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Hōkyōzanmai: O Samadhi do Espelho Precioso

Hōkyōzanmai é um poema/ensinamento atribuído ao mestre Dongshan Liangjie (Tozan Ryōkai, séc. IX). É recitado dia sim dia não durante a cerimónia da manhã nos mosteiros da escola Soto Shu e é um poema expoente do budismo Chan/Zen juntamente com o Sandokai.

“Hōkyō” remete a espelho-precioso, espelho-joia, ou tesouro-espelho, e “zanmai” significa samādhi. O espelho simboliza a mente não-obstrutiva; o tesouro, a inexaurível riqueza do Dharma. A mente desperta é como um espelho claro que reflete sem apego, enquanto que o “tesouro” aponta para a natureza búdica presente. O texto explora a não-dualidade entre o absoluto e relativo e está relacionado com as “cinco posições” de Dongshan, mostrando como o absoluto aparece no relativo e vice-versa. Mestres como Dogen e Keizan o citaram e comentaram.

Hōkyōzanmai

O Darma do assim como é,
Budas Ancestrais cuidadosamente transmitem.
Agora você o encontrou
Preserve-o bem.
Uma bandeja de prata acumula branca neve.
Na luz do luar a nívea garça desaparece.
Parecem-se, mas não são iguais.
Juntando-as, sabemos que são.

A mente não se expressa em palavras
Mas elas encorajam àquele que procura.
Se excitado, você entra em uma armadilha.
Se se opuser, espere pela queda.

Afastar-se ou tocar:
Ambos errados.
É como fogo maciço.
Se o retratar com palavras elegantes,
O estará maculando.

No meio da noite, a correta luz.
No céu do amanhecer não aparece.
É a regra geral.
Usando-a, remove-se todo o sofrimento.

Mesmo sendo do mundo dos fenômenos
Esta narrativa não o é.
Mesmo sem ser da intenção
Este não palavras, não o é.

É como olhar no espelho precioso
Onde forma e reflexo se encontram.
Você não é ele,
Mas ele é tudo de você.

É como um bebê no mundo
Pleno de seus cinco sentidos.
Sem ir nem vir.
Sem se levantar e sem parar.

Gugu! Dadá!
Uma fala sem fala!
E nada compreendemos.
Sua fala ainda não é correta.

Como as linhas do hexagrama:
Relativo e absoluto se integram,
Sobrepostas tornam-se três.
A completa transformação as faz cinco.
Como o paladar da erva chissô,
Como as faces do diamante.

Dentro do absoluto
Todos os relativos se integram.
Perguntas e respostas
Caminham juntas.

Comunicar com a essência
É comunicar com o caminhar.
Inclui integração
E inclui o Caminho.
Em comunhão auspiciosa!
Não destrua isto!

A maravilhosa verdade do céu
Está além da questão de delusão ou Iluminação.
Quando causa e efeito chegam a termo,
Sua luz brilha naturalmente.

Nas coisas pequenas, ela é a menor de todas.
Nas coisas grandes, ela é ilimitada.
Basta um finíssimo fio de seda de diferença
Para que a harmonia se quebre.

Agora a escola em súbita e em gradual se biparte.
Estabelece bases seguindo estas regras.
Mas a prática diligente penetra o ensinamento
E a verdade continua a fluir incessantemente.

Por fora, tranquilos; por dentro, agitados.
Como um cavalo no cabresto ou rato acuado.
Os antigos sábios se apiedaram,
Oferecendo o Darma que leva à outra margem.
Seguindo pontos de vista errados,
Ao preto chamam de branco.
Exaurindo os falsos pensamentos,
A mente aberta aceita a si mesma.

Se desejar caminhar nas pegadas dos antigos,
Rogo que observe os exemplos de antanho.
Aproxime-se para realizar o Caminho de Buda.

Como por dez kalpas,
Observando uma árvore,
Como um tigre ferido
Ou como um cavalo manco.

Porque existem coisas inferiores,
Existem tesouros raros em pedestais,
Porque há coisas maravilhosas e estranhas,
Há gatos selvagens e vacas brancas.

O mestre arqueiro
Com o poder de sua técnica,
Pode atingir
Um alvo a uma centena de passos.

Mas quando duas flexas se encontram em pleno ar
Ponta com ponta,
Será somente a técnica
A responsável?

Ao mesmo tempo, o boneco de madeira canta,
A mulher de pedra se levanta e dança.
Apenas a mente comum
Admite este pensamento?

O servo atende ao seu senhor,
A criança obedece ao pai.
Se não houver obediência,
Não haverá respeito filial.
Se não houver serviço,
Não haverá atendimento.

Em segredo e misteriosamente,
Agindo como um tolo,
Atuando como um bobo,
Apenas o capaz de herdá-lo,
É chamado de mestre entre os mestres.

(Tradução originalmente publicada em Via Zen)

Genshô Sensei publicou várias palestras sobre esse profundo poema. Os seus ensinamentos têm como base a tradução e comentários de Mokugen Rōshi (cuja tradução é distinta da mostrada acima). Seguem-se abaixo as vídeo-palestras juntamente com algumas anotações (que em algumas partes acabaram por ser transcrição ou quase transcrição completa, e em outras apenas um resumo utilizando outras palavras).

1 – Os outros são tão imperfeitos como nós

Monge Genshô (Daissen, 30/05/2025)

[1ª Estrofe]

A verdade do Dharma assim como ela é
foi transmitida intimamente pelos Budas.
Agora que vocês obtiveram esses benefícios
eles devem ser muito bem preservados.

Genshô Sensei explica que a primeira estrofe fala sobre proteger e preservar o Dharma (os preciosos ensinamentos do Buda). Expressões como “assim como é”, “tal como é”, “a realidade como é”, etc, e que frequentemente aparecem em textos budistas Zen, significam a palavra portuguesa “talidade”, que quer dizer as coisas como realmente são.

Neste aspeto o que importante entendermos é que vemos as coisas de uma maneira interpretada. O que nos olhamos e vemos, são distorcidas pelas lentes dos nossos olhos, preconceitos, mente discriminativa… pelo colorido com que enxergamos o mundo. Uma pessoa que é agressiva é como se ela tivesse óculos que veem de uma forma que tudo parece mais agressivo e violento, uma pessoa deprimida vê o mundo sombrio, escuro e triste. O mundo é o mesmo, nada mudou, mas com a nossa mente coloríamos a realidade e não a vemos tal como ela é. Nós vemos a nossa mente projetada sobre o mundo, e nesse sentido é como tivéssemos transformando o mundo com a nossa consciência.

Ver as coisas tal como são não é fácil, nós interpretamos cada detalhes, e como projetamos os nossos sentimentos sobre o mundo, o mundo que nós vemos é um mundo distorcido e falso. Só quando a nossa mente está vazia de pensamentos, preconceitos, descriminações, classificações e ideias, nós podemos abrir os olhos e ver a maravilha do meu, com olhos que não distinguem as coisas através dessa mente classificatória e discriminativa. Esse mundo real dizemos que é o mundo tal como é. A verdade absoluta do jeito tal como é.

Quando Shakyamuni se ilumina e se torna Buda ele diz “eu e a grande Terra e todos os seres atingimos a iluminação”, porque naquele momento ele abre os olhos e vê o mundo tal como é, e o mundo tal como é e todos os seres e a grande Terra são uma própria expressão da iluminação.

Genshô Sensei conta que conheceu uma pessoa e observou uma coisa muito interessante nela, sempre que alguém falava uma coisa negativa de alguém, ela abria a boca para falar numa qualidade da pessoa que ela via. Ela via qualidades em tudo, beleza nas coisas… isso a distinguia, e Genshõ ambicionou ter a merma visão, conseguir enxergar a bondade, a perfeição e qualidades, mas percebeu como isso é difícil, como as nossas mentes criticas procura os defeitos e as falhas nos outros. Deveríamos fazer um esforço para a cada momento conseguirmos ver o que tem de melhor no mundo. Estarmos conscientes do facto que nós projetamos no mundo as nossas ideias e concepções, e isso não é a talidade ou a visão do Buda. Quando Buda se iluminou ele disse que se iluminou com todos os seres porque passou a ver todos os seres com o potencial da iluminação.

