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As 5 qualidades espirituais (faculdades/poderes)

Nos textos budistas são mencionadas 5 qualidades espirituais que são chamadas de “faculdades” quando usadas para controlar as suas as esferas de influência, e são chamadas de “poderes” quando se tornam inabaláveis ​​pelas forças opostas. No Sāketa Sutta, o Buda usa a metáfora de um rio que corre em torno de uma ilha central; a ilha cria dois riachos; de um ponto de vista, eles podem ser considerados diferentes, mas de outro são o mesmo rio. Os 5 poderes e as 5 faculdades são 2 dos 7 conjuntos que fazem parte dos 37 fatores do despertar (bodhipakkhiyadhamma).

As 5 Faculdades (pañca indriyāni):

1. Faculdade da Fé/Confiança (Saddha-indriyāni)
2. Faculdade da Energia/Esforço/Persistência/Vigor (Viriya-indriyāni)
3. Faculdade da Atenção Plena (Sati-indriyāni)
4.Faculdade da Concentração (Samadhi-indriyāni)
5. Faculdade da Sabedoria/Discernimento (Paññā-indriyāni)

Os 5 poderes (pañca bala), também conhecidos como forças ou pontos fortes:

1. Poder da Fé/Confiança (Saddha-bala)
2. Poder da Energia/Esforço/Persistência/Vigor (Viriya-bala)
3. Poder da Atenção Plena (Sati-bala)
4. Poder da Concentração (Samadhi-bala)
5. Poder da Sabedoria/Discernimento (Paññā-bala)

As 5 faculdades espirituais são essenciais para o progresso espiritual. Edward Conze escreveu que: “O progresso espiritual depende do surgimento de cinco virtudes cardeais – fé, vigor, atenção plena, concentração e sabedoria. A conduta do mundano comum é governada pelos seus instintos e impulsos baseados nos sentidos. À medida que progredimos, novas forças espirituais gradualmente assumem o controlo, até que, no final, as cinco virtudes cardeais dominam e moldam tudo o que sentimos e pensamos. Essas virtudes são chamadas, em sânscrito e páli, de indriya, e traduzidas de várias formas: faculdades, faculdades controladoras ou faculdades espirituais. As mesmas 5 virtudes são chamadas de poderes (bala) se a ênfase está no facto de que elas são “inabaláveis ​​pelos seus opostos”.

No Garland of Radiant Light, Mipham Rinpoche afirma que: “A fé e o resto das 5 faculdades tornam-se poderosos porque os fatores que entram em conflito com elas – falta de fé, preguiça, distração, contração e conhecimento distorcido – são diminuídos e enfraquecidos. Eles são chamados de “poderes”, como o “poder da fé”, porque não podem ser superados pelos fatores que entram em conflito com eles.”

Essas qualidades, fatores ou virtudes, funcionam em sequência para apoiar o despertar, os últimos são os efeitos dos primeiros. “A fé causa diligência, que por sua vez causa atenção plena. Da atenção plena surge a absorção meditativa, a capacidade de repousar em equanimidade, que eventualmente resulta no conhecimento da realidade tal como ela realmente é”, afirma Mipham Rinpoche.

A fé (saddha) controla a dúvida; a energia (viriya) controla a preguiça; a atenção plena (sati) controla a imprudência; a concentração (samādhi) controla a negligência; e a sabedoria (pañña) ou discernimento controla a ignorância. Quando as 5 qualidades estão bem desenvolvidos, a mente não fica presa a essas energias negativas e a compreensão e compaixão florescem.

Bhikkhu Bodhi refere que “no desenvolvimento das faculdades, fé e sabedoria devem ser equilibradas para evitar os extremos de credulidade cega e intelectualidade; energia e concentração devem ser equilibradas para evitar agitação e preguiça mental. Mas uma atenção plena forte é sempre necessária, pois a atenção plena supervisiona o desenvolvimento das outras faculdades e garante que elas sejam mantidas em equilíbrio.”

Sobre as 5 qualidades

Ajahn Appamado, na palestra “Sobre as Cinco Qualidades Espirituais”*, em 08/10/2022, descreve cada uma das 5 qualidades. Seguem-se algumas anotações/transcrições das suas palavras.

Durante a meditação, quando a mente está muito turbulenta, podemos usar várias estratégias, e uma delas é ter presente na mente estas 5 qualidades, cultivar estas qualidades, de forma a que elas emerjam no nosso interior.

Saddha: Fé

A palavra páli saddha geralmente é traduzida como fé, mas quando falamos de fé no budismo não é no sentido de fé cega. Ajahn Appamado diz-nos que “saddha é um sentimento de confiança no caminho, um sentimento de confiança na prática. É uma confiança que surge consoante vamos nos apercebendo do resultado que a prática tem em nós, na nossa mente, no nosso coração, na nossa vida. É uma confiança sábia. Uma confiança que tem base na nossa noção direta da realidade.”

