Budismo Geral Vajrayana (Tibetano)

Mudras: simbologia e significados no budismo

Os mudras são posições de mão e gestos simbólicos usados para evocar ideias e estados de espirito particulares. São uma forma de comunicação não-verbal e de auto-expressão utilizados no budismo e também noutras tradições espirituais com origem na Índia, como o hinduísmo e jainismo, e até em formas de dança. Mudra é uma palavra sânscrita que significa “selo”, “marca” ou “gesto”. Os mudras são frequentemente retratados na arte e iconografia budista e feitos durante certas práticas. Cada mudra tem uma função externa/simbólica e uma interna/experimental, pois comunica ao mesmo tempo, tanto para a pessoa que os executa quanto para o observador, aspetos da mente iluminada. Alguns dos mudras simbolizam momentos ou eventos importantes na vida do Buda.

Ingrid Ramm-Bonwitt no livro “Mudras”, diz que: “Mudra, uma palavra com muitos significados, é caracterizada como gesto, posicionamento místico das mãos, como selo ou também como símbolo. Estas posturas simbólicas dos dedos ou do corpo podem representar plasticamente determinados estados ou processos da consciências. Mas as posturas determinadas podem também, ao contrário, levar aos estados de consciência que simbolizam.”

As posições de mão também são um instrumento que serve para nos trazer para o aqui e agora e para nos mantermos alertas, conscientes e em equilíbrio. Isso acontece porque a mente e o corpo estão interligados, a mente influencia o corpo e o corpo influencia a mente. Na escola budista Vajrayana os mudras assumem ainda um significado esotérico e geralmente são combinados com mantras (recitações) e visualizações tântricas. Cada um dos 5 Dhyani Budas, relacionados às 5 sabedorias e referidos principalmente no Vajrayana, têm um mudra particular associado. Os mudras mais notáveis ​​são os comumente encontrados nas representações do Buda histórico: mãos cruzadas no colo significam meditação; a palma da mão voltada para fora significa o ato de ensinar ou tranquilizar; uma palma aberta apontada para baixo significa generosidade.

Todos nós realizamos vários gestos no dia a dia. Eles representam a nossa condição mental e física subjacente, os seus padrões indicam a nossa personalidade, maneirismos e expressões. Cada momento é uma expressão da nossa natureza interior. Realizar certos mudras conscientemente e ter atenção ao padrão corporal permite direcionar o nosso ser. Abaixo estão muitos dos mudras mais conhecidos do budismo. Alguns deles fazem parte de todas as escolas budistas, outros apenas de algumas. Os significados e utilização também podem sofrer variações conforme as escolas.


Mudras:

  1. Dharmachakra mudra e Vitarka mudra
  2. Dhyana mudra
  3. Bhumisparsha mudra
  4. Varada mudra
  5. Abhaya mudra
  6. Anjali mudra
  7. Manidhara mudra
  8. Mandala mudra
  9. Uttarabodhi mudra
  10. Bodhyagri mudra
  11. Vajra mudra
  12. Karana mudra
  13. Buddha-shramana mudra
  14. Buthadamara mudra

Dharmachakra mudra e Vitarka mudra

Buda no Templo Mulagandhakuti, Sarnath
Estátua de Buda em Sarnath, 2011. Créditos: Ricardo Sousa / Olhar Budista.

Em sânscrito Dharmachakra significa “Roda do Dharma”. Este é o mudra do “Girar da Roda do Dharma”. Ele simboliza um dos momentos mais importantes e marcantes na vida do Buda, a ocasião em que deu o seu primeiro ensinamento para os seus companheiros em Sarnath depois do seu grande despertar. Denota assim, a colocação em movimento da Roda do ensinamento do Dharma, a transmissão do ensinamento budista. É dito que o próprio Buda executou esse mudra.

O mudra é formado com as mãos mantidas ao nível do coração. Os polegares e indicadores de cada mão formam círculos que se tocam. A mão esquerda está voltada para dentro, a mão direita, voltada para fora. As mãos colocadas na frente do coração simbolizando que esses ensinamentos vem diretamente do coração do Buda. Os três dedos estendidos da mão esquerda simbolizam as 3 Joias do Budismo: o Buda, o Dharma e a Sangha. No Vajrayana os 3 dedos estendidos representam também os 3 veículos. O mudra é exibido pelo Vairochana, o primeiro Dhyani Buda. Cada um dos cinco Dhyani Budas está associado a uma ilusão humana específica e, acredita-se que eles ajudam os seres mortais a superá-las. Assim, acredita-se que Vairochana transforma a ilusão da ignorância na sabedoria da realidade e que exibir esse mudra ajuda os seus adeptos a realizar essa transição.

