A idealização do Buda evoluiu ao longo da história do budismo. Este artigo explora essa evolução, desde os Textos Budistas Antigos, que o descrevem como um ser humano extraordinário, até ao surgimento do Mahayana, onde a sua figura adquire dimensões cada vez mais transcendentes e cósmicas.
Conteúdo:
- Introdução
- A perspetiva Theravada
- A perspetiva Mahayana
- Implicações para a Prática Budista
- Budeidade Transcendental vs. Conceito de Deus: uma distinção fulcral
- Conclusão
Introdução
O budismo nasceu no subcontinente indiano por volta do século V AEC, num período de grandes transformações sociais e religiosas. O seu fundador foi o Siddhārtha Gotama, que através do seu próprio esforço, atingiu a chamada iluminação ou despertar, passando a ser conhecido como o Buda. A partir desse momento, o Buda dedicou-se a ensinar os outros até ao fim dos seus dias. Após o seu falecimento, os ensinamentos foram preservados através da tradição oral, e posteriormente compilados em extensos cânones textuais.
A representação do Buda evoluiu ao longo do tempo. Os textos mais antigos, preservados principalmente no Cânone Páli, tendem a apresentar o Buda Gotama como um ser humano excecional, dotado de sabedoria e capacidades extraordinárias, mas ainda sujeito às leis naturais da existência física. No Maha-Saccaka Sutta (MN 36), por exemplo, o Buda descreve as suas experiências humanas durante a busca pelo despertar, incluindo as suas práticas ascéticas e a necessidade de se alimentar para recuperar a força. No Mahāparinibbāna Sutta (DN 16), vemos o Buda a enfrentar doenças, envelhecimento e morte como qualquer ser humano, embora com extraordinária equanimidade. Em vários suttas, como o Ariyapariyesana Sutta (MN 26), o Buda é retratado como alguém que alcançou o despertar através do esforço humano e da prática diligente.
Contudo, já nesses textos mais antigos, o Buda também é apresentado com características supramundanas. No Acchariya-abbhuta Sutta (MN 123), são descritos eventos milagrosos no nascimento do Buda. Tanto no Ariyapariyesana Sutta (MN 26) como no Mahāparinibbāna Sutta (DN16), constam descrições sobrenaturais do Buda. No Dona Sutta (AN 4.36), quando questionado se ele era um deva ou outro tipo de ser sobrenatural, o Buda responde que não, mas quando questionado se era um ser humano, ele também responde que não. O Buda afirma ter abandonado as impurezas pelas quais se poderia tornar um deva ou humano. “Tal como uma flor de lótus azul, alçando-se, sem máculas da água, eu não sou maculado pelo mundo, portanto, brâmane, estou iluminado”, afirmou o Buda. A recusa do Buda em se identificar como um ser humano está relacionada com um ponto recorrente em todo o Cânone: uma pessoa iluminada não pode ser definida de absolutamente nenhuma forma. O Aggi-Vacchagotta Sutta (MN 72), menciona que o Tathāgata (O Buda) está libertado de pensar em termos de forma material, que é profundo, imensurável, difícil de ver e de compreender. Essas palavras apontam para a dimensão transcendental da libertação obtida pelo Buda e a sua inacessibilidade para o pensamento discursivo. Outros suttas reforçam a mesma ideia.
Temos então duas perspectivas que coexistem nos EBTs (Textos Budistas Antigos): por um lado, o Buda como um ser humano extraordinário, sujeito à doença, velhice e morte, sendo a sua busca pelo despertar descrita em termos muito humanos; por outro, descrições do Buda com elementos extraordinários e supramundanos. Algumas pessoas interpretam essas descrições como metáforas, simbolismos e alegorias, enquanto que outras as interpretam mais literalmente, aceitando os elementos extraordinários como fatos históricos e os poderes supramundanos como consequências naturais do despertar.
Com o surgimento e desenvolvimento do movimento Mahayana, aproximadamente a partir do século I AEC, a figura do Buda adquiriu dimensões progressiva e predominantemente mais transcendentes e cósmicas. Essa evolução – que não foi uniforme nem linear, com diferentes escolas e tradições desenvolvendo as suas próprias interpretações e ênfases – foi impulsionada por uma complexa interação de fatores, incluindo: 1) debates doutrinários no seio das primeiras escolas budistas, como a visão lokottara (supramundana) do Buda defendida pelos Mahāsāṃghikas, que o viam como um ser transcendente; 2) o desenvolvimento de novas escrituras (os Sutras Mahayana); 3) a crescente importância da devoção; e 4) a exploração filosófica sobre a natureza última da realidade e da própria iluminação. A necessidade de explicar como um ser aparentemente limitado pôde alcançar um estado tão exaltado e como esse estado se relaciona com o cosmos e com o potencial de todos os seres conduziu ao desenvolvimento de doutrinas complexas, como a do Trikāya (os Três Corpos do Buda) e do Tathāgatagarbha (a Natureza Búdica inerente a todos os seres).
