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Budismo, Psicoterapia e Saúde Mental

O Budismo vai além do assunto de saúde mental, esse não é o objetivo primário do budismo. O objetivo do budismo é espiritual, é o despertar, mas para isso a saúde mental é um pré-requisito. Por isso o budismo possui um know how sobre saúde mental e pode partilhar algo com as pessoas. Neste post são disponibilizadas algumas palestras em áudio e vídeo e respetivas anotações sobre o que os palestrantes explanaram.


Palestras:


Você está com depressão ou é a sua vida que está mal mesmo?

Por Ajahn Mudito

Anotações

Se as pessoas não mudam o estilo de vida é difícil ter uma vida feliz. Difícil querer ser feliz se não viver de maneira correta, se não viver de forma saudável.

Vários cursos, certas terapias e trabalho interno, muitas das vezes servem apenas para a pessoa mascarar os problemas e se enganar a si mesma. Não se pode viver de uma maneira horrível e ainda assim achar que a mente tem de ser feliz.

Deve ser honesto consigo mesmo, dar primazia para a verdade e não fingir que está bem quando não esta. Não ficar preso numa fantasia porque cedo ou tarde essa bolha explode. Não é saudável e é um trabalho desgraçado. É algo muito frágil.

É preciso começar primeiro por construir um estilo de vida que promova mais bem-estar, e isso não implica necessariamente muita riqueza material. Significa ter uma vida com melhor qualidade, o que às vezes até vai exigir uma vida mais simples. Se a pessoa não tem uma mente cheia de desejos há mais opções. Deve perceber o que pode ser feito, para com inteligência construir uma vida correta.

Só depois disso ter sido feito, de a pessoa ter feito um trabalho sincero e inteligente de melhorar a vida dela no sentido mundano, como: um rotina saudável, evitar pessoas ruins, fazer boas amizades, fazer exercício, ter uma alimentação saudável, fazer atividades que enobrecem a mente, praticar bons atos, etc… aí sim, se ainda continua deprimida, precisa de começar um trabalho interno mais profundo: saber administrar as emoções, perceber porque isso aconteceu, se é um habito que vem do passado, um trauma de infância, o que está acontecendo, etc… É nesse momento que pode exigir mais da mente. A mente agora não tem mais desculpa, já tem as condições para ser mais feliz. Agora sim começa um trabalho de purificação da mente.

É meio maldoso tentar convencer a pessoa a estar feliz quando a vida dela é horrível. Para ser feliz nessas condições tem de sacrificar a inteligência, ou desenvolver uma sabedoria de tal maneira elevada que consegue estar bem em qualquer tipo de situação, mas isso é algo raríssimo, não é algo que a pessoa deva exigir de si mesma. Ajahn Mudito diz que nem ele mesmo conseguiria.

Não tem como exigir esse nível de sabedoria, mas tem como exigir o nível de sabedoria que faz com que busque uma vida melhor para si mesma. Um nível de qualidades mentais que faz com que seja capaz de mudar de estilo de vida.

Tem que ter uma fundação para a felicidade e o bem-estar. O Buda ensinava isso. Mesmo a prática de meditação tem uma fundação, não é so implementar a técnica, há um trabalho de base a ser feito, há toda uma estrutura que gera auto-estima e bem-estar, como: escolher um local saudável, boas companhias, boa conduta, bondade e compaixão, respeito, humildade, gratidão, etc… É mais fácil a mente se pacificar quando tem bem-estar.

A mesma situação que potencializa a pratica do Dharma gera bem-estar e felicidade para a mente. Mas é um bem-estar que está em conexão com a realidade, não um bem-estar que vem da fantasia. É um bem estar que vem de viver de forma saudável e de uma mente com boas qualidades.

É normal ficar triste quando a situação é triste. Se alguém muito querido morreu, é normal ficar triste. Há que dar espaço à mente e não obrigar além de tudo isso a mente a ter que fingir que está tudo bem.

Um pouco de tristeza é normal, mas se a mente está a ficar muito doentia, por bem-querer a si mesmo você trabalha para abandonar essa tristeza. Trabalhando no estilo de vida, comportamento e desenvolvendo boas qualidades mentais.