Existem variantes deste mudra, como nos afrescos das Cavernas de Ajanta, onde as duas mãos estão separadas e os dedos não se tocam. Uma variante possivelmente derivada do dharmachakra mudra é o vitarka mudra, que é também um mudra relacionado com a transmissão do Dharma. Ao formar este gesto, a mão direita é mantida na altura do peito, a palma virada para fora e os dedos para cima com o polegar tocando o dedo indicador, enquanto a mão esquerda fica no colo com a palma virada para cima. Em algumas outras versões, a mão esquerda também é mantida ao nível do quadril com os dedos apontando para baixo, palma para fora e o polegar e o dedo indicador formando o dharmachakra simbólico.

Dhyana mudra

Este é o mudra da meditação. É também conhecido como Jhana mudra ou Samadhi mudra. Ele ajuda na concentração profunda, na tranquilização da mente e, expressa o equilíbrio da mente e corpo. O dorso da mão direita repousa sobre a palma da outra, com as pontas dos polegares levemente se tocando. A mão superior simboliza a iluminação; a mão de baixo, o mundo das aparências. Assim, o mudra como um todo sugere a sabedoria e a supremacia da mente iluminada. O Triângulo formado representa as 3 Joias. Frequentemente o Buda Gautama é representado na posição de meditação com este mudra formado. O Buda Amitabha, que é um dos cinco Dhyani Budas, também é representado formando o dhyana mudra.

Na escola Soto Zen este mudra geralmente é sempre utilizado durante a prática do zazen (meditação), representando a unidade do cosmos em nós, e nós no cosmos, por isso é também chamado de “mudra cósmico”. Somos um com todo o universo. Os polegares mostram a qualidade da concentração na prática. Quando existe tensão e preocupação, eles podem se enrijecer; se existe distração, ou ainda se houver sonolência ou desânimo, podem se separar. Este mudra é assim uma expressão do zazen do praticante, em que fica evidente o estado da mente de cada um. Existem variações deste mudra, em outras escolas, na pratica meditativa o mudra pode ser formado como na forma descrita acima ou, simplesmente com uma mão a repousar sobre a palma da outra.

Bhumisparsha mudra

O bhumisparsha mudra também é conhecido como “Tocar a Terra” ou “Testemunho da Terra”. A mão esquerda repousa no colo com a palma voltada para cima. A mão direita repousa com a palma para baixo no joelho direito com os dedos tocando ou apontando para a terra.

Quando Siddhartha Gautama, o Buda histórico, estava meditando sob a árvore Bodhi, foi assaltado pelo demónio Mara, que tentou perturbar a sua mente. Mara representa as paixões que nos prendem e nos iludem. Siddhartha recusou-se a ser tentado a sair do caminho da iluminação e convocou a terra como testemunha, dizendo: “A terra será minha testemunha, não me deixarei seduzir”. Este gesto passou assim a representar o momento da iluminação do Buda e a sua vitória sobre as forças sedutoras da ilusão.

O Buda Gautama sentado em meditação com esse gesto é uma das imagens icónicas mais comuns do budismo. O Buda Akshobhya, que é um dos um dos cinco Dhyani Budas, também é representado formando o bhumisparsha mudra. No sudeste asiático esse mudra também é chamado do maravichai ou atitude maravijaya. A atitude refere-se à firmeza inabalável do Buda Gautama no episódio descrito acima.

Varada mudra

Geralmente a mão direita fica voltada para fora e apontada para baixo, mas por vezes também é usada a mão esquerda. O Mudra representa a doação, generosidade, compaixão, e as boas-vindas. É o mudra da realização do desejo de ajudar todos os seres na obtenção da libertação. Também simboliza o precioso presente do Dharma ou ensinamentos budistas. Os cinco dedos estendidos simbolizam as seguintes cinco perfeições: Generosidade, Moralidade, Paciência, Esforço e Concentração meditativa.

O mudra é usado em figuras sentadas ou em pé, como Budas e bodhisattvas, e raramente é usado sozinho. Geralmente costuma ser usado em combinação com outro mudra feito com a mão direita, muitas vezes o Abhaya mudra (descrito abaixo). Esta combinação dos mudras Varada e Abhaya é chamada de Segan Semui-in ou Yogan Semui-in no Japão. O Buda Ratnasambhava, que é um dos um dos cinco Dhyani Budas, é representado formando este mudra. Ele também é comumente encontrado em representações de Avalokiteshvara, da Tara Verde e Branca, e em representações do Buda histórico no sudeste asiático.

Abhaya mudra

Mudra da bênção, paz, destemor, proteção e dissipação do medo. A mão direita, mantida na altura dos ombros, aponta para cima com a palma voltada para fora. Diz-se que o Buda histórico fez esse gesto após obter a iluminação. Esse gesto terá sido usado muito antes do início do budismo como símbolo de boas intenções, por exemplo na aproximação a desconhecidos, mostrando que se está livre de armas. Na Tailândia, e especialmente no Laos, o abhaya mudra está associado ao movimento do Buda em andamento (também chamado de ‘o Buda colocando a sua pegada’). É quase sempre usado em imagens que mostram o Buda ereto, seja imóvel com os pés juntos, ou andando. Na arte de Gandhara o mudra indica a ação de ensinar o Dharma.

