“Shobogenzo significa todo o universo, quer dizer, não apenas em relação ao que é justo mas a tudo o que existe no universo. Tudo o que existe tem a natureza de Buda ou Shobogenzo; tudo tem a mesma importância mas, por outro lado, toda a existência tem o seu karma próprio, é diferenciada pelo seu karma e é independente.” – Taisen Deshimaru (1914-1982)
Excerto da Introdução ao Shobogenzo, do livro Verdadeiro Zen, de Taisen Deshimaru. Editora Assírio & Alvim.
Introdução
O Shobogenzo, livro sagrado do budismo zen japonês, foi redigido entre 1231 e 1253 pelo fundador do zen Soto japonês, Mestre Dogen.
Esta obra desperta actualmente um grande interesse não só naqueles que estudam o budismo no Japão mas também em muitos investigadores, no contexto de todas as disciplinas da vida contemporânea: moralistas, psicólogos, médicos, matemáticos, físicos, etc.. […]
Para lá do orientalismo, para além das religiões, este livro propõe a toda a humanidade um método para encontrar a liberdade interior, a felicidade, a paz universal e a verdade eterna.
No Japão, todos estão de acordo em dizer que o Shobogenzo é um livro difícil de penetrar, mesmo para pessoas de grande cultura e grande inteligência, e isto acontece essencialmente pelas três seguintes razões:
1 — A intenção deste livro é a de explicar como estudar e conhecer a nossa vida e o nosso espírito ilimitados e impertinentes, que não podemos fixar a nenhum momento e a nenhum lugar. Ninguém pode agarrá-los nem explicá-los com precisão através do raciocínio lógico ou através de qualquer classificação.
Por seu lado, Mestre Dogen descreveu com toda a possível profundidade as experiências do seu corpo e do seu espírito. Também isto pode parecer difícil de compreender por aqueles que não passaram por experiências comparáveis e sobretudo pelos Ocidentais, cujo espírito é provavelmente mais lógico que o dos Orientais.
O Shobogenzo não é um tratado lógico, não é ilógico, está para além de toda a lógica.
2 — Este livro está escrito em frases curtas e simples que representam a essência do pensamento do mestre Dogen, tais como: «Se as vossas mãos estão abertas, elas podem receber tudo» (cap. 1, Bendowa); ou então: «Explicar um sonho num sonho é criar a ilusão na ilusão ou encontrar o satori no satori», ou ainda: «O sonho é todo o universo» (cap. 38, Muchu setsu mu).
É impossível compreender estas frases rapidamente, no decorrer da sua leitura e dum ponto de vista puramente lógico. É preciso estudá-las e reflectir nelas para apreender o seu sentido profundo.
3 — Este livro foi composto por Mestre Dogen depois de uma longa prática de zazen, isto é, com um espírito puro e uma intuição sem limites, sem ser guiado por nenhum conceito ou sistema lógico e formal, tais como os que podemos encontrar nas filosofias ocidentais. Assim, se o lerem utilizando somente os conhecimentos discursivos necessariamente limitados, que puderam adquirir, correm o risco de ele vos complicar o espírito e de vos parecer bem difícil.
Em contrapartida, se o lerem numerosas vezes depois de uma longa prática de zazen, compreendem-no facilmente e encontrarão nele um tesouro maravilhoso: a verdade.
Este livro foi escrito por Mestre Dogen para convidar à prática da espiritualidade na vida, mais do que apenas ao estudo dos textos.
TAISEN DESHIMARU
A 4 de janeiro 1970, no dojo de Paris
Composição do Shobogenzo
O seu significado
Significado do título
Sho significa, em chinês e em japonês, verdadeiro, correcto, o mais alto, o maior, absoluto.
Bo significa Dharma, verdade eterna, imortal, universal, imutável. Por isso, shobo quer dizer o mais alto princípio, verdade absoluta, essência do budismo.
Buda afirma: é a verdade única do Dharma absoluto que eu experimentei. É o verdadeiro nirvana e bodhi (satori), o meu espírito original, a minha verdadeira pureza, a minha verdadeira natureza de Buda.
Buda transmite directamente este shobo ao seu primeiro discípulo Mahakashyapa, que foi o único a compreendê-lo em toda a sua exactidão e profundidade.
Gen significa olho, globo ocular, o ponto mais importante, princípio essencial. Quer dizer ao mesmo tempo, despertar, regressar à verdadeira razão, às condições normais do espírito original e, finalmente, atingir o satori.
