Budismo Geral

Budismo: introdução para iniciantes

Se você está a começar no budismo ou simplesmente quer conhecer um pouco mais sobre o Budadharma, este artigo é indicado para si, ele lhe dará uma breve ideia do que é o budismo, e através das ligações pode aprofundar-se um pouco mais.


Conteúdo:


BUDA

Quem foi o Buda?

Siddhartha Gotama nasceu há mais de 2500 anos numa família real em Lumbini, perto de Kapilavastu, no moderno Nepal, próximo da fonteira com a Índia. O seu pai, Suddhodana, era o líder da classe guerreira de Kapilavastu. A sua mãe, rainha Maya (Mayadevi), morreu logo após o seu nascimento.

Quando Suddhodana mostrou o seu filho recém nascido ao asceta eremita Asita, ele começou a chorar. Ele disse ao rei que chorou porque Siddhartha seria um grande rei ou um grande professor espiritual, e ele já estava demasiado velho, como tal não estaria no mundo quando Siddhartha se tornasse nessa pessoa.

O príncipe Siddhartha foi criado no luxo pelo seu pai e pela sua tia. Suddhodana queria que o filho se tornasse um grande rei, por isso fez de tudo para evitar que Siddhartha pudesse seguir outro caminho, no entanto, o príncipe sempre mostrou uma inclinação para a meditação e reflexão.

Por vontade do pai, Siddhartha casou-se jovem e participou da vida pública da corte do rei. Ele teve um filho a que chamou de Rahula. Siddhartha, ao longo da sua vida de príncipe manteve-se constantemente dentro dos muros do palácio, uma imposição do pai para lhe proteger da realidade do sofrimento e do mundo. Mas um dia, ele consegue atravessar os muros do palácio e encontra com uma realidade inteiramente nova. Siddhartha viu um homem doente, um velho e um cadáver. Siddhartha percebeu que todos nós vamos adoecer, envelhecer e morrer. Nem mesmo ele com todo o luxo pode escapar disso. Siddhartha depara-se ainda com um sereno, calmo e pacífico asceta. Ele fica a saber que o asceta procura a iluminação. Esse foi um ponto de viragem. O ainda príncipe decide que é esse o caminho que pretende seguir. Ele sai do palácio e aos 29 começa a sua busca pela iluminação.

Siddhartha explorou durante 6 anos diferentes práticas meditativas, ensinamentos, religiões e filosofias da época, para encontrar a chave para a felicidade humana. Ele percorre o norte da Índia e finalmente acaba por se estabelecer em Uruvela (atualmente Bodhgaya), e com outros 5 companheiros faz práticas ascéticas extremas, chegando ao ponto de ficar perto da morte. Afortunadamente, uma menina da aldeia chamada de Sujata o encontrou e o alimentou com leite e arroz doce. Siddhartha percebeu que essas práticas extremas não o levavam à iluminação, que a solução estava no caminho do meio. E é assim que ele atinge a iluminação ou despertar em Uruvela. Após a sua iluminação, ele ficou conhecido como Buda, o desperto, e passou o resto da sua vida ensinando o Dharma, até à sua morte em Kushinagar, com 80 anos de idade.

O Buda foi aquele que acordou, que vê as coisas tal como elas são, sem distorções, sem perceções erróneas. Pelo seu próprio esforço ele libertou-se das suas impurezas mentais, superou todas as suas deficiências, ele viu a realidade sobre como existimos e alcançou o seu total potencial, o estado mais alto que um ser humano pode alcançar, o maior nível de desenvolvimento espiritual. Qualquer pessoa que se empenhe também pode atingir o que o Buda alcançou.

“A raiz da palavra buddha significa despertar, tomar conhecimento, compreender. E aquele que desperta e compreende é chamado de Buda.” – Thich Nhat Hanh

O que é o Budismo?

O budismo surgiu há cerca de 2500 anos atrás, quando Siddhartha Gotama, conhecido como Buda, atingiu o despertar. Alexander Berzin afirma que “o budismo é um conjunto de métodos que nos ajudam a desenvolver o nosso potencial humano através da compreensão da natureza da realidade.”

