Budismo e Sexo

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4 textos relacionados com o budismo e a sexualidade.

Budismo, Sexo, Sexualidade, Amor

1. A Ética Sexual Budista

Autor: Winton Higgins
Tradução: Marcos A. Piani
Palestra proferida no Unibuds, Queer Dharma
The Macquarie University Buddhist Society

As tradições religiosas nos ajudam a encontrar orientações básicas em muitos aspectos das nossas vidas. Aspecto dos mais importantes de nossa existência é a maneira como nos relacionamos com os outros. Entre outras coisas, as religiões em geral tem muito a dizer sobre a ética sexual. Que ética sexual é defendida pelo Budismo? Nessa área, sua tradição é mais silenciosa que outras, o que pode deixar os novatos se questionando, pois ela sequer trata do assunto. Na verdade a voz do Budismo sobre essa matéria é bem firme.

Para iniciar, vou focar aquelas questões levantadas por vários movimentos de liberação – pelo movimento feminista, pelos homossexuais, e por outras minorias sexuais. Acho que não estarei errando muito se disser que mesmo que eles carreguem outras bandeiras, esses grupos estarão certamente também engajados em várias formas de luta contra preconceitos, violência e violações ocasionadas por esses preconceitos.

Os preconceitos contra as mulheres e contra as minorias sexuais são normalmente reforçados por certas características padrões da psicologia social, como a intolerância e insegurança profundas daqueles que se consideram “normais” mas não tem muita certeza disso. Um ingrediente importante desse amargo coquetel, entretanto, são as formas de preconceito, inibição e repressão associadas ao fundamentalismo religioso teísta.

Como todas as religiões, O Budismo tem uma posição ética bem definida nos assuntos humanos e no comportamento sexual em particular. A formulação mais comum da ética Budista são os cinco preceitos:
Eu tomo o preceito de treinamento de:

  1. Abstenção de fazer mal aos seres vivos / Praticar gentileza compassiva
  2. Abstenção de tomar o que não for dado / Praticar generosidade
  3. Abstenção de conduta sexual imprópria / Praticar contentamento
  4. Abstenção de fala falsa / Praticar comunicação verdadeira
  5. Abstenção de tomar intoxicantes / Praticar plena atenção

Esses preceitos tomam a forma de compromissos pessoais voluntários. Eles não são mandamentos; não há um deus no Budismo, portanto os preceitos não poderiam ser sido ditados por um deus.

Os preceitos expressam princípios básicos, e não regras fixas e draconianas às quais uma determinada ação se enquadra ou escapa. Como qualquer sistema ético não fundamentalista, o Budismo nos oferece princípios orientadores gerais, mas de maneira alguma nos exime da obrigação de fazer julgamentos morais apropriados em cada situação moralmente significante que encontrarmos. Julgamento moral implica em jamais aplicar qualquer regra cegamente.

Os cinco preceitos constituem uma seqüência integrada – cada preceito se apoia nos outros. Para saber o que significa “má conduta sexual” olha-se os outros preceitos. “Má-conduta sexual”, dentro espírito dos diversos preceitos, significa qualquer conduta envolvendo violência, manipulação ou engodo – conduta que portanto conduz ao sofrimento e a problemas. Inversamente, boa conduta sexual é baseada em gentileza amorosa, generosidade, honestidade e clareza mental e emocional – conduta esta que produz bons resultados.

A rigor, o terceiro preceito, que versa sobre má-conduta sexual é supérfluo – se nas nossas vidas sexuais agirmos sem violencia, não tomarmos o que não nos seja dado livremente, não ludibriarmos os outros e não agirmos a partir de estados mentais iludidos ou irresponsáveis, seria mesmo difícil ferir o terceiro preceito. A ética sexual Budista, embora seja muito firme, estaria completa mesmo sem o terceiro preceito. Na verdade, ele existe apenas como ênfase. Mas, sendo a sexualidade uma energia tão forte, foco de muitos apegos, vaidades e ilusões, ela pede seu próprio preceito!

