História e Arqueologia

A história do Budismo em Portugal (incluindo as primeiras interações no Oriente)

A história do Budismo em Portugal começa principalmente a partir da década 70, embora interações entre portugueses e budista tenham acontecido vários séculos antes.

As expedições dos antigos jesuítas, viajantes e exploradores

Durante séculos o misterioso reino do Tibete, localizado nas mais altas montanhas, atraiu como um imane a imaginação dos ocidentais. O Tibete, conhecido como o Teto do Mundo, apresenta todas as características das terras maravilhosas descritas nos contos, por isso, provocou tanta fascinação no mundo ocidental.

Em 1624 o jesuíta português António de Andrade, acompanhado pelo leigo Manuel Marques, surpreendem o mundo ao visitarem o Tibete. Eles sãos os primeiros ocidentais a colocarem os pés nas terras do Dalai Lama.

O primeiro relato do António de Andrade é publicado em 1626 e rapidamente traduzido para línguas europeias. Sobre a dificuldade em percorrer aquelas montanhas com baixas temperaturas, o padre conta que: “Não nos podíamos deitar para dormir por medo de sermos sepultados pela neve, perdíamos a sensibilidade em diferentes partes do nosso corpo. Uma vez, ao ver sangue na minha mão, reparei que tinha caído uma parte de um dedo. Não o senti, só me dei conta ao ver o sangue escorrer pela minha mão.”

Em 1626 os padres Estevão Cancela e João Cabral, partem de Bengala rumo ao planalto tibetano, eles são os primeiros europeus a chegar ao Butão, Siquim, Nepal e Tibete central.

A viagem destes dois padres portugueses teve uma importância fundamental para o estudo da História do Reino do Butão, pois eles testemunharam a fundação desse pequeno reino budista dos Himalaias. Sem as suas viagens e os relatos que escreveram, nada ou quase nada se saberia sobre as circunstâncias em que ocorreu a fundação do Butão, empreendida pelo rei Ngawang Namgyal, assim como o modo como então se vivia naquela parte do mundo.

Em 1631 o padre Francisco de Azevedo visita Leh, a capital do reino tibetano Ladaque. Ele é o primeiro europeu a percorrer essas terras, que agora são parte do território da Índia. Depois outros jesuítas se seguiram.

Os jesuítas portugueses com as suas viagens esperavam encontrar algumas cristandades perdidas e parceiros da fé, e ao se depararem com a espiritualidades daquelas gentes, não a compreenderam corretamente. Alguns pensaram ser algum tipo de cristianismo, outros perceberam ser outra religião, mas ficaram com uma ideia confusa, como Estevão Cancela, que interpretou Buda como filho de Deus.

Algumas décadas posteriores, mais precisamente em 1686, um navio português naufragou na costa oeste da África do Sul. Entre os passageiros recém-encalhados estavam três monges budistas tailandeses a caminho da Europa como emissários do rei siamês.

A partir da década 70 o budismo em Portugal começa a criar raízes

A presença budista em Portugal ocorreu pontualmente nos anos 70, vinda da Europa. Foi mais localizada e reduzida nos anos 80 e primeira metade dos anos 90, e amplificou-se desde a segunda metade dessa década.

Anos 70 e 80

Através do convite do mestre de Aikido Georges Stobbaerts, Taisen Deshimaru é o primeiro mestre budista a chegar a Portugal. Taisen Deshimaru era um mestre da Soto Zen, discípulo do mestre japonês Kodo Sawaki, e vivia e ensinava em França. Em 1971 e 1972 ele dá as primeiras palestras sobre budismo em Portugal.

Em 1976, dois anos após o 25 de Abril, foi a vez do Lama Kunzang Dorje ser convidado por alunos seus portugueses vivendo no estrangeiro, a vir ensinar a Portugal. Tal veio a permitir em 1979 o estabelecimento em Portugal da Ogyen Kunzang Chöling (OKC), uma escola Nyingmapa do Budismo Tibetano, que anos antes tinha sido fundada em Bruxelas pelo mesmo lama, e da qual se originou o primeiro templo Nyingmapa na Europa. A partir dos centros abertos em Lisboa e no Porto, o Dharma começa a ser periodicamente ensinado em Portugal por este Lama, quer em frequentes ensinamentos curtos para os seus alunos desses centros quer, muito mais esporadicamente, em conferências públicas, mas de uma forma mais longa a partir da fundação, em 1982, do Humkara Dzong, um mosteiro num moinho situado na Serra do Malhão, próximo de Salir, Loulé.

Em 1988, Betty e Carl Zimmerling iniciaram uma prática regular de Zazen em Lagos.

Anos 90

Durante os anos 90, principalmente durante a segunda metade, a introdução do budista se intensifica, principalmente com a escola Soto Zen e o Budismo Chan, que foi introduzido por uma comunidade de emigrantes taiwaneses.