“agora que vocês obtiveram esses benefícios” refere-se à realização do samadhi como um tesouro. O samadhi é dotado das virtudes inatas da mente universal única, ou seja, o Dharma como ele é, ou os fenómenos tal qual eles se apresentam. É importante nos darmos conta que somos fenómenos da vida, somos como ondas que acontecem na superfície do mar. Por causa dos ventos as ondas se formam, os ventos nessa analogia seriam os ventos do karma. O Buda ensinou para as “ondas”, porque as ondas, nós, somos perturbações geradas pelo karma, somos arrastados pelo karma, nos movimentamos pelo nosso karma. Mudando o nosso karma mudamos a nós mesmo, nos consciencializando que a nossa verdade pura é sermos o próprio oceano. Como ondas somos meros fenómenos, surgimos e desaparecemos, nascemos e morremos e nos angustiamos pela existência ser transitória.

A mente do Zazen, é como se tivéssemos morrido, e calando a nossa mente inquieta que transita para cá e para lá, nos vemos a realidade tal como ela é, nós somos fenómenos transitórios… mas se nós paramos completamente podemos ver o samadhi, e o samadhi é vermos as coisas tal como são, e tais com são realmente, ondas não são fenómenos, e morte e renascimento não existem, porque a realidade última é que nós somos o grande oceano, da verdade universal, do absoluto, das coisas tal como são, não as coisas transitórias, a nossa vida aqui e agora, mas a nossa verdade última, o nosso pertencimento a um absoluto universal que não tem fim nem começo.

[2ª Estrofe]

A neve pura num prato branco de prata
a garça branca na clara luz da lua cheia
ainda que semelhantes são diferentes.
No mundo às vezes as coisas misturam-se
mas cada uma revela-se com lugar próprio.

No Sandokai falámos na identidade do relativo e do absoluto, aqui no Hōkyōzanmai esse assunto é novamente mostrado. Todas as coisas misturam-se no absoluto e todas pertencem ao absoluto, mas ao mesmo tempo elas têm identidade própria. “A neve pura num prato branco de prata”, quer dizer que não à distinção quando olhamos, porque ambos são brancos, o que nos remete para a igualdade universal; mas ao mesmo tempo, prato branco de prata é diferente da neve branca, evidenciando a descriminação relativa de cada coisa. O conceito de descriminação relativa é aquele em que a nossa mente mesmo sendo dotada da universalidade, simultaneamente tem a capacidade de descriminar, ou seja, distinguir e separar cada coisa do mundo. Nessa descriminação cada ser e cada coisa no mundo expressa a sua singularidade e individualidade própria, revelando nesse caso o aspeto da independência.

Mesmo que haja uma unidade entre nós, existe uma diferenciação. As duas coisas coexistem ao mesmo tempo, que é o tema do Sandokai. Somos seres no mundo relativo, mas ao mesmo tempo pertencemos ao absoluto. E não podemos perder de vista esse absoluto, porque se o perdermos vamos apenas pensar que somos indivíduos separados, pequenos e transitórios, que surgem e desaparecem como relâmpagos (uma expressão de Dogen).

Vivemos agora num mundo em que ressurgem ideias de descriminação, nacionalidade, isolacionismo, em que as pessoas sentem-se separadas das outras e destintas, com guerras e agressões por causa de bandeiras. Esse sentimento tribal de nós e o outro, de movimentos que vêm ressurgindo, se contrapõe à ideia de igualdade e não descriminação. A cada momento devemos vigiar as nossas mentes para estarmos atentos a esse vício da mente humana.

A Sangha, a comunidade, nos leva a nos confrontarmos com os outros, que são diferentes, que não são perfeitos, que são pessoas com tantos defeitos como nós mesmos. Mas na Sangha não à distinção, e por isso, no caso da Daissen, mestres e discípulos se sentem ao mesmo nível.

2 – Em vez de explicar deveríamos simplesmente sentir

Monge Genshô (Daissen, 04/07/2025)

[3ª Estrofe]

A Mente Búdica transcende as palavras e os pensamentos
os que vêm em busca da verdade são conduzidos ao satori.
Ao ativarmos a mente discriminativa caímos na cilada dos apegos
contrariamos a nossa essência e logo sucumbimos às ilusões.

Estes 4 versões mostram que por intermédio das palavras é impossível expressar a verdadeira natureza da verdade do Dharma. Esse é uma paradoxo que se vive no Zen, a linguagem, pelas suas características duais, tem limites bem claros. Nos expressamos constantemente através de dualidades, de pares de opostos… em cima/em baixo, esquerda/direita, feio/bonito. Essa é a característica classificatória da linguagem, queremos classificar para entender melhor as coisas e colocar tudo em “prateleiras”, nichos nos quais possamos entender as coisas.

Quando falamos com as pessoas perguntamos o que ela faz, se é médico, advogado… colocamos a pessoa num determinado nicho para a entendermos melhor. A linguagem é uma ferramenta muito útil, sem ela não poderíamos desenvolver por exemplo a ciência. Precisamos classificar para entender, no entanto, essa virtude se torna um obstáculo quando tentamos entender coisas como o absoluto. Por isso quando falamos no vazio, no absoluto, na verdade do Dharma, nós nos deparamos com os limites da linguagem, a linguagem não permite ver a verdadeira natureza da verdade do Dharma. Por meio do pensamento, não é possível aprende-la, no entanto, os Budas e os seus sucessores não pouparam esforços para transmitir o Dharma através das palavras e outros métodos. Porém se os praticantes se apegam às palavras, aos meios ou aos métodos, eles se afastam cada vez mais do Dharma tal como ele é, tornando-se prisioneiros das ilusões descriminativas.

Os métodos, os rituais, as maneiras com que nós operamos no Zen, tem a mesma virtude e defeitos da linguagem. Por exemplo, é louvável e bom praticarmos ritos ou cerimónias, eles foram desenvolvidos e criados com o objetivo de estimular a plena atenção, de criar um clina adequando dentro da Sangha, etc; no entanto, o apego aos ritos e cerimónias é um obstáculo à iluminação. De um lado, temos que ser capazes de praticar de uma determinada forma, de outro lado, deveremos ser capazes de não estarmos presos às formas.

Como as palavras pertencem ao mundo relativo, não conseguem nunca expressar o mundo absoluto. No entanto, os mestres usam todos os métodos possíveis e imagináveis, como analogias, histórias, mitos, lendas, e o que for necessário, para tentar fazer com que o aluno compreenda o Caminho.

Dentro do âmbito do absoluto, todos os enganos e acertos estão contidos; se queremos aceder ao absoluto, não podemos nos limitar a pensa em termos relativos, certo/errado, isto e aquilo. Na escola Zen, o satori (iluminação) não é algo que pode ser expresso por palavras e letras, é transmitido diretamente de coração para coração. Quando assimilamos a essência, podemos perceber que originalmente, o pensar é justamente o não pensar, a existência é a não existência, e com isso podemos tornar-nos seres livres e sem obstáculos.

3 – O mundo que nós vemos é uma interpretação de nossa mente

Monge Genshô (Daissen, 15/08/2025)

[7ª Estrofe]

Mesmo que os bebés humanos em todo o mundo
sejam satisfatoriamente dotados dos cinco sentidos
têm atos vagos, ainda não andam, não vão nem vêm
não se postam de pé e mesmo parados não sossegam.
Por vezes graciosamente balbuciam ba ba ua ua
que tem sentido mas não se torna uma palavra clara
enfim eles não conseguem ajuizar claramente as coisas
porque ainda não incorporaram o conceito das palavras.

