Filosofia Pessoas e Personalidades

Pensadores e filósofos ocidentais com ideias próximas ao budismo

Neste artigo vamos conhecer alguns pensadores ocidentais que em maior ou menor grau tiveram pontos de vista próximos ao budismo. Alguns destes pensadores tiveram uma influência direta do budismo, outros não receberam qualquer tipo influência mas se aproximaram de algumas concepções. Nenhum deles leva ao objetivo final do budismo, mas a sabedoria de cada um não deixa de ser relevante. Estes são apenas alguns exemplos, sendo que o destaque do artigo vai claramente para o Bento de Espinosa.


Conteúdo:


Pirro de Élis (c. 360-270 AEC)

Acompanhado por Anaxarco, o filósofo Pirro de Élis integrou a expedição de Alexandre, o Grande, numa jornada que o levou das cidades-estado gregas até aos confins da Índia. No ano 327 AEC, a comitiva alcançou a região de Gandhara, um ponto de convergência cultural entre a Ásia Central e o noroeste indiano. Durante os dois anos em que permaneceu no Oriente, Pirro contactou com ginossofistas (filósofos nus) e monges, experiências que moldariam profundamente o seu pensamento.

Ao regressar à Grécia, Pirro optou por uma vida marcada pela quietude e simplicidade. Embora não tenha deixado obra escrita, o seu exemplo prático de vida visava a ataraxia (ἀταραξία) – um estado de imperturbabilidade e paz interior profunda. Este ideal de tranquilidade era partilhado por Epicuro, ainda que as suas abordagens divergissem: enquanto Epicuro procurava a ataraxia através da satisfação de desejos naturais e necessários, Pirro alcançava-a através da suspensão de todos os juízos (epoché), isto é, um estado em que todos os juízos sobre assuntos não evidentes são suspensos para induzir um estado de ataraxia, opondo-se assim ao dogmatismo.

Pirro é amplamente reconhecido como o primeiro filósofo cético grego, dando origem ao Ceticismo Clássico (semelhante mas não idêntico ao ceticismo académico). Esta tradição foi preservada e sistematizada por figuras como: Sexto Empírico (séc. II EC), cuja obra é a principal fonte para compreendermos o pirronismo na sua fase mais tardia; e David Hume (séc. XVIII), frequentemente associado a um neo-pirronismo.

A tese de que o pirronismo foi diretamente influenciado pelo budismo primitivo tem ganho relevo entre historiadores contemporâneos. A estrutura lógica de Pirro – que sugeria que as coisas são igualmente indiferenciadas, instáveis e indeterminadas – assemelha-se notavelmente às Três Marcas da Existência (Tilakkhana) do budismo. Embora o debate sobre o peso exato desta influência versus as raízes gregas (como a escola de Demócrito) continue em aberto, académicos como Christopher Beckwith defendem que existe um claro paralelo entre os ensinamentos de Pirro e o Trilaksana:

“A parte mais importante dos ensinamentos básicos de Pirro relatados por Aristóteles, como a sua declaração surpreendentemente incomum sobre as três características de todas as coisas, é claramente a sua interpretação da afirmação do Buda sobre o Trilaksana, i.e., as três características de todos os dharmas.” (Christopher I. Beckwith, Greek Buddha: Pyrrho’s Encounter with Early Buddhism in Central Asia, Princeton University Press, 2015, p. 220)

“A versão de Pirro do Trilaksana é tão próxima da versão budista indiana que é virtualmente uma tradução dela: tanto o Buda quanto Pirro fazem uma declaração na qual listam três características lógicas de todas as coisas e lhes dão exclusivamente um prefixo de negação, ou seja, ‘todos elas são não-x, não-y e não-z.’…

Essa passagem sobre as três características, certamente que até é o fragmento mais antigo do texto doutrinário budista. Está firmemente datado de três séculos antes dos textos de Gandhara.