O budismo é conhecido por ser muito prático, é um caminho que nos ajuda a progredirmos até nos tornarmos um Buda. Nos ajuda a desenvolvermos boas qualidades nas nossas mentes, como amor, compaixão, generosidade, sabedoria e muitas mais. Os ensinamentos sobre como desenvolver essas qualidades estão disponíveis para todos – independente da sua cultura ou religião. Existem certos ensinamentos e conceitos nucleares do budismo, que veremos mais à frente, e muitos outros além desse núcleo.

A experiência desenvolvida dentro das tradições budistas ao longo de milhares de anos criou ensinamentos únicos para todos os que desejam seguir proposta do Buda que, em última análise, leva à Iluminação ou ao estado de Buda.

O Budismo inspirou grandes civilizações. Ele tem uma maravilhosa história de realizações nos campos da literatura, arte, filosofia, psicologia, ética, arquitetura e cultura. O Monge Genshô afirmou que: “o Budismo é uma construção contínua, não está congelado no tempo, e isso é uma coisa maravilhosa do meu ponto de vista.”

Para conhecer mais sobre a história do Budismo e sobre o Buda, consulte o artigo “O que é o Budismo? Quem foi o Buda?“, nele você vai encontrar mais informações, palestras e links para outras fontes.

É uma religião?

Depende para quem você pergunta e também depende da sua definição de “religião”. Como o budismo não inclui a prática de adorar um Deus, algumas pessoas não o veem como uma religião no sentido ocidental. O budismo tem conceitos considerados religiosos, mas também tem outros que não se dão bem com o conceito de religião tradicional. Há professores e mestres budistas que afirmam que sim, o budismo é uma religião, outros preferem classificar apenas como uma “ciência da mente”, há quem prefira chamar de filosofia, porque filosofia “significa amor à sabedoria” e no caminho budista pratica-se para: (1) levar uma vida ética, (2) estar atento e consciente dos pensamentos e ações, e (3) desenvolver sabedoria e compreensão. E há quem prefira chamar de um método de transformação que visa o despertar e que usa elementos psicológicos, filosóficos e religiosos. Existem várias formas de ver o budismo. O Dalai Lama divide o budismo em três partes:

  • A ciência budista da mente — que investiga como a perceção, o pensamento e as emoções funcionam do ponto de vista da experiência subjetiva.
  • A filosofia budista — a ética, a lógica e a compreensão budista da realidade.
  • A religião budista — a crença em vidas passadas e futuras, no karma, os rituais e as preces.

O budismo é vasto e profundo, além da imaginação, qualquer tentativa de o classificar é como tentar inserir uma peça quadrada num buraco triangular. O budismo é o budismo, ou o Budadharma, ou ainda o Dhamma-Vinaya.

Mas qualquer que seja a sua visão – religião, psicologia, filosofia, um modo de vida, etc – o que importa é que funcione bem para você.

O Budismo é dogmático?

Costuma-se dizer que o budismo é não-dogmátio porque o Buda incentivou a que investigássemos o seu ensinamento, a que testássemos. Não é algo para simplesmente acreditarmos cegamento só porque uma autoridade afirmou. Existem certos conceitos budistas que podemos facilmente verificar por nós próprios, outros, não podemos verificar sem atingirmos o estado de Buda, enquanto isso não acontece podemos usá-los como uma “hipótese de trabalho”. A fé no budismo é uma confiança que se baseia na sabedoria, é alicerçada na experiência e nos resultados da prática. Para compreender melhor este tópico consulte o artigo: Investigue a fundo e Os 4 níveis de Fé (ou confiança).

“O pensamento budista baseia-se mais na investigação do que na fé, portanto, as descobertas científicas são muito úteis ao budismo.” – 14º Dalai Lama

“O budismo não é a religião do acreditar. É a religião do despertar” – Monge Genshõ

O Buda era um Deus?

