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Martin Heidegger conversa com um Monge Budista sobre Tecnologia e Filosofia

“O Ser em si tem sido escondido dos seres humanos. E é por isso que agora temos que fazer esta questão para obter uma resposta sobre o que e quem é o ser humano.”

– Martin Heidegger

Martin Heidegger, embora seja frequentemente associado ao existencialismo, via o seu percurso filosófico como uma demanda rigorosa e contínua pela questão do Ser. A sua obra, que moldou de forma indelével o século XX, tem como pilar fundamental o clássico Ser e Tempo, mas estende-se também a reflexões profundas sobre a hermenêutica, a política, a mitologia grega e a essência da poesia.

A relevância do seu pensamento ultrapassou as fronteiras europeias, alcançando a Tailândia. Foi lá que o monge budista e professor universitário Bhikku Maha Mani reconheceu em Heidegger a voz do “filósofo alemão” por excelência. Este encontro culminou numa entrevista histórica em 1963, realizada para a estação SWR.

Na entrevista, Heidegger evita prender-se a questões meramente geográficas ou a tradições isoladas. Em vez disso, foca-se na necessidade de um pensamento de alcance global que esclareça a condição humana na sua relação com o Ser, para lá das divisões impostas pelas categorias políticas e tecnológicas. Ao refletir sobre o impacto da técnica moderna, o filósofo deixa um aviso crítico: o perigo de o ser humano se transformar numa “máquina” obediente, perdendo-se num mundo que tende a validar apenas o que pode ser medido e calculado.

Segue os vídeos da entrevista e transcrição em PT:

1º Parte:

2º Parte:

Transcrição:

Bhikku Maha Mani: Ao longo de décadas você tem reflectido sobre a essência do ser humano, que compreensão obteve?

Martin Heidegger: A experiência decisiva do meu pensamento, e o que significa ao mesmo tempo para a Filosofia Ocidental, isto é, a contemplação sobre a história do pensamento Ocidental me revelou, que no pensamento contemporâneo uma questão nunca foi feita, a saber, a questão do ser. Esta questão é importante, porque no pensamento Ocidental a essência do ser humano é determinada na sua relação com o Ser, isto é, existe em correspondência ao Ser. Isso significa que o ser humano é este correspondente, esta essência, que tem uma linguagem. Diferentemente, penso eu, dos ensinamentos Budistas, o pensamento Ocidental criou uma distinção essencial entre os seres humanos e os demais seres vivos, plantas e animais.

O ser humano distingue-se pela sua linguagem, isso significa que ele possui um conhecimento em relação ao Ser. E esta questão do Ser não foi colocada na atual história do pensamento Ocidental. Ou, para falar mais claramente O Ser em si tem sido escondido dos seres humanos. E é por isso que agora temos que fazer esta questão para obter uma resposta sobre o que e quem é o ser humano.

Acha que deveríamos criar uma atitude nova fundamental em relação à vida, ou devemos aprofundar os ensinamentos actuais da religião?

Eu acho que pela minha resposta à sua primeira pergunta já deixei claro que um novo modo de pensar é necessário. É especialmente necessário, porque a questão não pode ser interrogada pela religião. Também é necessário interrogar esta questão, porque a relação do Ocidente com o mundo inteiro já não é transparente, mas confusa em parte por causa das clareiras das crenças, da igreja, pela filosofia, pela ciência e do estranho facto de que agora, no mundo moderno, a ciência é considerada como se fosse algum tipo de religião. Eu vou esclarecer melhor esta frase mais tarde.

Porque é que não tenta compartilhar os seus pensamentos com as pessoas através dos meios de comunicação modernos, como a rádio e a TV?

A tarefa que carece de pensamento hoje, como eu a entendo, é nova de um modo que requer um novo método de pensamento, e este método só pode ser alcançado na conversa imediata de ser humano para ser humano, e pela longa prática e exercício num sentido de uma observação do pensamento. Isso significa que este modo de pensar, a princípio, é apenas compreensível para poucas pessoas. Porém, através de diferentes aspectos da educação, pode ser comunicado aos outros. Vou dar-lhe um exemplo. Hoje toda a gente sabe como usar um rádio e um aparelho de televisão sem compreender as leis físicas que os governam, sem compreender os métodos e pesquisas necessárias dessas leis. Esses métodos, necessários para a pesquisa sobre essas leis, em seu conteúdo substancial, são compreendidos apenas por cinco ou seis físicos.

É o mesmo que acontece com este pensamento. Em primeiro lugar, este pensamento é tão difícil que só poucas pessoas podem ser educadas nele. Mas isso pode levar a mal-entendidos, de que essas eram pessoas extraordinárias. No entanto, a verdade é que todo o ser humano, enquanto for um ser pensante, poderá realizar este pensamento. Mas no nosso sistema de ensino atual e de acordo com a nossa história, apenas poucas pessoas irão cumprir o requisito para este pensamento.