A partir do final dos anos 90 começam a vir a Portugal mestres budistas de grande envergadura e a partir daí começam a estabelecer as suas organizações.

Entre 1996 e 1998 a OKC publica a revista budista trilingue Adarsha, tendo como diretora Tsering Paldron (Emília Marques Rosa). Tsering fez o retiro tradicional de 3 anos e é uma das mais antigas praticantes portuguesas de budismo, assim como uma das primeiras mestras portuguesas de budismo.

A União Budista Portuguesa surge em 24 de junho de 1997 com a finalidade de agregar as várias organizações budistas existentes em Portugal, assim como as futuras. Entre os fundadores está o professor Paulo Porges. Em 1998 a UBP filia-se à União Budista Europeia, que é uma organização reconhecida pela ONU.

O Dojo Zen de Lisboa é fundado em 1997 por Raphaël Doko Triet.

Pema Wangyal Rinpoche, responsável pelo Centro de Retiros de Chanteloube, na Dordonha (França), trouxe a Portugal o grande mestre tibetano Kyabje Trülshik Rinpoche, em 1999. Kyabje Trülshik Rinpoche foi um dos mestres do XIV Dalai Lama.

De 2000 em diante

A Songtsen – Casa da Cultura do Tibete, é fundada por Pema Wangyal Rinpoche em 2000, e com a vinda do Dalai Lama em 2001, a Songtsen inaugurou a sua atividade.

Pema Wangyal Rinpoche é quem traz o Dalai Lama a Portugal, em 2001 e novamente em 2007.

A escola de Taiwan Buddha’s Light International Association (BLIA), supervisionada pelo seu mestre supremo Hsing Yün, se oficializa no ano 2000, embora já existisse em Portugal desde 1996. E em 2004 Hsing Yün visita Portugal. A BLIA está associada à ordem budista Fo Guang Shan, que é uma das principais escolas do Budismo Chan.

Chökyi Nyima Rinpoche, do Mosteiro Ka-Nying Shedrup Ling, de Kathmandu, desloca-se pela primeira vez a Portugal em 2002, por convite da UBP.

Em 2007 a instrutora de Zen, Roshi Catherine Genno Pagés, vem a Portugal acompanhada pela sua discípula Roshi Amy Hollowell, que em 2012 cria em Portugal a Associação Zen Flor Silvestre, congénere da “Association Wild Flower Zen Sangha”, fundada em França, em 2004.

Em 2006, Ajahn Sumedho, da Tradição Theravada das Florestas, deslocou-se a Portugal e esta tradição foi estabelecida. Em 2018 é fundado o mosteiro Sumedharama, situado na Ericeira a poucos kms de Lisboa, onde residem os primeiros monges Theravada portugueses: Ajahn Dhammiko e Ajahn Appanado.

A Stupa Paz no Mundo, localizada no Moinho do Malhão, foi inaugurada e consagrada a 24 de Outubro de 2008 por Jigme Khyentse Rinpoche, Pema Wangyal Rinpoche, Rangdröl Rinpoche e Jetsün Yangchenla. É o primeiro monumento budista em Portugal.

Em outubro de 2017 é inaugurado na Aldeia de Santa Susana em Alcácer do Sal, a Stupa Tashi Gomang. A Stupa com 16 metros de altura está inserida no Centro de Retiros “Thubten Phuntsog Gephel Ling” criado pela comunidade Guhya Mantrika de budismo tibetano.

E por fim, também a tradição Zen da linhagem de Thich Nhat Hanh foi estabelecida em Portugal.

25 anos da União Budista Portuguesa

Nos 25 anos da União Budista Portuguesa, no programa da RTP2 “A Fé dos Homens”, feito propositadamente para a ocasião, é descrito a forma como o budismo começa a surgir em Portugal a partir dos anos 70 e a história da UBP. Através deste link pode aceder ao programa na integra. A UBP tem como objetivo:

  • agregar os praticantes e comunidades budistas de Portugal,
  • tornar acessível o estudo e prática da via do Buda, nomeadamente com:
    • a organização de visitas a Portugal de mestres de várias tradições budistas;
    • a publicação de textos e organização de cursos e práticas;
    • o desenvolvimento de projetos na sociedade, pela ligação à academia e governança, e através da promoção do diálogo intercultural e inter-religioso;
    • o desenvolvimento de projetos de meditação para crianças;
    • a prestação de apoio espiritual a reclusos, doentes e pessoas em fase terminal.

Referências: UBP: 25 Anos; Revista Lusófona; A Fé dos Homens; Himalaias: Viagem dos Jesuítas portugueses; El Laberinto del Tibet.

Leitura complementar (link externo):

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