Essa metáfora compara o comportamento de crianças inocentes com a maravilhosa ação da verdade do Dharma.

Muitas vezes as pessoas pensam como pode haver muitas vidas se não temos memória? Mas nesta existência já vivemos vidas que não nos lembramos. Ninguém lembra quando aprendeu a andar e a falar. No entanto todos nós vivemos essa fase, é como se fosse outra vida dentro desta existência presente.

O estado de “não-mente” (mushin em japonês), é um estado em que as coisas são percebidas sem as elaborações mentais, sem as nossas projeções. Ferramentas para interpretar e elaborar o mundo como as palavras e linguagem, têm a sua utilidade e função muito importante, mas tentamos retornar a um estado de percepção pura não contaminado por uma gramática e linguagem. É como se vivêssemos em dois mundos possíveis, o mundo em que podemos perceber as coisas de forma pura, e um mundo em que não funciona se não for interpretado e tiver uma linguagem para organizá-lo, para estabelecer conceitos e a própria ciência. Lutamos com duas mentes, é necessário desenvolvermos a capacidade de usarmos cada uma no momento certo. O que acontece com os seres humanos é que começam a imaginar que não existe um mundo longe dos conceitos e das palavras. E como imaginamos esse mundo conceitual elaborado e cheio de pensamentos, projetamos os nossos pensamentos sobre todos os outros, sobre as coisas, e damos nomes para as tentarmos entendê-las. Descrevendo o mundo, pensamos que o compreendemos e o dominamos, e quando não damos palavras são objetos absolutamente desconhecidos.

Genshô Sensei cita um poema Zen:

A lua na água e as flores no céu

Qualquer porção de água é capaz de refletir a imagem da lua que está no firmamento
a imagem da lua na água verdadeiramente não tem substancialidade
e não podemos tomá-la como tendo uma existência genuína e real.

E assim como todas as designações e palavras, tudo aquilo que referimos parece que toma existência, mas não é a verdade, trata-se apenas de um reflexo. Tomamos como genuíno e real, tudo aquilo que percebemos vemos e sentimos. No entanto, tudo o que vemos e sentimos não passa de um reflexo.

Todas as coisas no universo sem excepção não têm substancialidade própria, o que significa que tudo, incluindo nós mesmos, só existimos em relação a outras coisas. Os atributos que damos a todas as coisas parece que faz com que existam, mas na realidade todas as coisas são apenas uma única coisa com uma imensa quantidade de relações entre elas. As relações que descrevemos faz com que pensemos que o mundo existe tal como vemos, mas na realidade percebemos um infinitésimo daquilo que nos rodeia.

Nós fazemos escolhas e nos sintonizamos com alguma coisa em detrimento de outras. Temos uma grande liberdade para escolhermos o bem em vez do mal.

Todas as gotas de água podem refletir a lua, mas a lua não está em nenhuma delas. Sentar em Zazen no estado de não-mente, sem orgulho, sem excitação, sem nada procurar, transcendendo a substancialidade de todas as coisas, conduz à percepção pura e portanto à iluminação.

A expressão “flores no céu” representa o nosso erro em atribuir existência real a fenómenos vazios, tal como quando olhamos para as nuvens e as nossas mentes constroem e veem imagens que, na verdade, não estão lá. O mundo que vemos é uma construção e interpretação feita inteiramente dentro da nossa mente.

Sensei menciona o livro “O Verdadeiro Criador de Tudo”, do neurocientista Miguel Nicolelis. Algumas partes do livro não expressam outra coisa senão aquilo que nós estudamos no budismo há 2500 anos. O criador deste mundo que estamos olhando somos nós mesmos, é com a nossa mente que construímos esse mundo que vemos. O mundo que vemos é uma interpretação, se tivermos outro tipo de mente interpretaremos de maneira diferente.

Somo todos uma enciclopédia de pequenas distorções da maneira como olhamos o mundo. Por isso sentamos em zazen, porque se nos libertarmos de todas as formas de ver o mundo e passarmos para uma percepção pura, essa percepção pura não tem distorção.

Como interpretamos o mundo de forma distorcida, temos mentes “doentes” e desequilibradas. Se optássemos por aprender a esvaziar a nossa mente e a ver o mundo sem distorções, instantaneamente se criaria uma mente sem sofrimento e extremamente feliz.

4 – Entre sanidade e loucura: apenas um fio

Monge Genshô (Daissen, 29/08/2025)

[10ª Estrofe]

Na essência original, manifesta-se a ação maravilhosa da natureza búdica
que transcende o mundo dual da perda e do ganho, da ilusão e do satori
no tempo adequado, quando as causas e condições amadurecem
com a mente pacificada, a essência do Eu manifesta-se claramente
mesmo no mundo microscópico, ou no de grandeza infinita
a ação da natureza búdica está presente em todas as coisas
na consciência, se surgir mesmo uma ínfima contaminação
enlouquece-se o ritmo da harmonia e surge a confusão.

A essência original se refere à nossa verdadeira natureza, ao Dharmakaya, à vacuidade, na qual todas as coisas se manifestam. É como a vacuidade, por analogia, fosse uma tela na qual todas as coisas possam surgir. Em si mesma, ela não tem nem o bem nem o mal. Todas as coisas que surjam podem ser boas ou más dependendo do nosso olhar. É o nosso olhar que interpreta as imagens e as transforma numa realidade, que é a realidade que vivemos.

Sensei conta que viu um comentário sobre a cerimónia Kalachakra realizada por os tibetanos. A tradição é que se reúnam junto a um grande monte nos himalaias e façam a circumbulação desse monte, de 52 km, considerado o centro do mundo. Mas há pessoas chegando lá através de longas peregrinações, e alguns a fazem dando 3 passos e fazendo um prostração, e assim sucessivamente. Um monge percorreu 4500 km assim, levando 3 anos e meio. Ao Dalai Lama perguntaram se ali era mesmo o centro do mundo, ele respondeu que sim, mas para a pessoa que estava perguntando o centro do mundo era o lugar em que ela estava, porque ela olhava o universo a partir do seu ponto de vista, e cada pessoa tem o centro do mundo, o centro do universo em si mesmo. É uma resposta excelente, porque quando sentamos em zazen, é com se fossemos o eixo do mundo, todo o universo gira ali em volta, de nós, da nossa perspetiva. A essência original manifesta todas as coisas a partir da sua perspetiva. É a sua perspetiva que de certa forma faz com que surjam as coisas. É por isso que existem ensinamentos que dizem que é a nossa consciência que faz surgir o universo. Da mesma forma que vemos imagens no ecrã de um computador, as interpretamos e selecionamos, bilhões e bilhões de formas estão disponíveis, mas nós escolhemos o que quisermos e assim construímos um mundo particular; somos nós que produzimos o nosso mundo, isso é a ação maravilhosa da natureza búdica. Tudo pode se expressar na vacuidade, se entendermos que a natureza búdica significa que todos os seres têm a natureza que lhes permite vir a despertar.

Todos têm a natureza buda dentro de si, mesmo as piores pessoas do nosso mundo. Um dia, dado o tempo suficiente, eles serão um Buda, não existe condenação eterna para ninguém, pelo contrário, o budismo tem a perspetiva inversa, TODOS, absolutamente todos, têm a natureza búdica e mais cedo ou mais tarde serão Budas. Todos irão despertar, todos estarão salvos, não existem condenados. O que há é perda de tempo, a pessoa sofre e transita pelo mundo sem despertar, pode passar um milhão de anos sofrendo, ou pode despertar hoje, é uma questão de disponibilidade. Para o budismo não existem condenações eternas, só existem possibilidades! E a possibilidade para todos é realizar a Natureza Buda.