Mesmo sem ter de mudar de emprego, família ou cidade, uma coisa que ajuda muito é bondade: ser uma pessoa mais bondosa, mais caridosa, que tem cuidado e atenção, bem-querer… renunciar às más ações, etc. Quando se vive ou trabalha num ambiente complicado outra estratégia quando possível é o “entra por um ouvido e sai por outro”, filtrar aquilo a que se está exposto.

Será que quando há uma situação infeliz tem haver com o karma desta existência? Sim… mas não esquecer do karma da inteligência. Se está de chuva temos que apanhar chuva porque é o “nosso karma”? Também existe o guarda-chuva e se há inteligência pega-se no guarda-chuva. Só porque algo é um karma não significa que não há opção. Ser inteligente também é um karma, ter capacidade de pensar, raciocinar e escolher caminhos também é um karma, ser capaz de abrir mão também é um karma, ter coragem de mudar de ambiente também é um karma, ter a capacidade de renúncia é um karma. Não é só o karma ruim que existe, também há o karma bom.

Saúde mental para professores e alunos

Por Ajahn Mudito

Anotações

As pessoas estão perdendo qualidade mental: professores, alunos, pais. Os pais não conseguem dar o mínimo de parâmetro aos filhos para que eles tenham uma boa saúde mental e sejam capazes de aprender. Vão para a escola e não têm os mínimos recursos intelectuais, emocionais e de valores que fariam com que se beneficiassem melhor da escola.

A vida de monge acarreta propositadamente um número grande de dificuldades, como abrir mão do conforto, entretenimento, comer uma vez por dia, dormir no chão, etc… a única coisa que sobra é a pessoa… para lidar com tudo isso a única opção é desenvolver boas qualidades mentais.

O Budismo vai além do assunto de saúde mental, esse não é o objetivo primário do budismo. O objetivo do budismo é espiritual, é o despertar, mas para isso a saúde mental é um pré-requisito. Por isso o budismo possui um know how sobre saúde mental e pode partilhar algo com as pessoas.

A maior ferramenta que os professores têm para ajudar os alunos é ajudarem a si mesmos, conquistarem saúde mental, se apresentarem perante os alunos como uma pessoa saudável e que gere curiosidade no aluno.

No momento certo o professor pode dizer ao aluno algo como:

“Reflita e observe que nada ao seu redor visa verdadeiramente o seu bem-estar. A televisão não está interessada no seu bem-estar, as empresas não estão interessadas no seu bem estar, o seu pai e a sua mãe se interessam pelo seu bem-estar mas não têm conhecimento do que é bem-estar, os seus amigos não têm noção do que estão fazendo. Então há uma urgência de você parar e prestar atenção no que está fazendo.”

“De que forma o desejo é capaz de levar você a todo o tipo de situação desfavorável? Como é que as pessoas conseguem manipular você por causa do seu desejo? Como é que as empresas manipulam você por causa do seu desejo? Como é que os políticos manipulam você? Como é que as pessoas mais “espertas” manipulam você graças ao seu desejo?

“Os heróis dos filmes são calmos, o mundo inteiro pode ester pegando fogo mas eles mantêm a calma, são tranquilos, atentos. Aprenda a ter essa calma, a centralizar a mente, a não ser reativo, a ter mestria sobre si mesmo.”

“Não tenham vergonha nem medo de pensarem diferente. Olhem o que está acontecendo ao vosso redor. Se você tem 10 anos, olhe quem tem 20 e veja o que está acontecendo.”

É preciso fazer um apelo à inteligência das crianças.

Ensinar qualidades como respeito, gratidão, disciplina, força de vontade, renúncia (capacidade de abrir mão). Muitas das qualidades básicas não estão sendo passadas para as crianças. Elas não têm ferramentas emocionais básicas para se sentarem e ficarem atentas à aula. Não conseguem ter interesse e verem o valor e utilidade no que está sendo feito.

O professor precisa de trabalhar primeiro consigo mesmo para depois poder dar isso para o aluno.

A prática de meditação é virar um “mini-monge”. Você abre mão dos sons, conforto físico, pensamentos, etc… é um ótimo mecanismo para desenvolver qualidades, não é para fugir dos problemas. Em geral as pessoas não conseguem fazer isso porque (1) não conseguem tolerar a sensação do próprio corpo, não têm conexão com o próprio corpo. Precisam de aprender a terem resiliência, a conseguirem aguentar sensações desagradáveis. (2) Dor mental: as pessoas são vitimas de ansiedade, raiva, medo, ganância. Desejo não satisfeito gera frustração, frustração gera raiva, raiva gera violência, violência gera remorso, remorso gera inimizade. É um ciclo vicioso.