Este artigo explorará essas diferentes visões, começando pela perspetiva Theravada e seguindo a trajetória do pensamento Mahayana, analisando as qualidades atribuídas ao Buda em cada tradição e as suas implicações.
A perspetiva Theravada
O budismo Theravada, fundamentado principalmente no Cânone Páli, vê Siddhārtha Gotama como um ser humano que, através dos seus próprios esforços e sabedoria, alcançou a perfeita iluminação e se tornou num Buda, tendo generosamente partilhado esse caminho com o mundo.
Embora os textos reconheçam que o Buda possuía poderes psíquicos (iddhi) e conhecimentos que ultrapassam a compreensão humana comum, a tradição Theravada sublinha que, enquanto viveu, ele estava sujeito às limitações inerentes a um corpo físico. Sentia dor, adoeceu, envelheceu e, por fim, faleceu (atingiu o Parinibbāna), tal como qualquer outro ser condicionado. A sua grandeza está na sua realização espiritual e na sua capacidade de ensinar, não numa natureza divina inerente.
O Cânone Páli, a coleção de escrituras considerada a mais antiga e autêntica pela escola Theravada, está repleto de relatos que ilustram a humanidade do Buda. Os quatro Nikāyas principais (Dīgha, Majjhima, Saṃyutta, Aṅguttara) descrevem as suas interações quotidianas com monges, monjas, reis, aldeões e ascetas de outras tradições, os seus métodos de ensino adaptados a diferentes públicos, as suas viagens a pé pela planície do Ganges, e até momentos de cansaço ou doença. O Mahāparinibbāna Sutta (DN 16), por exemplo, narra detalhadamente os últimos meses da vida do Buda, incluindo a sua última refeição, a doença que se seguiu, os seus conselhos finais à comunidade monástica e a sua morte física em kushinagar. Estes relatos reforçam a imagem de um mestre humano, embora extraordinário, cujos ensinamentos (o Dhamma) e disciplina monástica (Vinaya) são o seu legado duradouro e o verdadeiro refúgio para os seus seguidores após a sua passagem.
As Qualidades do Buda (Buddha-guṇā)
O Theravada reconhece qualidades excecionais do Buda (Buddha-guṇa) que o distinguem dos seres comuns. A saber:
- Arahaṃ – Digno, livre de impurezas;
- Sammā-sambuddho – Perfeitamente iluminado por si mesmo;
- Vijjā-caraṇa-sampanno – Perfeito em conhecimento e conduta;
- Sugato – Bem-aventurado;
- Lokavidū – Conhecedor dos mundos;
- Anuttaro purisa-damma-sārathi – Insuperável guia dos seres;
- Satthā deva-manussānaṃ – Mestre de devas e humanos;
- Buddho – O Desperto.
- Bhagavā – O Abençoado.
Estas qualidades demonstram que, embora humano, ele estava longe de ser comum. Uma prática devocional que existe no Theravada é a recordação dessas qualidades do Buda (Buddhānussati), servindo para inspirar fé/confiança (saddhā), alegria (pīti) e concentração (samādhi).
Mas estas nove qualidades, ainda que exaltadas, focam-se consistentemente na realização espiritual, sabedoria, pureza ética e capacidade pedagógica do Buda. Não descrevem um criador ou um governante cósmico, mas sim o pináculo do desenvolvimento humano e espiritual alcançado através da compreensão e aplicação do Dhamma. A prática de Buddhānussati visa cultivar estas mesmas qualidades no praticante, usando o Buda como inspiração e modelo supremo.
As 32 maiores marcas de um grande ser humano (Mahāpurisa Lakkhaṇa) e as 80 menores (Anuvyañjana)
O Cânone Páli descreve um conjunto de 32 marcas físicas extraordinárias (Mahāpurisa Lakkhaṇa) que se diz adornarem o corpo de um “Grande Homem” (Mahāpurisa), uma figura destinada a tornar-se ou um Monarca Universal (Cakkavattī) que governa com justiça, ou um Buda plenamente iluminado. Estas marcas são enumeradas e explicadas principalmente no Lakkhaṇa Sutta (DN 30) e no Brahmāyu Sutta (MN 91).
Exemplos destas 32 marcas incluem: pés com solas planas que tocam o chão uniformemente; marcas de rodas com mil raios nas solas dos pés; calcanhares salientes; dedos longos e delgados; mãos e pés macios; tornozelos altos; pernas como as de uma gazela; órgão sexual escondido numa bainha; pele dourada; pelos corporais individuais que crescem para cima e se enrolam para a direita; um corpo perfeitamente proporcional; um tufo de pelo branco (uṇṇā) entre as sobrancelhas; e uma protuberância no topo da cabeça (uṇhīsa). Existem também 80 características menores (Anuvyañjana), que são elaborações adicionais destas marcas principais.