Vivemos olhando o mundo através de ideias duais, nós, a outra tribo, a outra raça, a outra maneira de viver, a outra orientação sexual… nós e o outro, a divisão em dois. Esse mundo de divisões cria perdas e ganhos, e mesmo a ideia que existe ilusão e iluminação é uma divisão. A iluminação na verdade está sempre disponível, nós é que não acordamos para ela, ficamos mergulhados no sonho, é isso que é a dualidade. A natureza búdica transcende o mundo dual, da perda e do ganho, da ilusão e do satori.

Nós fazemos escolhas, e as nossas escolhas manifestam mundos diferentes, conforme nossas escolhas nós moldamos a nossa mente, à medida que moldamos a nossa mente, ela adquire condições cada vez mais claras para ver de uma determinada maneira. A pessoa que cultiva pensamentos de raiva e ódio, vai ver tudo com raiva e ódio, ela vai interpretar tudo dentro dessa forma, e vai ver um mundo mergulhado em raiva e ódio. É fácil ver situações assim no nosso mundo… guerras, conflitos entre diferentes culturas, são geradas dentro das mentes das pessoas, de pessoas que pensaram de determinada forma.

Causas e condições amadurecem, e criam conflito ou podem criar paz e felicidade, se cultivamos as causas e condições na nossa mente para que a nossa mente manifeste para nós um mundo diferente.

Genshô Sensei conta que tem uma amiga com mais de 70 anos de idade que mora sozinha, e um dia acordou com barulho em casa, levantou-se e viu um ladrão que invadiu a sua casa. Ela o interrogou e ele disse que precisava roubar, ela perguntou se ele estava com fome e então fez um café para ele e serviu na messa para ele. Ele confessou as suas agruras e desesperos e porque estava invadindo casas e tentando roubado. Ela não tinha dinheiro para dar, mas deu a ele uma refeição. Quando ele ia embora, ela disse “você não vai embora sem um abraço”. Esse é um episódio de uma visão, ela tinha uma determinada visão de mundo, uma visão de que se alguém chegava com necessidades ela ia dar.

É como a história de Ryokan, cujo eremitério foi invadido por um ladrão e não havia nada para levar, mas ele disse para o ladrão, “você não vai embora assim nesse frio”, e deu a ele o seu manto de monge para que ele se agasalhasse. Um dia depois a policia pegou o ladrão e foi ao mestre dizendo que o prenderam com o manto e basta que o denuncie para que o prendam, mas Ryokan disse que o deu de presente, e a policia teve que soltar o ladrão, que voltou 3 dias depois, ajoelhou-se em frente de Ryokan e pediu a ela que fosse o seu mestre.

Essas histórias, que têm o mesmo fundo, são histórias de mudança de visão. Histórias em que um homem muda um outro homem fazendo tudo ao contrário do que se espera. Em vez de responder à violência com violência, respondem à violência com amorosidade.

A “essência do Eu” referida no verso é a nossa essência original, e a nossa essência original é uma possibilidade. A nossa original pode manifestar qualquer coisa, então pode manifestar a natureza de um Buda.

Nós estamos mergulhados no sonho de um Eu, no entanto podemos despertar. O poema diz que até a distinção entre ilusão e satori é um engano, porque a ilusão e iluminação não passam de projeção da nossa mente em cima da tela de todas as possibilidades, que é a essência original, que é a vacuidade. Mesmo quando pensamos em iluminação para escapar da ilusão, não estamos fazendo mais que manifestar um pensamento dual, porque a essência original e a libertação são exatamente a mesma coisa, um fio da cabelo apenas separa a ilusão da iluminação.

As coisas mais horríveis podem ser mostradas num ecrã de computador, as coisas mais belas podem ser mostradas, depende do que procuramos, do que sintonizamos, daquilo que queremos ver. Se procurarmos a beleza nós a encontraremos, se procurarmos a maldada, nós a encontraremos. Ambas as coisas podem ser encontradas nas mesmas pessoas. Existem más tendências em todos nós, mas nós podemos escolher, como na analogia do cão, em que em nós existe o cão bom e mau, qual dele vai ganhar? Aquele a que dermos alimento. Se alimentarmos as boas tendências, são essas que se vão manifestar.

É perguntado ao Sensei: “Fico preocupada até que ponto olhar tudo com bom olhar, o outro se aproveitar e inclusive podem bandidos tirarem a minha vida?” Sensei se lembra da história de um mestre que está sentado em meditação quando a cidade está sendo invadida, um guerreiro aparece na sua frente com a espada suja de sangue e diz: “mas você não tem medo? não vê que posso tirar a sua vida num instante?” E o mestre olha para ele e responde calmamente: “E você não vê, que eu posso morrer em um instante?” Ele pode morrer… para ele isso não é importante, é um outro olhar completamente diferente de alguém que já esqueceu de si mesmo. Nessa pergunta “os outros se aproveitarem”… não existe os outros, Eu e os outros somos a mesma coisa. E o que é a vida? Só existe continuidade, ela vai acabar de qualquer forma. O mestre nesse caso sabe morrer, então para ele essas coisas não têm tanta importância.

Nas possibilidades de vida humana na terra, como se realizaria o tempo necessário para manifestarmos a nossa natureza búdica? Nem sequer dependemos da Terra. A nossa existência é a existência do próprio universo, nós somos uma manifestação do universo, da vacuidade, nós somos essencialmente a vacuidade, e portanto a nossa essência original. Só neste momento somos uma pessoa em particular, neste momento somos um acidentalismo biológico chamado ser humano, neste planeta. Mas trilhões, quatrilhões de possibilidades existem para todas as nossas manifestações. Não dependemos sequer da Terra. É preciosa para nós e devemos cuidar dela. Mas a longo prazo, a manifestação da nossa natureza búdica é uma dessas manifestações inevitáveis, porque todos os eventos possíveis, dado o tempo suficiente, sucederão.

5 – Você pode acordar agora

Monge Genshô (Daissen, 26/09/2025)

[11ª Estrofe]

No Zen chinês fala-se na iluminação subida no sul e na gradual no norte.
De acordo com o conteúdo dos múltiplos ensinamentos, princípios e meios
várias formas de ensinar foram estabelecidas, surgindo muitas escolas
isso deu origem a diferentes normas, preceitos e maneiras de pensar.

Na época havia uma diferença na perspetiva de ensino, uma sobre a iluminação subida (escola do Sul), e outra gradual (escola do Norte). Foi um período muito rico, durante a era Tang (618–907 d.C.), em que surgiram as denominadas 5 escolas e 7 linhagens. Foi um período de florescimento cultural e de crescimento e expansão do Zen.

Das 5 escolas – Linji (Rinzai), Caodong (Soto), Fayan, Guiyang e Yunmen – apenas Linji (Rinzai) e Caodong (Soto) sobreviveram deixando sucessores, das outras 3 apenas sobraram apenas os textos. Muitas pessoas se interessam pelo Zen, atualmente é inclusive amplamente citado na literatura, psicologia e filosofia. Os mestres têm muitas pessoas que os ouvem, alunos são muitos, mas tornarem-se realmente discípulos e formarem vínculos, é algo bem mais raro. Além disso, no Zen os mestres têm que escolher ainda alguns sucessores, que é o reconhecimento de “terem” a mente do mestre, o que é delicado e difícil. O que aconteceu com essas 3 escolas, é que eles não conseguiram ter sucessores que tivessem sucessores, e assim sucessivamente, e por isso em algum momento as escolas desapareceram.

O que é preciso fazer para um aluno se desligar do Zen. Nada, é só não colaborar com a comunidade, se afastar… a pessoa é livre, ninguém vai excomungá-la, persegui-la ou puni-la. E pode voltar quando quiser.

Um dia, dado o tempo suficiente, todos nós iremos despertar. A questão é, quanto sofrimento e tragédias viveremos até lá? Vamos sofrer nesse intermédio que pode ser de vários bilhões de anos, ou vamos tentar nos libertar do sofrimento e das ilusões agora?