Ele não era, nem afirmava ser. Ele foi um ser humano como nós, mas se aperfeiçoou até ao estado de iluminação, e a partir da sua própria experiência ensinou o caminho que podemos seguir para também despertarmos. Embora ele fosse um ser humano como qualquer um de nós, ele era um ser incrivelmente extraordinário, professor de devas (deuses) e humanos.

O budismo não nega a existência de deuses ou seres divinos, mas eles ainda que tenham uma vida longa não são imortais e muitos podem estar tão deludidos quanto nós. O budismo acredita no potencial da nossa mente e que não precisamos ficar dependentes de eventuais divindades ou de um Deus; no budismo o Buda aponta o caminho, mas cada um tem de o percorrer. Sobre o tópico de divindades consulte o artigo: Budismo, a ideia de Deus e o mundo espiritual.

O Buda era gordo?

Na verdade ele não era, essa conhecida imagem não representa o Buda histórico. Para saber mais sobre a origem desse personagem consulte o artigo: O Buda era gordo? Qual a origem do Buda sorridente?.

DHARMA

O que é o Dharma?

A palavra Dhamma (em Páli) ou Dharma (em Sânscrito), é um dos termos mais importantes e comumente usados no budismo. Dharma geralmente é definido com um duplo sentido. O conjunto de ensinamentos budistas e por extensão a Verdade em si ou realidade. Bhante Shravasti Dhammika diz que: “A palavra dhamma tem múltiplos significados, mas, para o Budismo, o seu principal sentido é a verdade, realidade, facticidade, a forma como as coisas são. Porque consideramos os ensinamentos do Buda verdadeiros, usualmente nos referimos a eles como Dhamma, também.” Escrito em letra minúscula, dharma significa fenómeno, e nós podemos constatar que tudo são fenómenos.

O Prof. Ricardo Sasaki também refere* um outro sentido para a palavra Dharma que normalmente é esquecido e que já era existente numa época pré-budista. O Prof. Sasaki, baseado nos ensinamentos de Ajahn Buddhadasa, refere que Dharma também tem o sentido de “dever”. Da compreensão dos ensinamentos e da realidade, nasce naturalmente um “dever”. E que “dever” é esse? É como devemos agir diante cada situação, qual a ação necessária a cada momento a partir da visão mais completa possível. Quando fazemos isso estamos a praticar o Dharma.

Conheça as qualidades do Dharma no artigo: 6 Grandes Virtudes (ou qualidades) do Dhamma (ou Dharma).

Quais os são conceitos centrais do Budismo?

As 4 Nobres Verdades (Cattari Ariyasaccanip)

Os ensinamento do Buda estão centrados na libertação do dukkha. Dukkha geralmente é traduzido como sofrimento ou insatisfatoriedade. Etimologicamente dukkha se referia a um eixo de uma roda que está descentralizado, o que faz com que a roda não role direito. A nossa vida é assim mesmo, ela é cíclica, cheia de altos e baixos, além de que nós na verdade nunca rolamos direito. Nós podemos identificar dukkha não apenas nos nossos sofrimentos, mas até mesmo nos momentos de prazer. A maioria dos prazeres, vêm com dukkha ou potencial de sofrimento incluído, pelo simples facto de serem impermanentes, não duram para sempre, estão sujeitos à mudança, são instáveis, etc… Então, até o maior prazer pode ser uma fonte de sofrimento, logo é dukkha. Devemos então renunciar a qualquer tipo de prazer? Nada disso, podemos ter prazeres, mas temos de ter consciência que os nossos prazeres estão sujeitos a causas e condições e por isso em última instancia são insatisfatórios e não são a fonte da felicidade verdadeira. A Felicidade do nirvana está além dos prazeres mundanos. Trabalhar para a libertação do dukkha é ir em direção ao Nirvana (Nibhana).

