Sociedade e Política

“Não devemos perder a confiança nos seres humanos”, diz Matthieu Ricard

O monge budista Matthieu Ricard já foi apelidado da pessoa mais feliz do mundo. Ele é doutorado em genética molecular, fotógrafo, escritor e orador. A convite da Fundação Kangyur Rinpoche, esteve mais uma vez em Lisboa para uma conferência sobre o que une a humanidade em tempos de crise. A conferência aconteceu no dia 5 de Maio deste ano. Não é a primeira vez que Matthieu Ricard vem a Portugal. Já o fizera antes com o seu mestre Kangyur Rinpoche – figura que dá nome à fundação que organizou a conferência. Durante este seu período em Lisboa, Matthieu Ricard também deu uma entrevista para o programa Caminhos da RTP, que pode ser visionado aqui. Matthieu Ricard falou sobre a bondade inata dos seres humanos, a guerra, os ecossistemas, meditação, fotografia e mestres espirituais.

No link acima pode aceder à reportagem completa. Abaixo segue a transcrição das palavras de Matthieu Ricard.


A bondade inata e a banalidade do bem

Não devemos perder a esperança [na humanidade]. Não devemos ceder à síndrome do mundo doentio. De que o mundo é mau, as pessoas são más, que nasceram para estarem o tempo todo em guerra uns contra os outros. Não, isso é um desvio, é uma doença, uma loucura. Não é o nosso modo natural. Não é o que representa a natureza humana mais básica. É como uma doença. Se alguém sofrer de um tumor terrível, não é o estado normal de um corpo saudável, é sinal de que algo está mal. É por isso importante reconhecer para que não percamos a confiança na natureza humana básica, e vemos isso nas crianças mais novas. Estão mais inclinadas para a bondade, cooperação e por aí adiante, do que para o oposto. Pode acontecer o contrário, e já vimos acontecer, mas ficamos tão chocados, exatamente porque não é um estado normal.

Também podemos falar da banalidade do bem, já que na maior parte do tempo, mais de 7 mil milhões de seres humanos comportam-se de forma decente uns com os outros. Mas não ligamos a isso porque não é atrativo para a nossa atenção. Mas se alguém comete um crime, rouba uma senhora idosa ou faz algo terrível, todos ficam a saber. Surge nas notícias. Chega a todos os continentes, que um tiroteio em massa aconteceu numa escola dos EUA. O que é chocante, porque isto não é normal. Se fosse normal, ninguém se surpreenderia. Ficamos surpresos e chocados porque é anormal. O que significa que a norma é ser-se boa pessoa e o desvio é um comportamento desses.

Por isso não devemos perder a confiança nos seres humanos. Devemos encorajar a solidariedade, a cooperação, a fraternidade. Todos esses valores que são a única esperança para o futuro e justiça social. Para lidar com o ambiente, para eliminar as desigualdades. Substituir a pobreza pela abundância. Cuidar das gerações futuras. Só a bondade e o altruísmo o podem fazer. O egoísmo não trará resultados. Por isso temos que cultivar em nós mesmos e nas nossas culturas e nas nossas instituições. Devemos ser instituições cuidadoras, e não nos limitarmos a gerir o país. Deve haver um elemento de cuidador em tudo.”

Guerra, cultura e educação

“Quando a floresta está a arder, chamamos os bombeiros, Há vezes em que as situações ficam fora do controlo. E neste caso [guerra na Ucrânia], é pura loucura. Há uma total ausência de compaixão pela humanidade. Esqueceu-se a bondade, são crueldades impensáveis, ao nível dos psicopatas. A solução imediata não é obvia. Mas a solução de longo prazo é a que tantas vezes negligenciamos ao longo do tempo. Trata-se de alterar para uma cultura diferente. Uma cultura de respeito mútuo, uma cultura de liberdade genuína, uma cultura de honestidade. Tudo isso vem através da educação. Demora uma ou duas gerações. Nalguns países isto terá sido negligenciado, e é nesses que agora as coisas inflamam. Isto seria o longo prazo.

No que respeita ao agora, precisamos de solidariedade, compaixão, de prevenir o pior. Temos que minimizar o mais possível o sofrimento, mas ao estarmos perante tamanho tornado de loucura, não podemos afirmar, que não sairemos disto com muito sofrimento. O melhor a fazer é procurar minimizar esse sofrimento ao máximo possível. Mas não existe solução mágica. Quando chega a este ponto extremo, a certa altura as coisas colapsam. Mas a longo prazo, mostra-nos o quanto precisamos cultivar qualidades humanas básicas através da educação em todos os países do mundo. Independentemente da religião ou ideologia. Porque isto não pode acontecer em países onde a bondade, a compaixão, a solidariedade, a cooperação, o respeito, são a norma.