O conflito entre essas duas escolas do Sul e do Norte, era “o despertar é possível aqui e agora, num ápice”. Esse é um conceito presente no Zen. Essa é uma possibilidade teórica, pode-se acordar agora ouvindo esta palestra ou, praticar e praticar, melhorar e aperfeiçoar-se, libertar-se pouco a pouco das ilusões, até um dia estar maduro e despertar. Isso é gradual? Genshô Sensei diz que continua a ser súbito, o despertar continua a ser súbito, inesperado, num momento. Como um clarão que repentinamente nos tira das ilusões. Esse despertar é gradual na sua preparação e súbito na sua realização. Então… o conflito gradual/súbito das duas escolas é um conflito sem sentido, porque ao mesmo tempo o Zen é uma prática gradual, e ao mesmo tempo é uma prática subida.

A pessoa faz zazen uma e outra vez, e sente que melhora aos poucos, até que um dia começa a ser tão verdade, que as outras pessoas, como o companheiro ou companheira, começa a reparar e diz “você está diferente, é uma pessoa melhor de conviver, você tem uma outra maneira de viver e ver a vida que não sei como se instalou em você.” Quando os outros reconhecem então é verdade, enquanto os outros não reconhecem, não é verdade.

E claro ficamos variando para cima e para baixo. Qual o praticante budista que nunca ouviu algum familiar dizer quando se perde a paciência “mas você não é budista”? Quem não ouviu isso? Como se nós, ao nos tornar budistas, nos tornássemos seres iluminados e Budas automaticamente e instantaneamente. Mesmo os melhores mestres eventualmente perdem a paciência.

Estas diferentes formas de ver a pratica do Zen, como súbito e gradual, não fazem com que valha a pena fazer discussões tão tolas. Qual é o certo? Nem súbito nem gradual, a pessoa se prepara gradualmente e desperta subitamente.

Após praticar e praticar, a pessoa pode começar a ter momentos de despertar, o kenshô, experiencias subidas e maravilhosas, que até podem acontecer simplesmente vendo o vento balançando uma cortina. Esse tipo de experiencia não pode ser descrita, é como poesia, que é uma maneira de dizer com palavras o que não conseguimos explicar com palavras. Mas quem tem entendimento, lê a poesia e sente a mesma coisa. De um lado a experiência é intransmissível, de outro lado pode ser compreendida por quem sabe do que se está falando. Isso é experiência espiritual, nós praticamos zazen para isso. Fazemos pratica gradual e teremos experiências súbitas e inesperadas. É para esses momentos de despertar que praticamos.

Satori, é a palavra japonesa para expressar, um estado em que se pode retornar à experiencia iluminada quando se quer, a qualquer momento, isso é possuir satori. Normalmente quando temos uma experiência espiritual, é como se fosse uma experiência que aconteceu mas que não dominamos, isso é kenshô. Nós praticamos zazen para termos a capacidade de nos concentrar, ter samadhi, experienciar jhana, que são estados mentais muito felizes. Mas existe uma grande distancia entre ter experiencias de kenshô e atingir o domínio, o Satori.

A iluminação é o que procuramos, tudo o resto, como rituais, vestes, instituições, ensino, etc, são meios hábeis. Tudo isso é montado para nós desenvolvermos a capacidade de atingir o satori. É raro e difícil, mas é para isso que nos sentamos e ouvimos os ensinamentos.

6 – O Zen aponta para a liberdade

Monge Genshô (Daissen, 17/10/2025)

[12ª Estrofe]

Alguns, por mais que tenham alcançado a verdade fundamental do Zen
ainda com o fluxo da mente contaminada, apegam-se a esta verdade.
Externamente aparentam serenidade mas no íntimo persiste a agitação
isso é como um cavalo jovem amarrado ou como um rato preso numa caixa.

Tozan nasceu no ano 1000, mas os problemas a que ele se refere são os mesmos problemas de hoje.

A verdade fundamental do Zen é alcançada através da prática do zazen. Ela significa que os “eus” que nós achamos tão importante e nos agarramos tão tenazmente, é uma ilusão, e que pertencemos a uma unicidade tão imensa e tão grande, que é inalcançável pelas nossas pequenas mentes e indescritível através dos instrumentos que temos para a investigação do mundo, que são todos baseados em linguagens.

A nossa linguagem é dual, baseia-se em opostos e comparações, certo/errado, bom/mau, gosto/não gosto, etc. Todas as vinculações a esses conceitos são na realidade falsas, porque não percebem a unicidade de todas as coisas, agarram-se a um aspeto que acreditamos verdadeiro. A verdade fundamental do zen é o vazio, que significa que todas as coisas são vazias de um identidade separada, de uma identidade própria, de um eu. Todos os eus são construídos. Esse é a verdade mais difícil de alcançar, pois estamos constantemente perdidos na nossa própria perspetiva. Essa perspetiva pessoa é profundamente destorcida e muito limitada. Ela percebe apenas um infinitésima parte da realidade. Os nossos olhos por exemplo percebem apenas uma infinitésima parte do espectro eletromagnético, que nos chamamos de luz visível. Os nossos ouvidos também ouvem vibrações num espectro bastante limitado. Todos os nosso sentidos funcionam dessa forma, percebemos apenas uma parcela da realidade. Mas confundimos isso com aquilo que chamamos a realidade ou o universo.

As pessoas ao compreenderem o budismo, como estas explicações, parecem conhecer o Dharma como ele é, mas na realidade, não alcançaram a verdadeira via do Buda. Compreendemos o Zen intelectualmente e apegamo-nos a essa verdade.

O budismo tem a virtude de falar muito bem para as mentes céticas e para as pessoas que não se querem colocar em sistemas de crenças. Sensei diz que quando conheceu o budismo teve a sensação de não lhe estarem enganando com mitos e histórias e pedindo que acredite. No Zen não pedimos para acreditar nisto ou naquilo, e que acreditem em Buda. Buda foi um grande professor, mas foi sucedido por outros grandes professores também, que desenvolveram e aprofundaram outros aspetos do budismo, como Nagarjuna, Vasubandhu e Dogen. Por isso o budismo é uma obra coletiva de pensamento, cuja sua revolução foi desencadeada pela perspectiva de Shakyamuni Buda.

O Zen aponta para a liberdade, mas tudo nele é método, e os métodos podem ser alterados de acordo com as culturas e necessidades, essa é a tarefa dos mestres. No Daissen muitas cerimónias que vieram do xintoísmo e confucionismo são descartadas porque não são úteis no nosso contexto. Isso não significa desrespeitar, essas praticas foram úteis no seu tempo, lugar e cultura, e para as pessoas que se sentem tocadas por elas.

Tozan aponta o facto de que as pessoas quando fazem uma prática apegam-se a ela, que no seu extremo é o que falamos de fanatismo. Achando que isso é tudo, e tudo o resto é falso. Mas até os mitos, não são nem mentiras nem verdade, são metáforas que nos mostram compreensões e aspetos da realidade que estavam ocultos para nós porque não estávamos percebendo as sutilezas. Os mitos também tem as suas funções, o facto de não acreditarmos como realidades ou verdades em si, é indiferente porque essa não é a função das metáforas. A função das metáforas é ampliar a nossa visão, fazer com que compreendamos aspetos mais profundos da realidade.

Quando as pessoas querem formalizar a sua iluminação, isso em si já é uma ilusão egocêntrica. Persistem dentro dessas pessoas as ilusões de busca pela fama e o acumulo de bens materiais. Externamente podem aparentar tranquilidade e ter transcendido os desejos de fama e ilusões de vida e morte, mas internamente ainda se apegam a todas essas ilusões. Como diz Kodo Sawaki num poema, “os homens procuram fama e honra, roupas bonitas e conforto, você corre e corre, e permanece insatisfeito até à morte”, porque não há maneira de satisfazer esse tipo de ser.