As 4 Nobres Verdades fazem parte do primeiro discurso do Buda, tudo se desenrola a partir daí. O Buda muitas vezes é comparado a um médico que trada dos nossos sofrimentos. As 4 Nobres Verdades são o diagnóstico e a cura. A sua formulação é a seguinte:

  1. A Realidade do Dukkha
  2. A Realidade da Origem do Dukka
  3. A Realidade da Cessação do Dukkha (ou seja, o Sukah)
  4. O Caminho que Leva à Cessação do Dukkha (Nobre Caminho Óctuplo)

Sobre o tema do prazer e felicidade consulte o artigo: Prazer x Felicidade, sobre o tema do apego consulte o artigo: Desapego e Apego, e para conhecer as 4 Nobres verdades de forma mais completa consulte o artigo: As 4 Nobres Verdades.

O Nobre Caminho Óctuplo (Ariyo Atthangiko Maggo)

O Nobre Caminho Óctuplo é a “receita” que o Buda prescreveu para que possamos nos libertar do dukkha causado pelas nossas ilusões, desejos e apegos.

  • Sabedoria(pañña)
    • Entendimento Correto(samma ditthi)
    • Aspiração Correta [ou motivação/pensamento/intenção correta](samma sankappa)
  • Moralidade [ética, virtude ou conduta](sila)
    • Linguagem Correta(samma vaca)
    • Ação Correta(samma kammanta)
    • Meio de Vida Correto(samma ajiva)
  • Concentração [meditação](samadhi)
    • Esforço Correto(samma vayama)
    • Atenção Plena Correta(samma sati)
    • Concentração Correta(samma samadhi)

Para conhecer melhor este tópico consulte o artigo O Nobre Caminho Óctuplo.

As 3 Marcas da Existência (Trilaksana)

Impermanência (Anicca): Todos os fenómenos compostos são impermanentes, nenhum fenómeno condicionado é permanente e todos depende de causas e condições para existirem ou cessarem. Tudo está em constante mutação, a vida é isso mesmo. Não há nada fixo, nada sólido, nada permanente, nada que dure para sempre. Com o tempo tudo muda.

Sofrimento/Insatisfatoriedade (Dukkha): A vida é cíclica, cheia de altos e baixos. A nossa existência e a realidade são insatisfatórios, mesmo quem nem sempre a percebamos assim. Esse sofrimento é causado pelas nossas crenças de que somos permanentes, imutáveis e não dependentes de outras coisas; o apego aos fenómenos impermanentes vai-nos trazer insatisfação. Dukkha representa todo o tipo de sofrimentos. Como todos os fenómenos são impermanentes, podemos verificar que tudo tem dukkha ou potencial para dukkha.

Não-eu (Anatta): Não existe dentro de nós um elemento isolando, sólido, independente, imutável e eterno. Nós somos interdependentes e interconectados, existimos na dependência de outros fenómenos e somos mutáveis. Não há nada que exista por si só, tudo existe devido a relações causais. Todos os fenómenos condicionados são Anatta. Os ensinamentos budistas nos ajudam a acabar com a ilusão do que acreditamos ser verdade sobre o nosso “eu” e a realidade, transformando a ignorância através da sabedoria.

Para conhecer melhor este tópico consulte o artigo: As 3 marcas da existência: Anicca, Dukkha, Anatta.

Os 3 Venenos Mentais (akusala-mūla)

Os 3 Venenos Mentais segundo o Buda são as bases do nosso pensamento ilusório, das nossas ações ilusórias. O Buda dizia que os 3 Venenos Mentais, que acabam guiando tudo o que a gente faz na vida são:

  1. Ignorância [ou ilusão]
  2. Ganância [ou apego, desejo, mente aquisitiva]
  3. Ira [ou raiva, aversão, má vontade]

Para conhecer melhor este tópico consulte o artigo: Os 3 Venenos Mentais.