Agora, o Trilaksana não é apenas um ensinamento budista qualquer. Ele está no centro da prática budista e é considerado o coração e o âmago de qualquer tipo de budismo vivo.” (Beckwitch, op. cit, p. 31)

[Do artigo: Interações entre o budismo & a cultura europeia antiga]

Séneca (c. 4 AEC-65 EC)

Lucius Annaeus Séneca foi um destacado filósofo romano do período imperial e um dos mais influentes expoentes do estoicismo. Como conselheiro de Nero e autor de cartas e ensaios morais em latim, Séneca sustentou que a virtude (entendida como sabedoria, justiça, coragem e temperança) é o único bem verdadeiro, ao passo que as paixões e as circunstâncias externas (riqueza, saúde, reputação etc.) são em si indiferentes. Nas suas obras, enfatiza o domínio racional sobre as emoções e a busca de uma felicidade interior independente dos acontecimentos do mundo. Ao observar que alegrias fundadas em conquistas externas frequentemente acabam por ser “o começo de futuros sofrimentos”, um diagnóstico em linha com visão budista sobre a insatisfatoriedade das coisas mundanas.

Essa perspetiva estoica aproxima-se do budismo na defesa de uma felicidade enraizada no interior do indivíduo, isto é, em estados mentais hábeis que nos tornem capazes de resistir aos altos e baixos da vida. Em ambos os casos, adverte-se contra o domínio do desejo e das paixões. Tanto o budismo quanto o estoicismo ensinam que não devemos passar a vida buscando prazeres mundanos. Há algo muito mais significativo a se buscar: a perfeição da mente. O nosso apego às coisas materiais é a origem de grande parte do sofrimento humano.

Séneca declarou que “Homem poderoso é aquele que tem poder sobre si mesmo”, assim como o Buda afirmou que “Embora se possa conquistar mil homens mil vezes em batalha, contudo aquele que se vence a si mesmo é sem dúvida o mais nobre dos vencedores.” Disse também Séneca que “Toda a crueldade surge de uma fraqueza”, e que “Nada provoca maior dano à razão do que a raiva. Ela nos cega e nos arrasta para onde não escolheríamos ir”. Para o budismo a raiva é um chamados dos 3 Venenos mentais.

Epicteto, outro dos grandes estoicos disse: “Os homens não são perturbados pelo acontecimentos em si, mas sim pela opinião que têm sobre os acontecimentos.” Na mesma linha de pensamento, Marco Aurélio escreveu: “E aqui estão dois dos pensamentos mais imediatamente úteis que você poderá absorver. Primeiro, que as coisas não podem tocar a mente: elas são externas e inertes; as ansiedades só podem vir do seu julgamento interno. Segundo, que todas essas coisas que você vê mudarão quase no instante em que você as observa, e então deixarão de existir. Traga constantemente à mente tudo aquilo que você já viu mudar. O universo é mudança: a vida é opinião.” Marco Aurélio disse também: “A cada hora, concentre a sua mente atentamente… na execução da tarefa em questão, com dignidade, compaixão, benevolência e liberdade, e deixe de lado todos os outros pensamentos. Você conseguirá isso se realizar cada ação como se fosse a última…” Essa forma de pensar é muito semelhante ao budismo, que enfatiza o aspecto impermanente da vida humana e a natureza transitória da existência, a equanimidade e a atenção plena (sati).

A filosofia estoica e o budismo são caminhos que ajudam a que os seres humanos conquistem maior independência das circunstâncias das suas vidas e se tornem mais estáveis ​​emocionalmente. São várias as semelhanças entre os dois sistemas, porém, também existem muitas diferenças. Séneca acreditava num poder superior, não como um Deus antropomórfico, mas como uma Razão Universal (Logos) ou Natureza Divina que governa o cosmos. O budismo por outro lado rejeita o conceito de Deus demiurgo, embora eventualmente alguns conceitos budistas possam assemelhar-se à visão estoica. Os estoicos acreditam numa alma (pneuma), enquanto que o budismo defende a doutrina do não-eu (anatta), ou seja que não existe uma alma ou eu imutável e permanente. No budismo acredita-se no kamma, renascimento, samsara, e em muitos outros elementos que não fazem parte do estoicismo. O objetivo final do estoico é a apatia, não no sentido moderno do termo, mas como a paz de espírito, semelhante ao ideal epicurista de ataraxia, enquanto que no budismo o objetivo último é o Despertar e o Nibbana.

Para conhecer melhor sobre os pontos em comum e diferenças, poderá consultar os seguintes artigos (links externos): Do Buddhists Have Fellow Travelers in the Stoics? (Tricycle); Stoicism & Buddhism: Lessons, Similarities and Differences (Daily Stoic); How Buddhist is Stoicism? (Modern Stoicism).

