Ensinamentos Vajrayana Vídeo-palestras

As 5 Sabedorias | Lama Padma Samten

As 5 Sabedorias Budicas referidas na tradição Vajrayana são: Sabedoria do Espelho, Sabedoria da Igualdade, Sabedoria Discriminativa, Sabedoria da Causalidade e Sabedoria de Darmata.

Estas 5 sabedorias estão associadas aos 5 Dhyani Budas e são simbolizadas pelas 5 cores das bandeiras de orações tibetanas. Os Dhyani Budas frequentemente são vistos como emanações e representações das cinco qualidades do Ādi-Buddha, também referido como Buda Dharmakaya ou Buda primordial. Esses cinco Budas são um assunto comum das mandalas Vajrayana e aparecem com destaque em vários Tantras Budistas.

No texto abaixo Lama Padma Samten explica as 5 Sabedorias e de seguida são partilhadas mais palestras.

Sabedoria do Espelho

Buda Akshobia – Cor Azul – Acolhimento

Precisamos ter a sabedoria da cor azul, que é a sabedoria de olhar para o outro e acolhê-lo do jeito que ele vem. Isso é também chamado de sabedoria do espelho. E o que significa acolher o outro do jeito que ele vem? Significa, em primeiro lugar, entender como o outro está vivendo, qual sua experiência de mundo, como ele está experimentando aquilo. Para entender como o outro vive a sua experiência de mundo, temos que entender que a mente dele se espelha no mundo; que o mundo é um espelho que reflete a mente dele. Se ele tem raivas, o mundo vai aparecer como a fonte desta raiva que brota nele.

Nós vamos então trabalhar esse aspecto muito sutil da compreensão da vacuidade, que é também chamado de co-emergência entre o mundo externo e o mundo interno. Nós não conseguimos entender o outro se nós olhamos o outro a partir dos nossos próprios referenciais. Nós precisamos entender o outro a partir dos referenciais dele.

Quando nós entendemos o outro a partir do referencial dele, isso significa que nós vemos o mundo do mesmo modo que ele vê, e por isso nós conseguimos falar dentro do mundo dele e ser entendidos. (…)

Sabedoria da Igualdade

Buda Ratnasambhava – Cor Amarela – Generosidade

Depois, nós temos a sabedoria do Buda Ratnasambava, representada pela cor amarela. Essa é uma habilidade que não pode faltar em nós: se há alguém que está em dificuldades, aquele alguém nos interessa. Se não somos tocados pela sabedoria da igualdade, simplesmente dizemos: “bem, isso é um problema dele, aliás, isso é o carma dele” e nós vamos escapando. Ou então podemos não ter propriamente um interesse maior pelos outros e dizemos: “olha, a vastidão dos carmas é infinito, o que posso fazer? Eu, quando muito, lido com o meu próprio carma”. Essa seria uma posição Hinayana, uma posição do caminho do ouvinte, do caminho estreito, onde não há compaixão.

No caminho Mahayana, nós temos os cinco Diani Budas. O segundo deles é a sabedoria da igualdade. Então, mais do que apenas nos interessarmos pelos outros, é necessário que comecemos a gerir a nossa própria energia a partir disso. Por exemplo: se nós ajudamos os outros, isso produz em nós um interesse e uma sustentação de energia.

De um modo geral, a nossa energia se sustenta de um outro modo, ela se sustenta pelo gostar ou não gostar das coisas com as quais fazemos contato. Mas agora não mais. Não importa se estamos vendo alguém que gostamos ou não gostamos, isso não vem ao caso. Vemos alguém em dificuldade e vamos ajudar. (…)

Sabedoria Discriminativa

Buda Amitabha – Cor Vermelha – Investigação

Em seguida, temos a sabedoria discriminativa, cuja cor é vermelha. O facilitador de cultura de paz precisa ter isso também, porque essa é a essência dos ensinamentos. A sabedoria de entender o outro, a sabedoria de acolhê-lo, de fazer brotar a energia que vai trazer benefício a ele – isso é muito importante! Mas o benefício, de fato, como é que acontece? O benefício acontece através da sabedoria discriminativa do Buda Amitaba.