As pessoas precisam de aprender a vencerem as armadilhas que a própria mente cria. Aprenderem a fazerem as pazes com o corpo e mente. A chave para conseguir pacificar a mente é conseguir tolerar o próprio corpo e a mente. O que mais ajuda a vencer a dor mental é ter um modo de vida correto, uma conduta nobre. Isso gera bem-estar.

Cuidando bem de si-mesmo consegue ajudar muita gente durante muito tempo.

Os confortos que existem hoje em dia são bons, mas eles também enfraquecem a pessoa e a tornam escrava do exterior.

A confusão mental é um mecanismo de bloqueio.

Não sacrifique a inteligência para poder ficar tranquilo, é normal que certas situações gerem ansiedade. É como querer sentir compaixão por alguém que tem um jeito incorreto e para isso fechar os olhos. Mas a forma correta é sentir compaixão mesmo com o jeito incorreto da pessoa. Isso tem de ser feito de maneira inteligente.

Ter fortaleza interior, seja lá com o que vier. Sem se enganar pensando que vai correr tudo bem, pode correr como pode não correr.

Dependendo da situação tem que ter desejo, aspirações. Dependendo da situação tem que ter renúncia. Ambos são opostos mas ambos têm local e função.

Há momentos em que o importante é manter-se de pé e não ser perfecionista.

Hoje existe uma industria do mindfulness. As pessoas pensam que o problema é a religião, mas o problema são as pessoas. Os problemas que se manifestam nas pessoas religiosas também se manifestam da mesma ou de outra forma nas pessoas não-religiosas. Os problemas que acontecem com o mindfulness são problemas de ser humano: vaidade, ganância, desejo, pequenez de caráter. Preocupe-se mais em quem está a passar esse conteúdo. Um professor laico pode ser muito competente e honesto ou um charlatão, e o mesmo com relação a um monge.

Muitas pessoas têm ganância por elogios, fama, reputação, dinheiro. Onde há possibilidades dessas coisas, as pessoas que anseiam por isso vão até aí. É karma de ser humano. O que você faz com isso? Fica atento e olha com atenção! Tem que avaliar. Não jogue fora o bom-senso.

Se a escola tentar impor uma ferramenta como mindfulness, vai virar uma ferramenta de opressão. As crianças vão odiar meditação. Isso tem de ser feito com inteligência.

Os sistemas existem mas são apenas uma ferramenta de estudo, que potencializam o que está em vocês. O martelo não constrói casas, o martelo é uma ferramenta do pedreiro, o pedreiro é que constrói a casa. Vocês são a chave não é mindfulness nem o budismo.

A escola deveria ser um local de pessoas que estão lá para fazer o bem. Os alunos precisam de sentir que os professor estão lá para ajudar, para dar algo bom, que vai ser útil. Que não estão lá para serem castigados e humilhados. Os alunos precisam de sentir que estão lá para saírem melhores.

Psicanálise e Budismo

Por Monge Genshô

(a partir do minuto 2:57)

Anotações

O Monge Genshô fala do livro “Zen Budismo e Psicanálise” de Erich From e D. T Suzuki, em que há um visão e uma comparação do Zen e da visão da psicanálise, que são complementares em certa medida, e noutro sentido são opostas na sua abordagem.

No geral a psicologia tentou reforçar e estruturar bem um Eu, de modo que um individuo se pudesse adaptar bem ao mundo. Um bom exemplo é que é bem plausível ter um psicólogo trabalhando numa equipa de atiradores de elite para que eles possam matar e lidar bem com essa situação. Genshô fala da serie Homecoming que aborda esse aspeto, em que uma empresa trata de adaptar ao mundo homens traumatizados pelo combate na guerra, usando medicamentos e terapia.

Os objetivos do Zen e da psicanálise não são idênticos. O Zen pretende libertar o homem, e libertar o homem também da sua ilusão mais básica que é acreditar na ilusão que ele é aquele Eu que nós construímos para transitar no mundo. Esse Eu é existente e útil, mas é como uma roupa que vestimos para transitarmos no mundo. Nós somos algo mais que isso, por isso a pergunta essencial no Zen é responder: quem você é além de nome e forma?