Bento de Espinosa (1632-1677)

Bento de Espinosa ou Baruch de Spinoza, filho de pais portugueses, nasceu na Holanda, na época República dos Sete Países Baixos Unidos, também conhecida como Províncias Unidas. Os seus pais, perseguidos pela Inquisição em Portugal, refugiaram-se na comunidade judaica portuguesa de Amesterdão, onde Bento nasceu e viveu até ser excomungado. Embora vivesse nos Países Baixos, a sua língua materna era o português e ele era referido como parte da “Nação”, termo que designava os judeus de origem portuguesa.

Espinosa recebeu uma educação judaica e a sua inteligência era tal que, desde cedo, os seus professores pensaram que ele poderia vir a ser o futuro líder religioso da comunidade. Porém, precocemente, à medida que se ia aprofundando no estudo das escrituras, começou a encontrar incongruências e falhas que o levavam a fazer perguntas incómodas, cujas respostas dos seus mestres não o satisfaziam.

Começou então a aprender latim para ter acesso à sabedoria de outros filósofos, tendo sido Thomas Hobbes e Descartes duas das suas grandes influências, embora mais tarde se tenha em parte distanciado de ambos.

Os seus estudos e as suas reflexões o levaram a cada vez mais colocar em causa o conceito de Deus que lhe era ensinado, um Deus criador no qual devíamos temer, que dava castigos, mas que também era bom e respondia a preces. Numa época em que Deus era o centro de tudo e em que a Bíblia era vista como a única fonte de informação sobre a realidade, pensamentos como esses eram subversivos e radicais, mesmo num país com ideias cada vez mais liberais. Espinosa tinha um grupo de companheiros com o qual discutia as suas ideias, mas fora desse círculo próximo, tinha sempre de ter muita cautela com o que dizia.

Apesar da cautela, ele não resistia a falar aqui ou ali sobre as suas ideias. E assim, a sua reputação de herege começou a espalhar-se, culminando no seu julgamento e excomunhão. O seu cherém, particularmente severo, incluía maldições terríveis e escuridão eterna. Espinosa teve que abandonar a comunidade judaica, o que significava que ninguém mais poderia falar com ele, incluindo a própria família, sob pena de serem também excomungados. Para muitos, a excomunhão significava a perda total de identidade e de sustento, por isso acabavam por pedir perdão e implorar para serem aceites novamente na comunidade, algo apenas possível, e dependendo da “gravidade”, se se submetessem a certas penalidades e humilhações publicas, como receberem chibatadas na sinagoga e estenderem-se no chão para serem pisados nas nádegas pelos fiéis. Bento porém, depois de ser excomungado seguiu o seu caminho, embora às escondidas tenha conseguido falar esporadicamente com a família e antigos amigos. Aliás, essas punições publicas que teria presenciado em criança, também o teriam levado a questionar os ideais religiosos que lhe eram transmitidos, assim como o facto do seu povo ter sido vitima de perseguições e muitas pessoas terem-se tornado refugiadas, mas depois serem essas mesmas pessoas a acabarem por descriminar os seus pares apenas por pensarem diferente.

Anos depois de ser excomungado Espinosa publicou de forma anónima, para evitar sérios problemas, o Tratado Teológico-Político, uma das suas obras mais importantes e chocantes. Tentou publicar a Ética, a sua obra-prima, mas esta era de tal forma radical para a época que foi forçado a desistir devido à forte oposição, tanto por parte de judeus como de cristãos. A Ética, assim como outros escritos, apenas veriam a luz do dia postumamente. As mudanças no mundo raramente acontecem devido apenas a uma pessoa ou a um único acontecimento, costumam ser o resultado de um conjunto de fenómenos ao longo do tempo, uns com mais e outros com menos impacto. O Bento é um dos que podemos dizer que teve um peso excecional. Pode parecer uma afirmação exagerada, mas como veremos mais adiante, após a publicação dos seus textos o mundo não voltaria mais a ser o mesmo.

Na Europa durante esse época, alguns filósofos, mais direta ou indiretamente, já questionavam alguns princípios religiosos e políticos, mas ninguém se atreveu a ir tão longe e a ter a ousadia de Espinosa.