Karma

Ações (karma) têm consequências (vipaka). Karma é a lei da causalidade, ação que deixa marca. Tudo o que fazemos tem consequências, neutras, negativas ou positivas. A nossa vida é o resultados das nossas ações (Karma) feitas no passado e no presente. O Karma saudável ou prejudicial pode ser criado através de ações, pensamentos e palavras. Ao compreendermos como o karma saudável ou prejudicial é criado, podemos trabalhar de forma a promover o karma saudável e evitar o karma prejudicial. Ações kármicas saudáveis ​​são baseadas em generosidade, compaixão , bondade , simpatia, atenção plena, etc. Ações kármicas prejudiciais são baseadas nos Três Venenos Mentais: ignorância, ganância e raiva. O karma é como uma semente plantada esperando as condições certas para florescer. Não é algo como destino, pois estamos a alterar o nosso Karma constantemente. Para os budistas, o Karma tem implicações que vão além desta vida. Conheça em mais detalhe o karma neste artigo: Sobre o Karma.

Renascimento e Samsara

No site Acesso ao insignt o renascimento é descrito da seguinte forma: “O renascimento na concepção Budista não é a transmigração de um espírito, de uma identidade substancial, mas a continuidade de um processo, um fluxo do devir, no qual vidas sucessivas estão conectadas umas às outras através de causas e condições. Esse processo ou fluxo não ocorre apenas com a morte mas está presente constantemente nas nossas vidas. Nós estamos em constante mudança, com cada momento nas nossas vidas surgindo na dependência do momento anterior, que deixou de existir. É um pouco parecido com a correnteza de um rio, a correnteza fluindo continuamente sem cessar. Não é possível entrar no mesmo rio duas vezes. Podemos ilustrar o renascimento com um símile, é como se a chama de uma vela fosse empregada para acender uma outra vela e nesse processo a primeira vela fosse apagada. A chama da segunda vela surgiu na dependência da primeira vela, ou seja, tem uma conexão com ela, mas a chama da segunda vela não é idêntica à primeira. Então, as duas chamas possuem uma ligação mas não são idênticas.”

O ciclo de renascimentos é chamado de Samsara, e descreve a perambulação de todos os seres pelos 6 reinos da existência (que também podem ser subdivididos em 31).

Para saber mais sobre o Renascimento e o Samsara consulte os seguintes artigos: O renascimento no budismo, O Samsara, a Roda da Vida e os 6 Reinos da Existência Cíclica.

Originação Interdependente (Paticca Samuppāda)

Paticca significa “a causa de”, ou “dependente de”; Samuppāda significa “surgimento ou origem”. Portanto, Paticca Samuppāda significa: “Surgimento Dependente”, “Origem Dependente” ou “Originação Interdependente”. Este é um dos mais importantes ensinamentos do Buda. A base da Originação Dependente é de que a vida ou o mundo é construído sob um conjunto de relações, nos quais o surgimento e a cessação dos fatores dependem de alguns outros fatores que os condicionam. Conheça em mais detalhe este tópico no artigo: Paticca Samuppāda: Os 12 Elos da Originação Interdependente.

Nirvana

Nirvana (em Sânscrito) ou Nibbana (em Páli) é o objetivo último dos budistas e é algo que pode ser alcançado na vida presente. Nirvana significa literalmente “extinção” ou “cessação”. Refere-se à extinção da ganância, raiva ou má vontade, e ilusão, os três venenos que perpetuam o sofrimento. Nirvana é o que o Buda alcançou na noite da sua iluminação. Tudo o que ele ensinou pelo resto da sua vida foi destinado a ajudar os outros a chegarem a essa mesma liberdade. Aquele que atinge o Nirvana está livre do ciclo do Samsara e do Dukkha. Nirvana é o incondicionado, a suprema felicidade. Ajahn Sumedho afirma que: “A dificuldade com a palavra Nibbana é que o seu significado está para além das palavras. É, essencialmente, indefinível.” Conheça em mais detalhe este tópico no artigo: O que é o Nibbana ou Nirvana?.