O Lakkhaṇa Sutta explica que cada uma destas marcas é o resultado kármico de ações meritórias específicas realizadas pelo Bodhisatta (antes de se tornar Buda), como a prática da generosidade, da verdade, da não-violência e da busca pela sabedoria. A presença destas marcas era vista como um sinal do seu estatuto excecional e, possivelmente, como um meio de convencer os Brâmanes da sua época, que tinham as suas próprias tradições de fisionomia, da sua autenticidade como mestre espiritual.
No entanto, a interpretação destas marcas não é isenta de complexidade. Elas parecem contradizer outras descrições nos textos que sugerem uma aparência física mais normal do Buda. Por exemplo, no Dhatuvibhanga Sutta (MN 140), o monge Pukkusati senta-se ao lado do Buda durante toda a noite na cabana de um oleiro, sem saber quem ele era, o que reforça o aspecto humano do Buda e até mesmo a sua humildade e como o ele não buscava destaque ou reconhecimento especial.
Geralmente essas marcas são maioritariamente consideradas elementos da cultura indiana antiga incorporados na narrativa, assim como símbolos que representam qualidades espirituais, não necessariamente descrições literais físicas, pois caso interpretados literalmente, o Buda seria bem disforme. Contudo, mesmo se aceites como literais, estas marcas são entendidas como fruto do kamma e como indicadores de um potencial extraordinário, não como atributos de uma divindade. Elas representam a manifestação externa da perfeição interior alcançada através de inúmeras vidas de prática virtuosa.
As 10 forças (ou poderes) do Tathāgata (Dasabala)
Outro conjunto de qualidades excecionais atribuídas ao Buda são as Dez Forças ou Poderes do Conhecimento (dasa tathāgatabalāni), descritas em detalhe no Mahāsīhanāda Sutta (MN 12) e mencionadas noutros locais (por exemplo, AN 10.21). Estas “forças” não são poderes físicos ou de intervenção sobrenatural no mundo, mas sim dez tipos de conhecimento superior (ñāṇa), direto e infalível que definem a sabedoria extraordinária de um Buda no contexto budista:
- Conhecimento do possível como possível e do impossível como impossível (ṭhānāṭhāna-kosalla-ñāṇa): Compreensão das leis causais que determinam o que pode e não pode acontecer.
- Conhecimento dos resultados (vipāka) das ações (kamma) passadas, presentes e futuras: Compreensão completa da lei do kamma e das suas consequências.
- Conhecimento dos caminhos (paṭipadā) que conduzem a todos os destinos: Compreensão das práticas que levam aos vários renascimentos (infernos, animais, humanos, deuses) e ao Nibbāna.
- Conhecimento do mundo com os seus múltiplos e diversos elementos (dhātu): Compreensão da natureza fundamental dos elementos que compõem a realidade física e mental.
- Conhecimento das diversas inclinações (adhimutti) dos seres: Compreensão das diferentes disposições, tendências e motivações dos seres sencientes.
- Conhecimento do estado das faculdades (indriya) dos outros seres: Compreensão do nível de desenvolvimento das faculdades espirituais (fé, energia, atenção, concentração, sabedoria) de outros seres.
- Conhecimento relativo às contaminações, purificações e emergências relativas às absorções meditativas (jhāna), libertações (vimokkha), concentrações (samādhi) e atingimentos (samāpatti): Mestria completa dos estados meditativos.
- Conhecimento da recordação de existências anteriores (pubbenivāsānussati-ñāṇa): Capacidade de recordar inúmeras vidas passadas em detalhe.
- Conhecimento do passamento e renascimento dos seres (cutūpapāta-ñāṇa ou dibbacakkhu-ñāṇa, o Olho Divino): Capacidade de ver como os seres morrem e renascem de acordo com o seu kamma.
- Conhecimento da destruição das impurezas mentais (āsavakkhaya-ñāṇa): A realização final da libertação, a certeza de que todas as impurezas foram erradicadas e não haverá mais renascimento.
Estas dez forças representam a culminação da sabedoria de um Buda. As sete primeiras detalham a sua compreensão abrangente das leis que governam o saṃsāra e as mentes dos seres, enquanto as três últimas refletem a sua própria realização libertadora. É esta combinação de compreensão universal e realização pessoal que fundamenta a sua autoridade como mestre e a sua capacidade incomparável de guiar outros para fora do sofrimento (dukkha). O Buda descreve estes poderes no Mahāsīhanāda Sutta para afirmar a validade dos seus ensinamentos face a críticas, baseando a sua autoridade neste conhecimento superior da realidade, e não em revelação divina ou poder criador.
A humanidade do Buda e a sua transcendência
Apesar da ênfase na humanidade do Buda, o Cânone Páli não o retrata como um homem inteiramente comum. A posse de poderes psíquicos (iddhi) e os conhecimentos superiores (abhiññā, incluindo os Dasabala) já o colocam numa categoria distinta. Além disso, certas passagens sugerem uma dimensão que transcende a simples existência física e histórica.