Deus sive Natura (Deus ou Natureza), foi uma das ideias fundamentas de Espinosa. Ele identificou Deus como a natureza. Ou seja, ele “matou” o Deus criador, externo e pessoal, interferente, que distribui castigos e benesses. Deus, ou seja… a natureza, não é pessoal, não é uma personalidade, não julga e não tem vontade própria, é parte de nós, e manifesta-se através das leis da física, através de causas e condições. É infinito e a tudo abarca.

Outra das características chaves do pensamento de Espinoza é a razão. É através da razão que podemos chegar à Verdade, através da razão podemos nos libertar das nossas emoções negativas, das paixões que nos arrastam para aqui e para ali. É através da razão que procuramos o que é verdadeiramente útil para nós e para os outros, promovendo a alegria e a cooperação social. Um homem que vive sob o ditame da razão deseja para os outros o mesmo que deseja para si próprio.

Temer a Deus era visto como o garante da ética, mas para Espinosa, fazer ou deixar de fazer uma ação por temer a Deus, é muito inferior do que fazer ou não fazer com base na razão. Para Espinoza, viver sob medo é viver na servidão, não na virtude. Na visão tradicional, a virtude é o caminho para obter uma recompensa (o Céu); para Espinosa, a virtude é a própria felicidade. O “temor a Deus” é uma ferramenta útil apenas para controlar as massas que ainda não atingiram o uso pleno da razão (a política e a religião organizada usam-no para manter a ordem). Mas, para o indivíduo que procura a verdadeira sabedoria, fazer o que é razoável por compreensão é o único caminho para a liberdade e a felicidade.

Podemos desde já identificar alguns aspetos do pensamento de Espinosa que se aproximam do budismo e outros que se distanciam. O Buda também rejeitou o conceito de Deus demiurgo, que não sua região era chamado de Brahma. Alguns professores budistas comparam a visão de Deus de Espinosa com algumas concepções budistas, embora outros não se atrevam a fazer esse tipo de comparação.

Para o budismo a razão e a lógica também são capitais, porém, o budismo não se prende na razão, na verdade vai além da razão, no budismo a sabedoria transcende a razão; a realização experiencial direta é fundamental. Por isso a meditação é uma ferramenta essencial, e também por isso os koans da tradição Chan/Zen só podem ser resolvidos e compreendidos sem a mente racional e dual. Embora a razão seja importante, é a experiência direta, o insight que levam à sabedoria. Além do mais, a razão e a lógica também podem levar a enganos. A nossa natureza última está além da mente dualista e pensante. A nossa verdadeira natureza e a verdadeira natureza de todas as coisas não podem ser compreendidas pelo intelecto, pela armadilha ilusória da mente dualista. Algo que é difícil para nós aceitarmos porque somos viciados nos nossos próprios pensamentos e ideias, no nosso intelecto e ego.

O Mestre Maida Shuichi do Budismo Shin tinha um grande respeito por Espinosa, chegou mesmo a dar aulas sobre o livro Ética a partir de uma ótica budista, e o considerava uma espécie de Buda do Ocidente. No artigo Budismo, a ideia de Deus e o mundo espiritual, é abordada a perspetiva de Deus do ponto de vista budista e tocando também no conceito de Deus de Espinoza.

Bento de Espinosa foi um dos grandes filósofos da humanidade. As suas ideias tiveram uma influência profunda na sociedade.

Ele foi um dos primeiros a tratar a Bíblia não como um texto sagrado literal ditado por Deus, mas como um documento histórico escrito por homens para homens. Ele aplicou o método da razão para analisar as escrituras, algo que se tornaria uma marca registada da Idade das Luzes no século XVIII, e que ainda hoje é utilizado nos cursos de Teologia e História, tendo inspirado a hermenêutica que os historiadores usam para analisar textos antigos.

Espinosa foi um dos grandes percursores do iluminismo e uma figura central do “Iluminismo Radical”. Enquanto que o Iluminismo Moderado, do qual Voltaire é um dos principais representantes, procurava conciliar a razão e a ciência com a religião e as estruturas de poder existentes, o Iluminismo Radical, na qual se incluía Espinosa e os seus seguidores, defendia uma rutura total. Espinosa era um apologista da democracia, da liberdade individual e da igualdade.