Os 5 Preceitos (Pancasila)

Os preceitos são como faróis que nos ajudam a evitar ações prejudiciais e consequentemente sofrimento (dukkha) e formam a base para desenvolvermos sukah (felicidade, plenitude). Eles são as fundações para desenvolvermos bom karma, a mente, o carácter, e para progredirmos no caminho em direção ao despertar. Podemos dizer que é algo do tipo: “queres ser feliz? queres paz de espírito? Então talvez seja melhor não fazeres isso, porque te pode trazer problemas, dor, etc.” Os preceitos são também um treino mental, não são regras absolutas ou mandamentos que se não cumprirmos seremos enviados por alguma divindade para algum tipo de inferno. Os 5 preceitos são:

  1. Evitar matar ou ferir seres vivos
  2. Evitar roubar
  3. Evitar a má-conduta sexual
  4. Evitar mentir (falsidades)
  5. Evitar o álcool e outras drogas intoxicantes

Saiba mais sobre este tópico em maior profundidade no artigo: Os 5 Preceitos.

As 3 Joias (Tisarana)

No coração do budismo estão as “Três Joias” ou os “Três Tesouros” – O Buda (o Fundador), o Dharma (os Ensinamentos) e a Sangha (a Comunidade). Na tradição budista, quando uma pessoa decide fazer do budismo uma parte da sua vida, ela tradicionalmente afirma: “Eu me refugio no Buda, eu me refugio no Dharma, eu me refugio na Sangha”.

Joseph Goldstein explica o refúgio da seguinte forma: “Tomar refúgio no Buda significa reconhecer a semente da iluminação que está dentro de nós mesmos, a possibilidade de libertação. Também significa tomar refúgio naquelas qualidades que o Buda corporifica; qualidades como destemor, amor e compaixão. Tomar refúgio no Dharma significa se abrigar na lei, no modo como as coisas são. É reconhecer nossa submissão à verdade, permitindo que o Dharma se desdobre dentro de nós. Tomar refúgio na Sangha significa aceitar o suporte da comunidade, de todos nós ajudando uns aos outros em direção à iluminação e à liberdade.” Conheça em mais detalhe este tópico nos artigos: As 3 Jóias: Buda, Dharma e Sangha e Reflexões sobre o Tríplice Refúgio do Budismo.

O budismo tem um livro sagrado?

O Buda ensinou durante mais de 40 anos em diferentes ocasiões, para diferentes tipos de pessoas, e com instruções, métodos e explicações variadas. No inicio os ensinamentos foram preservados e transmitidos pela tradição oral, e posteriormente foram registados na língua páli, uma parte significativa em sânscrito, e mais tarde traduzidos para o chinês, tibetano, e outras línguas. Como resultados, são numerosos os volumes que registam os discursos do Buda sobre a sua doutrina, chamados de suttas (em páli) ou sutras (em sânscrito). Além da coletânea de suttas somam-se os discursos sobre a disciplina monásticas (chamado de Vinaya), e ainda os tratados que esmiúçam a doutrina budista (chamado de Abhidhamma). Bhikkhu Bodhi considera o Abhidhamma “uma sistematização abstrata e altamente técnica da doutrina [budista]”, que é “simultaneamente uma filosofia, uma psicologia e uma ética, todas integradas na estrutura de um programa de libertação.” Esses 3 segmentos juntos recebem o nome de Tipitaka (em páli) ou Tripitaka (em sânscrito). Além dessas obras canónicas, ainda existem obras pós-canónicas, que incluem tratados e comentários, como os Sastras, o Athakatha, entre outras obras clássicas.

Concluindo, não existe “um livro sagrado”, existem numerosos livros onde estão registados os ensinamentos do Buda. Para saber mais sobre este tópico consulte a página: Cânones do Budismo.

SANGHA

O que é a Sangha?

Originalmente a Sangha (ou o Sangha) era um termo usado como referência à comunidade monástica, enquanto que Arya-Sangha (Nobre Sangha) denotava a comunidade de discípulos(as) iluminados(as) ou com algum grau de iluminação. O termo “parisa” era usado para a comunidade budista de forma mais ampla (monges, monjas, leigos e leigas). Mas atualmente o termo “sangha” na maioria das vezes é empregado como referência à comunidade budista na sua forma ampla.