No Vakkali Sutta (SN 22.87), o Buda diz: “quem me vê a mim, vê o Dhamma”. Esta identificação do Buda com o Dhamma (a Verdade, o Ensinamento) sugere que a sua verdadeira essência está na realidade que ele realizou e ensinou, transcendendo a sua manifestação corpórea.
No Aggi-Vacchagotta Sutta (MN 72), o Buda recusa-se a responder a perguntas sobre o estado de um Tathāgata após a morte, comparando-o a um fogo que se extinguiu e cuja direção (leste, oeste, etc.) não se aplica. Ele afirma que o Tathāgata está “liberto da classificação de forma, sentimento, perceção, formações mentais, consciência” e é “profundo, ilimitado, difícil de sondar, como o grande oceano”. Esta linguagem aponta para um estado que transcende as categorias conceptuais binárias de existência e não-existência.
Embora a interpretação Theravada padrão veja estas passagens como referindo-se à realização da Verdade e à cessação final dos agregados (khandhas) no Parinibbāna, sem implicar uma entidade metafísica duradoura, a linguagem da transcendência e da identificação com o Dhamma pode ser vista como contendo as sementes que germinariam nas elaboradas doutrinas Mahayana sobre a natureza última e os múltiplos corpos do Buda.
A perspetiva Mahayana
O movimento Mahayana (“Grande Veículo”), que começou a tomar forma por volta do século I AEC e floresceu nos séculos seguintes, introduziu mudanças significativas na compreensão da natureza e das qualidades do Buda, movendo-se progressivamente de uma visão predominantemente humana para concepções marcadamente transcendentes e cósmicas.
Fatores históricos e filosóficos na evolução do conceito do “Buda”
- Influência das Primeiras Escolas: Particularmente importante parece ter sido a influência da escola Mahāsāṃghika e dos seus subgrupos, como os Lokottaravādins (“Aqueles que seguem os ensinamentos supramundanos”). Estas escolas já defendiam uma visão lokottara (supramundana) do Buda, considerando que sua natureza era transcendente, pura e livre de impurezas mundanas. Eles faziam uma distinção entre o aspecto físico/mundano do Buda e sua natureza transcendente.
- O Caminho do Bodhisattva: Uma característica marcante do Mahayana é a ênfase no caminho do Bodhisattva (Bodhisattvayāna). Um Bodhisattva, no contexto Mahayana, é aquele que, movido por grande compaixão (mahākaruṇā), dedica-se ao cultivo do despertar em benefício de todos os seres sencientes. Esta perspectiva universalista do Mahayana desenvolveu uma compreensão expandida da natureza e potencial do despertar.
- Novas Escrituras (Sutras Mahayana): O Mahayana incorpora um conjunto adicional de textos que exploram temas como a vacuidade (śūnyatā), a natureza da mente, Budas e Bodhisattvas, e o conceito de Terras Puras. A tradição Mahayana considera estes textos como ensinamentos do Buda preservados de diferentes formas, incluindo em reinos dos Nāgas, até ao momento apropriado para a sua revelação.
- Desenvolvimentos Filosóficos: Escolas filosóficas Mahayana como a Madhyamaka (fundada por Nāgārjuna) e a Yogācāra (associada a Asaṅga e Vasubandhu) desenvolveram análises profundas sobre a natureza da realidade, da vacuidade e da consciência. Os seus ensinamentos contribuíram significativamente para a compreensão da natureza do Buda, incluindo o desenvolvimento da doutrina do Trikāya (que veremos mais à frente).”
- Fatores Devocionais e Sociais: A crescente veneração do Buda e dos seus locais considerados sagrados (como stūpas), juntamente com a possível maior influência de praticantes leigos, pode também ter contribuído para a visão mais transcendental e cósmica do Buda.
Em suma, a transição para uma visão mais transcendente do Buda no Mahayana resultou de uma interação complexa entre a herança das escolas anteriores (especialmente Mahāsāṃghika), a emergência do ideal do Bodhisattva, a revelação (ou composição) de novos textos sagrados, profundas explorações filosóficas e, possivelmente, influências devocionais e sociais mais amplas.
Bases textuais
Alguns dos sutras mais influentes na formação da concepção Mahayana do Buda incluem:
- Prajñāpāramitā Sutras (Sutras da Perfeição da Sabedoria): Esta classe de textos, que inclui obras famosas como o Sutra do Coração (Prajñāpāramitā Hṛdaya) e o Sutra do Diamante (Vajracchedikā Prajñāpāramitā), bem como versões mais extensas como a Aṣṭasāhasrikā (8.000 linhas) e a Pañcaviṃśatisāhasrikā (25.000 linhas), é fundamental para a filosofia Mahayana. Eles expõem a doutrina da vacuidade (śūnyatā) – a ausência de existência inerente (svabhāva) em todos os fenómenos (dharmas) – como a essência da sabedoria perfeita (prajñāpāramitā). Esta sabedoria é não-conceptual e transcende a dualidade. Embora não desenvolvam explicitamente a doutrina Trikāya, estes sutras lançam as bases para ela ao identificar a verdadeira natureza do Buda com esta sabedoria vazia e transcendente, prefigurando o conceito de Dharmakāya. Argumenta-se que estes ensinamentos podem ter tido origem entre os Mahāsāṃghikas do sul da Índia.