Antes de Espinosa, a política era muitas vezes justificada pelo “direito divino”. Mas no seu Tratado Teológico-Político, ele argumenta que: o Estado deve ser completamente laico; a liberdade de pensamento e de expressão é essencial para a paz social; e a democracia é o regime mais natural, pois é o que mais se aproxima da liberdade que a Natureza concede a cada indivíduo. Para ele “O verdadeiro objetivo da governação é a liberdade.” Essas são ideias que hoje fazem parte da nossa sociedade moderna baseada na democracia liberal. O pensamento de Espinosa foi o motor invisível da modernidade democrática.

A primeira emenda à constituição dos EUA começa com estas palavras: “O Congresso não fará nenhuma lei respeitante ao estabelecimento de uma religião ou proibirá o livre exercício de uma delas.” Esta curta frase, que corta com o passado, pondo em causa a perigosa relação de cumplicidade entre o Estado e a Igreja e estabelecendo um princípio fundamental do Estado de direito, é hoje consagrada em muitos países e, o que poucos sabem é que tem a sua origem em Bento de Espinosa.

Apesar de ser um dos fundadores do liberalismo (não no sentido clássico, mas como um defensor da primazia da razão), e um defensor acérrimo da liberdade de pensamento, o impacto de Espinosa estendeu-se a pensadores que posteriormente produziram ideologias contrastantes. A ideia de “religião da razão”, que alguns viram como implícita no seu pensamento, acabou por ser reinterpretada e absorvida por ideologias que assumiram características de “religiões políticas”, embora tais desenvolvimentos não estejam presentes nem sejam defendidos na obra do próprio Espinosa. Do que conhecemos do Bento, o seu pensamento se aproxima mais de movimentos políticos subsequentes, como o liberalismo social, a social-democracia (em menor grau) e o progressismo, ainda que não possa ser identificado exatamente como tal.

É surpreendente, que uma figura tão marcante tenha sido quase esquecida ou pouco falada. Durante quase cem anos após a sua morte, o nome de Espinosa era sinónimo de “ateu perigoso”. Muitos filósofos iluministas liam-no, mas em segredo e evitando citá-lo publicamente para não serem perseguidos. Talvez por isso ele não tenha tido o destaque que outros tiveram.

Em Inglaterra, Coleridge nomeou a Ética como uma das maiores obras; Bertrand Russel reconheceu Espinosa como “uma das mais importantes pessoas do meu mundo”; na França, Taine proclamou-o como o percursor da visão mais objetiva das ciências sociais; e Henri Berson chegou mesmo a afirmar: “quando se é filósofo, tem-se duas filosofias: a sua e a de Espinosa”. Somerset Maugham chegou ao ponto de usar o título da quarta parte da Ética, “A Servidão Humana”, como título de um dos seus romances mais famosos; e Ludwig Wittgenstein se inspirou no título Tratado Teológico-Político quando escolheu Tratado Lógico-Filosófico como titulo de uma das suas obras mais afamadas.

Bento de Espinosa, direta ou indiretamente, muito ou pouco, influenciou pensadores e filósofos, tais como: John Locke, Gotthold Ephraim Lessing, John Toland, Friedrich Jacobi, Heinrich Heine, Goethe, Immanuel Kant, Hegel, Schopenhauer, Heinrich Heine, Friedrich von Schiller, Nietzsche, Jorge Luis Borges, Sigmund Freud, Albert Einstein, entre muitos outros. No fundo, o mundo em que hoje vivemos é o mundo de Espinosa (que atualmente está em crise e sob ataque, e depois de muitas décadas a progredir, começou regredindo, embora existam alguns sinais de uma possível reversão).

Se quiser conhecer melhor este grande filósofo nascido na Holanda e filho de pais portugueses, o livro O Segredo de Espinosa, de José Rodrigues dos Santos, é um romance histórico muito interessante sobre a sua vida, obra e impacto no mundo.

Schopenhauer (1788-1860)

Arthur Schopenhauer, o filósofo alemão do século XIX, estudou e foi influenciado pelo budismo, embora não o tenha compreendido completamente.

Ele propôs que o mundo que percebemos é apenas uma “representação”, uma fachada, sustentada por uma força subjacente, irracional e cega que ele batizou de Vontade. Para ele, esta Vontade é um querer incessante que condena o ser humano a oscilar perpetuamente entre a dor da carência e o tédio da satisfação. De forma semelhante, no budismo dukkha (a insatisfação inerente à vida) é o resultado direto do Tanha (o desejo ou “sede” ardente).