Existem diferentes Tipos de Budismo?

Conforme o budismo foi evoluindo e se espalhando, surgiram diferentes ramos e escolas budistas. Esses ramos e escolas têm diferenças entre si, mas todos eles partilham um núcleo comum. Comumente podemos dividir o budismo em:

  • Theravada: Significa o “Ensinamento dos Sábios” ou a “Doutrina dos Anciões”. A sua base é principalmente o Páli Tipitaka, que é considerado o mais antigo e mais completo registo dos ensinamentos do Buda. O Theravada está presente mais significativamente nos países do sudeste asiático.
  • Mahayana: Significa o “Grande Veículo”. A antiga Universidade Budista de Nalanda, que foi a primeira universidade residencial no mundo e um dos maiores centros de conhecimento, teve um papel fundamental no desenvolvimento do Mahayana. Este ramo se expandiu mais para o norte, nomeadamente a China, e posteriormente Coreia, Japão e Vietname. Deste ramo fazem parte as escolas Zen, Terra Pura e Nitiren.
  • Vajrayana: E uma extensão do Mahayana e é mais conhecido como Budismo Tibetano. Também surgiu na Índia, nomeadamente em Nalanda, e no Tibete teve uma grande expansão. Muitas vezes é apelidado como “budismo exotérico.”

Há escolas que abordam mais conceitos e outras menos, mas todas elas já são completas em si mesmas e têm as ferramentas necessárias para levar o praticante ao despertar; não há uma escola melhor ou pior, a preferência por uma ou por outra depende da inclinação do praticante.

Além disso, as escolas, assim como os mestres, têm abordagens e ensinamentos diversos. Assim como um medicamento pode funcionar melhor num paciente e não funcionar noutro, um ensinamento pode ser mais adequado para um praticante que para outro.

Conheça melhor os diferentes tipos de budismo no artigo: Os 3 ramos (ou veículos) do Budismo: Theravada, Mahayana e Vajrayana.

O Dalai Lama é tipo o papa do budismo?

O 14º Dalai Lama é um dos mestres budistas mais conhecidos. Como vimos no budismo existem várias escolas. O Dalai Lama é um professor muito importante para o budismo tibetano, e particularmente para a sua escola, a Guelupa. Além disso, ele também é admirado por muitos outros budistas e escolas budistas de diferentes origens. Mas o Dalai Lama não é como um chefe do budismo, ele nem mesmo é o líder da sua escola, apesar de ser muito respeitado e influente. No passado o Dalai Lama foi o chefe do governo tibetano no exílio.

No budismo não existe um “papa”. Existem organizações “guarda-chuva”, como federações, mas não existe propriamente um líder mundial do budismo.

Os budistas adoram ídolos e pedem favores a seres divinos?

Os budistas respeitam as imagens do Buda, não em adoração e nem para pedir favores. Uma estátua do Buda com as mãos pousadas suavemente no colo e um sorriso compassivo nos lembra de nos esforçarmos para desenvolvermos boas qualidades dentro de nós e nos inspira a seguir o mesmo caminho que ele. A reverência diante da estátua é uma expressão de respeito e gratidão pelos ensinamentos.

O budismo é variado e existem vários tipos de escolas e práticas. No budismo não se considera a existência de um Deus criador, mas o budismo aceita a existência de seres “espirituais”, esses seres segundo algumas escolas eventualmente podem exercer alguma influência e consequentemente atender a certas preces. No Budismo Tibetano também existe uma prática que consiste em consultar um oráculo (tipo um médium) para obter conselhos, por exemplo o Dalai Lama em certas ocasiões consulta o Oráculo de Nechung, geralmente essa é uma prática mais restrita observada apenas por alguns Lamas. Há que salientar que embora possam existir práticas que contemplem alguns desses seres, na sua grande maioria o foco da prática não está direcionado nesse sentido. Maioritariamente o uso de preces são aspirações para que nós mesmos possamos alcançar o mesmo que o Buda e para que todos os seres encontrem as causas da felicidade.