Budismo e Psicoterapia

Por Prof. Joaquim Monteiro

Anotações

Como usar o pensamento budista na complementação de um processo terapêutico? O Prof. J. Monteiro diz que é um grande desafio. Há elementos do budismo, como as kleshas que podem ser úteis para entender o que na psicologia se chama de neuroses, mas seria necessário fazer uma ponte entre esses dois universos.

Originalmente o budismo pode ter sido uma pratica espiritual que inclusive tinha indiretamente acepções terapêuticas, mas não se desenvolveu como prática terapêutica no sentido da prática clínica.

O budismo tem uma visão de mundo, e no contexto da clínica isso não se vai impor, mas até que ponto diversos elementos budistas da condição humana não poderiam influenciar positivamente a pratica clínica? Nos centros budistas existe um número de pessoas que se definem como budistas, mas também existe um número grande de pessoas que não se consideram budista, apenas simpatizante e que pretendem se beneficiarem apenas com alguns elementos do budismo. Poderia a aplicação da terapia no consultório ser pensada nesse nível?

O budismo tem potencial para influenciar positivamente uma serie de dimensões da cultura, só que a gente tem de pensar o como.

Um psicólogo budista partilha como a sua prática influencia no processo terapêutico e que quando olha o paciente vê como os seus sofrimentos estão atrelados a muitos aspetos referidos no budismo como os kleshas, venenos mentais, etc. Essa informação para eles em alguns casos está causando uma transformação muito positiva.

Psicologia Budista e Ocidental

Por Monja Isshin

Anotações

A psicologia ocidental começou na segunda metade do século 19 e teve o seu grande empurrão com o Sigmund Freud e com o desenvolvimento da psicanálise, ao mesmo tempo se desenvolvia a psicologia nos estudos académicos e se desenvolveram as várias técnicas.

A Monja acha a psicologia ocidental fascinante ao ponto de se formar como psicanalista humanista. A pessoa que criou esse estilo terapêutico foi Erich From, ele treinou no Zen e praticava meditação. Ele aplicava aspetos do Zen na terapia.

A Monja refere que o primeiro contacto com a psicanalise foi na facultade num curso geral de introdução à psicologia, quando ainda era jovem. Estudou os conceitos gerais de Freud mas não se identificou com a maneira como foi apresentado. Até que mais tarde, juntou as duas paixões da vida, o budismo zen e a psicologia.

Para a Monja Isshin a grande diferença entre o budismo e a psicologia ocidental é que a psicologia ocidental não fala da transcendência, possibilidades antes e após a vida, não se envolve com religião e espiritualidade. Basicamente trata das questões da vida pratica, tem o objetivo de melhorar as condições da pessoa para funcionar no mundo (trabalho, relacionamentos, autoestima, etc). Em muitos pontos está voltada para fortalecer o ego, tornando-o mais saudável, o que é muito importante.

A psicologia budista não está tanto interessada nos traumas (como coisas que aconteceram no passado), não olha tanto para essas questões. A psicologia budista olha mais para os processos, de como funciona a mente e como nós criamos o sofrimento por causa por exemplo da nossa ganância, aversão e delusão. E por isso os dois se complementam maravilhosamente bem.

Muitas pessoas vão para a espiritualidade querendo escapar dos seus conflitos interiores, problemas emocionais, baixa autoestima, raivas… só que dessa forma correm o risco de desenvolverem o que se chama de espiritualidade bypass, que é usar a espiritualidade para fugir de olhar e cuidadar das questões emocionais. E ao mesmo tempo, para quem fica só na psicologia ocidental perde muito dos aspetos da transcendência, do significado mais profundo da vida.

A Monja Isshin fala ainda da escola budista Yogachara, que é incrivelmente profunda. Algumas pessoas comparam alguns dos aspetos dessa escola ao inconsciente, mas é um assunto em que existem divergências e que não é simples. Ela acha que a psicologia ocidental quando comparada com a Yogachara parece relativamente simples. Quando às escrituras canónicas do Abhidhamma, podemos encontrar: metafísica, filosofia, psicologia, e todo o lado teórico e abstrato dos ensinamentos do budismo.

Para assistir a mais palestras da Monja Isshin sobre o tema da psicologia, confira os seguintes links externos: Palestra EstaçãoPsi e A Psicologia e o Senso Religioso.


Sugestão de leitura (link externo):

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