História e Arqueologia

A longa “jornada” do Buda para a Europa e África

Em obras produzidas na Europa nos primeiros séculos da Era Comum, existem várias referências a Buda. A lenda Cristã Barlaão e Josafá foi inspirada na Vida de Buda e foi um fenómeno cultural incomparável na Europa Medieval. Uns séculos mais tarde, a lenda chega à Etiópia. Também foram encontradas moedas de ouro com a imagem de Buda e as letras Gregas ΒΟΔΔΟ ('Boddo' para Buda).

Tradução do artigo original de Jana Igunma, publicado a 01/07/2019 no blog da British Library sob licença Creative Commons.

Os Europeus ficaram cada vez mais interessados ​​nas culturas e religiões do Oriente Médio e da Ásia, ou o que mais tarde chamaram de “o Oriente”, como resultado das relações comerciais durante o primeiro milénio da Era Comum. Imagens de Buda com as letras Gregas ΒΟΔΔΟ (‘Boddo’ para Buda) foram encontradas em moedas de ouro do império Kushan que remonta ao segundo século EC. Buda foi mencionado numa fonte Grega, “Stromateis“, de Clemente de Alexandria, por volta de 200 EC, e outra referência a Buda é encontrada em “Adversus Jovinianum”, de São Jerónimo, escrita em 393 EC.

Uma lenda religiosa inspirada na narrativa da “Vida de Buda” era bem conhecida na tradição Judaico-Persa e as primeiras versões em Persa, Árabe, Hebraico, Arménio e Georgiano foram descobertas. A história ficou conhecida como “Barlaão e Josafá” na Europa medieval. O nome Josafá, em Persa e Árabe, escrito Budasf, Budasaf, Yudasaf ou Iosaf, é uma corruptela do título Bodhisattva que significa “Buda-a-ser”, referindo-se ao Príncipe Siddhartha que se tornou Buda Gotama com a sua iluminação.

manuscrito
Uma menção à lenda de Barlaão e Josafá numa ilustração marginal num manuscrito famoso, o “Theodore Psalter.” Embora a história em si não seja narrada aqui. Theodore, proto-presbítero do Mosteiro dos Estúdios em Constantinopla, fez o manuscrito em Grego antigo para o Abade Michael, em 1066 EC. – British Library, Add MS 19352 f.34v | Domínio Público.

Fragmentos de antigas versões da lenda parecem ter sido preservados em textos Maniqueístas em Uigur e Persa de Turfan, e acredita-se que os Maniqueus tenham transmitido a narrativa do Buda para o Ocidente. De lá, a história foi traduzida para o Árabe, para Judaico-Persa e Siríaco. Uma antiga versão Grega é atribuída a São João de Damasco (Séc. 675-749 EC) em fontes mais medievais, embora pesquisas recentes rejeitem essa atribuição, já que é mais provável que os monásticos Georgianos Eutímios tenham efetuado a tradução do Georgiano para o Grego no Século 10 EC. Tornou-se particularmente popular em todo o mundo Cristão depois de ter sido traduzido para muitas línguas diferentes na Idade Média, incluindo o Latim, Francês, Provençal, Italiano, Espanhol, Inglês, Irlandês, Alemão, Checo, Sérvio, Holandês, Norueguês e Sueco.

Primeira página de uma versão poética do século XVIII-XIX de Barlaão e Josafá com o título Shāhzādah ṿe-Tsūfī de Elisha ben Samuel em Persa com caracteres hebraicos. – British Library, Or.4732 f.1r | Domínio Público.

A disseminação da lenda de Barlaão e Josafá na Europa medieval foi um fenómeno cultural incomparável na época. Versões poéticas e dramatizadas da lenda se tornaram o que hoje seria chamado de “best-sellers”. Na Europa Cristã, esses dois nomes eram comummente conhecidos, e o Buda, como São Josafá, tornou-se um Santo com o seu próprio dia de festa no calendário Cristão: 27 de Novembro.

Miscelânea Devocional em Francês antigo, incluindo a lenda de Barlaão e Josafá em 69 páginas, França, primeira metade do século XIV. A ilustração retrata Barlaão em preto e Josafá vestido de branco. – British Library, Egerton MS 745 f. 131 | Domínio Público.

Embora baseado na narrativa da Vida de Buda, o conteúdo da lenda de Barlaão e Josafá foi reformulado e complementado para torná-lo adequado para o crente Cristão. Na história Cristianizada, um astrólogo prevê que Josafá, o filho recém-nascido do Rei Avennir (ou Abenner) da Índia, se tornará um seguidor da religião Cristã. Para evitar isso, o rei proibiu o seu filho de deixar o palácio real. O jovem príncipe foi criado na ignorância da doença, velhice e morte. No entanto, ele descobriu os perigos para a vida durante as excursões fora do palácio, quando ele encontrou um leproso e um cego, um velho decrépito e, finalmente, um cadáver. Até este ponto, os paralelos entre a narrativa do Buda e a lenda de Barlaão e Josafá são óbvios, embora os nomes tenham sido corrompidos: o Rei Suddhodana se tornou o rei Avennir, e o Príncipe Siddhartha tornou-se Josafá (para o Bodhisattva). De seguida os eventos na lenda de Barlaão e Josafá tomam um rumo diferente, e algumas figuras são misturadas com outras, como por exemplo o inimigo de Buda, Devadatta, e Mara, o senhor do desejo.

Uma tradução Latina do século XII de Barlaão e Josafá da versão Grega atribuída a João de Damasco. O manuscrito era da propriedade da Abadia de Weissenau, na Alemanha. – British Library, Add MS 35111 f. 2 | Domínio Público.