Zo significa depósito, celeiro e, ainda mais, tesouro.
Shobogenzo significa pois o tesouro no qual se conserva a verdade mais elevada, a mais larga, a mais profunda, a essência do Dharma, o espírito de Buda.
Significado do conjunto
Shobogenzo significa todo o universo, quer dizer, não apenas em relação ao que é justo mas a tudo o que existe no universo. Tudo o que existe tem a natureza de Buda ou Shobogenzo; tudo tem a mesma importância mas, por outro lado, toda a existência tem o seu karma próprio, é diferenciada pelo seu karma e é independente. Quando vemos uma vaca vemos todo o animal: a sua cabeça, os seus cornos, o seu rabo, o que constitui o animal, mas estas partes diferentes podem igualmente ser separadas em pele, carne, ossos, etc..
A essência do Shobogenzo não se pode explicar pela linguagem nem através de frases. Deve ser transmitido pela compreensão no silêncio, «da minha alma à tua alma», de mestre experimentado na prática do zazen ao discípulo que faz a experiência, numa compreensão mútua.
O Shobogenzo do Mestre Dogen foi escrito como uma cristalização da sua experiência religiosa. Para o compreender temos de o experimentar. A sua experiência quer dizer: prática de zazen. Sem a prática, não podemos compreendê-lo profundamente com o nosso conhecimento limitado. Devemos encontrá-lo no interior do nosso próprio espírito que contém este tesouro.
Devemos fazer uma revolução interior e devemos estar atentos para despertar em nós o shobogenzo que aí, no seu mais profundo, se encontra.
De facto, segundo a tradição, todos os que quiseram ler este livro não o puderam fazer sem praticar zazen. Somente poucas pessoas que continuaram a prática de zazen e eram seguidas atentamente por um verdadeiro mestre durante muito tempo, dez ou vinte anos talvez, puderam finalmente penetrá-lo. Só após bastante tempo, com a prática, podemos compreendê-lo.
Isto significa lê-lo não somente com os olhos mas com todo o nosso ser e com a nossa experiência de zazen.
Em breve, o Shobogenzo significa prática de zazen e zazen significa penetração de todos os fenómenos, de toda a existência, do universo através do nosso corpo, do nosso espírito, da nossa experiência.
Redacção do livro
O Shobogenzo é a obra-mestra de Dogen. Compõe-se de noventa e cinco capítulos de tamanhos desiguais.
Quando voltou ao Japão, após a sua longa viagem na China, Mestre Dogen expôs aos seus discípulos o ensinamento que tinha recebido do Mestre Nyojo e que constitui a essência do zen Soto.
Como ele não tinha o seu próprio templo, fez conferências e escreveu em sete templos sucessivamente:
— o templo Annyoin na aldeia Fukakuza perto de Quioto;
— o templo Koshoji na aldeia Uji perto de Quioto;
— o templo Rokuharamitsuji em Quioto;
— a casa de M. Hatano em Quioto;
— o monte Zenji na montanha do actual templo Eiheiji;
— o templo Kippoji (o templo Eiheiji de hoje em dia);
— o templo Daibutsuji (como o de cima).
Estas conferências espalharam-se ao longo de vinte e três anos, desde o terceiro ano da era Kenchi à época do mikado Gohorikawa, até ao quinto ano da era Kenchi na época do mikado Gofu Kakusa (o que corresponde aos anos 1231 até 1253).
Depois da morte do Mestre Dogen, os seus discípulos reuniram os apontamentos escritos por eles e acrescentaram os textos escritos ocasionalmente pelo próprio Mestre Dogen.
Foi assim que compuseram o Shobogenzo.
Espírito e concepção do livro
Os noventa e cinco capítulos do Shobogenzo tratam de diversos problemas que podem ser reagrupados como se segue:
- Essência do zen Soto (Bendowa);
- Todos os fenómenos são um koan (Genjo Koan);
- A natureza de Buda (Bussho);
- Filosofia do tempo e do espaço (Uji);
- O zen e a natureza (Keisei sanshoku, Sansui Kyo);
- Aprender com o corpo e o espírito (Shin Jin Gakudo);
- A transmissão do ensinamento (Shisho, Juki, Den e);
- O kesa (Kesa Kodoku e Den e);
- Os sutras (Maka Hannya Haramitsu, Kannin, Bukkyo, Hokke Ten Hokke);
- A vida quotidiana e zazen (Genjo Koan, Senjo, Gyoji, Shishobo, Senmen, Hachi Dainin Kaku).