Para simplificar, a sabedoria discriminativa são as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho de Oito passos. Aspiramos que as crianças entendam, que todos entendam as suas vidas a partir do referencial das Quatro Nobres Verdades e do Nobre Caminho de Oito Passos. (…)

A sabedoria discriminativa vai discriminar o que é real do que não é real e, dentro da sabedoria discriminativa, nós estudamos com cuidado todos os aspectos do quadro da Roda da Vida. A partir da Sabedoria Discriminativa, geramos a motivação correta, que é a motivação de nos afastarmos do engano, porque ele não produz resultado algum. Dessa perspectiva mais ampla, obtemos resultados positivos, que, no início, podem ser descritos como felicidade, a nossa felicidade. Está bem se tomarmos a nossa felicidade como referencial, mas mais a diante vamos achar que isso é pouco, vamos querer ir além da própria sensação de felicidade.

A sabedoria discriminativa nos ajuda a definir a motivação adequada em nossas vidas, em nossas ações. Ela irá determinar se a pessoa vai conseguir ter sucesso ou não. A sabedoria discriminativa é a própria essência do ensinamento budista.

Sabedoria da Causalidade

Buda Amogasiddhi – Cor Verde – Causa e Efeito

A seguir, nós temos a cor verde, que simboliza a ação da sabedoria da causalidade.

A causalidade é assim: nós fazemos um tipo de ação e aquilo produz resultados. Então, muito cuidado! Precisamos entender como se dão os resultados, em níveis mais profundos e mais superficiais – em todos os níveis! Precisamos entender como os resultados são manifestados e aprender a produzir resultados positivos e evitar resultados negativos. (…)

Sabedoria de Darmata

Buda Vairocana – Cor Branca – Transformação

Finalmente, temos a cor branca, a sabedoria de Darmata, a compreensão do espaço básico. Isso é realmente maravilhoso. Por exemplo, podemos começar pensando que, no passado, nós nos descrevíamos de um jeito ou de outro. Nós já moramos em diferentes lugares, já fizemos diferentes coisas. Agora dizemos: “eu não sou aquilo! Aliás, de fato, eu nunca fui aquilo, aquilo foi alguma coisa que se manifestou”. “No passado eu manifestei fraudes sucessivas. Não era eu! Eu me apresentei de um jeito, mas eu não era aquilo. E agora eu estou me manifestando de um outro jeito. Seria esse jeito também uma fraude, ou não?”

Então, nós olhamos deste modo. Quando entendemos que aquilo que está se manifestando hoje também é uma fraude, entendemos Darmata. Compreendemos que todos os jeitos particulares que manifestarmos são construções; porém, existe uma natureza livre de onde as construções brotam. Nós nunca seremos nenhuma das construções, mesmo que juremos de pés e mãos juntas: “eu sou isso, eu faço isso, pode confiar!”

Todos esses aspectos são transitórios, construídos. A nossa natureza é uma natureza livre, que ri dos nossos votos samsáricos. (…)

A sabedoria de Darmata é a sabedoria de ver o que nós verdadeiramente somos. É o olhar que atravessa a aparência e vê a natureza livre que cria as nossas manifestações. (…)

Veja o texto completo em: CEBB: As Cinco Sabedorias.


Palestra: O que levamos da nova inteligência?

Lama Padma Samten, no 35° Congresso Estadual de Recursos Humanos, realizado em 2009 no Rio de Janeiro e organizado pela ABRH, explicou as 5 sabedorias. Seguem-se vídeos de partes dessa palestra juntamente com uma transcrição.

As cinco sabedorias – Parte 1

Sabedoria do Espelho

A primeira delas é a capacidade de entender os outros nos seus mundos, que é a sabedoria do espelho.

Naturalmente, o gestor, precisa entender as pessoas, não a partir do seu mundo pessoal, mas a partir do mundo do outro. Deveria começar a pensar que o outro está certo, dentro do seu mundo. Se ele tiver essa capacidade de falar dentro do mundo do outro, ele pode ajudar o outro a fazer as coisas melhor para que ele anda melhor.