O Grande Buda de Hong Kong

Numa história budista, Devadatta, que era um primo do Buda, por ciúmes causou um cisma na comunidade de discípulos. À medida que o orgulho de Devadatta aumentava, ele tentou matar o Buda. Um dos seus esquemas consistiu em alimentar um elefante com álcool, o torturar e, estando ele furioso o soltar em direção ao Buda. Porém, quando o elefante se aproximou dele, o Buda exibiu o abhaya mudra e acalmou o animal. Este episódio é mostrado em vários afrescos budistas.

O abhaya mudra, além de estar associado à benevolência e destemor do Buda Gautama, também está associado ao Buda Amoghasiddhi, um dos um dos cinco Dhyani Budas.

Anjali mudra

Mudra da saudação, oração e respeito. Anjali é uma palavra sânscrita que significa precisamente “saudação” ou “oferecer”. Geralmente não é encontrado em representações do Buda, Bodhisattvas ou outras divindades, mas é comumente usado por budistas e não-budistas, como uma forma de saudação, para expressar respeito, agradecimento e devoção.

Este gesto também é chamado de Namaskara mudra, que significa “bom dia” em hindi, e é também amplamente conhecido pela palavra japonesa Gasshô, que significa “duas mão que se juntam”. O Anjali tradicional é formado colocando as palmas das mãos juntas ao nível do coração, com as pontas dos dedos apontadas para cima. Na versão japonesa chamada de Gasshô, é formado colocando as palmas das mãos juntas com os dedos estendidos a um palmo de distância na altura do nariz, os braços ficam posicionados em linha reta paralelos ao chão e a coluna mantêm-se reta. Existem algumas outra variações utilizadas durante certas cerimónias. Adicionalmente o gasshô expressa a não-dualidade. Corpo-mente-coração sendo o próprio universo.

Manidhara mudra

No budismo tibetano é chamado do “Mudra de Segurar a Joia”. É muito semelhante ao anjali mudra, mas este é formado com as palmas e os dedos ligeiramente arqueados, representando estar segurando uma joia preciosa que realiza desejos. Essa joia também é retratada nas bandeiras de oração tibetanas, carregadas nas costas do Lung Ta ou cavalo de vento. O mudra está associado a Avalokiteshvara, uma bodhisattva que é um arquétipo da compaixão por todos os seres. A palavra tibetana para Avalokiteshvara é Chenrezig. Acredita-se que os Dalai Lamas sejam manifestações de Chenrezig.

Mandala mudra

É um mudra essencialmente associado ao budismo tibetano e é conhecido como o “Mudra de Oferenda de Mandala”. Este mudra é um gesto complexo que atua como uma oferenda simbólica de todo o universo para o benefício de todos os seres sencientes. É dito que o mudra ajuda a reduzir o apego e a purificar a mente e que, embora seja geralmente feito junto com orações e cânticos budistas, os não-budistas também podem realizá-lo para receber os seus benefícios espirituais.

Uttarabodhi mudra

Este gesto remete para a iluminação suprema. É formado colocando as mãos ao nível do coração. Os dedos indicadores tocando-se e apontando para cima e os dedos restantes entrelaçados.

A palavra sânscrita “uttarabodhi” é composta por “uttara”, que significa “para cima”, e “bodhi”, que significa o “despertar espiritual”. Portanto, uttarabodhi mudra é um gesto que denota o despertar, alcançado pela dissipação das impurezas mentais. É frequentemente visto nas imagens de Vairochana, um dos 5 Dhyani Budas.

Bodhyagri mudra (ou Bodhyangi mudra)

Mudra da sabedoria suprema associado ao budismo tibetano. O dedo indicador direito é agarrado no punho da mão esquerda. Está sujeito a várias interpretações. Algumas fontes se referem a ele como “o mudra dos seis elementos”: os cinco elementos – terra, água, ar, fogo e éter – que rodeiam e protegem o homem. Outras interpretações sugerem a sabedoria escondida pelo mundo das aparências ou, nas práticas tântricas, a união sexual de uma divindade e a sua consorte.

Vajra mudra

É também chamado do “gesto do trovão”. Em algumas a descrição é semelhante ao bodhyangi mudra, mas o dedo não é agarrado pela outra mão. Em outras fontes a descrição é basicamente a mesma que o bodhyangi mudra.

Karana mudra (ou Tarjani mudra)

Gesto da eliminação de negatividades e obstáculos. É realizado levantando o dedo indicador e o dedo mindinho e dobrando os outros dedos. É quase o mesmo que o “sinal de cornos” ocidental.

Buddha-shramana mudra

O gesto da renúncia do Buda e da eliminação do apego.

Buthadamara mudra

O gesto da proteção.

Referências: Mudras of the Great Buddha: Symbolic Gestures and Postures, Agosto de 2021 (Stanford University); Tricycle; Tibetan Nuns Project.

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