Uma versão Alemã prossegue dizendo que depois de aprender sobre a doença, velhice e morte, Josafá conheceu o eremita Cristão Barlaão que o converteu. O pai de Josafá tentou que o seu filho desistisse da sua nova fé. Ele ameaçou-o e prometeu-lhe metade do reino, mas sem sucesso. Então o rei conheceu o feiticeiro Theodas – uma adulteração do nome Devadatta – que o aconselhou a enviar a Josafá mulheres bonitas para seduzi-lo, no qual elas não tiveram sucesso. Na narrativa do Buda esta cena está relacionada com Mara em vez de Devadatta. Josafá também foi atacado pelos espíritos malignos de Theodas, pelos quais ele lutou. Josafá decidiu renunciar ao mundo e passar o resto de sua vida como asceta. Na imensidão do deserto, ele foi atacado por feras e demónios. Finalmente ele foi re-unido com o eremita Barlaão, e faleceu um e pouco depois o outro.

A lenda tornou-se particularmente popular na Alemanha através da poética versão Alemã do poeta Austríaco Rudolf von Ems, que foi composta com base numa versão Latina por volta de 1230 EC. Na Escandinávia, uma tradução para o Nórdico Antigo foi ordenada pelo Rei Haakon Haakonsøn no século 13, que foi a base de traduções posteriores para o Norueguês e o Sueco. De uma versão em Siríaco, traduções para o Antigo Eslavo e depois Russo e Sérvio foram produzidas.

Rappresentatione di Barlaam et Josafat, uma versão poética Italiana de Bernardo Pulci, impressa em Florença em 1516 EC. A ilustração da página de rosto retrata o nascimento de Josafá na imaginação de um artista Cristão. – British Library, 11426.dd.24 | Domínio Público.

A tecnologia de impressão ajudou a produzir em massa cópias da lenda de Barlaão e Josafá, o que a tornou mais amplamente acessível. Frequentemente, fotos de Barlaão e Josafá foram adicionadas nas páginas de rosto de trabalhos impressos. Ilustrações retratando cenas da história foram incluídas em alguns livros impressos. Embora a representação artística de tais imagens seja caracterizada pela moda Europeia da época, baseadas na imaginação de artistas que nunca estiveram na Índia, é possível identificar certas cenas que são bem conhecidas da Vida de Buda. Estas incluem o nascimento do Buda como um príncipe, os seus quatro encontros, a sua renúncia ao mundo, o ataque de Mara e os assaltos de Devadatta.

A Europa não foi o destino final da narrativa do Buda em forma da lenda de Barlaão e Josafá. A existência da história também era conhecida na Etiópia, talvez bem antes do século 16. Foi documentada por Abha Bahrey, um historiador Etíope do século 16 que mencionou o livro, possivelmente uma tradução para o Ge’ez (Etíope) do Grego, no seu “Saltério de Cristo” datado de 1528 EC. Após a adoção oficial do Cristianismo em 330 EC, os Cristãos Etíopes começaram a traduzir os textos sagrados: a Bíblia, o Novo Testamento e o Pentateuco para a língua Ge’ez. Muitos escritos que foram compilados pela primeira vez em Aramaico ou Grego foram totalmente preservados apenas em Ge’ez, como os livros sagrados da Igreja Etíope. Há um vasto corpus de escrituras que sobreviveu exclusivamente apenas em Ge’ez.

Uma outra tradução para Ge’ez com o título de Baralam e Yewasef foi efetuada a partir da versão Árabe do Bar-sauma ibn Abu’l-Faraj por um “Enbiikom”, ou Habacuque, para o rei “Galawdewds”, ou Claudius. Está datado de ‘AM 7045’, que corresponde a 1553 EC. Uma cópia sobrevivente foi escrita durante o reinado do rei Iyasu II. (1730-55 EC).

Versão manuscrita de Barlaão e Josafá em Ge’ez (Etíope) com o título “Baralam e Yewasef”, copiado por volta de 1746-55 de uma tradução mais antiga do Árabe para Ge’ez. – British Library, Or. 699 f. 4 | Domínio Público.

Referências e leituras adicionais:

Barlaam and IosaphEncyclopaedia Iranica (acessado a 06.06.2019)
– Budge, E. A. W. S. Baralâm and Yĕwâsěf: Being the Ethiopic version of a Christianized recension of the Buddhist legend of the Buddha and the Bodhisattva. Cambridge: Cambridge University Press, 1923
– Cordoni, Constanza and Matthias Meyer (ed.) Barlaam und Josaphat: Neue Perspektiven auf ein Europäisches Phänomen. Berlin, Munich, Boston: De Gruyter, 2015
– Hayes, Will. How the Buddha became a Christian Saint. Dublin: Order of the Great Companions, 1931 
– Schulz, Siegfried A. “Two Christian Saints? The Barlaam and Josaphat Legend.” India International Centre Quarterly, vol. 8, no. 2, 1981, pp. 131–143. JSTOR (acessado 03.06.2019)
– Toumpouri, Marina. Barlaam and Iosaph. A companion to Byzantine illustrated manuscripts edited by Vasiliki Tsamakda. Leiden, Boston: Brill, 2017, pp. 149-168

Com agradecimentos a Urs App pela inspiração, e a Eyob Derillo, Ilana Tahan, Ursula Sims-Williams, Adrian Edwards, Andrea Clarke e Ven. Mahinda Deegalle pelos seus conselhos e apoio.


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