Saiba mais sobre este tópico nos artigos: O Altar Budista e a prática devocional, Preces de Dedicação de Méritos, Meditação da Bondade Amorosa (Metta).

Os budistas precisam adotar certos costumes orientais?

Não. O Budismo não pertence exclusivamente a um país ou cultura, qualquer pessoa de qualquer país ou cultura pode adotar o budismo sem ter de se “transformar” numa pessoa de outra cultura. Um budista leigo não precisa de vestir algum tipo de roupa especial, comer refeições orientais, enfeitar a casa de uma forma particular, etc. O Dalai Lama uma vez criticou alguns ocidentais que se vestiam com roupas tibetanas só para parecerem mais budistas. Ele disse que o Dharma não está nas roupas ou nos móveis, que ninguém precisava rejeitar a sua própria cultura e adotar outras. Claro que, o budismo influenciou culturas e quando um praticante sente uma grande conexão com o budismo é normal que certos aspetos exteriores associados a outras culturas possam ser implementados, e que certos aspetos próprios culturais que se acha prejudiciais possam ser abandonados, mas ninguém tem de se transformar num tibetano, japonês, tailandês, etc. Também é importante não confundir conceitos que fazem parte do budismo com meramente “aspetos culturais” a serem rejeitados.

Quais os modelos de vida em que podemos cultivar o Dharma?

No Budismo existem pelo menos dois modelos de vida segundo os quais podemos cultivar o Dharma. O (1) modelo de vida leiga e o (2) modelo de vida monástico. Monges, monjas, leigos e leigas são quatro pilares igualmente importantes para o budismo.

Note que o termo leigo não é no sentido de “leigo na matéria”, é simplesmente no sentido de não seguir a via monástica. Outro termo que também é usado é “laico”.

O Budismo é proselitista?

No geral o budismo não é proselitista no sentido de não existir ativamente a tentativa de converter outras pessoas quase que à força. Isso não quer dizer que não exista envolvimento na divulgação do budismo e em o tornar acessível ao maior número de pessoas. Porém, não se deve impingir a quem não está interessado. Tradicionalmente o Dharma só era ensinando a quem o solicitava.

Como o Budismo pode-me ajudar?

O budismo faz você entender a fonte do sofrimento e a maneira de se livrar dele. Ele ajuda você a ter mais autoconhecimento, a desenvolver boas qualidades mentais e a progredir inclusive ao ponto de se poder tornar num Buda.

Como me tornar Budista?

Se a pessoa aceita os princípios budistas, se se refugia nas três joias com um compromisso interno e vontade firme, e se se considera e identifica como budista, então é budista. Existe também uma cerimónia formal de refúgio nas 3 Joias, esse tipo de cerimónia pode ser uma marco inspirador, mas não nos garante o despertar. Ter uma comunidade para praticar ajuda a progredir no caminho. Além dá prática budista, patrocinar o budismo foi desde os seus primórdios um elemento importante, pois só assim o budismo chegou até nós. No Jivaka Sutta (AN 8.26) o Buda diz que aqueles que tomam refúgio nas 3 Joias são considerados seus discípulos leigos, e aqueles que adicionalmente seguem os preceitos são discípulos leigos virtuosos.

Quais os próximos passos?

  • Confira a página do Olhar Budista: Budismo: comece aqui!. Nessa página além de constarem ligações para alguns dos artigos que vimos aqui, pode ainda consultar outros tópicos.
  • Explore os tipos de budismo e escolha um caminho.
  • Conheça os ensinamentos de Mestres qualificados.
  • Procure por escolas e centros budistas: Sanghas, Grupos, Centros
  • Oiça podcasts, assista a vídeos e leia livros. Na página de Recursos você encontra várias dessas listas com ligações para esse tipo de conteúdo.

Referências deste artigo e leitura complementar (links externos):

Olhar Budista > Recursos > Budismo: comece aqui!

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