História e Arqueologia

Interações entre o budismo e a cultura europeia

Ao contrário da crença comum, as raízes de uma presença budista estabelecida no Ocidente remontam à muito mais tempo do que à década de 1960. As primeiras conexões ocorreram nos primórdios do budismo, foram duradouras e intensas, até serem em grande parte perdidas. Só muitos séculos mais tarde, já na era moderna, é que paulatinamente recomeçaram a surgir novas interações.

Tradução sob permissão do artigo “Interactions between Buddhism and European culture”, da European Buddhist Union | Ver original.

Europa antiga

O Império Aqueménida (ou Império Persa Antigo, 550-330 aC) foi o maior império da história antiga, estendendo-se da Trácia e da Macedónia nos Balcãs até à Bactria e Gandhara perto do Indo. Sob a Pax Persica, havia liberdade religiosa e de movimento, o que tornava possível o comércio e a troca de ideias da Europa até ao Indo. Devido ao Império Persa, o norte da Índia estava familiarizado com a cultura jónica/grega do tempo do Buda.

Após a conquista da Pérsia pela Macedónia reinada por Alexandre, o Grande (356-323 aC), novas cidades gregas foram fundadas na parte oriental do anterior Império Persa, criando uma grande área de cultura helenística no atual Afeganistão/Paquistão/Noroeste da Índia (hoje Punjab). Isso acabou resultando num reino indo-grego e foi o início de uma interação mais intensa e duradoura entre o budismo e o helenismo.

Pirro de Élis foi um filósofo grego que viajou com Alexandre, o Grande, da Grécia até à Índia. Ele ficou lá por dois anos e depois viajou de volta para a Grécia, onde passou grande parte da sua vida em solitude. Ele ensinou uma filosofia de vida prática, que em última instância leva à imperturbabilidade/tranquilidade (ataraxia, ἀταραξία), e pela qual foi admirado pelos seus contemporâneos. Existem bons argumentos para supor que os seus ensinamentos foram influenciados pelo budismo primitivo. Eles formaram o início do ceticismo pirrónico na Europa.

A declaração de Pirro sobre as “três características de todas as coisas”, pode até ser o fragmento conhecido mais antigo do texto doutrinário budista. A referência grega a ele está firmemente datada de três séculos antes dos textos de Gandhara.

O greco-budismo foi um sincretismo entre a cultura helenística mediterrânica e a cultura budista indiana e, floresceu por muitos séculos na Bactria/Gandhara (atual Afeganistão, norte do Paquistão e noroeste da Índia).

O rei grego Menandro é conhecido na língua Páli como rei Milinda, e o livro ‘Perguntas do Menandro’ (em Pali: ‘Milinda Panha’) faz parte de alguns Cânones Páli do Theravada.

O Padre da Igreja do século II, Clemente de Alexandria, escreveu a mais antiga referência conhecida do Ocidente ao Buda: “Entre os indianos, existem aqueles filósofos que seguem os preceitos de Boutta (Βούττα)” (Stromata, livro 1, capítulo 15). Ele também mencionou monges budistas do reino greco-indiano da Bactria quando fez uma lista das filosofias antigas que influenciaram a filosofia grega.

Até ao ano 393 dC (quando o imperador Teodósio proibiu quaisquer costumes religiosos não-cristãos no Império Romano) as interações religiosas entre a Índia, a Pérsia e o Mediterrâneo eram múltiplas. Está documentado, por exemplo, que monges budistas estiveram presentes em Alexandria.

Devido à ascensão do cristianismo no Império Romano no século IV e às conquistas islâmicas na Pérsia e na Índia no século VII, as conexões que existiam no mundo antigo foram em grande parte perdidas e o budismo e a Europa se separaram por muitos séculos. Com as invasões muçulmanas, tanto o greco-budismo quanto o indo-budismo foram amplamente destruídos.

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Europa moderna

No século XIII, os viajantes internacionais europeus começaram a escrever os primeiros relatos sobre o budismo (e os cristãos nestorianos) no Oriente, para os cristãos do Ocidente, mas foi somente nos séculos XVI e XVII que as primeiras tentativas para entender o budismo corretamente foram feitas pelos europeus cristãos, que era principalmente o trabalho dos missionários jesuítas na Ásia.

A única nação budista no continente europeu é a República da Calmúquia (na parte europeia da Federação Russa, no extremo leste do continente). A presença budista na Calmúquia remonta aos colonos mongóis do século XVII.

Ao contrário da crença comum, as raízes de uma presença budista estabelecida no Ocidente remontam à muito mais tempo do que à década de 1960 e podem ser rastreadas até ao final do século XIX.

Em 1881, a Pali Text Society foi fundada no Reino Unido e, em 1899, a escola Jodo Shinshu do Budismo Terra Pura fundou a Igreja Budista de São Francisco, o templo budista mais antigo da América.

Os precursores das primeiras Uniões Budistas Nacionais na Europa foram criados no início do século XX (Alemanha em 1903 e Reino Unido em 1907), e os primeiros mosteiros budistas na Europa (ocidental) foram estabelecidos na década de 1920 (Das Buddhistische Haus em Berlim em 1924 e The London Buddhist Vihara em 1926, ambos Theravada).

O budismo europeu está crescendo rapidamente e hoje, as autoridades políticas da maioria dos países europeus passaram a ter alguma forma de reconhecimento oficial do budismo. Com base numa pesquisa de 2012, assumimos que existem aproximadamente 3 milhões de pessoas que se identificam como budistas na Europa (incluindo a Rússia).

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A União Budista Europeia

Já na década de 1930, os budistas europeus sentiram a necessidade de se encontrarem e conhecerem. O primeiro congresso budista europeu ocorreu em Berlim em 1933.

A EBU foi fundada em 1975. O local da Assembleia Geral Anual muda de ano para ano e é providenciado pelas organizações que são membros da EBU. Pouco antes do fim da Guerra Fria, uma reunião foi realizada no lado comunista da Cortina de Ferro (Hungria, 1989).

A EBU recomeçou a organizar congressos internacionais sobre budismo na Europa. O primeiro desses congressos ocorreu no edifício da UNESCO em Paris em 1979. Com mais de 2.000 participantes, o congresso de 1992 em Berlim foi o maior evento da EBU até hoje.

Em 2008, a EBU obteve oficialmente o status participativo na Conferência de Organizações Internacionais Não-Governamentais do Conselho da Europa.

Imagem de destaque: Uma das primeiras representações do Buda, período Kushan, século I a II dC, Gandhara, Paquistão (Museu Nacional de Tóquio). | Domínio Público.

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