Se costumamos ser insensatos, se agimos estúpida e destrutivamente – e todo mundo tem essa tendência – então é provável que isso apareça nas nossas vidas sexuais. Por outro lado, cada um de nós também tem a tendência oposta de agir amistosamente, com generosidade e sabedoria. Com treinamento moral e meditativo, nossas vidas sexuais também podem expressar essa inclinação com bastante força. Por isso, o terceiro preceito expressa uma ética sexual desafiadora e difícil. Tanto mais para qualquer homem heterossexual que tenha crescido em uma sociedade como a nossa, com todo o treinamento em atitudes reificadoras e predatórias em relação às mulheres, e medos profundos dos assim chamados desviantes da norma sexual!

Vamos dar uma olhada no espírito do conjunto dos preceitos antes de voltar à sexualidade. A promessa máxima da prática budista é a Liberdade – do treinamento moral e dos outros grandes treinamentos, o da meditação e o da sabedoria. Liberdade significa abrir mão das obsessões, compulsões e inibições do nosso condicionamento psicológico, e assim nos libertar para responder apropriadamente a toda e qualquer situação. Freqüentemente, liberdade toma a forma do auto-controle, de habilidade de dizer não a uma compulsão habitual, a um anseio, a uma moda ou hábito. Algumas vezes a liberdade toma a forma de dizer sim, um sim que suplanta inibições, medos habituais ou preconceitos herdados.

Podemos tanto tratar as outras pessoas e elementos do nosso ambiente de maneira fria e calculista, objetos de nossa exploração e consumo, quanto podemos vê-las como vemos a nós próprios. Todas as grandes religiões, em maior ou menor grau, corporificam essa última ética (por exemplo, a regra de ouro cristã: “Faça aos outros o que você gostaria que os outros fizessem a você”). O Budismo faz isso de uma forma pura. Os preceitos destinam-se a treinamento para amar a si próprio e aos outros, expressos na intenção de motivar-nos a agir habilmente para libertar a todos nós. Livres de que, e para que fim? Nos termos do Budismo tradicional, livres de escravidão, sofrimento, dano e perigo, mas também livres para aceitar responsabilidades que contribuam para o nosso próprio bem estar e ao dos outros.

Portanto, voltando ao terceiro preceito: na Índia antiga, em sua forma negativa, ele era interpretado convencionalmente como uma injunção contra o seqüestro, o rapto e o adultério. Sempre carregou também a implicação de que devemos honrar nossos compromissos sexuais. Se tivermos feito um voto de celibato, devemos nos abster de sexo enquanto nosso voto vigorar. Se tivermos contraído uma relação monogamica, devemos nos restringir a sexo no contexto daquela relação. Qualquer outra alternativa seria enganosa.

Mas o âmbito do preceito, principalmente hoje, é obviamente muito mais amplo e cobre a violação de comportamentos que o movimento das mulheres, entre outros, tem corretamente politizado. Um exemplo importante é o do assedio sexual, tão prevalente hoje em dia onde mulheres e homens dividem espaços públicos – nos lugares de trabalho, nas universidades, etc. Onde relações de poder ocorrem, elas podem ter um componente desse gênero, e as oportunidades e o estímulo cultural para abuso são onipresentes. Entre outras coisas, o assédio sexual é danoso e envolve tomar o que não é dado, baseado na enraizada presunção – e ilusão – a do condicionamento masculino sobre a constante disponibilidade sexual feminina.

O estupro no casamento é muito parecido. Além disso há a pornografia violenta e misógina que cria um ambiente hostil e inseguro para as mulheres e que induz a estados mentais imbecilizados e malévolos, incluindo aí ilusões sobre a natureza das mulheres e o que elas desejam. Assim, ambos os sexos são prejudicados. A publicação ou uso de pornografia que erotiza a subordinação feminina contraria diretamente o terceiro preceito. Mas certamente nem toda a pornografia é assim, e outros materiais sexualmente explícitos podem ser até inocentes.