- Saddharma Puṇḍarīka Sutra (Sutra do Lótus): Um dos sutras mais influentes no Budismo da Ásia Oriental. O seu Capítulo 16 (“A Duração da Vida do Tathāgata”) é revolucionário ao revelar que a vida e morte aparentes de Shakyamuni (o nome do Buda mais utilizado no Mahayana) foram uma demonstração de meios hábeis (upāya). O sutra revela que ele alcançou a Budeidade há éons inconcebíveis, com uma presença que transcende a nossa compreensão convencional de tempo e duração. Essa descrição serve como um meio hábil para expressar a natureza atemporal do Dharma. O Sutra do Lótus também introduz a doutrina do Veículo Único (Ekayāna), afirmando que todos os caminhos budistas (Śrāvakayāna, Pratyekabuddhayāna, Bodhisattvayāna) são, em última análise, meios hábeis que conduzem à meta única da Budeidade universal. Como sempre, várias interpretações podem variar entre as escolas.
- Avataṃsaka Sutra (Sutra da Guirlanda de Flores): Este vasto e complexo sutra apresenta uma cosmologia grandiosa de universos interpenetrados (“Rede de Indra”) e descreve as qualidades, poderes e atividades inconcebíveis de um Buda. Enfatiza a omnipresença do Buda e a sua capacidade de se manifestar simultaneamente em todos os reinos. O Avataṃsaka é fundamental para a escola Huayan (Kegon no Japão) e influenciou profundamente a visão Mahayana do Buda como um ser cósmico cuja realidade permeia tudo.
- Tathāgatagarbha Sutras: Um grupo de sutras, incluindo o Tathāgatagarbha Sutra, o Śrīmālādevī Siṃhanāda Sutra e, de forma proeminente, o Mahayana Mahāparinirvāṇa Sutra, que introduziu e desenvolveu a doutrina da Natureza Búdica (Tathāgatagarbha ou Buddhadhātu). Esta doutrina postula que todos os seres sencientes possuem inerentemente a essência, o “embrião” ou a “matriz” (garbha) de um Tathāgata (Buda), ou a natureza (dhātu) de um Buda. Esta natureza é intrinsecamente pura e luminosa, embora temporariamente obscurecida por impurezas adventícias (kleśa). O Mahāparinirvāṇa Sutra, em particular, identifica esta Natureza Búdica com o Dharmakāya. É importante notar que estas descrições representam um desenvolvimento específico no pensamento Mahayana e devem ser compreendidas como meios hábeis (upāya) que apontam para a natureza última da realidade, sempre em harmonia com os ensinamentos fundamentais de anicca e anātman.
- Laṅkāvatāra Sutra: Um sutra complexo e influente, especialmente para a escola Chan (Zen), que tenta sintetizar as doutrinas da escola Yogācāra (como a Mente-Apenas, cittamātra, e a consciência depósito, ālayavijñāna) com a teoria do Tathāgatagarbha. Discute a natureza da consciência, a irrealidade do mundo externo como mera projeção da mente (svacitta-dṛśya-mātram), e identifica o Tathāgatagarbha com o ālayavijñāna como a base da qual surgem tanto a ilusão como a iluminação. Embora enfatize a Mente-Apenas, também adverte contra a reificação da própria mente, apontando para uma realidade última que transcende todos os conceitos. É neste sutra que se encontra uma discussão explícita sobre a razão pela qual o Buda ensinou o Tathāgatagarbha: para aliviar o medo que alguns discípulos sentiam perante a doutrina da vacuidade (śūnyatā), oferecendo uma perspetiva mais positiva sobre a natureza última. A sua abordagem não-dualista inerentemente critica as concepções teístas de um criador externo ou de uma alma permanente separada.
Trikāya: Os Três Corpos do Buda
A doutrina do Trikāya (“Três Corpos”) é um importante conceito do Mahayana que ajuda a compreender diferentes aspectos da natureza de um Buda. Este ensinamento apresenta uma forma de entender tanto o Buda histórico Shakyamuni quanto os aspectos mais profundos da iluminação. De acordo com esta perspectiva, um Buda manifesta-se através de três “corpos” ou aspectos interrelacionados: o Dharmakāya (Corpo do Dharma), o Sambhogakāya (Corpo de Fruição) e o Nirmāṇakāya (Corpo de Manifestação).
As origens desta doutrina podem ser encontradas em distinções anteriores entre o corpo físico (rūpakāya) e o “corpo dos ensinamentos” ou a realização do Dhamma (dhammakāya) presentes já em textos mais antigos. No entanto, a formulação explícita dos três corpos é uma inovação Mahayana, associada particularmente à escola Yogācāra, sendo o Sambhogakāya o último a ser claramente articulado, provavelmente por volta do século III ou IV EC. O Trikāya é também fundamental para explicar a doutrina Mahayana do apratisthita-nirvāṇa (Nirvana não-estabelecido), que representa um estado em que um Buda não permanece fixado nem no saṃsāra nem no nirvāṇa, manifestando atividade iluminada através de sua grande compaixão (mahākaruṇā).
