O Surangama Sutra é um texto Mahayana com ensinamentos do Buda ao seu discípulo Ananda sobre a verdadeira natureza da mente. É especialmente relevante na escola Chan.
Segue-se tradução para português de parte da introdução presente na edição publicada pela Buddha Dharma Education Association Inc., com comentários do mestre Chan Han Shan (1546-1623), traduzido do chines para o inglês pelo Upasaka Lu Kíuan Yu (Charles Luk / 1898-1978).
A Iluminação no Budismo Mahayana consiste na transmutação da mente na Sabedoria do Grande Espelho. Assim, o Surangama Sutra aponta diretamente para a Mente que, ao ser agitada pelo primeiro pensamento, cria a ilusão básica de um ego e divide o Todo em sujeito e objeto. Em consequência, esta obra continua a ser uma fonte primária para a escola Ch’an ou Zen.
Neste sutra, o Buda começou por despojar Ananda do seu apego ao corpo e à mente ilusórios, antes de revelar a Mente Única. Para ensinar como esta Mente Única pode ser realizada, solicitou a vinte e cinco Bodisatvas que descrevessem os diferentes métodos pelos quais cada um alcançou a Iluminação. O método de Avalokitesvara foi considerado o mais adequado para a humanidade de hoje.
O Buda revelou a causa da transmigração pelos seis mundos e da obtenção dos quatro planos santos, descrevendo estas dez regiões com algum detalhe. Finalmente, detalhou e alertou contra o apego aos vários estados mentais experienciados durante a prática do Samadhi Surangama.
No Ocidente, conhecemos a Criação de acordo com a Bíblia, mas os leitores encontrarão agora neste sutra como o homem e o seu mundo surgiram, segundo o ensinamento do Buda.
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Prefácio
Este importante sermão contém a essência do ensinamento do Buda e, conforme por Ele previsto, será o primeiro sutra a desaparecer na era do fim do Dharma. Revela a lei da causalidade relativa tanto à ilusão quanto à iluminação, e ensina os métodos de prática e realização para destruir para sempre as raízes do nascimento e da morte. O seu objetivo é dissolver a alaya, a consciência-armazém, cujas três características são a autoevidência, a perceção e a forma, através dos três estudos meditativos do númeno (que é imaterial), do fenómeno (que é irreal) e da ‘Via do Meio’ (que abrange ambos), conduzindo ao Samadhi Surangama omniabrangente, o portal de entrada para a Perfeita Iluminação e que revela a natureza da Matriz de Tathagata da Realidade Única.
Na prática do samadhi Surangama para eliminar a consciência-armazém, devemos saber que esta tem estado sob ilusão durante muito tempo e que é muito difícil transmutá-la na Sabedoria do Grande Espelho. Por isso, o Buda utiliza duas das suas características – a perceção e a forma – para explicar a falsidade de ambas, de modo a podermos renunciar ao apego e quebrar a primeira característica: a autoevidência. A ilusão da forma, que inclui o corpo e a mente feitos dos cinco agregados, bem como o mundo visível, é tratada primeiro, devolvendo-se cada um dos seus aspetos ao lugar de onde surge, para provar a sua irrealidade. Depois, a ilusão da perceção é desfeita, revelando-se a sua essência, ou alaya, que, tal como uma segunda lua, é também uma criação ilusória. Daí o Buda dizer: ‘Quando a visão percebe a visão, a visão não é a visão; pois a visão desvia-se da ‘visão’ e a visão não a alcança.’ Han Shan interpreta isto com mestria: ‘Quando a visão absoluta percebe a essência da visão, a primeira não é a última, da qual ainda difere; como pode, então, a visão falsa alcançar essa visão absoluta?’ A visão absoluta é comparada à lua real no céu; a essência da visão a uma segunda lua vista por olhos doentes; e a visão falsa, ao reflexo da lua na água. Por outras palavras, a verdadeira lua representa a Iluminação; a segunda lua representa a alaya, ou essência da visão, que está próxima da lua verdadeira; e a lua na água representa a perceção, uma ilusão muito distante da lua real. Quanto ao alaya, que é o aspeto não iluminado da natureza própria, não podemos simplesmente descartá-lo como inexistente; é por isso que o Buda evita mencioná-lo, pois como diz no seu gatha:
‘Os velhos hábitos fluem como torrentes
na consciência subtil de alaya.
Sendo o real ainda irreal capaz de criar confusão,
abstive-me de o revelar a vós.’