Religião étnica e Engenharia Social

Até este ponto da análise não considero que o Budismo, na prática, chegue a conclusões diferentes sobre a conduta sexual das versões mais equilibradas das outras grandes religiões. Mas as outras religiões também tem listas de “não pode”, de práticas sexuais proibidas. Algumas se opõe à nudez parcial ou total, à masturbação, ao travestismo, ao sado- masoquismo, à homossexualidade, aos fetiches, ao sexo antes do casamento, ao sexo oral, anal, ou grupal, ou então à contracepção. O Budismo é notório pelo hábito de fazer listas dos seus pontos de prática e doutrinas. Então, onde estão as listas do Budismo para as práticas mais “ousadas”? A resposta objetiva é: o Budismo, felizmente, neste caso (enfim!) não tem uma lista. O motivo disso é significativo. Há dois “tipos puros” de religião – as religiões étnicas e as religiões universais. As religiões étnicas procuram regular vários aspectos civis de um povo ou tribo em particular, principalmente a reprodução biológica e cultural da tribo. Assim, ela estipula toda sorte de regras que tenham a ver com o casamento, família, papéis sexuais, criação de crianças, etc. O Judaísmo pode ser citado como um exemplo sofisticado de religião étnica. Uma religião universal, ao contrário, é indiferente à vida cívica, transcende particularidades culturais e permanece indiferente às questões relativas à reprodução da tribo. Uma pessoa pode nascer dentro de uma religião étnica, mas a única maneira verdadeira de entrar numa religião universal como o Budismo é através da conversão pessoal. Você pode se converter a uma religião universal partindo de qualquer origem étnico.

Qualquer religião étnica contém o que podemos chamar – na nossa maneira secular moderna – de um elemento de engenharia social. Engenheiros sociais, tanto os religiosos quanto os seculares, se ocupam em regular as relações entre os sexos de modo que nasçam muitos bebês para que a tribo cresça e se expanda, e assegure também que as crianças sejam bem cuidadas e devidamente entronizadas na cultura do seu povo e nos papéis (sexuais e outros) tradicionais da tribo. Os engenheiros sociais buscam manipular as pessoas de modo que suas energias sejam canalizadas para a produção de bebês, e não desperdiçadas em atividade sexuais não procriativas (aquilo que a mídia de hoje chama de “sexo recreativo”). Um deus, ou o Estado de engenharia social, tendem a promulgar leis que criminalizem, estigmatizem ou patologizem sexo não-procriativo.

O cristianismo, por exemplo, é uma religião universal do novo testamento, mas lhe foram adicionados muitos elementos de engenharia social de uma religião étnica contida no velho testamento, que abomina (no meu entendimento) tais atividades não-procriativas como o adultério, a masturbação, a sodomia e assim por diante. Assim, o cristianismo oferece uma perspectiva dividida. Alguns partidários do velho testamento fazem carreira proferindo libelos contra todo o sexo que não produza bebês, e contra os prazeres dos praticantes. Ao mesmo tempo, outros líderes cristãos vivem abertamente relacionamentos homossexuais e empunham corajosamente a bandeira da tolerância. O budismo é um caso puro de religião universal, sem elementos de engenharia social. Tanto é assim que ele nem mesmo tem uma cerimônia de casamento. Nos países budistas, a união é uma questão civil, que não tem nada a ver com a prática espiritual propriamente dita. Além disso, o cânone budista não contém ‘uma sagrada família’ com papéis sexuais pré-estabelecidos aos quais as mulheres estejam subordinadas.

