História e Arqueologia

O Reino perdido de Khotan

Tudo é impermanente e tudo muda! Em lugares onde o Dharma floresceu, ele pode desaparecer, e em lugares distantes das suas origens, ele pode criar raízes. Khotan foi uma dessas regiões onde o budismo floresceu e hoje não existe mais. Foi uma joia no meio do deserto, que hoje não é tão conhecida como outros importantes locais budistas que pereceram, mas que teve uma grande importância para a história budista.

O Reino de Khotan era um antigo reino budista Saka. Os Saka eram um grupo de povos nômades iranianos que historicamente habitavam o norte e leste das estepes eurasianas e da Bacia de Tarim (moderna Xinjiang , China ). O clã Shakya da Índia, ao qual pertencia Gautama Buda, também chamado de Shakyamuni, e que significa o “Sábio dos Shakyas”, provavelmente também era Saka.

Um oásis na Rota da Seda que existiu por mais de 1000 anos

Khotan localizava-se no ramo da Rota da Seda que corria ao longo da borda sul do deserto de Taklamakan na Bacia de Tarim. A antiga capital, também chamada de Khotan e conhecida em chinês como Yotkan, foi originalmente localizada a oeste da moderna e atual Hotan (na China). A sua posição geográfica foi o principal fator de sucesso e riqueza, pois o reino situava-se num pequeno oásis. A norte está um dos climas desérticos mais áridos e desolados da terra, o deserto de Taklamakan, e ao sul as montanhas de Kunlun (Qurum) amplamente desabitadas. A leste existiam poucos oásis além de Niya, o que dificultava as viagens, mas o acesso a partir do oeste era relativamente fácil.

A economia do reino funcionavam em grande parte em função dos rios Yurung-kàsh e Kara-kàsh, pois eles produziam grandes quantidades de água e irrigavam a cidade de Khotan, o que tornou possível a habitação num clima árido. A localização junto à serra não só permitia a irrigação das lavouras como aumentava a fertilidade da terra, pois os rios diminuíam o gradiente e depositavam sedimentos nas suas margens, criando um solo mais fértil. Esse solo mais fértil aumentou a produtividade agrícola e tornou Khotan famosa pelo cultivo de cereais e frutas. Além da produção agrícola também eram fabricados tapetes, sedas, bem como jade escuro e branco. Khotan tornou-se assim um dos mais bem-sucedidos oásis ao longo da Roda da Seda.

Xuanzang, um monge budista e peregrino chinês do século VII, também elogiou a cultura de Khotan, comentando que o seu povo “adora estudar literatura” e que “a música é muito praticada no país, e os homens adoram cantar e dançar”. A “urbanidade” do povo Khotan também era patente nas vestimentas, eles usavam “sedas leves e roupas brancas” em oposição a “lãs e peles” mais rurais.

Eles tinham intercâmbios culturais com outros reinos, como por exemplo o Reino de Kucha, que era um reino budista no lado oposto do deserto (não confundir com o Império Kushan). Assim como Khotan, Kucha também era um importante centro cultural e a cidade de Kusha era conhecida como uma cidade de prazeres, em que os homens falavam das suas músicas, das suas dançarinas, e das suas cortesãs. Essas descrições foram feitas por Xuanzang e também nas grutas de Kizil artefactos e gravuras mostram a cultura de Kucha. Kumarajiva, um importante tradutor de textos budistas para o chinês, nasceu nessa região. Muitas línguas estrangeiras, incluindo chinês, sânscrito, prakrits, apabhraṃśas e tibetano clássico foram usadas no intercâmbio cultural.

Por vários séculos aC e durante o primeiro milênio dC, Khotan foi um reino pequeno, mas importante, sujeito a ondas de migração, invasão e dominação por estados muito mais poderosos a oeste e leste. Ele foi sobrevivendo graças aos seus próprios recursos e sobretudo à sua posição de oásis numa rota comercial tão importante. Foi assim por mais de mil anos, até ser conquistado pelo muçulmano Kara-Khanid Khanate em 1006 durante a islamização e turquificação da região.

A lenda e os mitos da fundação

Existem quatro versões da lenda da fundação de Khotan. Elas podem ser encontrados em relatos feitos pelo Xuanzang e em traduções tibetanas de documentos khotaneses.

Todas as quatro versões sugerem que Khotan foi fundado por um grupo de indianos durante o reinado de Ashoka, por volta do século III aC. De acordo com uma das versões, os nobres de uma tribo na antiga Taxila, que traçavam a sua ascendência até a divindade Vaiśravaṇa, teriam cegado Kunãla, um filho de Ashoka. Como punição, eles foram banidos pelo imperador Maurya, e assim, partiram para a região de Khotan e elegeram um dos seus membros como rei. Seguidamente aconteceu uma guerra com outro grupo vindo da China tendo as duas colónias se fundido. Numa outra versão, foi o próprio Kunãla que foi exilado e fundou Khotan.

Além da lenda existem também mitos sobre a fundação do reino. Os mitos giram em torno da drenagem de um lago sob as ordens do Buda Shakyamuni e descrevem uma terra planeada, visitada e abençoada pelos budas do passado; e estão preservados em dois sutras do Kangyur e dois textos do Tengyur. O Kangyur e o Tengyur são um vasto conjunto de volumes que formam o cânone budista tibetano, o primeiro é relativo às palavras do Buda, o segundo inclui outros textos como por exemplo comentários.