Virya: Energia

Virya é a qualidade de energia, de esforço, o empenho que pomos nas coisas, a dedicação que damos às coisas. Devemos ter em atenção para que o esforço não seja ao ponto de nos deixar tensos, mas consciences que também sem esforço não vamos a lado nenhum.

“Se estamos a pôr demasiado empenho numa certa direção e estamos a ficar bloqueados, estamos a ficar tensos, e se não temos um momento de consciência para nos apercebermos que isto está a acontecer, vamos deixar que essa tensão se intensifique até haver uma cristalização, até estarmos completamente bloqueados, até cairmos para o lado,” afirma Ajahn Appamado. Por outro lado, “se não nos apercebermos que não estamos a por empenho nem esforço nenhum e nem energia nenhuma, vamos estar completamente derreados porque não direcionámos a nossa mente para lado nenhum e deixámo-la ir em todas as direções que existem e não fizemos nada de útil, não construímos nada útil, não cultivámos nada de útil. Deixámo-nos ir à mercê das leis do mundo.”

“Então, algo que podemos ter em mente – por exemplo [na prática meditativa] quando os nossos pensamentos estão muito saltitantes – é a qualidade e característica de Virya, empenho. Só trazermos isso à mente parece que já nos faz estar mais presentes.”

Paññā: Sabedoria

“É o desenvolvimento, o cultivo daquilo que vamos aprendendo, refletindo e apercebendo. Paññā ajuda a equilibrar Saddha, a fé, a confiança, por trazer um elemento que vai além do intelecto mas que passa também pelo nosso intelecto. E portanto temos mais segurança nessa confiança, no sentido de não ser uma confiança cega quando contrabalançamos com esta sabedoria, a sabedoria que vamos ganhando ao olhar para dentro, ao conhecermos a vida e o mundo e partir do nosso interior.”

Samadhi: Concentração

Samadhi é muitas vezes definida como concentração, mas é uma concentração mais no sentido concêntrico, estarmos no nosso centro ou pelo menos não dispersos, e não é tanto no sentido de foco num ponto único exterior a nós. Também podemos fazer isso, esse é um tipo de concentração, mas quando se fala de Samadhi é este mantermo-nos no centro, concêntricos, não no sentido de egocêntricos, mas de não dispersos e no sentido de manter esse não disperso, esse presente.

Samadhi tem estas características, a palavra concentração apesar de querer dizer isto, não transmite realmente essa noção, parece que temos de estar concentrados com a mente muito focada num sítio ou noutro, e isso às vezes até nos tira um bocadinho dentro de nós, não nos faz ter uma qualidade tão refletiva, não conseguimos perceber ao mesmo tempo o que é que está a acontecer dentro de nós ou na nossa dinâmica se estivermos simplesmente muito concentrados num ponto exterior a nós. Faz a mente acalmar e faz a mente estabilizar-se, é muito bom também, mas não é o Samadhi que se fala no budismo, nesta característica espiritual. Esta característica é no sentido de estar no centro e no sentido de continuidade, continuando a estar no centro, não sair, não dispersar.”

Sati: Atenção Plena

“Esta é qualidade que observa as outras todas. Sati é consciência, é estarmos conscientes do que está a acontecer. É aquela que mantém as outras em equilíbrio.

Se estamos a ir demasiado para a confiança ou demasiado para uma sabedoria que começa a ser muito racionalizada por exemplo; se estamos a pôr demasiada energia, se estamos a extravasar energia, então temos que equilibrar com este sentido de concentração, de estar presente, de continuidade, em vez de irmos muito disparados num ponto, assim não vamos dar este sentido de continuidade, de estabilidade na nossa prática com Samadhi.

Sati é o que mantém isso em equilíbrio, o que supervisiona as outras 4. É a consciência, é a consciência que tem consciência do caminho. Não é só a consciência de estar presente, é mais do que isso, é estar presente no intuito do caminho e da libertação, é estar presente mas saber porque é que se está presente, não é estar presente só por estar presente. Não é uma questão de atenção, não é uma questão de só estar no aqui e agora. É também estar no aqui e agora, engloba a atenção também, mas tem esse fundamento, esse objetivo, essa boa intenção por trás, essa bem-querença por trás, da bem-querença ao próprio ser e à libertação, ao objetivo final, ao nibbhana.”

Referências: The Way of Wisdom: The Five Spiritual Faculties by Edward Conze (Access to Insight); Five spiritual faculties (Encyclopedia of Buddhism); Five powers (Encyclopedia of Buddhism); Palestra de Ajahn Appamado.

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