Um desafio, um modelo e esperança de paz na Europa
A diversidade, que faz parte de toda a existência, é o ponto de partida para analisar as nações europeias e as tradições budistas. O grande desafio é transformar estas diferenças em unidade, alavancando-as como força motriz. A União Budista Europeia (EBU) é apresentada como um exemplo prático de harmonia, promovendo a paz através da aceitação mútua.
Tradução autorizada do artigo “Buddhism in Europe, Unity in Diversity”, de Claudine Carayol, publicado na European Buddhist Magazine nº9, Outono de 2022, pertencente à EBU (European Buddhist Union) | Ver original.
Apresentarei em primeiro lugar a diversidade, a característica fundamental de toda a existência segundo os Ensinamentos do Buda, de seguida a diversidade das nações europeias e, por fim, a diversidade das tradições budistas na Europa. Compreenderão então, por que razão usei a palavra “desafio”, que contém a ideia de assumir um projeto ambicioso e difícil, como a unidade.
Falarei de seguida sobre o caminho que conduz à unidade na diversidade, um caminho que faz da diversidade um trunfo e não uma fonte de conflitos. Concluirei falando sobre a EBU (União Budista Europeia) como uma federação que pode contribuir para a harmonia e a paz na Europa.
O que ensina o Buda sobre a diversidade dos seres humanos?
Como mencionei na minha introdução, de acordo com os Ensinamentos do Buda, a diversidade é uma das características fundamentais da realidade de toda a existência e, portanto, dos seres humanos. Cada pessoa tem o seu próprio lugar e desempenha o seu próprio papel, dentro da impermanência e da interdependência, de acordo com a sua própria natureza. Cada existência é única, particular. Em perpétua transformação, está sujeita a inumeráveis condicionamentos – positivos ou negativos – ligados às ações passadas e aos seus efeitos. Pois os efeitos das ações não desaparecem, mas manifestar-se-ão sempre, num futuro próximo ou distante, sob certas condições.
Os seres humanos, contudo, são por natureza ignorantes destes princípios que governam a realidade. São incapazes de conhecer as causas profundas das circunstâncias que encontram e sob que condições estas circunstâncias aparecem. São também ignorantes da verdade da sua natureza condicionada e da verdade da sua natureza essencial.
Os seres humanos, que são tão diversos, são capazes de produzir obras-primas sublimes, de grande abnegação e de coragem exemplar. O Buda ensina que os seres humanos, dotados de qualidades maravilhosas e grandes talentos, também são dotados do potencial para alcançar o estado de Iluminação que ele próprio atingiu. No entanto, não esqueçamos que ele também ensina que os seres humanos pertencem aos dez estados de existência – mundos aos quais pertencem todos os seres sencientes, em proporções variáveis – e, como tal, também pertencem aos mundos inferiores.
Estes mundos são constituídos pelos estados inferiores – os de demónios, de espíritos com desejos insaciáveis, de animais e de espíritos briguentos -, depois o mundo dos seres humanos, o mundo dos espíritos celestiais e o mundo dos praticantes dos Ensinamentos do Buda (tradicionalmente dividido em três grupos: shravakas, pratyekabuddhas e bodhisattvas, mas voltaremos a esta divisão mais tarde). O mundo do Iluminado, dos Budas, representa o estado derradeiro, o da Iluminação suprema.
Esta clarificação da complexidade e diversidade da natureza humana parece-me importante. Pertencemos a estes diferentes mundos, nós e os membros da nossa família, aqueles que nos precederam nesta terra e cuja herança recebemos, bem como todos os seres que encontramos nesta vida.
Esta consciência – e a humildade que dela advém – são preciosas, tal como os outros grandes princípios enunciados pelo Buda, pois são essenciais para a construção de uma unidade profunda e sólida.
Os seres humanos são capazes do melhor e do pior! Testemunhamos isso diariamente, e gostaria de dar apenas um exemplo edificante, que também me permite expressar a minha gratidão por esta conferência se poder realizar na nossa cidade.
Nantes foi, de facto, o último bastião de resistência em França contra o espírito de conciliação e tolerância tão desejado pelo Rei Henrique IV. A guerra religiosa em curso entre católicos e protestantes no século XVI causou a morte de dezenas de milhares de pessoas.
Perante a teimosia e a continuação da violência assassina na nossa cidade, o Rei veio pessoalmente assinar o “Édito de Nantes” (1598). O objetivo deste Édito era pôr fim a esta guerra desastrosa, concedendo aos protestantes a liberdade de culto! Infelizmente, tenho de referir que este Édito foi revogado menos de um século depois, em 1685!
Estou convencida de que o nosso encontro de hoje sobre este importante tema da unidade na diversidade, nesta cidade portuária que também participou ativamente no comércio triangular, constitui um arrependimento dinâmico. Não é toda a ação que contribui para a aceitação dos outros, para a tolerância e harmonia entre todos os seres, uma fonte de Iluminação e paz para muitos seres neste mundo visível e invisível?