Dada a complexidade e profundidade destes conceitos, para uma compressão mais fidedigna um professor qualificado torna-se imprescindível. Podem também existir variações nas interpretações entre as escolas.
Dharmakāya: O Corpo da Verdade Absoluta
O Dharmakāya representa a dimensão última, absoluta e incondicionada (asaṃskṛta) da Budeidade. É frequentemente descrito como:
- A Essência da Realidade: É a verdadeira natureza de todos os fenómenos (dharmatā), a Talidade (Tathatā), o Elemento da Realidade (Dharmadhātu). Está além dos conceitos de começo e fim, permanência e impermanência, existência e não-existência.
- A Corporificação da Vacuidade (Śūnyatā): O Dharmakāya é inseparável da vacuidade, a ausência de existência inerente ou substancial em todos os fenómenos, incluindo o próprio Buda. Não é uma base ou fonte, mas a própria natureza última da realidade, indissociável de pratītyasamutpāda (origem dependente).
- A Natureza Búdica (Tathāgatagarbha/Buddhadhātu): Em muitas correntes Mahayana, o Dharmakāya é identificado com a Natureza Búdica, a essência pura, luminosa e inerente a todos os seres sencientes, que constitui o potencial para a iluminação.
- Sabedoria Não-Conceptual (Prajñā/Jñāna): É a realização da sabedoria transcendental (prajñāpāramitā), um conhecimento direto e intuitivo (jñāna) que transcende a dualidade sujeito-objeto e o pensamento discursivo.
- Natureza Impessoal e Inconcebível: O Dharmakāya é geralmente entendido não como um Deus pessoal, mas como um princípio último, a base da realidade, que é inconcebível (acintya) e inefável para a mente conceptual. É descrito como paz, para além da existência e não-existência.
O Dharmakāya é, portanto, o fundamento absoluto da Budeidade, a realidade última em si mesma.
Sambhogakāya: O Corpo de Fruição ou Deleite
O Sambhogakāya é um corpo de manifestação mais subtil e glorioso. Representa a Budeidade na sua forma celestial, radiante e bem-aventurada.
- Características: É descrito como um corpo luminoso, adornado com os 32 sinais maiores e os 80 menores de um Grande Homem (Mahāpurisa). Possui poderes infinitos e manifesta a plenitude das qualidades iluminadas. É um corpo de “deleite” ou “fruição”, tanto no sentido de experienciar a bem-aventurança da iluminação como de ser o resultado (“recompensa”) de vastas acumulações de mérito e sabedoria ao longo do caminho do Bodhisattva.
- Função: O Sambhogakāya manifesta-se principalmente em reinos puros ou celestiais (como as Terras Puras) e ensina o Dharma Mahayana a assembleias de Bodhisattvas avançados (aqueles que alcançaram os níveis elevados ou bhūmis do caminho). Serve como uma ponte crucial entre a natureza absoluta e não-manifesta do Dharmakāya e as manifestações mais grosseiras do Nirmāṇakāya. É a forma através da qual a compaixão e a sabedoria do Buda interagem com seres de elevada capacidade espiritual. Exemplos de Budas frequentemente associados ao Sambhogakāya incluem Amitābha e Vairocana nas suas manifestações celestiais.
Nirmāṇakāya: O Corpo de Manifestação ou Emanação
O Nirmāṇakāya é o aspeto da Budeidade que se manifesta no mundo comum, condicionado, para benefício dos seres sencientes.
- Manifestação Histórica: O exemplo primordial de um Nirmāṇakāya é o Buda histórico, Shakyamuni, que nasceu, viveu, ensinou e morreu na antiga Índia.
- Natureza: É considerado uma emanação compassiva, uma projeção ou manifestação do Dharmakāya e/ou Sambhogakāya, adaptada às limitações e capacidades dos seres mundanos. Um Buda pode manifestar inúmeros Nirmāṇakāyas simultaneamente em diferentes formas e mundos, não necessariamente como um “Buda” reconhecível, mas como qualquer forma que seja mais benéfica para guiar os seres (por exemplo, como professores, guias espirituais, ou mesmo formas comuns).
- Aparência vs. Realidade: Existe alguma variação nas interpretações Mahayana sobre a natureza exata do Nirmāṇakāya. Algumas visões, influenciadas pelas escolas Mahāsāṃghika, consideram-no uma aparência transcendente, um corpo que apenas parece sofrer as limitações da vida e da morte como um meio hábil (upāya). Outras escolas, no entanto, aceitam que o corpo físico manifesto, mesmo o de um Buda, está sujeito às leis de causa e efeito, incluindo doença, envelhecimento e morte, embora a mente iluminada permaneça intocada.
