“Martin Heidegger, filósofo alemão, construiu a sua doutrina em torno da questão do ser e da existência. Ele investigou a existência interior e pessoal. Para Heidegger a ruína do ser acontece com o desvio de cada indivíduo do seu projecto essencial em favor de preocupações quotidianas, o Eu individual seria sacrificado e confundido na massa colectiva da sociedade.” É com essas palavras que a apresentadora introduz o filósofo Heidegger. Seguem-se abaixo algumas breves anotações sobre a palestra.
Primeiramente, o Prof. Marco Aurélio explica a filosofia do Heidegger dividindo a sua explanação em 3 pontos: (1) Contexto no qual se coloca o pensamento Heideggeriano; (2) O problema que Heidegger enfrente com a sua filosofia; (3) As possibilidades que são próprias à filosofia do Heidegger.
Posteriormente, Monja Coen fala dos pontos em comum entre o o pensamento Heideggeriano e o Budismo Zen.
Contexto Histórico: Heidegger nasceu em 1889 e morreu em 1976. É um filósofo que viveu boa parte do século XX. A sua principal obra, Ser e Tempo, é de 1927. Para entender a sua filosofia, é importante situar a atmosfera do início do século XX, em que notamos uma crise da Razão. No fim do século XIX, entram em crise os discursos humanistas que alicerçaram a sociedade ocidental. Surgem filosofias como a de Nietzsche (um crítico radical da moral e que decreta que “Deus morreu”) e a de Marx (que, pelo materialismo, se opõe à ideologia). Ao lado disso, temos o progresso da ciência e da sociedade industrial. A cultura ocidental europeia começa a não conseguir mais regular o mundo através da religião e dos valores tradicionais. A ciência ganha espaço como intérprete da verdade, regulando o mundo segundo padrões de exploração da natureza e produção de mercadorias.
As três vertentes do pensamento do século XX:
- Escola de Frankfurt (via Marx): Enfatiza a questão social, económica e a luta de classes.
- Positivismo/Cientificismo: Acredita que a ciência resolverá os problemas e trará bem-estar (muito forte na sociedade norte-americana).
- Filosofia da Existência (Heidegger): Foca-se no homem entregue a si mesmo, na sua individualidade e conflitos existenciais.
A Questão do Ser: Heidegger diz que “O problema da nossa época é o problema do Ser”. Ele parte do facto de que existe um esquecimento do Ser. Desde Platão até Nietzsche, o pensamento ocidental esqueceu o Ser, focando-se apenas no “ente” (as coisas, a base material). A diferença ontológica: O ente é a coisa (a pedra, o rochedo, Deus), mas o Ser é o que permite que algo seja. Heidegger diz: “A pedra é, mas só o homem existe”. O ser é uma questão essencialmente humana. Quando se diz “João é”, não estamos apenas a listar o que ele tem (casa, carro), mas a apontar para o mistério da sua existência. A ciência moderna (física, matemática) deu um salto tremendo neste esquecimento, focando-se apenas em descobrir a estrutura das coisas e deixando o Ser de lado.
A Analítica da Existência (Dasein): Em Ser e Tempo, Heidegger investiga a existência humana. Ele usa o termo alemão Dasein (Ser-aí). O homem não é um sujeito isolado, ele é um “estar aí” no mundo. O homem vive, na maior parte do tempo, numa existência inautêntica. Está mergulhado no “impessoal”, na opinião pública, ocupando-se com os entes e esquecendo o Ser. A possibilidade de uma existência autêntica surge quando o homem assume o Nada e a Angústia. Não o medo de algo, mas a angústia de existir. Assumir a sua finitude e a Morte. A morte não é um evento final, é um limite presente no interior da existência. É o momento em que o homem se defronta com o Ser.
A Técnica e a Poesia: Mais tarde, Heidegger foca-se na Técnica Moderna. A técnica estabelece uma relação de exploração com a natureza. Para recuperar o acesso ao Ser, Heidegger propõe o caminho da Linguagem e da Poesia. A ciência “calcula, mas não pensa” (no sentido de meditar sobre o sentido). O poeta (como Drummond ou Hölderlin), ao falar de um copo ou de leite, não disseca o objeto quimicamente, mas “produz” a existência, cultiva o ser. A ideia não é que todos se tornem poetas, mas que tenhamos uma relação “poética” (produtiva, de poiesis) com o mundo.
Monja Coen, que faz parte da tradição budista Zen, encontra muitos pontos de contacto.
O Eu e o Esquecimento: Mestre Dogen (séc. XIII) dizia: “Estudar o caminho de Buda é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. E esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo o que existe.” É muito parecido com o que foi dito: estudar o Ser e esquecer o ente. Quando nos estudamos, temos que esquecer as ideias fixas (nome, profissão, papéis sociais) e perguntar: “Quem sou realmente eu?”. Quem somos nós além de nome, profissão e papéis sociais?
Vida e Morte: Dogen diz que a vida é um período em si mesma e a morte é um período em si mesma.
O Pensamento e a Prática (Zazen): Nós sentamo-nos em Zazen (sentar voltado para a parede) não para ficar com a mente em “morte encefálica” ou vazia de tudo, mas para observar a mente incessante e luminosa.
O Intelecto e a Intuição: Tal como Einstein, que fazia equações até à exaustão e depois sentava-se em silêncio para que a criatividade surgisse, nós precisamos do intelecto (estudar os textos sagrados), mas também do silêncio para “acordar”.
Veja também:
Sobre Monja Coen | Lista de Mestres e Professores
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