“Enquanto encoraja o progresso material, o Buddhismo sempre enfatiza o desenvolvimento do caráter moral e espiritual para uma sociedade feliz, pacífica e contente.” – Ven. K. Sri Dhammananda
Como conciliar ambições profissionais e desapego material?
Monja Coen responde a esta questão num vídeo publicado no canal MOVA do YouTube, que entretanto foi apagado. Segue transcrição:
Pergunta: “Gostaria de saber como conciliamos os ensinamentos do Dharma relacionados ao desapego, principalmente material, e a busca por nossos objectivos de sucesso em vida, principalmente profissional, sendo que estes objectivos em sua maioria trazem consigo riqueza material”.
Resposta: Nós confundimos às vezes o que é desapego com ter sucesso, querer coisas boas na vida. O facto de que queremos ter uma casa própria, um carro, trocar de carro, ter uma boa prancha, ter uma roupinha gostosa de vestir – isso não quer dizer que você esteja apegado a isso não é? Você pode ter ou não ter, e o facto de querer ter sucesso, que as coisas que você faça possam beneficiar o maior número de seres, isso não é exatamente apego.
O apego é aquela pessoa que como eu falei, passa uma cola na mão e gruda uma coisa e não descola de jeito nenhum. Se eu perder isso eu mato ou morro por isso, eu sofro muito. O sofrimento é extra, nós podemos fazer todo um trabalho de… sei lá… numa empresa, num projecto seu você se desenvolver, você estudar, você ir crescendo, e de repente por inúmeras causas e condições, não só pessoais suas mas de momentos históricos, você pode perder, perder tudo, e daí você fala, puxa que triste, que pena, mas por onde eu recomeço; e não por onde eu me mato ou por onde eu vou matar alguém. Percebe? Essa é a diferença.
O desapego é quando você tem as coisas, elas passam por você, você passa por elas, com uma certa leveza… se eu tiver esta bem se eu não tiver esta bem também. Eu vou fazer o melhor para tê-los, não é de qualquer jeito, eu vou fazer o meu melhor sempre. Se tiver sucesso, se eu puder ganhar as coisas, tiver uma boa casa, um bom carro, um bom relacionamento… que bom! E se por acaso isso não vier eu não vou desistir de procurar por tê-lo, mas também não vou me lastimar se perdê-lo, me lastimo só um pouquinho, e logo me coloco em posição de obter de novo.
Uma senhora uma vez me perguntou: “Puxa monja, eu queria tanto ter uma casa própria, então não posso ser budista?” Eu falei não, não tem nada haver com isso, o desapego não significa que você não tenha coisa alguma. Você pode ter… roupa de marca, óculos de marca, câmaras que sejam boas… mas ao mesmo tempo você não está aprisionado pelas coisas materiais, nem mesmo emocionais e muito menos espirituais. Porque apego também é aquilo que eu me apego à minha ideia, da minha crença, do meu conceito, da minha maneira de ser – e me limito, e não tenho capacidade de compreender mais nada ou mais ninguém.
Então, o desapego significa estar aberto à realidade à qual você está vivendo.
O papel da riqueza no Budismo
“Enquanto encoraja o progresso material, o Buddhismo sempre enfatiza o desenvolvimento do caráter moral e espiritual para uma sociedade feliz, pacífica e contente.