No âmbito de todos os nossos relacionamentos, que possamos, através de ações virtuosas, libertar-nos de condicionamentos, por vezes provenientes de um passado imemorial, que são fontes de sofrimento para os outros. Que pratiquemos ações fundamentadas na sabedoria dos Ensinamentos e na compaixão, fatores de Iluminação e de felicidade para todos.
[A diversidade das nações europeias]
Examinemos agora a diversidade das nações europeias: os seus modelos de sociedade, as suas formas de pensar, as suas culturas, as suas crenças, as suas religiões e a sua história.
Notemos também como cada uma delas foi moldada de todas as formas ao longo dos séculos por diversas e inúmeras influências, pelos seus intercâmbios e relações recíprocas, boas ou más, e pelos laços que algumas mantiveram com o mundo inteiro, graças ao comércio e às suas colónias, por exemplo.
Cada nação tem as suas próprias características. Os efeitos da sua história passada fazem parte do seu presente e futuro – os seus bons e maus feitos. Cabe-nos a nós agir para dissolver os efeitos negativos desses feitos!
[A diversidade das tradições budistas]
No meio desta diversidade estrutural europeia, examinemos agora a diversidade das tradições budistas.
O Buda costumava pregar de acordo com as pessoas e as circunstâncias. Assim, segundo a tradição, diz-se que existem mais de 84.000 sutras! A escolha deste grande número destinou-se, sem dúvida, a enfatizar a importância de transmitir os Ensinamentos com discernimento, de acordo com as capacidades de cada pessoa, tal como o próprio Buda fez! Pois o número de sutras das diferentes tradições budistas, mesmo que seja grande, não atinge este valor.
Todas as tradições, no entanto, sejam quais forem os seus sutras, abraçam os princípios fundamentais dos Ensinamentos do Buda: o Ensinamento sobre a natureza relativa da realidade, condicionada, submetida aos princípios da impermanência, da interdependência, da origem dependente de causas e efeitos, por um lado, e, por outro lado, sobre a sua natureza essencial e a vacuidade, bem como sobre o potencial de todos os seres para se libertarem de condicionamentos e atingirem o estado de Budeidade.
Algumas tradições enfatizam aspetos particulares da doutrina, outras desenvolvem-se em torno da figura tutelar de um grande bodhisattva específico. Os seus métodos de prática também podem diferir. Algumas enfatizam a devoção, outras um método de prática mais enraizado na realidade das conexões interpessoais, e outras uma prática mais solitária, retirada do mundo. Isto é dito de forma não exaustiva e sempre tendo em mente que estas várias escolas incluem, em diferentes proporções, todos os Ensinamentos básicos defendidos pelo Buda e que contribuem para a libertação.
Através de intercâmbios comerciais, intelectuais e outros, estas tradições, originárias da Índia, espalharam-se por grande parte da Ásia. E graças à sua abordagem pragmática do caminho espiritual, baseada na realidade, o Ensinamento Budista foi, então, incutido nas culturas dos países asiáticos com características muito diferentes, ao mesmo tempo que se impregnava, naturalmente, de elementos culturais, filosóficos ou religiosos desses países.
Os Ensinamentos do Buda chegaram à Europa a partir de várias fontes em tempos antigos. No século XIX, despertaram o interesse de vários filósofos que, aliás, muitas vezes os interpretaram incorretamente.
Foi na segunda metade do século XX que a importante vaga de imigração asiática, causada principalmente por guerras e descolonização, levou à chegada de mestres asiáticos. Ao mesmo tempo, algumas tradições budistas chegaram à Europa graças a Ocidentais que tinham estado em vários países orientais em busca dos Ensinamentos do Buda.
São estes, assim, os principais elementos de diversidade que caracterizam o Budismo na Europa: uma diversidade de seres humanos, uma diversidade de nações europeias, uma diversidade de tradições budistas.
Como pode o Budismo tornar-se um modelo de unidade e, mais ainda, uma fonte de inspiração e um fator de paz na Europa?
Sakyamuni Buda enfatizou que não se deve adorá-lo, mas “confiar em si mesmo e refugiar-se no Dharma”. Todos progridem aprendendo com as experiências de colocar os Ensinamentos em prática.
O Buda ensinou um caminho de autoaperfeiçoamento que conduz a um estado em que o ser humano é completamente transformado e, como resultado, se torna capaz de transformar o mundo. Este “estado” dinâmico é um relacionamento compassivo e ativo com o mundo, combinado com uma visão penetrante da realidade dos seres.
Assim, no capítulo 16 do Sutra do Lótus, o Buda convida os praticantes a concentrarem-se num pensamento que é fundamental para a sua transformação:
“Eu sei sempre quem está a seguir o Caminho e quem não está. Eu exponho o Dharma a todos os seres vivos com diferentes métodos, de acordo com os meios que os podem salvar, focado neste único pensamento: como posso levar todos os seres a entrarem no caminho supremo e a alcançarem rapidamente a Budidade?”