Se você quiser se casar em um país budista, as autoridades civis colocarão à disposição a celebração oficial apropriada. Mais tarde o casal nubente pode, como muitos fazem, ir a um monge e pedir sua benção, que geralmente consiste em um relaxado conselho sobre como fazer a união realmente dar certo. Ajahn Chah, o grande mestre budista de meditação da Tailândia moderna recebe montes de casais recém casados no seu mosteiro para esse aconselhamento. Ele lhes diz: “Você deu sua mão em união. Sua mão tem cinco dedos. Pense neles como os cinco preceitos. Pratique os preceitos no seu casamento e será feliz. Isso é tudo que você precisa.”

O Buda era de fato o pior pesadelo de um engenheiro social. Não somente ele não desperdiçou uma palavra de condenação ao sexo não-procriativo (não há uma lista de proibições), como inspirou milhares para que se ordenassem dentro no celibato monástico e assim simplesmente abandonassem completamente a idéia de ter bebês. Isto não foi assim porque ele desaprovasse o sexo ou bebês, mas sim porque um não-celibatário geralmente acabava com muitas crianças a seus pés para alimentar, vestir e abrigar, e assim lhe sobrava pouca liberdade e tempo para buscas espirituais. O celibato fazia muito sentido prático para pessoas com algum anseio espiritual. É desnecessário dizer que hoje a escolha não é tão radical nos países desenvolvidos, onde a contracepção está disponível e ganhar vida é muito mais fácil.

Budismo e Tolerância

O budismo não tem nada contra o sexo em si mesmo. Praticado habilmente dentro do espírito dos preceitos, ele pode trazer muita felicidade. Como resume um de meus professores de meditação favoritos, não há nada de errado em bailar com seus desejos, desde que ambos os participantes estejam ouvindo a mesma música e seus corações estejam abertos. Na verdade, acho até que o budismo melhore nossa vida sexual através do treinamento da meditação, onde aprendemos a habilidade fundamental da atenção plena – isto é, manter coração, mente e corpo ao mesmo tempo no mesmo lugar. Assim quando seu corpo estiver passando deliciosos momentos com uma pessoa carinhosa, sua mente não estará sofrendo, obcecada, por exemplo, com os detalhes de seu imposto de renda – sua mente também estará livre para participar da festa.

Ao longo dos anos conheci vários centros de Dharma de língua inglesa em países ocidentais, onde é freqüente a presença de gays e lésbicas, fato que não causa problema algum. Mantendo a tradição, a sexualidade deles não é um problema e esse aspecto de sua identidade é tratado da mesma maneira que a de qualquer outra pessoa. A estrutura de desejo sexual de cada um é única, e quando deixamos considerações de engenharia social para atrás, não há razão alguma para se privilegiar uma em detrimento a outra, desde que todas possam ser vividas dentro do espírito dos preceitos.

A atitude budista apropriada em relação às outras minorias sexuais é exatamente a mesma. Eu testei isso visitando a página do “Salon Kitty”, um estabelecimento local muito meticuloso que se descreve como uma das principais casas de BDSM* do mundo. BDSM quer dizer servidão, disciplina e sado-masoquismo. No menu principal do “Salão Kitty” há uma declaração ética que enfatiza a obrigação do cuidado que o “dominante” deve ter sobre o submisso e a responsabilidade total que o “dominante” deve ao submisso, principalmente, mas não apenas na questão óbvia do consentimento. Em certa parte, a declaração de ética afirma: Está implícito no consentimento a responsabilidade do parceiro dominante em toda a cena de BDSM de monitorar o bem estar do submisso para assegurar-se de que o este esteja bem e que seu consentimento ainda esteja vigorando.

