Budismo Geral Opinião e Notas Pessoais

O Caminho do Meio implica passividade? Uma vida equilibrada é uma pasmaceira?

O Caminho do Meio é uma expressão bem conhecida entre os budistas. O príncipe Siddhartha que mais tarde viria a se tornar num Buda viveu no luxo e com acesso a todo o tipo de prazeres, mas ao perceber que tudo isso era impermanente e que não lhe trazia verdadeira felicidade, saiu do seu palácio e abandonou a vida de luxo que levava até então. Tornou-se num asceta e passou a fazer algumas práticas radicais que os buscadores espirituais faziam na época, incluindo a mortificação do corpo. Com a vida por um fio devido a essas práticas, percebeu que esse caminho também não o levava ao que pretendia, que a solução era um meio-termo entre estar absorvido pelo prazer extremo (hedonismo) e as práticas ascetas extremas. O Buda também escutou um músico dizer que para extrair o som de uma cítara (instrumento de cordas), as cordas não podem estar nem muito frouxas nem muito apertadas, se estiverem muito frouxas não é possível produzir som, se estiverem muito apertadas vão-se partir, é preciso afinar as acordas apropriadamente. E assim, o Buda rejeitou as duas visões extremas pois não levavam à libertação e ao fim do sofrimento e, mais tarde, sentado em meditação debaixo da árvore Bodhi, atingiu o despertar. Posteriormente, viria a ensinar ao mundo o Nobre Caminho Óctuplo, conhecido também como o Caminho do Meio, o seu método para atingir o despertar.

O Buda também rejeitou a visão eternalista (sassatavada) e a visão aniquilacionista ou niilista (ucchedavada). Sassatavada é a doutrina da existência de uma alma eterna, imutável, independente e que continua após a morte. Ucchedavada é o oposto, que nada continua após a morte. O Buda defendeu uma visão entre esses dois polos.

E na visão Mahayana e Vajrayana o Caminho do Meio também aponta para o conceito da vacuidade e não-dualidade.

Mas o Buda não disse que o Caminho do Meio deveria ser usado de forma generalizada, que tudo tinha de ser um meio-termo. O Buda não evitou questões polémicas e sociais, tendo chegado mesmo a fazer criticas duríssimas a situações que ele considerava incorretas. O Buda tomou posições, algumas até consideradas radicais para a época, e aconselhou governantes a optarem entre um ou mais caminhos. O “meio-termo” não se aplica a tudo e nem deve ser uma desculpa para a passividade, omissão, inação, neutralidade e alienação. Ser budista não implica ficar fora de qualquer discussão e não tomar posições, antes pelo contrário, assim como o Buda não se omitiu de apontar o absurdo do sistema de castas, um budista consciente deve sim tomar posições. O pacifismo defendido no budismo também não é sinónimo de inação.

Há momentos em que o melhor caminho é um meio-termo, entre o preto e o branco há muitos tons de cinza, mas também há momentos em que é preto ou é branco. Há que ter sabedoria, lucidez e discernimento para perceber a melhor forma de agir. A visão do Caminho do Meio é importante mas não significa que para tudo entre o quente e o frio tem de ser sempre o morno, que entre dois polos o meio é sempre o correto. O Caminho do Meio é uma visão mais profunda do que isso.

E isto leva à questão do equilíbrio. Há tempos li um artigo criticando uma “vida equilibrada”. Mas estar em equilíbrio não quer dizer que se esteja sempre no centro, sem oscilações… Andar de bicicleta, dançar balé, etc, exige equilíbrio, mas para isso não é possível estar ali sempre na mesma posição, na mesma linha, no centro e sem qualquer oscilação. Ter equilíbrio significa ter o centro como ponto de referência, mas também ir a um e outro polo quando necessário, é preciso fazer curvas e contra curvas.

Ser desequilibrado, ter uma vida desequilibrada, é como andar de bicicleta e aparece uma curva e caímos, é não conseguirmos descer uma montanha a alta velocidade, é não conseguirmos subir uma montanha lentamente. Ter equilíbrio não é estar ali sempre na mesma direção, sempre na mesma velocidade, sempre na mesma pasmaceira… é saber o momento para acelerar, travar, virar, subir, descer, cair e levantar, saltar, rodopiar, deslizar, etc…

Ter sempre a mesma rotina, mesmos horários, tudo estável, como referia o artigo, não é necessariamente equilíbrio, pode ser sim, mas também pode ser ser o oposto. Há pessoas que têm vidas bem agitadas e são equilibradas e outras têm vidas muito pouco agitadas e não estão equilibradas.

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