Esta questão fundamental, que somos convidados a colocar a nós próprios, com os nossos corações voltados para a felicidade e a Iluminação daqueles que nos rodeiam, é uma fonte de muitos benefícios e um fator excecional de empatia e unidade.
Revela e nutre o potencial individual para a aceitação e a bondade em todos os relacionamentos, sejam fáceis ou difíceis. Permite o desenvolvimento de uma visão penetrante do outro e, consequentemente, de si mesmo. Gera gratidão para com todos os seres, todos os quais participam, de forma menor ou maior, na nossa existência terrena. É a base do purificação dinâmica e alegre que caracteriza os praticantes dos Ensinamentos do Buda. Significa que as diferenças e os obstáculos dão lugar à abertura de coração, à disponibilidade mental e à promessa de descobertas que são essenciais para a nossa transformação.
Não estamos nós e todos os seres humanos aos quais estamos ligados submetidos a condicionamentos dos quais não temos consciência? Não merecem todas estas pessoas a nossa gratidão por estimularem a prática interior? Não nos permitem procurar para além de nós próprios a visão clara e o amor incondicional?
Percorremos o Caminho sabendo que tudo o que nos perturba ou nos desafia pode tornar-se uma fonte de libertação! Percorremos o Caminho fazendo das nossas diferenças uma fonte de sabedoria e compaixão. A diversidade, a verdade da nossa realidade, é o campo da nossa transformação e da nossa Iluminação.
As tradições budistas são muitas e diversas. Mas não está isto de acordo com o ensinamento sobre a diversidade fundamental dos seres? Que revelações faz o Buda sobre isto?
Ouçamos este excerto da parábola “Ervas” no capítulo 5 do Sutra do Lótus, que responde à nossa questão. Esta parábola não só destaca a omnisciência e a omnipresença do Buda, mas também a universalidade e a pluralidade do seu ensinamento:
“Uma nuvem imensa cobre a terra e derrama por toda a parte, de forma uniforme, uma quantidade abundante de chuva que rega ervas, plantas, árvores pequenas e grandes e vegetação de todos os tipos. A mesma chuva, derramada por esta nuvem, nutre cada planta que cresce, floresce e dá fruto de acordo com as suas qualidades, as suas características e a sua natureza particular… O Buda aparece no mundo exatamente como esta grande nuvem que cobre o universo inteiro. O Dharma que ele ensina é como a chuva de sabor único. Rega a humanidade, para que cada um possa atingir a maturidade, o estado de Budeidade. A todos, sem discriminação, ele ensina o Dharma supremo, o Dharma do Buda que conduz à Iluminação.”
Neste capítulo, o Buda explica que, até agora, consciente das inclinações dos seres humanos, ensinou o Dharma através de vários meios hábeis, conforme as capacidades das pessoas. Depois faz esta revelação: há apenas um caminho, o Único Veículo Budista. Todos os praticantes são bodhisattvas, seres que progridem em direção à Iluminação suprema.
Assim como cada planta recebe a quantidade de água de que necessita, uma única água em aparência e sabor, o Buda diz que ensina a todos igualmente um Dharma de sabor único. As plantas simbolizam a diversidade de praticantes e as suas capacidades variáveis de ouvir os Ensinamentos. Estas descrições celestiais de todas as formas de plantas a crescerem em harmonia e interdependência, absorvendo água de acordo com as suas necessidades, são uma verdadeira celebração da diversidade e da unidade!
Qualquer que seja a sua tradição, os praticantes fazem todos os esforços para pôr em prática os Ensinamentos que são capazes de ouvir a qualquer momento. Estes Ensinamentos pertencem todos ao único Veículo do Buda. Todos encontraram o Dharma através da sua conexão kármica com o Buda e uma tradição particular. A diversidade de escolas e tradições budistas é uma oportunidade preciosa para os seres humanos, tão diversos na sua natureza e aspirações, encontrarem o sabor único do Dharma através da tradição que os inspira.
[Conclusão: A EBU como Modelo de Harmonia]
Gostaria de concluir mencionando a minha experiência pessoal dentro da EBU. Ela ilustra o quanto se pode progredir ao partilhar benevolamente com outros que são diferentes por natureza e, neste caso, ao partilhar com diferentes tradições.
O encontro anual na Assembleia Geral da EBU permitiu-me, através dos intercâmbios espontâneos e da escuta atenta das palestras, examinar os objetivos da minha prática, questionar a qualidade da minha aspiração, a minha capacidade de ouvir os Ensinamentos e a forma como me importava com os outros.
Estes foram momentos profundos e alegres de amizade espiritual sincera e frutuosa. Pelo seu exemplo de abertura e tolerância, a EBU é potencialmente uma fonte de inspiração e não posso deixar de esperar que seja um modelo de harmonia e paz para a Europa.
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