessário ter sensibilidade para tentar tomar a melhor atitude. Pode ser útil consultar o post Julgamentos e Dualidade, que em parte também está relacionado com este exemplo.
  2. O verdadeiro significado das palavras originais muitas vezes também não é corretamente aprendido. Existem inúmeros exemplos. Fica aqui apenas um. Em Páli existem muitas palavras para referir diferentes tipos de desejo. A palavra em Páli, “Tanhã“, diz respeito à insaciabilidade dos desejos humanos, insaciabilidade essa que é um dos motivos principais do sofrimento humano. A palavra significa literalmente “sede” e na maioria das vezes é traduzida simplesmente como desejo. A palavra é ampla e tem diversos significados mas de forma geral o que aqui está em causa é o desejo sedento, apegado, egoísta, autocentrado, o desejo que causa sofrimento. Mas nem todo o tipo de desejo é negativo, ter intenção ou aspirar ao despertar é positivo e é importante, desejar bem-querer é algo bom, etc. Esse tipo de desejo ou aspiração positiva em Páli é chamado de “Chanda“. Como tal, diminuir o “Tanhã” não significa que a pessoa se deve tornar num “vegetal” e que não deve ter qualquer tipo de desejo. Também temos de entender que não somos Budas, podemos estar nesse caminho, mas ainda não somos, e por isso ainda temos muitos desejos egoístas e outras negatividades, é necessário lidar apropriadamente com esse facto sem cair em desvios espirituais.
  3. No budismo fala-se em aceitação, aceitar o que não podemos mudar. Isso não significa acomodação e que temos de aceitar tudo. Se temos alguma doença aceitamos a situação e fazemos os possíveis para nos curarmos, se não existe qualquer possibilidade de cura temos de aceitar a realidade e aprender a lidar com ela da melhor forma, ficar preso em sentimentos como “porquê eu?”, e não lidar apropriadamente com o que está a acontecer não vai ajudar em nada. Se um relacionamento termina e não há volta a dar, há que aceitar e seguir em frente. Mas se existe por exemplo uma situação de violência doméstica há que tomar atitudes como acionar os meios judiciais adequados; e quando é benéfico identificar as causas de certas situações que se faça essa investigação. Nem sempre á fácil lidar com a realidade, há que ter discernimento para saber de que forma devemos aceitar as coisas e quando devemos e não devemos aceitar determinada situação.
  4. Quando se fala no budismo no momento presente, isso não quer dizer que não se possa recordar o passado nem pensar e planear o futuro. Basta olhar para muitas obras budistas para constatarmos que teve de haver planeamento. Também os ensinamentos do karma nos alertam para as consequências positivas ou negativas para o futuro. O problema surge quando deixamos a vida passar e estamos constantemente no passado ou no futuro. Sobre este assunto consulte o post: O que é o momento presente?

BÓNUS: Como se tornar ultra-espiritual | vídeo humorístico

Depois do exposto acima, se você quer se tornar ultra-espiritual, deixe-se inspirar pelo seguinte vídeo humorístico 🙂

Veja também:

2 comentários

  1. “Ouvir a voz da própria consciência” costuma dar certo para quem se predispõe a escutá-la. Muito barulho abafa os suas intuições e alvitres, sempre à disposição de quem mergulha no silencio de si mesmo em momentos de dúvida ou de dor, afim de ouv-i-la. Quem costuma seguir essa voz interior, harmoniosa e branda, dificilmente erra e raramente cai enquanto sempre APRENDE.

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