Em resposta ao pedido de Ananda por instrução sobre os três estudos meditativos (samatha, samapatti e dhyana), o Buda revela a luz do samadhi Surangama a partir da posição central da Mente Única que tudo abarca, no seu estado de imperturbável serenidade para além das paixões. Os leitores não devem encarar esta revelação como uma espécie de milagre impossível de ser provado cientificamente e que deveria ser descartada como algo sem sentido. Como já mencionámos no nosso livro anterior, The Secrets of Chinese Meditation, todos os estudantes sérios do Dharma experienciam este estado de luminosidade assim que conseguem aquietar as suas mentes na prática de dhyana.
Esta Mente absoluta, tal como revelada pelo Buda, possui três grandes características: a grandeza da sua essência ou substância, chamada Dharmakaya; a grandeza dos seus atributos ou manifestações, perfeita em sabedoria e compaixão, chamada Sambhogakaya; e a grandeza das suas funções, que convertem perfeitamente todos os seres vivos para o caminho correto, chamada Nirmaṇakaya.
Em vez de reconhecermos a Mente Verdadeira, apegamo-nos ao corpo ilusório e mente ilusória, feitos dos cinco agregados como sendo um ego, tendo os dados sensoriais do mundo circundante como o seu campo objetivo de atividade. Este apego grosseiro ao ego e às coisas (dharmas) surge da discriminação e pertence às consciências sexta e sétima. O apego subtil ao ego e ao Dharma é inato, pois surge da sétima consciência, que se agarra à perceção do alaya como um ego interno e à sua realização da santidade como Dharma. Só após extinguir tanto os apegos discriminativos como os inatos é que poderemos alcançar a fonte da Mente Única e atingir a Iluminação. Daí os três estudos meditativos, que visam destruir tanto os apegos grosseiros como os subtis.
É muito mais fácil abandonar o apego discriminativo do que o apego inato, e poucos praticantes conseguem vencer este último; por isso Han Shan diz: ‘Esta passagem é a mais difícil de atravessar, e apenas um ou dois por cento dos praticantes consegue superá-la.’ (Veja The Secrets of Chinese Meditation, p. 58, Rider and Co.) Aqui está a grande diferença entre o Buda Dharma e os ensinamentos de outras religiões do Oriente.
O apego inato a um ego só pode ser cortado após se alcançar o sétimo estágio do desenvolvimento de um Bodhisattva, enquanto que o apego inato ao Dharma ainda permanece no oitavo estágio e acima dele, pois a sétima consciência possui características impuras e puras. A característica impura é eliminada no sétimo estágio, quando a designada consciência-armazém é abandonada e substituída pela de consciência pura, que pode então ser transmutada no Absoluto. No entanto, a sétima consciência ainda permanece e agarra-se ao Absoluto como o objeto visado; este é o apego subtil ao Dharma. Daí que o Buda diga: ‘A ideia de que a Mente Bodhi é criada após a mente samsárica ter sido aniquilada pertence ao samsara’, pois este apego ao Absoluto que pode ser alcançado também implica a dualidade de sujeito e objeto, ou seja, o apego ao Dharma. Só depois deste último apego ser cortado é que a Iluminação pode ser realizada. Estes dois apegos, o grosseiro e o subtil, não vão além da Oitava Consciência e dos seus cinco agregados criados; a rutura dos mesmos é o objetivo do ensinamento neste sutra.
Este sermão trata da Ignorância básica causada pelo primeiro pensamento ténue de autoconsciência como sujeito e o seu homólogo, o vazio obscuro, como objeto. Esta obscuridade assim criada pela separação da mente é chamada de Trevas Primordiais pelos filósofos não budistas do Oriente e é a origem da criação segundo o ensinamento do Buda, que depois explica as três causas subtis da não-iluminação: ignorância básica, sujeito e objeto; e as suas seis condições grosseiras: conhecimento, resposta, apego, atribuição de nomes aos objetos, atividade kármica e sofrimento. Estas seis condições resultam na manifestação de diferentes formas, tais como o mundo e os seres vivos na consciência-armazém. Aqui começa a lei da continuidade: a do mundo físico, sustentado pelas quatro rodas de vento, água, metal e espaço, que brotam da ilusão assim criada; a dos seres vivos dos quatro tipos de nascimento; e a da retribuição kármica causada pela carnalidade, matar e roubar, as três condições cardinais do nascimento e da morte.