Quando a nossa linguagem não funciona é porque nós não falamos dentro do mundo do outro, nós falamos dentro do nosso mundo. Por vezes nós nos sentimos perturbados pela operação do outro e então nós pensamos apenas pode dentro do nosso mundo, não conseguimos pensar dentro do mundo do outro.

Então nós temos esse desafio. A nossa mente se amplia muito quando ela abandona o foco autocentrado. Quando ela abandona o foco autocentrado ela não vai perder a inteligência, ela começa a usar uma inteligência multifacetada, que é uma inteligência que é capaz de entender os outros dentro dos seus mundos. Logo, ela pode desenvolver uma relação apropriada com cada um dos outros.

Isso é um exercício espiritual. Por exemplo, o Buda mesmo vai dizer “vocês não conseguem ajudar as outras pessoas porque vocês têm obscuridades mentais, vocês estão presos em mundos particulares de vocês mesmos”, ele disse isso 26 séculos atrás. Então, como nós vamos ajudar os outros se a gente não entente o outro no seu mundo?

É como um professor que quer ensinar matemática para o seu aluno, mas ele não entende de onde vem a dificuldade do aluno, e assim não consegue suprir o que o outro está precisando. Ele pensa “eu quero alunos que saibam, aprendam, estudem”, mas ele não consegue destrancar onde o outro trancou.

Eu ouvi um ensinamento da cultura indígena em que se diz que o curador indígena é capaz de sonhar aonde que a alma daquele outro ficou presa. Então ele entra no sonho onde a alma do outro está presa e transforma aquele lugar onde o outro está preso, e o outro se cura. Eu acho isso muito bonito, porque efetivamente é nesse plano subtil que as coisas estão presas. Então, nós precisamos dessa habilidade.

O mundo da gestão, o nosso mundo concreto, se torna visivelmente o mundo espiritual. Porque em primeiro lugar nós já nos abandonámos a nós mesmos, não importa o que eu pense, o que eu queira, a minha energia. O mais importante, é que a gente tenha a capacidade de entender o outro no mundo dele.

Sabedoria da Igualdade

A segunda sabedoria é importantíssima, chamada Sabedoria da Igualdade.

Todos vocês sabem manifestar isso. Que é assim, quando nós fazemos alguma coisa de bom para o outro, nós nos alegramos. Não só o outro se alegra, mas nós nos alegramos. Isso é a base da felicidade no trabalho. Vocês anotem isso com muito cuidado. Isso é a base também da nossa cultura humana, é a base da humanidade que ainda está dentro da nossa cultura. É o facto de que nós fazemos as coisas para os nossos filhos e nos alegramos. Fazemos para os outros e nos alegramos. O professor cuida dos alunos e se alegra com isso… o aluno pode ficar mais ou menos mas o professor se alegra quando o aluno aprende.

Aquilo que vocês fazem de bom alegra vocês, porque está produzindo coisas boas para o outro. Crucial, o que você faz para o outro é igual para mim, não tenho como separar… sabedoria da inseparabilidade também.

Sabedoria Discriminativa

A sabedoria discriminativa significa que nós sabemos o resultado que as nossas ações podem propiciar. Aquilo que a gente ganha hoje nós eventualmente podemos perder amanhã. Então é muito importante que a gente entenda que existem ações que nós apenas nos desgastamos e existem outras ações que a gente efetivamente soma coisas positivas.

Vamos supor, tudo o que eu der para alguém, ou fizer para os outros, eu não perco mais. Tudo o que eu guardar para mim, eu perco. Na hora da morte nós devolvemos tudo o que a gente guardar. Porém, tudo o que nós oferecemos para os outros, na hora da morte nós levamos junto. Isso é maravilhoso.

Isso é muito importante. A compreensão da impermanência também. As coisas iniciam, têm um meio e um fim. Compreensão da mutabilidade, não há nada que eu me engaje hoje, porque eu quero, que amanhã também não possa trazer problema para mim, incluindo aí os casamentos, emprego, etc. Maravilhoso a gente entender que há um “brechó” na vida. A gente compra um carro hoje com alegria, amanhã vende com alegria, e outro que compra, compra com alegria. Maravilhoso essa mutabilidade, porque está nos nossos olhos o interesse pelas coisas.