A prática do zazen (Bendowa)
Neste livro, Mestre Dogen insiste sempre no facto de a essência e o princípio do budismo serem somente a prática de zazen e que eles não são nem jo (meditação) nem a prática de jo, sendo esta um dos três elementos:
Kai (sila): preceitos, jo (meditação) e e (sabedoria através dos sutras), que são o ponto de partida dos estudos sobre o budismo.
Segundo ele, sentar-se em zazen é nirvana. Sem a prática de zazen não se pode obter o satori; quer dizer que a prática de zazen não é senão o satori.
A filosofia do Mestre Dogen não é uma filosofia dualista. A verdade obtida através de zazen é a fonte original que alimenta hic et nunc, a nossa vida na sua realidade quotidiana. Esta verdade, isto é, a natureza de Buda está escondida no mais profundo de cada ser humano.
Buda significa: verdadeira liberdade de espírito, a natureza da independência do ser humano.
A prática de zazen é em si própria um método completo, o caminho mais curto para a verdade. A atitude de espírito indispensável durante a prática de zazen é o abandono completo do ego, o não proveito, a ausência de um objectivo utilitário para si mesmo. É assim que se pode entrar em harmonia com o universo.
O satori é simplesmente mushotoku (não proveito e abandono do ego).
Eis um exemplo desta filosofia:
«Todas as coisas, no nosso universo, têm a sua independência e a sua própria dignidade. O sol, a lua, as estrelas, as montanhas, os rios, as plantas, as árvores, os pássaros, os animais, os insectos, os peixes, todas as coisas, mesmo as aparentemente inanimadas, têm a sua própria dignidade ou, noutros termos, possuem a vida fundamental.»
A esta vida, comum a todas as coisas e a todos os seres, pode-se chamar Buda; pois o Buda é comum a todos os seres e coisas, no sentido que ele conhece todas as coisas e todos os seres tal como são. É este conhecimento que ele possui que se chama o supremo satori, o que significa também as condições normais e originais do espírito, o retorno à sabedoria, à verdadeira liberdade interior.
Cada ser e cada coisa no universo existe somente em função da sua coexistência com os outros seres e as outras coisas. A independência dum ser ou de uma coisa é o resultado da interdependência de todos os seres e de todas as coisas.
Todos os fenómenos são um koan (Genjo Koan)
Todos os fenómenos do universo se tornam verdade eterna, verdadeiro zen, são a verdade do zen.
O verdadeiro zen inclui todos os fenómenos actuais do universo e podemos atingir a verdade através da prática de zazen. Este capítulo trata também da orientação, do élan vital na vida do dia a dia da prática de zazen.
Mestre Dogen escreveu: «Estudar a Via do Buda, é estudar-se a si mesmo. Estudar-se a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo é ser certificado por todas as existências do cosmos».
O satori é como a lua que repousa na água, porque a lua não está molhada pela água e a água não está perturbada pelo seu contacto. O luar é vasto e profundo mas pode pousar num leito de água, numa gota de água, num talo de erva…
Há três pontos de vista no budismo, três maneiras de ver as coisas, de as conceber:
1 — Se olhamos à nossa volta, vemos que tudo existe no universo: cada coisa existe, as ilusões, as formas existem, o satori existe, a prática, a vida, a morte, as pessoas existem.
2 — Nada existe, todas as coisas são ku (sunyata, vazio), tudo é somente «visível» neste momento, tudo é ilusão. É o ponto de vista geral do budismo.
3 — O verdadeiro budismo vai para além destas duas concepções, para lá da «existência e da não-existência» dos fenómenos. Por exemplo: «A vida e a morte existem, mas a morte não existe, ela está incluída na vida.»
É a mais alta concepção.
«Mesmo se amamos as flores, as flores morrem, mesmo se não amamos a erva daninha, ela cresce.»
Assim, o primeiro ponto de vista é um ponto de vista analítico, o da filosofia da relatividade.
Não é apenas o ponto de vista científico mas também o do senso comum. Toda a coisa existe. No budismo também. É o ponto de vista racionalista e realista.
O segundo ponto de vista é idealista, aquele que faz apelo ao sentido absoluto, mas também é dualista e somente negativo. Tudo é vazio, tudo é «um». É uma via filosófica, não é toda a verdade.