7 – Depois do despertar, não há retorno

Monge Genshô (Daissen, 31/10/2026)

[13ª Estrofe]

Os patriarcas sucessores lamentam o estado equivocado dos seres
e compassivamente doam-lhes os ensinamentos do Dharma
divida os pensamentos invertidos e equivocados dos seres
eles são persuadidos a ponto de dizerem que a cor preta é branca.
Entretanto mesmo que os seus pensamento erróneos desapareçam
pessoalmente ainda reconhecem o estado afirmativo das suas mentes.

Desde antigamente que havia muitas doenças no Zen. Quando começamos a praticar parece tudo maravilhoso é às vezes nos dá uma certa paixão pelo Dharma. Essa paixão às vezes é tão forte que dizemos “essa pessoa está doente do Zen”.

É frequente os praticantes se sentirem deslocadas no mundo, como se as outras pessoas falassem de coisas sem interesse e tivessem muito perdidas. Coisas que conversávamos com amigos agora parecem tolas, e coisas que queremos falar não interessa para eles. Por isso a Sangha, a comunidade budista, é uma joia, porque as pessoas estão interessadas nas mesmas coisas. Parece que estamos doentes do Zen, mas na realidade encontrámos o Dharma.

O seshin (retiros Zen) tem o propósito de conduzir as pessoas ao Dharma, de levar a experiências espirituais, e às vezes provoca verdadeiras crises em relação a “quem sou eu?”, “o que faço no mundo?”, “o que estou fazendo da minha vida?”. Essa é uma crise muito boa porque leva a pessoa a se aprofundar.

A intenção dos mestres é retificar os equívocos que vão surgindo na mente dos discípulos. Os estudantes ficam curados de alguma enfermidades, mas ao mesmo tempo contraem a próxima doença, porque os portais do Dharma são incontáveis. Abrimos um portal e compreendemos algo, e é magnifico, mas andamos um pouco e há outro portal.

Nas portas dos templos Zen há guardiões, eles têm expressões ferozes e aterrorizantes. Algumas pessoas pensam que são divindades, mas não, eles são símbolos dos medos que nos assaltam quando vamos abrir um portal do Dharma. Ao progredirmos no caminho e compreendemos alguma coisa às vezes nos surgem um medo, “o que será da minha vida se atravessar este portal?” O portal do conhecimento tem um problema, depois que adquiramos um conhecimento não conseguimos voltar atrás. Mesmo que digamos que um ignorante é mais feliz, que não sabe nada e está vivendo a sua vida sem questionamentos, até pode parecer simples, mas quando damos qualquer passo e apreendemos alguma coisa nova, não conseguimos dar um passo para trás e retornar à ignorância.

Isso pode ser aterrorizante, uma ilusão infantil já não consola mais, e a alternativa é apenas seguir é frente. As crenças podem ser consoladoras, por isso vêm poucas pessoas para o Zen, porque é melhor ficar no mundo das crenças sendo consoladas por seres imaginados. No Ocidente a forma de budismo mais popular é o Zen, mas essa não é a realidade no Oriente, a realidade no Oriente é um budismo supersticioso e baseado em crenças salvíficas, em ofertas e promessas, não muito diferente da conduta popular e religiosa do Ocidente.

No zendo circulamos girando no sentido horário, para lembrar que o tempo não volta para trás; não podemos apagar as nossas más ações passadas; apenas ações melhores podem compensar as más ações do passado, as suas repercussões continuarão através dos tempos.

Em contraponto, existe um vazio da existência, que significa a libertação dos apegos autocentrados. A nossa identidade, o nosso eu, é uma construção da nossa mente, que ocorre a cada vida e a cada momento. Isso é uma excelente noticia, porque nada está congelado. Não precisamos dizer “eu sou assim”, não é verdade, nós podemos mudar muito e constantemente estamos mudando para melhor ou pior. A nossa identidade pessoal é um artifício importante para transitarmos no mundo, mas não passa de uma construção. Ao nos agarrarmos a essa identidade e pensarmos “eu sou assim”, ficamos atados. É melhor pensar “eu sou um ser em mudança”. Quando reconhecemos o eu como sólido, nos afastamos da verdade, são devaneios ilusórios.

Buscar a iluminação apegadamente é uma busca por resultados, e ela está além do culto ao egocentrismo, por isso sentamos em zazen sem ambicionar e desejar nada, apenas sentamos e praticamos. Se fizermos isso podemo-nos libertar desses apegos que nos aprisionam e nos fazem sofrer.

O nível mais baixo que existe é aquele de quem não vê as próprias falhas, vê a dos outros e se acha especial. Nós não somos especiais. As nossas vidas não têm nenhum sentido especial, somos nós que tendo esta enorme oportunidade de estarmos vivos, com corpos e cérebros, olhos e ouvidos, que podemos transformar esta vida numa vida significativa. Quem pode construir o sentido e valor da vida somos nós com os próprios esforços.

O Dharma é o remédio oferecido pelos mestres para aliviar o sofrimento e nos ajudar a olhar com clareza para as nossas ilusões. O Dharma é o caminho para a libertação e felicidade.

8 – É muito difícil disfarçar o verdadeiro estado de sua mente

Monge Genshô (Daissen, 14/11/2025)

[14ª Estrofe]

Se desejarem seguir o mesmo caminho dos antigos Budas
por favor, vejam bem as suas maneiras e exemplo de vida.
Antigamente certo Buda Nyorai aproximou-se do satori
porém, mesmo treinando por longos kalpas não o obteve
Olvidar os Budas é estar como um tigre apático e bocejante
ou tornar-se como um cavalo sem atividade preso a uma peia.
Mesmo seres de poucos atributos,
todos são dotados de natureza búdica.
Eles são como joias de ouro e prata
ou como vestes raras de seda.
Ao ouvirem que são filhos de Buda
eles ficam surpresos e duvidam.
Entretanto humanos e animais,
todos são dotados de natureza búdica.

É muito difícil para qualquer pessoa ocultar o verdadeiro estado da sua mente quando está num retiro de prática, porque as suas maneiras pessoais, os seus gestos, os seus olhares, o gesto das suas mãos, a disciplina com que se comporta… tudo isso demonstra a verdadeira prática.

Ler, fazer cursos, ouvir palestras e aprender muitos detalhes e coisas, é muito útil, mas onde está realmente a prática? Está no sentar-se (zazen), no comportar-se, no viver em cada pequeno detalhes. Por isso é muito difícil disfarçar o verdadeiro estado da mente, porque o seshin vai desnudá-lo. A cada ato, a cada momentos, quando se está comento, tomando banho, vamos ver o verdadeiro estado da mente de alguém, porque ele transparece nos seus atos.

As pessoas às vezes têm experiencias brilhantes, um relâmpago de compreensão magnífico, durante segundos ou minutos, e depois pensam que obtiveram a iluminação. Mas não é isso, é como tivesse levantado um véu e ter visto a luz do outro lado, mas ainda não passou para o outro lado. Essa experiencia mística chama-se kenshô. As experiências mais básicas que ocorrem na meditação, como contentamento, visão iluminada, mas ainda com um eu presente, segundo Genshô Sensei chamamos de jhana. Quando o eu não está mais presente, quando o observador não está mais ali, chamamos a experiência de samadhi. Essa é a principal diferença entre os estágios de jhana e o estágio samadhi. O estágio de jhana pode ser dividido em muitos, mas não é útil ensinar porque o aluno começa a procurar e a querer-se classificar em que estágio está, o que não é útil e é mais um problema egóico. Quando à experiência do satori, não se trata exatamente de uma experiência, mas sim de um estado no qual o praticante chegou a um ponto tão alto, que a iluminação está presente a qualquer momento que ele deseje. Ele pode voltar a esse estado iluminado, a essa sensação e percepção iluminada a qualquer momento, trata-se do seu estado natural.