É também responsabilidade do dominante assegurar-se de que o submisso não esteja consentindo em um ato que não seja do seu melhor interesse no futuro. Nenhuma das partes deve consumir bebidas alcoólicas em exagero ou drogas, pois isso poderia prejudicar seu julgamento…

Segue-se uma descrição do mecanismo para imediatamente remover o consentimento – expressar uma palavra segura pré-combinada ‘ – o que imediatamente faz com que o procedimento em questão se encerre. Então, o código de ética retorna: para aproveitar as possibilidades que o mundo do BDSM oferece, primeiro é preciso descobrir respeito e confiança em si próprio e nas outras pessoas. Os elementos dos cinco preceitos estão lá, incluído o último. Baseado nesta declaração, podemos concluir que o “Salão Kitty” está mais perto do Dharma do que os estraga-prazeres fundamentalistas e engenheiros sociais de vários persuasões religiosas!

Conclusão

O Budismo tem uma ética sexual forte, mas não uma ética sexual repressiva. O ponto principal desta ética é não fazer mal em uma área da vida onde poderíamos gerar muitos danos agindo violentamente, manipulando ou enganando. Este, e a quebra dos outros preceitos – prejudicar, tomar o que não for dado, mentir e estupefação – são a placa de “fique fora” budistas na prática sexual. Por causa de seu caráter universalista, o budismo propriamente dito certamente não aceita os preconceitos e inibições associados à engenharia social, a reprodução da tribo.

Naturalmente, pode-se encontrar budistas tradicionais que têm problemas com o sexo não- procriativo tal como o homossexualidade, por exemplo, assim como outros que não aceitam a igualdade entre os sexos. Mas este tipo de inibição ou de preconceito vem tão somente de uma determinada cultura étnica ou de uma tradição nacional.

Você pode dizer a qualquer um que expresse este tipo de atitude com toda a certeza de que isso não faz parte do Dharma propriamente dito.

Ao mesmo tempo, cada um de nós deve exercer um julgamento pessoal sobre quanta energia e tempo deve devotar ao sexo, por mais hábil que seja nossa prática sexual. Onde ele se encaixa na ordem de prioridades inevitavelmente apertada das nossas vidas corridas, quando a maioria de nós está se esforçando para encontrar tempo para sentar em meditar diariamente, freqüentar um grupo semanal de meditação ou ir a um retiro? Parte dessa resposta dependerá da significância moral de nosso compromisso aos nossos assim chamados parceiros(as) sexuais. Muitas pessoas procuram fazer desses compromissos e relacionamentos o foco central de importância moral de suas vidas, como nos sugere Ajahn Chah. Esta parece ser a melhor maneira de conduzir uma vida integrada, na condição de praticante espiritual e ser sexual.

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Winton Higgins
  é professor de meditação, escritor, académico e membro fundador da Sydney Insight Meditators. Começou a liderar retiros na Wat Buddha Dhamma em 1995.


2. Buddhismo e Sexo

Autor: Ven. S. Dhammika
Trecho do artigo publicado no C. E. B. Nalanda, veja aqui o artigo completo com as notas associadas.

O Buddha ensinou que existem dois objetivos na vida religiosa, que podem ser definidos como um objetivo principal e outro secundário. O objetivo primário e maior do Buddhismo é atingir a paz e a liberdade do Nirvāna. Embora isso possa ser feito na vida presente, o Buddha estava bem consciente do fato de que muitas pessoas – provavelmente a grande maioria – levarão tempo para se libertarem dos desejos e buscas humanos. A prática espiritual buddhista é “um fazer gradual, um treinamento gradual, uma prática gradual”. Enquanto pedia aos seus discípulos para ficarem de olho no objetivo principal, o Buddha também ensinou uma gama de objetivos secundários para a maioria; ser bom, gentil e honesto, um esposo ou um pai carinhoso, um doador generoso, um anfitrião hospitaleiro, um cidadão responsável e por aí adiante.