Embora o diagnóstico seja quase idêntico, a “cura” e a atitude perante a vida revelam as maiores distâncias entre os dois. Schopenhauer oferece uma visão mais sombria e estética; para ele, a libertação é um ato de negação do querer e da superação dos desejos, muitas vezes alcançada momentaneamente através da contemplação artística ou da música. Já o budismo apresenta-se como um caminho pragmático, esperançoso e progressivo, focado na disciplina mental e na meditação para atingir o Nibbana. Enquanto o budismo é uma via espiritual de libertação e esperança na iluminação, Schopenhauer permanece como um observador melancólico. O que os une é a profunda compaixão: a ideia de que, ao reconhecermos o sofrimento no outro, quebramos as barreiras do ego e compreendemos a unidade da vida.

Schopenhauer pode não ter alcançado a serenidade de um monge, mas deu ao Ocidente as ferramentas para compreender que a paz não está na satisfação de todos os desejos, mas na nossa libertação perante eles. Ele foi um dos primeiros filósofos ocidentais a integrar seriamente o pensamento oriental na filosofia europeia.

Para saber um pouco mais consulte a reportagem em [Vídeo] Ser ou não ser, Schopenhauer e Budismo.

Charles Darwin (1809-1882)

Até meados do século XIX, a maioria dos cientistas ocidentais compartilhavam a ideia de que Deus tinha concebido todas as criaturas do planeta. Alguns cientistas já falavam numa possível evolução das espécies, mas Darwin foi o primeiro a oferecer provas da seleção natural. De acordo com a sua tese, há uma luta pela sobrevivência na natureza, mas aquele que sobrevive não é necessariamente o mais forte (como muitas vezes é erroneamente afirmado), mas sim, o que melhor se adapta às condições do ambiente em que vive. Para essa adaptação, a cooperação e empatia têm um papel fundamental. Charles Darwin mostrou que todos os organismos vivos são membros relacionados de um sistema conectado.

De acordo com Paul Ekman, existem semelhanças tão incríveis entre os textos de Darwin e a filosofia budista tibetana que é provável que tenha sido uma fonte de inspiração. As passagens nas quais o cientista vitoriano abordou a compaixão e a moralidade são “praticamente as mesmas, ou exatamente as mesmas” que os textos budistas tibetanos. Darwin poderia ter absorvido os ensinamentos budistas tibetanos através do seu amigo Joseph Hooker, que esteve no Tibete, e da sua esposa que também teria interesse pelo budismo. Ekman chegou mesmo a revelar que ao ler alguns passagens de Darwin ao seu amigo Dalai Lama, ele disse: “Agora vou-me chamar de darwiniano”.

Para conhecer um pouco mais de detalhes consulte o artigo no Olhar Budista: Charles Darwin teria se inspirado no budismo?

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

Existe alguma convergência entre Ludwig Wittgenstein e o budismo na forma como ambos encaram a linguagem e os limites do pensamento. Tanto Wittgenstein como as tradições budistas, em especial o Zen, reconhecem os limites do discurso conceitual.

Em Investigações Filosóficas, Wittgenstein rejeita a procura por essências fixas ao introduzir o conceito de “semelhanças de família”, uma abordagem que encontra um paralelo na doutrina budista da śūnyatā (vacuidade), formulada sobretudo por Nāgārjuna, que nega a existência de naturezas intrínsecas nos fenómenos, entendendo-os como interdependentes.

No Tratado Lógico-Filosófico, Wittgenstein compara as suas proposições a uma escada que deve ser abandonada após cumprir a sua função, enquanto o Buda descreve os ensinamentos como uma jangada a ser deixada ao alcançar a outra margem.

Martin Heidegger (1889-1976)

Martin Heidegger foi um filósofo alemão que construiu a sua doutrina em torno da questão do ser e da existência. A sua principal obra é o Ser e Tempo. Ele usa o termo alemão Dasein (Ser-aí). O homem não é um sujeito isolado, ele é um “estar aí” no mundo. Monja Coen encontra vários pontos de contacto entre as ideias de Heidegger e alguns aspetos do budismo, principalmente com o pensamento de Dogen. Para saber mais consulte os artigos: Heidegger e o Oriente e Martin Heidegger conversa com um Monge Budista sobre Tecnologia e Filosofia.

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