Tendemos a classificar as pessoas, a ver que a pessoa não tem qualidade ou é má, e até pode parecer objetivamente verdadeiro, mas essa não é a verdadeira prática dos Budas. A prática dos Budas aparece nos votos “os seres são inumeráveis, eu faço votos de libertá-los todos”. Esse voto não diz há seres nos quais nos dedicaremos e outros que ignoraremos. Todos são dignos da nossa atenção e compaixão. Fazemos os votos de libertá-los todos, mesmo que leve um tempo incomensurável. Todos os seres têm o potencial de ser Budas, todos têm a natureza Buda, todos abrigam esse tesouro precioso.

Há um dito zen que diz “quando você estiver sozinho em casa, haja como se tivesse na presença de uma visita importante.” Agir como se tivesse na presença do próprio mestre, transformar a própria vida como um exemplo para si mesmo.

No tempo de Buda havia um assassino impiedoso chamado Angulimala, que colecionava dedos das suas vitimas e fazia um colar que colocava no seu pescoço. Buda disse para ele que há esperança, que ele pode despertar e deixar de ser Angulimala. Buda transforma Angulimala num monge, Angulimala torna-se discípulo de Buda. A confiança de Buda que o Dharma funciona, e a confiança de que Angulimala apesar de ser cruel e impiedoso tinha dentro de si a natureza búdica, é a grande lição da história de Angulimala e o grande tema desta estrofe.

9 – Jogue fora as suas opiniões

Monge Genshô (Daissen, 12/12/2025)

[15ª Estrofe]

Um mestre arqueiro, por meio da sua grande expertise e habilidade
com a sua flecha, a 100 passos de distância, extrai uma folha do salgueiro.
Como lançar duas flechas opostas que se trombam no ar? É uma arte.
Também com o fruto dos esforços acumulados, revela-se a vida real.
Não é crível que de repente um boneco de madeira comece a cantar
ou que uma mulher esculpida em pedra fique de pé e comece a dançar.
O pensamento discriminativo comum não alcança esta compreensão.
Ao abandonaremos a mente discriminativa, a mente búdica entra em ação.

O que o verso trata, é que com grande treinamento, muda-se a mente e muda-se as habilidades. Quando compreendemos o que significa treinar para mudar a nossa própria mente, podemos compreender o que é a prática do Zen. A habilidade depende de longas horas de treinamento. A verdade da nossa vida só pode aparecer através de um longo treinamento.

Tudo aquilo que no mundo é sucesso e bem-visto, pode ser completamente errado dentro de uma comunidade do Zen. Porque, ser brilhante é uma coisa muito boa, saber muito também é uma coisa muito boa, ter lido livros, saber coisas, é excelente. Mas a prática do Zen é outra coisa completamente diferente do saber, mesmo o saber sobre a teoria do Dharma.

Por isso existem tantas histórias no Zen, como a história de uma mestre que era especialista no Sutra do Diamante e resolve viajar e exibir o seu conhecimento para um mestre Zen. Ele viaja com os seus livros e vai até ao mosteiro do mestre Zen, o mestre o recebe, e ele explica e fala durante horas sobre o seu conhecimento e sobre os sutras e o mestre o ouve e serve-lhe chá. Anoitece, e o mestre quase não diz nada, mas diz que “o sr. deve estar cansado da sua viagem, vamos então encerrar”, o especialista diz “sim, claro” e junta os seus livros. E o mestre diz “mas já deve estar escuro, é melhor que o senhor leve uma vela”, acende uma vela e lhe dá. O especialista, pega na vela e nos seus livros, abre a porta, está escuro lá fora, e o mestre sopra a vela e fecha a porta. E naquele instante, como um relâmpago de compressão, o homem entende, a sua sabedoria não é nada com a vela apagada. Com a vela apagada ele não encontra o seu alojamento. Ele falou e falou sobre o Dharma, mas na realidade ele está perdido. O mestre, o único que podia-lhe iluminar o caminho apagou a vela e o deixou só. No dia seguinte, o especialista queima os seus livros e pede ao mestre para ficar com ele para aprender, porque percebe que todo aquele conhecimento não era nada.

Isso é o Zen, o Zen não são as palavras, por isso se diz que quando falamos sobre o Zen, o Zen não está ai. Falar é apenas um reflexo do Zen, mas o Zen é quando fazemos zazen. O conhecimento teórico não é nada comparado com a verdadeira prática. Mesmo um homem sabendo muito pouco mas que realmente pratica o zazen, pode atingir um alto grau espiritual.

Genshô Sensei conta ainda uma história do Zen coreano, que fala de um homem que não sabia fazer nada, só juntava lenha e trabalhava para a sua mãe. A mãe morreu e ele disse para o vizinho que não sabe o que fazer agora, que não sabe fazer nada, só sabe sabe juntar lenha. O vizinho disse que ele podia ir para um mosteiro Zen, que lá tem comida e cama. O “cabeça de pedra”, que era o apelido que tinha recebido, foi até ao mosteiro, foi recebido pelo mestre, e perguntou “mestre, eu cheguei aqui e sempre ouço falar no tal de Buda, quem é Buda?”, e o mestre respondeu, “Buda é mente”. Em coreano, a palavra mente é muito parecida com sandália, e o cabeça de pedra pensou que Buda era um sandália e ficou sem entender coisa alguma. Colocaram ele junto ao instrutor dos monges para que ele apreendesse mantras e recitações, só que ele não conseguia aprender coisa alguma. O instrutor disse que não dava para ficar com ele, levaram-no então para praticar zazen, e ele dormia o tempo todo. O mestre da sala de meditação disse que não dava para ficar com ele. Então desistindo dele, levaram-no para a cozinha para juntar senha de novo, porque era o que ele sabia fazer. Ele passou 5 anos apanhando lenha e colocando no cesto que levava nas costas e levando para a cozinha; feliz porque tinha comida e onde dormir. Só que ele apanhava lenha e repetia para si mesmo “Buda é uma sandália”, sem conseguir entender. 5 anos repetindo o mesmo, até que tropeçou, caiu numa ribanceira, e rolando montanha abaixo com o cesto de lenha, uma sandália saltou dos pés, rolou no ar, e quando ele caiu com as costas contra uma pedra, a sandália girando bateu na testa dele. E naquele momento, ele sentiu que tinha entendido, “Buda é uma sandália”. Saiu correndo, entrou no mosteiro, invadiu a sala do mestre para espanto de todos, e disse ao mestre, “entendi! Buda é uma sandália”, o mestre olhou para ele e disse “ah que maravilham, você entendeu!”

Essa é uma típica história zen, um verdadeiro koan, para meditarmos e entendermos.

O fundamento do que estamos falando, é que a cultura e o conhecimento em si não são o mais importante. É o primeiro item do Caminho Óctuplo, “compreensão correta”, mas só através da prática meditativa é que podemos chegar a uma compreensão mais aguda e dirimir as duvidas e enganos da nossa mente.

Assim como os arqueiros, pianistas e violinistas, após um longo treino podem atingir habilidades que parecem além da possibilidade humana, um meditante após um longo treinamento pode atingir um outro nível de compreensão e libertar-se das ilusões. É isso que pode nos tornar Budas.

A Sangha é também um lugar de treinamento, em que temos atritos com outras pessoas, desconfortos, e mil pequenos problemas. Às vezes as pessoas com ilusões de importância pensam que só elas podem fazer tal tarefa. Isso precisa ser trabalhado, quando alguém pensa que tem autoridade, iminência, que é importante, deveria ser dado a ela um cesto e pedir que recolhesse lenha.