O terceiro ponto de vista vai para além e faz-nos reconhecer em cada fenómeno as duas concepções precedentes. Inclui tudo: bem e mal, verdade e ilusão, actividade e passividade, formal e informal, vida e morte, sombra e luz…
Devemos unir os contrários, ligar o eterno e o efémero.
Para o verdadeiro budismo, todos os fenómenos são a verdade de Buda.
A Natureza de Buda (Bussho)1
Este assunto é tratado nos capítulos seguintes:
Cap. 1: «A Natureza de Buda»;
Cap. 7: «O universo inteiro é apenas a luz duma pérola, a luz do nosso espírito»;
Caps. 18 e 19: «Nós não podemos compreender o nosso espírito completamente através da nossa consciência pois o nosso espírito é ilimitado»;
Cap. 38: «O sonho é como um sonho»;
Cap. 44: «O espírito de Buda e de todos os grandes mestres»;
Cap. 47: «O universo inteiro depende do nosso espírito»;
Cap. 48: «O espírito de Buda e a natureza de Buda»;
Cap. 54: «Natureza do Dharma» (semelhante a Bussho);
Cap. 80: «Poderes sobrenaturais: nós podemos compreender o espírito dos outros.»
Comentário:
O problema da consciência foi mais aprofundado na filosofia de Mestre Dogen do que nas que foram desenvolvidas no Ocidente até aos nossos dias. Relativamente a estas poderei citar entre outras a de Kant (1724-1804), que expôs o «estado de consciência transcendental», a de Emerson (1803-1882) e a de Bergson (1859-1941), que afirmou em 1901 que as questões da intuição e da consciência seriam os problemas essenciais da psicologia do século XX. As pesquisas dos psicólogos, dos sábios e dos filósofos ocidentais orientam-se actualmente nesta direcção.
É no princípio do século XII que Mestre Dogen expôs a teoria descrevendo detalhadamente o melhor método para reencontrar o estado normal do espírito, o estado original: a prática de zazen.
O Buda Shakyamuni disse:
«Todos os seres e todos os animais têm a natureza de Buda, sempre presente e imutável em cada um.»
Sem a prática de zazen, não podemos encontrá-la e reconhecê-la no nosso espírito. Seria um erro acreditar que somos agora Buda porque temos a natureza de Buda. Quase todas as pessoas a encontram e a reconhecem, mas isto faz-se através do seu karma, perdem o seu caminho, são instáveis, perplexas, ansiosas.
Mas todos os budas a encontraram e reconheceram sem karma. Assim tornaram-se naturalmente budas.
A verdadeira natureza de Buda quer dizer também não se deter em coisa nenhuma. Isto também quer dizer «verdadeira liberdade interior do espírito sem nenhuma restrição vinda de outrem».
Não é uma espécie de iluminação ou de envolvimento particular e isto não quer dizer uma condição especial da consciência.
É a condição mais normal da consciência.
É também um erro pensar que bussho existe no nosso corpo como a grainha de um fruto. A semente de bussho não existe enquanto forma. Ela é ku (sunyata). Ela pode ser encontrada através da prática de zazen, ela é o próprio zazen.
Quando abandonamos o nosso ego e o nosso dogmatismo, estamos em harmonia com todo o universo e podemos encontrar e reconhecer essa natureza em nós mesmos.
É luminosa como o brilho da lua cheia.
Existe não apenas durante o tempo de uma vida mas também depois da morte. Ela inclui a nossa mais alta consciência, mas não é ela própria a consciência. Ela é a universalidade e a eternidade.
Filosofia do Tempo e do Espaço (Uji)
Segundo esta filosofia, o tempo já é a existência.
Toda a existência é o tempo, toda a existência é o curso do tempo. Este continua e passa de hoje a amanhã, de amanhã a hoje, de hoje a hoje, de amanhã a amanhã.
O tempo é toda esta corrente, mas esta corrente não é como o vento ou a chuva que se escondem de leste a oeste.
Não é apenas o passado mas também o «agora»: neste momento, neste lugar, ele deve ser agarrado; neste momento, neste lugar, nem que seja a duração de uma respiração.
Neste instante presente, ele deve ser vivido total e intensamente. Neste instante presente, devemos fazer o nosso melhor, toda a nossa energia deve ser concentrada numa só coisa e, fazendo isto, o nosso espírito influencia todos os fenómenos do universo.