As cinco sabedorias – Parte 2

Sabedoria da Causalidade

A sabedoria da causalidade significa o quê? Em primeiro lugar, se nós fazemos ações positivas, de modo geral elas resultam em coisas boas para nós. Se nós fazemos ações negativas, de modo geral, elas trazem problemas para nós.

Eventualmente até de pensar em fazer uma ação negativa, ela já começa a trazer problema. Depois de feito, pior ainda.

As ações negativas são em corpo, fala e mente. Nós podemos criar complicações para nós mesmos com o nosso corpo, com a nossa expressão verbal, e com a nossa mente. E com as nossas paisagens também.

E então vem uma sabedoria importantíssima para os gestores, crucial, que é a sabedoria da transmutação.

A negatividade vem a nós, mas nós não ficamos negativos. Nós pegamos a energia da própria negatividade e canalizamos de modo positivo.

Nós precisamos fazer isso, ter esse treinamento. Se vem alguém que diz “eu fiquei bravo porque o outro me agrediu”, não está sabendo usar essa sabedoria. Se o outro agride, eis uma oportunidade perfeita, porque o outro ficou frágil, ele agrediu ficou frágil. Depois de agredir ele vai precisar do nosso perdão. Ele pisou na bola, então esse é o momento de eu ajudá-lo. Agora é o momento de me tornar efetivamente amigo dele. A agressão é um momento de contacto íntimo perfeito, nós vamos transformar isso numa coisa positiva.

Isso é mais ou menos assim, se chega alguém de chapéu, abas largas… “eu estoi um poco molesto… Atchiim Atchim”… vocês dizem “Que a Virgem Guadalupe me proteja, que eu não pegue essa gripe”.  Agora, se a pessoa chega e agride vocês, vocês pegam aquilo como se fosse uma grande inteligência, assumem a raiva e devolvem… isso é se contaminar direto. A gente precisa usar a sabedoria da “gripe mexicana”… nós vamos usar de compaixão, nós precisamos de absorver.

Em cada família tem que ter uma pessoa assim, em cada organização precisa no mínimo uma pessoa assim. Nós precisamos de muitas dessas pessoas no mundo para nós absorvermos a negatividade. É como a função das células do rim, elas absorvem a toxina e devolvem o sangue limpinho. Os músculos fazem o contrário, pegam o sangue limpinho, e colocam as toxicas… tudo bem, é a função deles. A nossa função é fazer o contrário.

Os gestores têm que ter essa função renal, essa capacidade de absorver a toxina e transformar isso em algo positivo.

Sabedoria de Darmata

Darmata significa a sabedoria sobre aquilo que não nasce e não morre.

Por exemplo você já deve ter percebido que as nossas identidades podem se suceder ao longo da nossa vida. A gente já viveu em diferentes cidades, já se apresentou de forma diferente, os cartões [de visita] que vocês estão usando hoje “têm um prazo de validade”, vocês já usaram outros… são as nossas identidades. Mas nós não somos as nossas identidades. O que nós somos então? Nós somos a natureza livre que constrói as próprias identidades. As identidades são os instrumentos de ação que nós temos no mundo. São os nossos compromissos diante das pessoas.

Quando a gente dá um cartão [de visita], nós estamos dizendo o nosso compromisso diante daquela pessoa, como agente se propõe a agir no mundo. Nós não somos aquilo, nós somos aquele que gere esse compromisso, que se dispõe a agir desse modo. O cartão não é uma fraude, mas ele é uma disposição de como a gente vai agir, de como os outros podem se interconectar connosco.

Mas é importante, que em algum momento antes da morte, a gente venha a pensar sobre isso.  […] E agente nunca sabe quão próximo a gente está.

Darmata significa isso, a nossa capacidade de compreensão dessa natureza que nós somos. Na visão budista eu diria assim, a nossa natureza transcende esses várias formas transitórias de manifestação. A gente deveria pensar de vez enquanto sobre isso. Aliás, no budismo, se a gente não pensar sobre isso, a gente está perdendo a nossa vida. A nossa vida, ele já é a manifestação criativa dessa capacidade extraordinária. […] Esse é o aspeto luminoso da realidade. Sua Santidade o Dalai Lama vai dizer, essa natureza é livre e luminosa, e essa natureza pode construir coisas positivas e coisas negativas. As coisas positivas vêm dessas 5 inteligências.