Muitas pessoas pensam que, para ser um bom buddhista, o indivíduo não pode ter nada a ver com a vida material. Isso não está correto. O que o Buddha ensina é que, embora possamos usufruir de conforto material sem ir aos extremos, também devemos desenvolver, de modo dedicado, o conforto espiritual sem partir para extremos. Precisamos também desenvolver os aspectos espirituais de nossas vidas conscientemente. Embora possamos apreciar prazeres sensoriais como leigos, nunca devemos permanecer indevidamente ligados a eles a ponto de dificultarem nosso progresso espiritual. O Buddhismo enfatiza a necessidade de uma pessoa seguir o Caminho do Meio. O ensinamento do Buddha não é baseado na obliteração do mundo, mas na obliteração da ignorância e do desejo egoísta.” – Ven. K. Sri Dhammananda, Levando uma Vida Buddhista* e No Que Os Buddhistas Acreditam*
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“Embora o Buddhismo seja caracterizado como uma religião ascética, na verdade o ascetismo foi vivenciado pelo Buddha e rejeitado por ele antes de alcançar a iluminação. Do ponto de vista do Buddhismo, o significado da palavra “ascetismo” é ambíguo e não deveria ser usado sem qualificação.
O termo “pobreza” também é capcioso. Os conceitos buddhistas conhecidos estão mais para contentamento (santutthi) ou desejos limitados (appicchata). Pobreza (dadiddiya) não é elogiada ou encorajada no Buddhismo. Como o Buddha disse: “Para chefes de família neste mundo, pobreza é sofrimento” [A.III.350]; “Pobreza e dívida são lamentáveis no mundo” [A.III.352].
Na verdade, a posse de riquezas por certas pessoas é frequentemente elogiada e incentivada no Cânone Pāli, indicando que a riqueza é algo a ser procurado. Dentre os discípulos laicos do Buddha, os mais conhecidos, os mais úteis e os mais frequentemente elogiados eram, em grande parte, pessoas ricas, como Anathapindika.” [Leia o texto completo no Centro Nalanda: O Papel da Riqueza no Buddhismo, por Ven. Ajahn Payutto]
O trabalho como prática espiritual
Abaixo, seguem-se algumas anotações sobre a palestra “O trabalho como prática espiritual“, proferida por Ajahn Mudito e publicada no YouTube a 01/10/2025. Confira no final do post o vídeo integral da palestra.
O trabalho como ferramenta de treino
No budismo, geralmente há muita presença do trabalho voluntário, as coisas não são feitas baseadas em dinheiro. Tanto os monges quanto os leigos têm contacto com situações em que o trabalho tem que ser feito de maneira voluntária. Serve como um exercício de renúncia e uma forma de vencer obstáculos internos como a preguiça, o egoísmo e a vaidade. Também tem um aspeto de desenvolver sabedoria, no sentido de ter inteligência para notar o que precisa ser feito, mas também no sentido de inteligência emocional, de fazer as coisas e não sentir rancor ou irritação.
Diferentes estados mentais ao realizar um trabalho
- Desejo de aprovação: Trabalhar apenas para receber elogios ou por medo de ser criticado.
- Busca por mérito: Comum em países como a Tailândia, onde as pessoas realizam tarefas (por vezes desnecessárias) apenas para acumular bom karma, como por exemplo limpar o chão de um mosteiro que está limpo, mas que vão fazer porque ouviram dizer que é meritório.
- Bondade genuína: Trabalhar pelo prazer de ajudar e prestar serviço aos outros.
- Treino mental (citta bhavana): Utiliza a tarefa para observar a sua própria mente. Enquanto trabalha, mantém-se atento a sentimentos de resistência, vaidade, orgulho ou má vontade, tentando abandoná-los. Não importa se é um trabalho fácil ou difícil, é uma oportunidade para treinar a mente. O trabalho também é a prática.
Idealmente a pessoa deve fazer o trabalho sem ficar irritada e preocupada se as pessoas elogiaram ou criticaram. Ela tem noção que existe um aspeto mental e treina esse aspeto mental. O sinal de que o treino mental está a funcionar é a manutenção de uma mente tranquila. Se uma pessoa se sente irritada ou injustiçada porque os outros não estão a trabalhar tanto quanto ela, isso revela que ainda existe uma resistência interna e que a ação não é puramente desinteressada. A verdadeira sabedoria permite trabalhar sem se preocupar com a justiça externa, focando-se apenas no seu próprio esforço e purificação, com atenção e cuidado, leveza e tranquilidade.
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