Para aqueles que estabelecem seu curso para o Nirvāna na vida presente, o Buddha incentivou a contenção sexual ou mesmo o celibato. Para os outros, ele ensinou responsabilidade sexual, conforme descrita no terceiro dos cinco preceitos. Para aqueles com a intenção de seguir a primeira opção, ele destacou o que chamou de “os perigos” nas indulgências sensuais e para a segunda, ele reconheceu “a satisfação” neles. Tendo sido casado durante perto de duas décadas, o Buddha estava bem consciente do lado positivo do sexo e do casamento. Contudo, como psicólogo perceptivo, também viu que a indulgência sensual pode tornar-se facilmente numa preocupação que leva ao apego, ao egoísmo, ao aborrecimento e à desconsideração pela vida dos outros. Tendo dito isso, também é verdade que alguns dos discípulos do Buddha atingiram alguns estados mais elevados enquanto levaram vidas felizes de casados, sendo Isidatta um bom exemplo disso.

O Buddha requeria que seus monges e monjas fossem celibatários (brahmacariya). (…)

No entanto, nem todos os discípulos de Buddha eram monges ou monjas. Na verdade, a maioria não era e nunca foi. Então, o que o Buddha disse sobre sexo que é relevante aos leigos? O treinamento ético básico aos leigos está nos Cinco Preceitos, cujo terceiro item é “abster-se de má conduta sexual” (kāmesu micchācārā). O que torna o comportamento (cārā) sexual (kāma) errado (micchā)?

Certa vez, ao dirigir-se a uma audiência de brāhmanas, o Buddha disse que ter relações sexuais com cinco tipos de pessoas, presumivelmente com ou sem o seu consentimento, seria antiético. Estes cinco tipos são:

(1) As mulheres sob a guarda de seus pais (māturakkhitā, piturakkhitā); isso significaria filhos menores de idade;

(2) Aquelas protegidas pelo Dhamma (dhammarakkhitā), que provavelmente se refere àquelas que fizeram voto de celibato, como monjas. Ter relações sexuais com tais pessoas é incitá-las a quebrar uma promessa solene que fizeram;

(3) Uma mulher já casada (sassāmikā), isto é, a cometer adultério;

(4) Aqueles que cumprem uma punição (saparidaṇḍā). Uma pessoa encarcerada pode ser fisicamente forçada ou coagida a fazer algo que não queira fazer e, portanto, não pode fazer uma escolha verdadeiramente livre;

(5) Os enfeitados com grinaldas (mālāguṇaparikkhittā), isto é, alguém já comprometido para casar.

Em todos esses casos, o Buddha se refere a parceiras sexuais femininas. Se ele estivesse falando para mulheres, é claro que ele falaria de parceiros masculinos. Sexo com alguém do mesmo gênero não foi mencionado nessa lista.

Outro tipo de sexualidade discutido em outra parte pelo Buddha é a masturbação. Buddha fez disso uma ofensa, exigindo a confissão de monges e monjas que se masturbassem. Isto não era porque ele considerasse a masturbação “suja” ou “impura”, como algumas religiões afirmam, ou porque o desejo sexual só é legitimado quando ele leva à procriação, como outras sustentam, mas porque ela reforça o desejo sensual, uma coisa que os monásticos são encorajados a diminuir e eventualmente a transcender. Buddha não diz nada sobre a masturbação para as pessoas leigas, provavelmente porque, como os psicólogos modernos, ele a aceitasse como uma natural e inofensiva expressão da libido. (…)

No caso de incesto, o Buddha parece ter desaprovado por causa de suas consequências sociais negativas. Ele considerou como antiéticos outros tipos de comportamento sexual quando envolvem tanto a desonestidade, a quebra de acordos ou a coerção de uma forma ou de outra. Em nenhum lugar do Sutta Pitaka, a enorme coleção de discursos do Buddha, foi mencionada a homossexualidade, embora, como veremos, ele estava ciente de sua existência. (…)