Por isso demagogos, ditadores, e todo o tipo de líderes sangrentos, não surgem numa cultura onde esses valores são primários. Só quando a negligência é muito longa, é que tais pessoas emergem. Assim fica uma lição para o futuro. Dizemos sempre que após um genocídio ou uma guerra aprendemos uma lição para as gerações seguintes, o que nem sempre acontece. Mas pouco a pouco, podemos aprender.”

Ecossistemas e Interdependência

“Ao falamos dos ecossistemas na terra, temos que recordar que um dos pilares da filosofia budista é a compreensão da interdependência entre todos os fenómeno. A interdependência significa que estamos todos ligados. E se danificarmos qualquer aspeto desta ligação, estamos a prejudicar os outros e a nós próprios, ao prejudicarmos o ambiente, que não é um ser senciente, mas que acolhe todos os seres sencientes. No termo ecologia, eco significa casa. Ao danificarmos a nossa casa, magoamo-nos a nós e aos nossos filhos. Se destruirmos uma floresta, não apenas as árvores, mas centenas de espécies, grandes ou pequenas, que vivem nessa floresta [são destruídas]. E porque não poderão lá viver livremente?

Por isso, se degradarmos o ambiente, seremos a principal causa de sofrimento de todos os seres sencientes, de todas as espécies. E sabemos que estamos a caminha para a sexta extinção das espécies muito rapidamente, o que inclui os seres humanos e muitas outras espécies. E por isso, se tivermos algum elemento de sabedoria e compaixão, temos que nos preocupar com isto.”

Meditar é treinar a mente

“Nós sabemos que uma meditação bondosa, e sabemo-lo por alguns estudos, que diminui a descriminação em pessoas racistas e outras do género. Se fizerem 20 minutos de meditação bondosa durante duas semanas, ficam menos racistas, menos discriminativas. Por isso é possível. A meditação é um chavão, em que se pensa que as pessoas estão para ali sentadas a olhar para o espaço. Meditação significa treinar a mente. É possível treinar a mente na bondade e no amor, é possível treinar para se ser mais tolerante, pode-se treinar a mente para ser mais inclusivo, podemos treinar a mente para não excluir ninguém do nosso coração. Isto é possível, porque a mente é maleável como o plástico. A sua mente pode mudar. Nós podemos mudar. Mas necessita de treino, necessita duma atitude, necessita de uma motivação, e precisa de prática. Quando praticas, mudas. Mas tens que o fazer, ninguém o pode fazer por ti.”

A fotografia ajuda a criar a sensação de deslumbramento

“Tentei fotografar os meus mestres e o mundo à sua volta. Seria maravilhoso se tivéssemos uma fotografia de Sócrates, São Francisco de Assis. Quem sabe do próprio Buda ou Jesus Cristo. Eu não sei… se a fotografia resultasse… Mas de qualquer forma, uma vez que esses mestres já não estão neste mundo… claro que o Dalai Lama está connosco, tem 86 anos, mas muitos dos outros mestres já morreram. Por isso agora, o ensinamento está vivo. Temos algumas gravações das suas vozes, mas ver os seus rostos, como se pareciam… Quando vemos os rosto de Khyentse Rinpoche, ou de Trulshik Rinpoche, e vários dos grandes mestres do passado, é tão inspirador. E é das melhores coisas que podemos fazer como seu testemunho, como se parecia o mundo que os rodeava.

Enquanto fotógrafo, também procuro fotografar a beleza dos seres humanos. Dar-lhes a confiança de que a natureza humana não é má, tal como alguns afirmam. Porque existe sempre um potencial de bondade. O que da perspetiva budista está relacionado com a natureza de Buda que temos em nós. Que pode estar bastante encoberta, mas está lá.