A “Profecia sobre o Monte Goshringa” (Toh 357, Gosrngavyakarana) é um desses sutras. No texto é descrito o Buda voando para Khotan com uma grande comitiva e a abençoar as criaturas que viviam num grande lago. Ele consagra montanhas e stupas, dá ensinamentos, e faz profecias sobre a futura importância da região para a prática e preservação do Dharma. No final do sutra o Buda pede ao discípulo Shariputra e ao rei divino Vaishravana que usem os seus poderes sobrenaturais e drenem o grande lago para um curso de rio. Eles cortam uma montanha em dois grandes pedaços e a movem de forma a que o lago possa drenar para um rio próximo chamado Gyisho, que se acredita talvez ser o rio que hoje é conhecido como Karakax. Não está muito claro, no entanto, onde o lago mítico poderia estar localizado.

O outro sutra se intitula como “As questões de Vimalaprabha” (Toh 168, Vimalaprabhaparipcccha). Nele, o Buda prevê a ascensão de Khotan como um país do Dharma no século seguinte ao seu parinirvana (morte). Ele ordena aos deuses e bodhisattvas que protejam os seus habitantes, e em particular, a uma das filhas do rei Prasenajit, chamada de Vimalaprabha, e que era uma deusa bodhisattva que deliberadamente assumiu o renascimento como princesa para receber essas instruções por parte do Buda. O Buda a designa para assumir um papel de liderança na orientação e proteção de Khotan durante várias das suas vidas futuras como uma série de mulheres poderosas. O final do sutra descreve o Buda desaparecendo do Pico do Abutre, na Índia, e reaparecendo em uma absorção meditativa em Khotan, acompanhado por bodhisattvas sentados em lótus e flutuando no enorme lago, cada um acima de locais subaquáticos onde as stupas e mosteiros da futura terra irão mais tarde aparecer após a drenagem do lago.

Os dois textos preservados no Tengyur são a “A Profecia do Arhat Sanghavardhana” e a “A Profecia sobre Khotan”. São textos khotaneses traduzidos para tibetano e ambos resumem a mesma história do lago.

Os mitos da fundação de Khotan compartilham o mesmo tema com o de outro local montanhoso, o vale de Katmandu, também dito ter sido formado pela drenagem de um lago.

O Budismo em Khotan

Inicialmente o reino não era budista, mas cerca de um ou dois séculos após a sua fundação o budismo passou a ser adotado e o reino tornou-se num dos principais centros do budismo, sendo que até ao século XI a grande maioria da população era budista.

Segundo Xuanzang, um missionário chamado Vairocana (não confundir com o Buda Vairocana) chegou a Khotan e começou a praticar meditação na floresta. Ganhando o interesse do povo, ele tornou-se um professor espiritual e estabeleceu o primeiro mosteiro. E assim começaram a ser lançadas as bases para o florescimento do budismo na região.

Um “caldeirão” cultural de prósperas comunidades monásticas e em que os cidadãos incorporavam o budismo na vida diária

De acordo com Faxian, um monge budista e peregrino chinês que passou por Khotan no século IV, o budismo praticado na região era principalmente o ramo Mahayana. Faxian relatou que: “O país é próspero e as pessoas são numerosas; sem exceção, eles têm fé no Dharma e entretêm-se com música religiosa. A comunidade de monges é de várias dezenas de milhares e eles pertencem principalmente ao Mahayana.” Nesse aspeto diferia de Kucha, o importante reino budista no lado oposto do deserto em que o ramo Sravakayana era predominante.

Faxian descreve que as comunidades monásticas eram uma componente chave dentro da cultura budista khotanesa e que acolhiam monges que viajavam pela Rota da Seda e forneciam mantimentos para continuarem as suas peregrinações. Além de ajudar os monges estrangeiros nas suas peregrinações, o budismo khotanês estava intimamente ligado ao próprio tecido da cultura khotanesa. Isso levou não apenas à construção de prósperas comunidades monásticas, mas também encorajou os cidadãos khotaneses a incorporarem o budismo na vida diária. Isso era particularmente visível nas procissões, em que os participantes iam desde a família real até aos comerciantes e trabalhadores comuns.

As extensas bibliotecas armazenavam importantes textos e influenciaram regiões vizinhas, como é o caso do Tibete e China

A importante localização de Khotan na Rota da Seda não era o único atrativo para os monges budistas viajantes. Os mosteiros que existiam dentro do reino eram famosos pelas suas extensas bibliotecas que armazenavam cópias traduzidas de textos clássicos Mahayana e pré-Mahayana.

A vasta coleção de textos do reino, que incluía o Livro de Zambasta e uma tradução khotanesa do Sanghata Sutra (a tradução mais antiga do texto sânscrito até hoje), ajudou Khotan a influenciar as práticas budistas dos seus vizinhos, principalmente o Tibete, que em 665 conquistou a cidade de Khotan. Ironicamente, enquanto os tibetanos ocupavam o reino khotanês, foram os khotaneses que influenciaram os tibetanos.

O reino também desempenhou um papel descomunal na disseminação do budismo da Índia para a China. Nos séculos III e V, respetivamente, “A Perfeição da Sabedoria em Vinte e Cinco Mil Linhas” e o Sutra Buddhavatamsaka (ou “Ornamento da Flor”) foram traduzidos pela primeira vez para o chinês a partir de textos encontrados em Khotan.

Quando Khotan caiu para os muçulmanos em 1006, a maioria dos monges remanescentes já havia fugido para o Tibete, levando com eles muitos dos seus textos sagrados. Não muito tempo depois da ocupação, o islamismo tornou-se a religião dominante em Khotan, marcando assim o fim do budismo na região.

Referências: Tricycle, 84000, Wikipédia I, II.

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