Sensei conta que durante o treino monástico durante meses foi colocado fazendo tarefas como cortar ervas daninhas até não aguentar mais com as pernas, era sempre trabalhos assim humildes, como levar o lixo; e de um dia para o outro foi colocado na posição de abade de um mosteiro importante e as pessoas lhe prestavam reverência. Num dia não era ninguém, no outro era “sua majestade o Rei”. Qual era a verdade? Ele não era importante nem desimportante. E assim percebeu que isso tudo era fantasia, era um sonho ser ninguém e um sonho ser abade. Um dia podia ser tratado de uma forma e noutro dia de outra. Isso acontece nas nossas vidas quando recebemos títulos, como quando nos formamos e recebemos um diploma e as pessoas de uma dia para o outro começam a nos tratar como doutores.

Por isso, todos os que se acham importantes ou que acham que têm autoridade e podem mandar nos outros não estão mais do que enganados. Praticamos para diminuir o ego. A pessoa mais respeitada dentro do Zen é a que se comporta com humildade. Quando se faz uma referência a alguém não é para a pessoa em si, mas para a linhagem, para o Buda.

É um erro tentar apreender o Dharma budista por meio da consciência comum, por meio do pensamento discriminativo. Se jogarmos isso fora, então a natureza búdica entra naturalmente em atividade. Esse tipo de assunto, não é compreendido pela mente intelectual, pela mente discriminativa comum. Nós devemos estudar e compreender? Sim, mas se apenas estudarmos e compreendermos, nos tornaremos meros intelectuais. Com as palavras fingimos, fazemos os outros acreditarem que temos alguma coisa qualquer especial, mas vemos se alguém é realmente um praticante se se comportar como um Buda. Aquilo que uma pessoa expressa com o seu corpo é a verdade da forma, por isso, a forma é valoriza no Zen. A abordagem do Zen é, através da forma atingir a mente. Primeiro o comportamento, depois teoria.

10 – A pior coisa que pode acontecer na Sangha é a divisão

Monge Genshô (Daissen, 09/01/2026)

[16ª Estrofe]

O ministro assiste ao monarca, e este ampara o seu assessor.
Fielmente o filho obedece ao pai e recebe deste a proteção.
Havendo discorda não se cumpre o respeito e deveres filiar.
Não havendo lealdade no carco, não se presta boa assistência.
Os Buda pratica meticulosamente com recato e sem ostentação
e muitas vezes à primeira vista são rotulados de idiotas e ineptos.
A mente búdica pura do não ego deve ser bem cultivada e preservada
e aquele que a conserva é chamado de verdadeiro herói protagonista.

A verdade universal é alcançável por qualquer pensamento que seja. O que quer dizer que nós imaginamos muitas vezes que o conhecimento e sabedoria, o facto de sabermos muitos detalhes da teoria e de termos lido muitos livros sobre o budismo, que isso nos levou a nos aproximarmos da verdade universa. No entanto, a verdade universal não é alcançável por esse pensamento lógico, por essa sabedoria da letra e dos textos.

Já no tempo de Bodhidharma, quando ele chegou à China, ficou claro que a verdadeira transmissão do Dharma não é feita através de textos, e mesmo dos ensinamentos. Um ditado Zen diz que “quando falamos do Zen ele não está aqui”; o zen verdadeiramente está presente quando nos sentamos em zazen. Agora estamos falando sobre ele, essas palavras e ensinamentos podem ser úteis, mas são tão reais quanto ler um manual para aprender a nadar e jamais entrar dentro de água. Um manual sobre natação pode ser interessante e nos dar várias dicas úteis, isso é certo, no entanto, não existe nenhuma natação sem entrar na água. Podemos ler 1000 manuais, mas se não entrarmos na água não saberemos nadar. É a mesma coisa sobre o Zen e sobre o Dharma, ele só se expressa na verdade dos nossos movimentos, das nossas ações, da maneira como falamos, como pensamos… é aí que o Zen está.

Precisamos reconhecer o Dharma como ele é além do pensamento e da atividade da mente. Viver e praticar e agir de acordo com o Dharma é que é a verdadeira prática.

Muitas vezes as pessoas fantasiam que os monges nos mosteiros são especiais. Mas essa não é a verdade. Um mosteiro é um lugar de treinamento e as pessoas (e os monges são pessoas) comentem erros, e agem tentando obter autoridade e coisas do tipo, e o mesmo sucede dentro da comunidade (sangha).

A sangha não é um lugar perfeito, é um lugar de atrito, A imagem de há muito tempo é de um almofariz de arroz, o arroz é colocado com casca e batido com um pilão. Ao bater os grãos se atritam uns com os outros e assim perdem as suas cascas. Descascar arroz é a imagem do que é a sangha, um lugar onde aprendemos o Dharma através do facto de sermos “batidos” e nos atritarmos, e ai vemos os defeitos de todos os seres. Mas temos principalmente que olhar qual a nossa falha, porque se olharmos as falhas dos outros estamos muito enganados, porque o que nos incomoda dentro dos outros é o que temos dentro de nós mesmos.

O bem maior é qual é o maior bem para o maior número de pessoas, e por vezes é necessário agir de alguma forma para preservar a maioria, porque a pior coisa que pode acontecer na comunidade é sempre a divisão. Mas nem Buda conseguiu manter a comunidade sempre em paz e perfeita.

O próprio mundo relativo da forma como ele é já é o mundo absoluto. O mundo absoluto é constituído de todos os relativos, mas no fim, o mundo relativo é o próprio absoluto. A vida que levamos, cheias de altos e baixos, é a vida do mundo absoluto, o absoluto está aqui todo o tempo dentro do pequeno relativo. Nós pensamos que nascemos e morremos, vivemos, sofremos, temos alegrias e tristezas, e pensamos que isso é turbulência. Mas visto à distância, é o absoluto. Assim como as ondas do mar que nascem e quebram na beira da praia, vistas de longe, não são mais que o belo oceano, e todos os surgimentos e desaparecimentos nada são senão pequenas manifestações fenoménicas na superfície desse absoluto.

Praticamos zazen para mergulhar no absoluto, para sermos capazes de ver que somos o próprio absoluto, e então as pequenas diferenças todas se dissolvem e todas desaparecem. A prática está dentro do mundo relativo, tirar as cascas de um grão de arroz está dentro do mundo relativo. Para o absoluto não é mais que a vida transcorrendo. Para nós, se percebermos esse absoluto somos imediatamente tomados por contentamento, felicidade e percepção de beleza. Quando olhamos apenas o relativo e as pequenas coisas, então vemos imperfeição em tudo, olhamos as cascas do arroz dentro do pote e as descartamos, e quando as descartamos pensamos que elas não fazem parte da vida e o que importa é o arroz descartado, e perdemos a visão que está por detrás de tudo.

Há muitos anos atrás, no Japão na era Edo, o arroz branco muito polido foi encarado como uma iguaria, as pessoas começaram a comer esse arroz polido, só que ao polirem o arroz foram removidas vitaminas, e as pessoas começara a ficar doentes. Ao pensarmos em termos um arroz polido como iguaria máxima, cometemos um grave erro, porque o nosso corpo precisa do que está no arroz antes de ser polido. Essa analogia, nos leva a perceber que se pensarmos em tudo perfeito, não teremos na realidade uma sangha perfeita, porque a sangha perfeita é feita também das imperfeições. As imperfeições junto com a perfeição fazem o conjunto do absoluto. Considerarmos que um mundo perfeito sem nenhuma irregularidade seria a vida, seria um grande engano. Não havia altos e baixos, não haveria felicidade nem contentamento.

Mahayana significa grande veículo, o nosso ideal é a de um barqueiro, aquele que conduz outros da margem de um rio para a outra margem, aquele que ajuda, carrega e conduz os outros. Isso é a terceira joia, a sangha, a comunidade. Todos um dia poderão ser Budas. Isso é uma coisa muito bonita no budismo. Ninguém está condenado irremediavelmente. Todos no fim estão salvos, não existe nenhuma condenação eterna. Isso é uma maravilha!

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