Mestre Dogen utilizava as palavras: uji no jikon e uji genjo2 para explicá-lo.
Em Zen e a Arte do Tiro com Arco o prof. Herrigel traduziu as palavras japonesas mushin e muga, em alemão Geistige Gegenwart, por: «espírito aberto», ou «abandono do ego», o estado no qual não se pensa, projecta, persegue, deseja ou não se espera nada de determinado, onde nos sentimos capazes do possível como do impossível, na integridade de uma força não influenciada. Estado a que toda a intenção, todo o egoísmo são alheios, é designado pelo mestre como propriamente espiritual». Carregado, com efeito, de consciência espiritual, também recebe o nome de «verdadeira presença de espírito». Ele vai profundamente ao encontro da filosofia do tempo de Mestre Dogen: «Em definitivo, a nossa consciência, ela própria, é o tempo. Mas o tempo não é nada ou é tudo. Assim toda a concentração da nossa consciência se transforma em não-consciência.»
Mestre Dogen escreveu a última página deste capítulo: «Toda a acção do nosso corpo é também o tempo, seja ela um sobrolho carregado ou um piscar de olhos. E a montanha ou o mar são também o tempo. Se o tempo quebra, a montanha quebra. Se a montanha e o mar são imortais, o tempo também é imortal.»
O zen a a natureza (Sansui, Keisei Sanshoku)
Cap. 14: «Montanha e água — Sansui»;
Cap. 19: «Murmúrio da ribeira no vale e cor da montanha — Keisei Sanshoku»;
O zen japonês foi fortemente influenciado pelo zen chinês de Lao-Tseu e de Sao-Tseu, muito próximo da natureza e diferente da meditação indiana.
Sao-Tseu, por exemplo, foi interrogado pouco tempo antes da sua morte sobre a cerimónia funerária que ele desejaria ter. Ele respondeu que não era necessário celebrar a sua morte pois possuía um caixão imenso: o universo, o céu e a terra, muito mais belos que um pequeno e estreito caixão de madeira e a decoração seria feita com a irradiação do sol, da lua e das estrelas; não seria necessário muita gente a assistir pois teria a companhia de todas as existências, das montanhas, dos rios e de todos os animais. Não precisava de mais nada. Então um discípulo chamou-o à atenção: «Se deixarmos o vosso corpo sobre a terra, os abutres e os corvos virão devorá-lo.» Sao-Tseu respondeu: «Pois é, mas se vocês me puserem debaixo de terra, são as formigas e os vermes que virão devorar-me, o que será a mesma coisa e vocês não têm o direito de fazer uma escolha entre os animais. É preciso entregar-se à Natureza.»
Mestre Dogen não deixou de tratar da relação entre a Natureza e o zen. Ele encontrava o zen no fenómeno natural. Foi um poeta que reconheceu a face de Buda nas cores das montanhas e que ouviu a sua voz nos murmúrios das ribeiras.
A cor das montanhas,
O canto da ribeira
Cada coisa é a face
E a voz de Buda.
«O Buda, o mais alto, não tem forma e é ku (sunyata) e também a natureza ela própria.»
Ele publicou recolhas de poesias tradicionais, das quais a célebre San Sho Do Ei (Escritos na montanha de Eihei).
Quase todos os sábios viveram na montanha. A montanha tornou-se não somente o lugar da sua morada mas também a casa natal do seu espírito. E o seu espírito tornou-se ele próprio a montanha, sem forma nem lugar. O seu espírito e a montanha uniram-se.
Mas mesmo se eles tivessem vivido numa cidade barulhenta, o seu espírito seria sempre idêntico ao que era na montanha e não seria influenciado por nada.
Assim, para os grandes sábios e para os grandes mestres, qualquer lugar de residência ou de passagem torna-se a montanha, curso de água e natureza esplendorosa.
Poemas do San Sho Do Ei de Mestre Dogen
I
Do cimo ao baixo da montanha
As cigarras hoje cantam
Não, elas gritam: este dia passou, passou…
II
Do cimo ao baixo da montanha
As flores e o seu perfume
Aparições na primavera
Dentro da tempestade.
III
O meu verdadeiro espírito, qual é?
Não te posso dizer
Vê apenas a neve e o orvalho
das montanhas.
IV
Quem é Buda?
— olha as estalactites
No tecto da minha pobre ermida.
V
Na montanha
Ao luar de verão
Um pirilampo voa na sombra;
Como é frágil a sua luz!