Inter-relação entre os Três Corpos
É fundamental entender que os três kāyas não são entidades separadas ou independentes, mas sim aspetos interligados e inseparáveis de uma única e mesma Budeidade. Eles representam diferentes funções ou modos de manifestação da realidade iluminada.
O Dharmakāya é a base última, a essência vazia e luminosa. O Sambhogakāya é a sua expressão radiante e bem-aventurada em reinos subtis. O Nirmāṇakāya é a sua manifestação compassiva no mundo condicionado. São como o céu (Dharmakāya), as nuvens (Sambhogakāya) e a chuva (Nirmāṇakāya) – diferentes manifestações da mesma natureza fundamental. O Sutra da Luz Dourada (Suvarṇaprabhāsa Sutra) afirma que os dois primeiros corpos (Sambhogakāya e Nirmāṇakāya) são designações relativas, enquanto o Dharmakāya é a verdadeira base, contendo todas as qualidades búdicas na sua natureza e sabedoria.
Esta intrincada doutrina oferece uma solução elegante para o paradoxo de como um ser que transcendeu completamente o mundo condicionado (Dharmakāya) pode, ainda assim, interagir compassivamente com esse mesmo mundo de formas múltiplas e adaptadas (Sambhogakāya para seres elevados, Nirmāṇakāya para seres comuns). Sublinha a inseparabilidade intrínseca da vacuidade (Dharmakāya), da compaixão (expressa através das manifestações Sambhogakāya e Nirmāṇakāya) e da sabedoria (que permeia todos os corpos e guia a sua atividade). Reflete a visão Mahayana da não-dualidade entre saṃsāra e nirvāṇa, forma e vacuidade, imanência e transcendência.
Eternidade e Imutabilidade
A concepção Mahayana do Buda vai além da sua figura histórica, focando-se na eternidade e imutabilidade do Dharmakāya, a sua essência última. Este é entendido como um princípio eterno e imutável que permeia toda a realidade (a Talidade), transcendendo nascimento e morte.
O Capítulo 16 do Sutra do Lótus ilustra esta visão, onde Shakyamuni revela que a sua vida e morte aparentes foram um meio hábil (upāya). Ele alcançou a Budeidade há éons, e a sua presença imensurável está sempre disponível para ensinar o Dharma. Similarmente, o Mahayana Mahāparinirvāṇa Sutra enfatiza a natureza eterna do Buda e redefine o Mahāparinirvāṇa como um estado permanente de felicidade e um “Eu” verdadeiro (Natureza Búdica), indicando que o Buda permanece acessível.
Esta afirmação da eternidade do Buda, apesar do ensinamento base budista da impermanência (anicca), é resolvida pelo Mahayana através da doutrina dos Dois Níveis de Verdade. Na verdade convencional, o corpo físico do Buda (Nirmāṇakāya) está sujeito à impermanência. Contudo, na verdade última, o Dharmakāya é a realidade incondicionada, para além do nascimento e da morte, e até mesmo de todos esses conceitos.
Estas doutrinas Mahayana garantiram a presença perpétua do Buda (mas não como uma presença física ou substancial), elevaram-no a um estatuto cósmico e forneceram uma base ontológica para a capacidade universal de todos os seres atingirem a iluminação, reinterpretando conceitos anteriores como o anātman à luz desta realidade última.
É importante notar que embora seja descrito como “eterno e imutável”, isso não deve ser confundido com um “Eu” permanente ou uma entidade substancial. É mais preciso entendê-lo como a natureza última da realidade, vazia de existência inerente. Um dos ensinamentos do Buda é o caminho do meio, que entre outros aspetos, rejeita a visão extrema eternalista (sassatavada) e o oposto aniquilacionista ou niilista (ucchedavada). Este é um assunto sensível que requer todo o cuidado e orientação qualificada para não cairmos em interpretações incorretas, além disso diferentes visões podem existir entre as escolas.
Sabedoria Transcendental (Prajñā)
No Mahayana, a Budeidade é inseparável da Prajñā, a sabedoria suprema e transcendental, que se liga à visão do Buda como um ser cósmico.
A omnisciência búdica (Sarvajñatā) não é um conhecimento enciclopédico de factos, mas sim a compreensão perfeita e direta (jñāna) da verdadeira natureza da realidade. Esta inclui a vacuidade (śūnyatā), a origem dependente, o sofrimento e o caminho para a libertação. Embora incorpore os Dez Poderes Theravada, no Mahayana, é uma qualidade inerente ao Dharmakāya, permeando toda a realidade. Grandes ācāryas (professores) do passado argumentaram a sua possibilidade e infalibilidade para validar a autoridade dos ensinamentos do Buda.
A Prajñā é fundamentalmente um conhecimento direto e intuitivo (jñāna), distinto da consciência discriminativa (vijñāna). Por ser inefável e transcender o pensamento conceptual, a sabedoria última (Prajñāpāramitā) não pode ser totalmente expressa em palavras – tal como o próprio Dharmakāya.