Quando nós somos capazes de olhar para o mundo com as 5 inteligências, brota mandala, dentro dessa mandala, sem esforço, as ações são naturalmente positivas. E então temos a naturalidade positiva da ação.

A inteligência da complementaridade

Queria também trazer um outro ponto. Quando nós vemos essa multiplicidade de visões, nós precisamos não apenas sermos capazes de nos entendermos uns aos outros, mas especialmente nos precisamos aquilo que é chamando de sabedoria do espelho.

A sabedoria do espelho é uma forma de inteligência que se soma à inteligência da complementaridade.

Na inteligência da complementaridade nós podemos tomar os diferentes que podem ser muitos, não apenas Oriente/Ocidente, mas os múltiplos e diferentes, e considerar que todos eles são complementares.

Um exemplo dessa complementaridade, é nestes tempos a própria medicina. Eu estava na Universidade da Bahia falando sobre esse ponto, tinha uma professora que disse que na disciplina dela trazia aos alunos essa visão. Ela convidava diferentes pessoas de diferentes abordagens, e dizia que os médicos têm que aprender a lidar nesse ambiente múltiplo, porque os seus pacientes não apenas vão procurá-lo, mas vão também ao “Pai de Santo”, ao médico naturista, eles também vão fazer diferentes abordagens, também escutam os vizinhos. Então nós temos muitas diferentes abordagens na questão da saúde.

E nós não conseguimos priorizar propriamente isso, porque todas as abordagens são importantes, elas são enfim complementares. Elas se somam e nós precisamos entender que nós estamos num mundo multifacetado, onde não conseguimos colocar propriamente uma prioridade numa forma de pensamento em relação a outra.

Isso me permite introduzir então uma segunda abordagem.

Dentro de um mundo multifacetado, e portante aparentemente caótico, como é que nós podemos encontrar um eixo? Esse eixo poderia vir a partir de um desafio que seria assim: como fazer as coisas verdadeiramente darem certo? Como é que a gente pode fazer com que as coisas andem direito?

Então aqui eu queria trazer um recado de Sua Santidade o Dalai Lama, a forma como ele introduz essa questão.

Em primeiro lugar ele diz: “Aquilo que eu vou falar, vocês talvez ouçam nas suas próprias tradições, então não tomem isso como sendo o budismo; por outra lado, se vocês não tiverem nenhuma tradição religiosa, também não é necessário, porque vocês podem tomar isso como bom senso apenas. E talvez, as tradições religiosas tenham a sua única função de produzir esse bom senso. Assim, uma vez que isso é tomado talvez a gente não precise mais das próprias tradições, a gente toma o bom senso e segue.”

Então, o que seria esse ponto? Seria com nós podemos gerar um eixo que efetivamente nos ajuda. Enquanto eu olho para vocês, enquanto eu falo, eu fico pensando como seria importante se vocês pudessem efetivamente colocar em prática isso nas próprias vidas. Que grande resultado haveria em múltiplas direções.

Esse eixo, eu o considero de grande habilidade, porque é um eixo espiritual, mas ele se coloca como uma abordagem no quotidiano. Então ele diz assim “nós, deveríamos entender que não importa o que a gente faça, de facto, nós buscamos é felicidade e buscamos nos proteger do sofrimento; isso é a base do nosso movimento.” Isso é aparentemente simples, no entanto, se nós quisermos aprofundar a questão da felicidade, nós vamos terminar chegando à própria iluminação, vamos até ao ponto último.

Mas, todos nós temos também, essa compreensão do que seja, pelo menos intuitivamente, do que seja a felicidade. Filosoficamente é mais difícil definir isso, mas nós temos essa sensação do que seja a felicidade.