VI
Não é necessário que me torne
um Buda
Sou demasiado tonto,
Quero tornar-me um monge e viajar
Confundido com pobres gentes,
Como as nuvens que passam no céu
Ou a água que corre da torrente.
Atitude do corpo e do espírito (Shin jin gakudo)
Temos de aprender com o nosso corpo e o nosso espírito.
Todo o universo é o vosso corpo. Assim com o vosso corpo podeis praticar zazen. O vosso corpo é o universo inteiro.
Gakudo wari yu en nari: aprender é mistério e profundidade.
O que é na realidade aprender profundamente?
Não é discutir sobre o bem e o mal, o real e o ilusório, o que é o satori ou o que não o é.
Não é tão simples.
Não devemos parar sobre uma das vertentes da verdade ou do erro porque a nossa vida é toda ela profundidade.
Se somos apenas racionais, o outro lado fica sem solução: o lado irracional e móvel da vida.
Cada vida é diferente.
Também não se trata de sermos somente irracionais, mas de nos tornarmos supra-racionais.
Devemos sempre experimentar ver, imaginar a «outra vertente da montanha, a vertente escondida». Pois apenas no cume se vêem as duas encostas.
«A atracção do monge pela beleza rústica da natureza não é a mesma que a do lenhador ou a do bárbaro.»
«A vossa vida é alguma coisa, a vossa morte também.»
«Não podeis compreender todas estas coisas com a vossa inteligência limitada que classifica em categorias. Devem aprender com o vosso corpo e o vosso espírito: é o verdadeiro shin jin gakudo.»3
Transmissão do ensinamento (Shisho, Juki, Den e)
Mestre Dogen disse: «A essência do Dharma, de outro modo o espírito puro do Buda, deve ser ensinada por um mestre autêntico que herdou por contacto directo o ensinamento do Buda, transmitido directamente ao seu único herdeiro, Mahakashyapa.»
O kesa, hábito de sabedoria e de fé (Kesa Kudoku e Den e)
Cap. 12: Kesa Kudoku — Méritos do kesa.
Cap. 13: Den e — Transmissão do kesa.
Mestre Dogen consagrou dois capítulos do Shobogenzo a explicar claramente a sua fé religiosa no kesa.
Por que insistiu tanto neste ponto? Porque pensava que os objectos mais elevados da fé não eram as estátuas do Buda nem as pinturas mas apenas o kesa. Todos os mestres que estudaram profundamente o budismo acabaram por abandonar os livros e consagraram-se ao estudo do kesa no qual sublinharam frequentemente a utilidade e os benefícios. Para um mestre, transmitir o kesa é transmitir o seu ensinamento e transmitir o espírito do zen.
Mestre Dogen deu muitas explicações sobre o kesa pois na sua época a tradição do verdadeiro kesa tinha-se perdido na Índia e na China. Como acontece o mesmo nos nossos dias, é preciso de novo traduzir estes textos.
O kesa é uma roupa muito simples mas é o símbolo da essência do zen e do espírito do budismo.
Os estudos de Mestre Dogen incidem nos seguintes detalhes: qualidade dos tecidos, cores e dimensões dos kesas que usou Buda e utilidade do kesa através do qual ele ensinou o Dharma e a filosofia do zen. O Buda, com efeito, criou o primeiro kesa e deu-o a Mahakashyapa.
Mestre Dogen ensinou igualmente o modo de o cortar, de o coser, de o usar, de o conservar. A união das peças do kesa figura os trilhos de um campo de arroz, simbolizando a vida feliz do homem que pode saciar a sua fome.
Finalmente ele conclui acerca dos méritos do kesa dizendo: «Basta que não somente um ser humano, mas também um animal toque um verdadeiro kesa recebido dum mestre autêntico, para sentir um benefício maravilhoso»; e também: «O kesa é a bandeira da vitória espiritual do Homem no combate da vida.» Um outro nome do kesa é «a veste da vitória espiritual».
Se cosemos um kesa, se o vestimos e o respeitamos com fé, o mau karma que pode afectar o corpo e o espírito desaparece e pode transformar-se em bom karma.
Além disso, se praticamos zazen usando o verdadeiro kesa recebido do seu mestre e que é respeitado, podemos ser semelhantes ao Buda, atingir a felicidade suprema, a verdadeira felicidade e a paz interior. É então que nos podemos tornar inteiramente num Buda.