O Buda ordena aos vinte e cinco seres iluminados na assembleia que revelem os vários meios pelos quais atingiram a iluminação, para que outros possam aprender com eles. Após os seus relatos de realização através dos seis dados sensoriais, dos seis órgãos dos sentidos, das seis consciências e dos sete elementos (fogo, terra, água, vento, espaço, consciência e perceção), o Honrado pelo Mundo pede a Manjushri a sua opinião sobre estes vinte e cinco métodos. Manjushri louva o Bodhisattva Avalokiteshvara pelo método deste último através do órgão da audição, que é o mais adequado para os seres humanos.
O Buda ensina então à assembleia o mantra Surangama e os rituais para evitar todos os obstáculos no Caminho para a Iluminação. Não apresentámos esta secção do sutra, em parte porque a transliteração chinesa do mantra está corrompida, de modo que uma transliteração para inglês seria enganadora, e em parte devido à falta de espaço. Além disso, o estudante ocidental comum de Budismo parece ter pouca fé em mantras e rituais, pelo que não devem ser publicados para que não criem descrença e confusão desnecessárias e, assim, comprometam a beleza deste profundo sutra.
O Buda prossegue, explicando por que razão os seres vivos estão presos na rede do samsara através dos doze tipos de nascimento e como escapar, praticando os cinquenta e cinco estágios graduais do desenvolvimento de um Bodhisattva para realizar a Iluminação Completa. A pedido de Ananda, descreveu os reinos dos infernos, os dez reinos de fantasmas famintos, animais, seres humanos, sábios videntes (rishis); os seis reinos dos devas do desejo, os dezoito da forma, os quatro para além da forma e os quatro reinos dos titãs.
Antes da reunião terminar, o Buda alertou a assembleia contra cinquenta estados mentais causados pelos cinco agregados que dificultam a prática do Dharma. Estes estados devem ser reconhecidos por todos os estudantes na sua meditação; são conhecidos casos de pessoas que, tendo visões de Budas e Bodhisattvas e apegando-se a elas, caíram na heresia e, consequentemente, regressaram ao samsara.
Esta tradução baseia-se na explicação e no comentário escritos pelo Mestre Han Shan, da dinastia Ming, após a sua própria iluminação. O texto chinês original é uma floresta de colunas verticais e não está dividido, como na nossa apresentação, em capítulos com títulos e subtítulos, que o mestre acrescentou para benefício dos estudantes. Após este importante sutra ter chegado à China, foi lido e estudado por todos os grandes mestres antes e depois do seu grande despertar, tendo sido amplamente exposto e comentado em todos os mosteiros de renome por todo o país. Segundo o falecido mestre Hsu Yun, deve ser estudado cuidadosamente até ser bem compreendido pelos estudantes do Mahayana e do Ch’an antes de iniciarem o seu treino espiritual. […]
Upāsaka Lu K’uan Yu (Charles Luk)
Hong Kong
Observações:
Este sutra não deve ser confundido com o similarmente intitulado Surangama Samadhi Sutra, embora nesta introdução seja utilizado algumas vezes a expressão samadhi surangama.
Apesar do Surangama Sutra utilizar termos como “Mente Verdadeira” e “Mente Única” e use algumas palavras de aparência eternalista, estas expressões não propõe uma alma (atman), um eu imortal e imutável. Ao contrário do conceito de atman, a “Mente Verdadeira” no sutra não é uma entidade individual ou egóica. A sua “eternidade” refere-se à natureza fundamental da realidade, que é caracterizada pela vacuidade (sunyata) e pela não-dualidade. O texto desconstrói rigorosamente os cinco agregados (khandhas) e a mente discriminativa, classificando-os como ilusórios, o que reforça a negação de um “eu” fixo e independente. As escolas Tiantai, Huayan e Chan convergem na ideia de que o sutra não substitui a vacuidade por um novo substancialismo. O Surangama Sutra permanece fiel ao princípio de que todos os dharmas são desprovidos de natureza intrínseca, o que se alinha com o suttas do Cânone Páli.
O sutra (links externos):
- Surangama Sutra, pequeno excerto (Revista Bodisatva)
- The Surangama Sutra (Buddha Dharma Education Association Inc.)
- The Surangama Sutra, A New Translation (Buddhist Text Translation Society)
Veja também:
- Yogacara: a escola da mente e da consciência
- A Natureza Buda
- Lankavatara Sutra: a natureza da consciência, a realidade última e o Caminho do Tch’an
- Anatta (não-eu): desconstruindo a ideia de um “eu” permanente
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