Esse recado de Sua Santidade o Dalai Lama, nos ajuda também a compreender o método do budismo, que é assim: alguém, no caso um mestre iluminado, segura a ponta de uma corda, e então atira a corda para ajudar o outro que está na água e não sabe nadar. Se aquela corda o outro não consegue ver porque ela ultrapassa a sua visão filosófica, ele não consegue pegar. Portanto, a ponta da corda tem que ser muito nítida a quem olhar para ela, no lugar onde a pessoa estiver. Por outro lado, a outra ponta da corda em que representar realmente a liberação, o ponto final, aquilo que o outro verdadeiramente necessita. Então a corda como um todo é um percurso.

E aqui Sua Santidade o Dalai Lama joga essa corda que é esse conceito, de que todos nós buscamos a felicidade e buscamos nos afastar do sofrimento. Quando a gente entende isso a gente pega a ponta da corda, e pegando essa ponta, nós lentamente vamos subindo e descortinando uma visão mais profunda desse tema da felicidade, até ao ponto da iluminação, aquilo que está além da vida e morte, nome e forma, espaço e tempo; aquilo que já está connosco, a gente não precisa conquistar porque já é nosso, mas que espantosamente nós perdemos, ainda que isso nos habite por dentro.

Os seis reinos

Nós estamos olhando a Coreia do Norte, e aquilo parece completamente caricato. Eles olham a partir do Reino dos Infernos. No reino dos infernos nós pensamos como agredir os outros, essa é a nossa inteligência. Como atingir primeiro os outros.

Há os seres que estão no Reino dos Famintos, ou seja, eles estão sempre demandando alguma coisa. Eles dizem “a minha vida só vai melhorar quando eu tiver tal coisa.” Eles estão o tempo todo demandando alguma coisa. Insatisfeitos, não importa o que têm, eles nunca veem o que está presente, eles veem o que falta.

Aqui a gente olha com a sabedoria do espelho, ou seja, eles não estão errados, eles têm uma sensação completa de que as coisas são assim. Então, dentro da visão complementar nós não vamos dizer que eles estão errados. Eles estão construindo o mundo deles, eles estão construindo a experiência deles através disso.

Então, a gente entende que temos uma forçazinha, se usarmos um pouco de habilidade vamos obtendo e suprindo as necessidades.

Depois disso nós temos os seres competitivos [Reino dos Titãs, Semideuses ou Ashuras] – isso tudo o Buda falou, não é uma coisa moderna, tem 26 séculos, então já era assim, imaginem. Então tem os seres competitivos, não importa se eles estão bem, eles olham em volta e veem como é que o outro está… se o outro estiver melhor, então eles não ficam bem. Não sei se vocês conhecem alguém assim…

Depois nos temos os seres que são chamos de Deuses [Reino dos Deuses], tudo dá certo para eles. Tipo o “chefe” rodeado de semideuses tentando ocupar o lugar dele, todos trabalhando para tentar galgar o lugar do chefe. O símbolo disse é, no reino dos semideuses cresce uma árvore frondosa, tronco poderoso e raízes fortes, e na metade do troco ela atravessa para o Reino dos Deuses, e os frutos vão todos para os Deuses. Os seres que têm essa sensação, eles também estão no reino do orgulho, da suberba.

No budismo se diz que esses 6 reinos são um problema, porque eles não produzem felicidade de facto. Os infernos não produzem felicidade, a pessoa esta tensa o tempo todo; os seres carentes não têm felicidade porque falta alguma coisa, os desistententes não têm felicidade porque não têm energia, os planejadores não têm felicidade porque o planejamento nunca dá muito certo, eles têm as frustrações constantes; os seres competitivos sempre inevitavelmente têm alguém mais forte, além do mais, o poder deles progressivamente se esvai, passa; e os Deuses, se diz que eles perdem tempo, porque eles sentam sobre um local elevado mas o lugar deles tem prazo de validade, aquilo passa, e é muito frequente os Deuses fazerem um trajeto rápido em direção aos seres famintos, porque quando perdem a posição eles se sentem carentes imediatamente.

Portanto esses ambientes, nenhum deles produz felicidade efetivamente.

E então nós voltamos aquele ponto, nós deveríamos nos movimentar buscando felicidade e superar o sofrimento, então nós não deveríamos nos amortecer dentro de qualquer um desses reinos.