A filosofia do kesa é muito profunda. Ela significa: «salvar os seres que não saberão sê-lo normalmente.» O tecido que serve para confeccionar o kesa era na sua origem usado e destinava-se a apodrecer na terra; lavado, passado a ferro e unido cuidadosamente, torna-se o hábito mais elevado.
No nosso coração há um elemento que não pode ser salvo pela moral: quanto mais descemos em nós próprios, mais crescemos na vida espiritual (sho do e).
Mestre Dogen acrescenta: «O kesa é a pele, a carne, os ossos, a moela dos ossos, todo o corpo do Buda. Usar o kesa e compreendê-lo, significa transmitir o shobogenzo.»
Os sutras
Cap. 2: Maka Hannya Haramitsu ou em sânscrito: Maha prajna paramita.
O conjunto destes sutras compreende seiscentos livros cujo Hannya Shingyo é a essência.
Cap. 21: Kangin: como ler os sutras;
Cap. 52: Bukkyo: qual é o verdadeiro ensinamento do budismo?;
Cap. 74: Temporim: Três sutras;
Cap. 43: Kuge: A flor de ku, a filosofia de ku, a essência da sabedoria.
Mestre Dogen dá a seguinte definição dos sutras: São os ensinamentos e as lições que deu o Buda para melhor praticar zazen citando diversas parábolas e exemplos acerca de todos os assuntos.
Consequentemente, se queremos compreender a teoria de ku (sunyata), o espírito original dos sutras, diz Dogen, não podemos fazer doutro modo além de praticar zazen, pois a flor da teoria de ku não é outra senão zazen.
Deste conjunto de sutras, mestre Dogen estudou três particularmente, explicou o espírito e a essência, deu conselhos precisos sobre a maneira de os ler. Eis esses três sutras:
I — Maka Hannya Haramita Sutra (Maha Prajna Paramita Sutra);
II — Kongo Kyo (Vajra Prajna Paramita Sutra);
III — Myo Horenje Kyo (Sadharma Pundarika Sutra);
Vida quotidiana e zazen
Cap. 56: Semmen: como lavar a cara;
Cap. 7: Senjo: como estar na casa de banho;
Cap. 30: Gyoji: a vida quotidiana dos grandes mestres;
Cap. 76: Daishugyo: necessidade de ter um espírito elevado;
Cap. 79: Ango: sesshin;
Cap. 95: Hachi Dainin Kaku: oito satoris do grande homem. Ensinamento do Buda antes da sua morte;
Cap. 45: Bodaisatta Shishobo: regras importantes para os bodhisattva.
Mestre Dogen insiste em que se aplique na vida quotidiana a mesma atitude espiritual de concentração que se pratica em zazen: para se levantar, para as abluções, as refeições, o trabalho, as relações com as outras pessoas, etc…
Ele consagra um capítulo à explicação de cada um dos seguintes assuntos: maneira de se levantar, de tomar um banho, de ir à casa de banho, etc… Além disso encontramos dois volumes, editados à parte, sobre a arte culinária e o modo de tomar as refeições.
Mestre Dogen ensina a viver numa completa liberdade aplicando uma filosofia que inclui todas as contradições.
Esta filosofia consiste em abordar a vida com um espírito profundo e delicado, ficando ao mesmo tempo forte e sem medo na prática e sabendo abandonar o ego.
Eis porque Mestre Dogen insiste tanto na maneira de se comportar na vida.
Ele ensina sempre ittoku itshitsu: se recebemos numa mão, perdemos na outra.
Ele explica no Shobogenzo que a sorte é sempre seguida da pouca sorte. Assim é sempre possível encontrar a felicidade: não devemos ter medo ou ser ansiosos diante da vida.
Algumas histórias do Oriente ilustram bem essa filosofia:
Um domador de macacos tinha por hábito dar aos seus animais quatro punhados de amendoins de manhã e três à tarde. Um dia ele decidiu modificar este regime e deu-lhes três de manhã e quatro à tarde. A primeira manhã em que ele lhes explicou esta mudança, os macacos enfureceram-se pois queriam imediatamente o máximo de amendoins.
Os homens na vida são como os macacos. No momento da morte o resultado será o mesmo, mas eles querem obter o sucesso rapidamente; os verdadeiros sucessos medem-se depois da morte.