E a beleza da natureza… para que respeitemos a Terra Mãe. Por isso se estivermos maravilhados com a beleza da natureza, das outras espécies, das 8 milhões de outras espécie animais que estão entre nós; Se todos os cidadãos do mundo se sentirem em dívida, ao contemplar a beleza deles, então iremos respeitá-los. Vamos respeitar as outras espécies, vamos respeitar os seres humanos, vamos respeitar a natureza. E se respeitamos algo, ficamos preocupados, não destruímos. E perante o que nos preocupa, agimos para proteger. E sabemos que a questão ambiental é o principal desafio para a humanidade e para todas as espécies, para a biodiversidade do século XXI, é inquestionável.

Por isso a fotografia pode ajudar um pouquinho a criar esta sensação de deslumbramento, respeito, e desejo por proteger seres humanos e outros animais – pois somos uma espécie animal – e o ambiente.

Por isso o Dalai Lama apela à não violência para com os seres humanos, não violência para com outras espécies, não violência para com o ambiente, a Terra Mãe.”

Mestre espirituais

“Testemunho. Quis deixar um testemunho sobre mais de meio século vividos na presença de grandes mestres espirituais. Não só para expressar a minha gratidão, que naturalmente me diz apenas respeito, mas também descrever como são esses grandes mestres espirituais. – O que é um grande mestre espiritual? Como reconhecê-los? Quais as suas características de um mestre autêntico e genuíno. E quais as características de um falso mestre. – E ainda descrever tudo a que assisti. Como são, como se comportam, como falam. O mundo que os rodeia.

E não se tratou de um mero encontro casual. Passei 7 anos, não o tempo todo, mas estive ao longo de 7 anos, com o meu primeiro mestre, Kangyur Rinpoche. Há uma fundação Kangyur Rinpoche aqui em Portugal, que fundou a associação CASA que presta auxílio aos sem-abrigo. E assim de 1967 até ao seu falecimento em 1975, fui um dos seus alunos, e estive junto dele nos seus 3 últimos anos de vida, em Darjeeling, na Índia, a receber os seus ensinamentos, a praticar.

E então, como é estar com um mestre assim? Como é estar dia após dia, imagine, com o melhor que há num ser humano, e naquele que acredito ser um mestre espiritual genuíno. É alguém que nada tem a ganhar ou a perder, por ter mais ou menos estudantes, mas que tudo dá e tudo partilha. Alguém de imensa compaixão, imensa sabedoria. E cujo único propósito é ajudar os outros a libertarem-se das causas do sofrimento. E como ele foi devoto às causas do sofrimento…

Após a morte do meu primeiro mestre, Kangyur Rinpoche, passei 13 anos, o tempo todo, quase dia e noite, com Dilgo Khyentse Rinpoche, um mestre extraordinário, um mestre dos mestres. Foi um dos mestres do 14º Dalai Lama, mas também de camponeses muito humildes, de reis no Butão, e por aí fora, é alguém respeitado universalmente.

E então como é viver na intimidade destes mestres, de receber os seus ensinamentos, e ver que eram o mesmo perante um rei e um humilde camponês que procurava os seus ensinamentos? Tive ainda a imensa sorte por ser o interprete para a língua francesa de Sua Santidade, o Dalai Lama. E em muitas ocasiões ao longo de 25 anos, acompanhei-o em diferentes países de língua francesa, e também vivi na sua intimidade, e vi o quão transparente ele é. É o mesmo perante a pessoa que limpa o corredor do seu hotel, e o chefe de estado. É um ser humano a ver outro ser humano, a serem o mais presentes e gentis. Ele vive no seu coração. É como uma espécie de tesouro de bondade. Eu tentei descrever isto, para que vissem o que eu vi.

Também já estive 20 vezes no Tibete. Como é acompanhar um grande mestre, que regressa ao Tibete, apos 30 anos de exílio? Foi recebido por milhares de cavaleiros que o esperavam. E para toda a população, foi como o sol nascer novamente. O que significa passar dez anos no Butão, esse país maravilhoso do reino dos Himalaias, com tão grandiosos mestre? Ver como ensina, como é na sua intimidade, como ele é quando ensina milhares de pessoas. Por isso acredito que se trata dum ensinamento muito valioso, descrever isto, como testemunho em primeira mão. E é então isso que tento fazer neste livro [“Mémoires”].”

“Eu amo todos os seres humanos. Os Portugueses são muito amáveis, calorosos e de bom coração. Encontram sempre grande entusiasmo. Recordo quando S. S. o Dalai Lama cá veio, as pessoas alinhavam-se nos dois lados da rua, o que não acontece em muitos países. As pessoas em geral mostram muito interesse. Isso é muito bom.”

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