Continue a ler…


3. A Bodhisattva Mais-dum-Milhão

Histórica curiosa contada pelo Mestre Zen Seung Sahn

Há uma história muito famosa sobre uma mulher que realmente usou o sexo apenas para salvar outras pessoas. O Avatamsaka-sutra ensina sobre cinquenta e três grandes mestres de meios hábeis. A trigésima sexta mestra era chamada Mais-dum-Milhão. Ela era uma prostituta que viveu durante a vida do Buda. Ela era muito, muito bonita, e muitas pessoas acreditavam que ela tinha obtido a iluminação. Todos os dias, muitos homens se aproximavam dela para fazer sexo. Às vezes ela pedia dinheiro, e às vezes não o fazia. Mas todo homem que tinha relações sexuais com ela não tinha nenhum desejo sexual quando saia. Muitos, muitos de seus amantes tornaram-se eventualmente monges, obtiveram a iluminação, e transformaram-se em grandes professores de outros.

Mais-dum-Milhão nunca usou sexo para seu próprio prazer. Pelo contrário, ela só usou esse corpo para servir outras pessoas. Ela mantinha uma mente clara, e estava simplesmente usando o sexo para tirar o desejo de sexo desses homens, então ela os ajudou a obter a iluminação. Esta história famosa mostra que mesmo o sexo às vezes pode ser usado para ajudar outras pessoas, se a direção é clara. Há muitas outras histórias sobre o uso de tais meios hábeis. Em si, o sexo não é bom ou ruim: a coisa mais importante é, por que você faz alguma coisa? É só para você ou para todos os seres? Mais-dum-Milhão era uma grande bodhisattva que agia sem entrave, de modo que seu sexo não era para ela, só para seu prazer. Seu sexo era o sexo de salvar-todos-seres. Esta história pode ser encontrada no Avatamsaka-sutra.


4. Prazer e Sexo

Trecho do Adhyardhasatika Prajnaparamita Sutra

(…) Assim eu ouvi. Uma vez, o Bem-Aventurado Senhor Mahavairocana alcançou a profunda, inquebrantável e suprema Realização de todos os Perfeitos. (…)

I – A Doutrina do Grande Prazer

Seu ensinamento é a pureza de todos os fenômenos:

  1. O êxtase supremo da união entre o homem e a mulher é um puro estado de Bodhisattva.
  2. A excitação dos sentidos, comparável ao rápido vôo de uma flecha, é um puro estado de Bodhisattva.
  3. As carícias trocadas entre homem e mulher são um puro estado de Bodhisattva.
  4. Os laços firmes do amplexo amoroso são um puro estado de Bodhisattva.
  5. O pleno gozo experimentado pelo homem e pela mulher, que lhes dá a sensação de serem senhores de tudo, dotados com a liberdade total, é um puro estado de Bodhisattva.
  6. Contemplar o sexo oposto com olhar de desejo é um puro estado de Bodhisattva.
  7. A sensação de prazer que o homem e a mulher experimentam quando unidos, é um puro estado de Bodhisattva.
  8. O amor entre o homem e a mulher é um puro estado de Bodhisattva.
  9. A plena satisfação é um puro estado de Bodhisattva.
  10. Ornamentar-se é um puro estado de Bodhisattva.
  11. Alegrar-se é um puro estado de Bodhisattva.
  12. O brilho da satisfação é um puro estado de Bodhisattva.
  13. O prazer físico é um puro estado de Bodhisattva.
  14. As formas deste mundo são um puro estado de Bodhisattva.
  15. Os sons deste mundo são um puro estado de Bodhisattva.
  16. Os odores deste mundo são um puro estado de Bodhisattva.
  17. Os sabores deste mundo são um puro estado de Bodhisattva.

Por que? Porque todos os fenômenos são puros na sua essência, como pura é a Perfeição da Sabedoria que permite contemplar a pureza de todos os fenômenos, que está no fato de não terem eles substância própria.

O’ Vajrapani! Se uma pessoa ouvir a respeito do Caminho da Perfeição da Sabedoria, matriz deste estado de pureza, todos os impedimentos desaparecerão imediatamente e ela ingressará no luminoso santuário do Pleno Despertar. (…)

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