A nossa vida é limitada mas a nossa imaginação é sem limites. Se deixamos a nossa imaginação sem limites construir os seus desejos, não podemos encontrar felicidade na vida, estamos sempre inquietos e o nosso espírito torna-se complicado. Assim devemos encontrar a verdadeira liberdade interior e fazer dela a fonte da nossa vida. Assim seremos sempre felizes mesmo se a fortuna está contra nós; a pouca sorte não terá nenhuma influência sobre o nosso espírito.
Uma velha história tradicional do Oriente diz que o diabo nos colocou algemas e que o rei do paraíso só as deixará abrir pelo homem espiritual que encontrou a fé e a verdadeira liberdade interior.
O meu mestre, Kodo Sawaki, dizia sempre que as árvores que são sem interesse para a sociedade vivem muito tempo. Pelo contrário, as árvores úteis são rapidamente cortadas. É preciso ser forte e inteligente interiormente. Pouco importa se parecemos estúpidos exteriormente. Os que possuem uma inteligência superior devem parecer-se com os mais estúpidos.
Para terminar, citarei a história de Sao-Tseu a quem o imperador propôs tornar-se Primeiro-ministro. Sao-Tseu recusou e disse ao imperador: «Com certeza, terei muitas honras se me torno Primeiro-ministro, mas olhe o que se passa com as vacas sagradas: alimentamo-las bem, cobrimo-las de magníficas cobertas, mas em contrapartida elas têm de assistir às cerimónias e nesse momento elas lamentam amargamente não serem simples vacas que podem pastar livremente no campo. Agora sou pobre mas livre, não quero tornar-me Primeiro-ministro.»
Concluirei com Mestre Dogen:
«Se soubermos guardar o estado de concentração do espírito, obtido através da prática de zazen em todas as acções da vida quotidiana, adquirir a verdadeira liberdade de espírito e a paz interior, acharemos que a vida vale a pena ser vivida. É a felicidade suprema — é a perfeição do zen — é a finalidade do zen.»
Quem não poderá ser surpreendido pela grandeza de tal destino?
Quem não se espantará do poder desta vida?
Embora o Shobogenzo só tenha sido lido até à presente data pelos japoneses, e apenas por um pequeno número, desejo de todo o meu coração que esta tradução francesa, por muito desajeitada que ela seja, traga aos numerosos leitores uma justa compreensão das intenções de Mestre Dogen e os incite a praticar zazen para encontrar a luz e a esperança.
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- Títulos japoneses: Cap. 1: Bussho; cap. 7 Ikka Myoju; caps. 18 e 19: Shin Fukatoku; cap. 38: Muchu Setsumu; cap. 44: Kobushin; cap. 47: Sangai Yuisshin; cap. 48: Sesshin Sessho; cap. 54: Hossho (semelhante a Bussho); cap. 80: Tashintsu.
Os números dos capítulos dados são em geral os das edições antigas do Shobogenzo. No entanto nesta numeração, estando por vezes incompleta, tivemos de utilizar os números das edições modernas, que são neste caso precedidas da letra M. ↩︎ - Esta expressão pode traduzir-se por: «aqui e agora» ou «instantaneidade». ↩︎
- Mestre Dogen escreveu a este propósito um livro muito interessante: Gakudoyojin-shu. ↩︎
Observações: No texto de Taisen Deshimaru frequentemente aparece a apalavra “espírito”; o espirito aqui é mais no sentido de mente, de mentalidade, não é no sentido de uma “alma”. Também no texto aparece a expressão «da minha alma à tua alma», essa expressão frequente no zen, do japonês Ishin–denshin, seria melhora traduzida como “de coração a coração” ou “de mente a mente”.
Quando Taisen Deshimaru escreveu a Introdução ao Shobogenzo ainda não existiam traduções dessa obra de Dogen, presentemente, já existem várias traduções, embora não em português na sua totalidade. No livro Verdadeiro Zen, Deshimaru publicou a tradução dos seguintes capítulos: Cap.1 – Bendowa (exposição sobre a importância do zazen), cap. 92 – Shoji (Vida e morte), Cap. 95 – Hachi Dainin Kaku (os 8 satori do grande homem). Nesse livro está também incluído resumos muito curtos de cada um dos restantes capítulos.
Veja também:
- Zazen: o que é e como praticar?
- O Zen e as Artes Marciais
- Anatta (não-eu): desconstruindo a ideia de um “eu” permanente
- Uma leitura Zen da linguagem visual de “Arrival”
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