Há um ponto de encontro entre Tecnologia e Filosofia?

Para a sua pergunta, eu diria que “sim”, há de facto uma relação muito essencial. Ela é dada no surgimento da tecnologia moderna a partir da Filosofia. Foi na Filosofia Moderna que pela primeira vez foi estabelecido o princípio de que só o que eu posso claramente, ou seja, matematicamente saber, é real. Há uma frase muito famosa do físico alemão Max Planck, que diz: “Real é só o que se pode medir”.

Este pensamento de que a realidade só é acessível ao ser humano, desde que seja mensurável no sentido da física matemática; este pensamento domina toda a tecnologia. E, na medida em que isso foi pensado inicialmente por Descartes, o fundador da Filosofia Moderna, a relação entre Filosofia e tecnologia moderna torna-se bastante clara.

No Ocidente, pessoas sem religião têm sido muitas vezes identificadas como comunistas, outras pessoas, contudo, que vivem em conformidade com os preceitos religiosos, estão sendo chamadas de loucas. O que você pensa sobre isso?

As asserções de que pessoas sem religião são comunistas e pessoas com religião são loucas, são duas acusações que, creio eu, podem ser esclarecidas se refletirmos sobre: o que se entende por religião aqui? Religião significa, como a palavra mesmo diz, uma ligação de retorno a poderes, forças e leis que substituem a capacidade humana. Daí poder-se até mesmo falar de uma religião ateísta, como é o caso do Budismo, que não concebe Deus e, apesar disso, é uma religião, pois contém uma ligação particular em si.

Gostaria também de dizer que tais pessoas enquanto comunistas têm uma religião, a saber, a crença na ciência. Eles acreditam incondicionalmente na ciência moderna. E essa crença incondicional, quer dizer, a confiança na certeza dos resultados das ciências, é uma crença, e, de certo modo, é algo que está além do ser humano, portanto é uma religião. Eu diria que nenhum ser humano está destituído de religião, e que todo ser humano está de alguma forma além de si mesmo, ou seja, louco.

Nós deveríamos abolir a religião e a filosofia que apesar de suas existências multimilenares, nunca influenciaram a vida humana como demandaram, e porque a filosofia e a religião parecem ser contraditórias?

Não podemos e não devemos abolir o pensamento e a crença, porque em sua longa jornada não alcançaram o patamar que objetivaram chegar. Nós não podemos abolir o pensamento e a crença, porque a essência humana é finita. Porque em sua essência o homem é sempre compelido a tentar novamente. E, especialmente neste momento, eu diria, voltando à sua primeira pergunta, que uma reflexão sobre o que é o ser humano é necessária agora, com o perigo de o homem estar à mercê da tecnologia e de um dia ser controlado como uma máquina.

Você também fez outro comentário, relacionando ao seu país. No qual você disse que o seu país e as pessoas nele pertencem aos países subdesenvolvidos. Se alguém vos fala em subdesenvolvimento, alguém tem que perguntar para que fim o desenvolvimento foi pensado. De acordo com o moderno entendimento europeu e americano, o desenvolvimento é, em primeiro lugar, uma questão tecnológica. A partir desta lógica, eu diria que seu país, por causa de suas tradições antigas e contínuas, está altamente desenvolvido. os norte-americanos, por outro lado, com todas as suas tecnologias e bombas atómicas são subdesenvolvidos.

Há alguma forma de harmonizar as pessoas e poderá esta forma ser traduzida para situações globais reais, como no caso de Berlim Oriental e Ocidental?

Esta questão é tão abrangente que primeiramente temos que diferenciar entre as condições políticas para uma possível unidade e as condições humanas emocionais para a reunião dos seres humanos. Para ambas as condições, eu diria que, por causa de toda a nossa situação histórica. E por causa da separação dos seres humanos em religiões diferentes, filosofias diferentes e diferentes relações com a ciência. Não existe hoje em dia terreno comum para o entendimento simples e imediato.

Eu acho que nós precisamos diferenciar entre um país europeu com esta história e passado, e um país onde você reside. Desse modo eu diria que se há alguma possibilidade ao entendimento num futuro próximo isso só pode acontecer se, independentemente de condições políticas, se os seres humanos de todas as partes encontrarem auto-compreensão. Mas esta auto-compreensão, como já mencionei em outras perguntas suas, tornou-se difícil, isso não é só na Alemanha, mas por toda a Europa em geral. Não temos nenhuma relação clara, simples e comum com a realidade e com nós mesmos. Esse é o grande problema do mundo Ocidental, e parte da razão da confusão de opiniões em todas as diferentes áreas.

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3 comments

    1. Olá Luiz. Obrigado pela sua contribuição! Já atualizei o post. Os vídeos legendados realmente parece que já não existem, no entanto neste post está a transcrição total da entrevista traduzida para português. Tenha um ótimo dia!

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