A co-emergência

Nós estamos vivendo um tempo onde a física quântica já tem mais de 80 anos. Nós já temos mais de 80 anos daquilo que ficou chamado como “a visão complementar”. E a visão complementar é justamente o tema deste nosso encontro aqui.

Quando a gente pensa Oriente/Ocidente, na verdade nós estamos mais do que imaginado que nós vamos misturar coisas, a gente está pensando em como é que nós vamos aproveitar diferentes contribuições. Ou seja, como é que nós vamos aproveitar a riqueza da diversidade, da diferença.

Esse tema da complementaridade trata não apenas esse aspeto extraordinário de como é que nós podemos compor diferentes visões junto, mas ele trás alguma coisa de grande importância também filosófica, psicológica e cognitiva. Que é o facto – que foi introduzido especialmente no Ocidente pela física quântica – que sempre que nós olhamos para o mundo, nós num certo sentido construímos o mundo novamente. Essa abordagem cognitiva, é bastante diferente da abordagem do que se chama de física clássica ou da filosofia clássica, na qual o mundo está pronto do lado de fora, e ao observador cabe apenas ver o que ele está encontrando, e se posicionar diante desse mundo que já vem pronto.

A física quântica introduz isso facto extraordinário, que depois Sua Santidade o Dalai Lama vai chamar isso de responsabilidade universal. Ou seja, quando nós olhamos para as coisas nós construímos as coisas. Então nós temos uma responsabilidade com respeito aos nossos olhares. Isso é de grande importância.

Isso também permite que a gente entenda como diferentes pessoas ou diferentes culturas como Ocidente/Oriente, possam desenvolver visões que vão se enriquecer umas às outras. Elas são diferentes, e justamente porque são diferentes, elas vão se enriquecer. Mas não há propriamente uma necessidade de nós pensarmos quem está certo. Não há propriamente alguma coisa do lado de fora, existem é dois olhares que constroem realidades diferentes. Isso é de grande importância.

Eu acredito que para a nossa cultura, no tempo em que nós estamos vivendo, é como se fosse o tempo certo para nós entendermos isso. Eu acho que nós estamos num ponto perfeito para entender esse aspeto assim. Talvez até mais no Ocidente nós entendemos melhor isso do que no Oriente propriamente. Eu pessoalmente acredito que o budismo vai ter o seu tempo dourado nesses tempos de agora. E até mesmo dentro dessa perspetiva que ultrapassa propriamente o aspeto religioso, mas ele se introduz como bom senso dentro de uma cultura. Essa é a abordagem de Sua Santidade o Dalai Lama.

Então é uma coisa muito curiosa, em que surgiu o que é chamado de co-emergência. Quando o cientista pensa as suas próprias teorias, ao olhar a matéria que aparentemente é inerte, uma matéria pronta, fixa, comanda por leis, ele termina encontrando as suas próprias teorias naquilo que ele vê. Então, pode dentro dos seus olhos passam as teorias. Assim, os cientistas estão presos às suas próprias visões. Se diz que o grande obstáculo ao avanço da ciência, não é tanto o que se desconhece, mas o que já se sabe. Porque aquilo que nós já sabemos nos impede de ir adiante. Nos amortece. Aparece sempre novamente diante dos nossos olhos como se fosse uma verdade, e obstaculiza o nosso andar.

Eu acredito que esse tipo de reflexão é muito apropriada nos tempos em que nós vemos obstáculos, e assim nós podemos também entender os obstáculos como a nossa mente produzindo as impossibilidades. Na visão budistas as coisas todas se resolvem sempre num plano subtil, os obstáculo não são reais, sólidos diante de nós. Quando nós mudamos aspetos internos, aquilo que aparentemente era sólido ou era um obstáculo real se transforma.


Palestras do Retiro: A Mandala das 5 Sabedorias

Lama Padma Samten aborda os tipos de faixas ou níveis sob os quais estamos a operar e explica as 5 Sabedorias.

Palestra: A compreensão das emoções na visão budista

Inclui ensinamentos sobre as 5 sabedorias.

Veja também:


Sobre Lama Padma Samten | Lista de Mestres e Professores

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