Essa natureza inefável explica o “nobre silêncio” (mauna) do Buda sobre questões metafísicas não conducentes à libertação, como nas “questões não declaradas” do Aggi-Vacchagotta Sutta. Paradoxalmente, os Prajñāpāramitā Sutras afirmam que os próprios ensinamentos são meios hábeis (upāya), ferramentas a serem abandonadas após cumprirem o seu propósito, sugerindo que o verdadeiro ensinamento pode ocorrer além das palavras.
Assim, a omnisciência búdica Mahayana está intrinsecamente ligada à realização da vacuidade e à natureza não-conceptual da realidade. Não é um conhecimento de todos os factos, mas uma penetração direta na natureza interdependente e vazia de toda a existência, fundamentando a compaixão do Buda e a sua capacidade de guiar os seres à libertação. Esta compreensão da sabedoria transcendental está intimamente ligada à prática do Caminho do Bodhisattva e ao desenvolvimento da bodhicitta.
Presença Universal e Poder Espiritual
As concepções Mahayana do Buda atribuem-lhe uma presença e poder que transcendem limitações individuais, embora não de forma teísta. A “omnipresença” do Buda refere-se à natureza do Dharmakāya – a essência da Budeidade – que, tal como o espaço, permeia toda a existência. A sua sabedoria (prajñā) e compaixão (karuṇā) irradiam universalmente, permeando todos os seres.
Consequentemente, o Buda pode emanar múltiplos corpos de manifestação (Nirmāṇakāyas) simultaneamente em diferentes mundos e formas, adaptando-se às necessidades dos seres. Exemplos como o Avataṃsaka Sutra descrevem o Buda a preencher todos os reinos com a sua presença. Estas manifestações são a expressão espontânea da grande compaixão inerente à Budeidade, respondendo às necessidades kármicas, e não a uma vontade divina interventiva.
O poder espiritual (Adhiṣṭhāna) é a influência transformadora que emana de um Buda ou Bodhisattva. Não altera o karma arbitrariamente, mas inspira, sustenta e capacita os praticantes no seu caminho. Pode ser transmitido via ensinamentos, rituais, mantras, visualizações, ou contacto com objetos sagrados, dependendo da fé e abertura do praticante.
Em suma, a “omnipresença” búdica decorre da natureza ilimitada do Dharmakāya. As manifestações são expressões compassivas, e o Adhiṣṭhāna é a força inspiradora da sabedoria e compaixão do Buda, não um controlo externo sobrenatural.
A Grande Compaixão (Mahākaruṇā)
No Mahayana, a Grande Compaixão (Mahākaruṇā) é uma qualidade essencial da Budeidade, inseparável da sabedoria transcendental (prajñā). Não é mera piedade, mas um desejo profundo e universal de libertar todos os seres do sofrimento. Esta compaixão é “grande” pela sua abrangência e pela sua profundidade, motivando o voto do Bodhisattva de salvar todos os seres antes de entrar no Nirvāṇa.
Ao contrário da compaixão comum (limitada e dualista), a Mahākaruṇā búdica surge da sabedoria da vacuidade (śūnyatā) e da não-dualidade. Ao compreender a interconexão de todos os seres e a ausência de um “eu” separado, o Buda vê o sofrimento alheio como inseparável da sua própria compreensão da realidade. Isso torna a sua compaixão imparcial e livre de apegos.
A ação compassiva do Buda é espontânea (anābhoga) e incessante, tal como o sol irradia luz. É a força motriz por trás das manifestações do Buda (Sambhogakāya e Nirmāṇakāya) e do uso de meios hábeis (upāya) para guiar os seres.
Compaixão (karuṇā) e sabedoria (prajñā) são interdependentes, como duas asas para a Budeidade. A sabedoria sem compaixão pode levar à indiferença, e a compaixão sem sabedoria pode ser ineficaz. É a prajñā que permite à karuṇā ser universal e eficaz, revelando a interconexão e a natureza ilusória do sofrimento. Esta união é o cerne do caminho do Bodhisattva e a essência da atividade de um Bodhisattva, que escolhe permanecer no saṃsāra por compaixão para guiar os outros, corporificando o ideal do apratisthita-nirvāṇa.
Meios Hábeis (Upāya-kauśalya)
A doutrina dos Meios Hábeis (Upāya-kauśalya) é essencial no Mahayana, explicando como a sabedoria e compaixão do Buda se manifestam em ações eficazes. Upāya-kauśalya refere-se à capacidade dos Budas e Bodhisattvas de adaptar os seus ensinamentos e métodos às diversas necessidades e capacidades dos seres sencientes.
Esta habilidade não é mera astúcia, mas uma expressão da profunda compaixão (mahākaruṇā) e sabedoria (prajñā) do Buda. Os ensinamentos, vistos como ferramentas provisórias (“jangadas”), são adaptados à vasta diversidade dos seres, suas disposições e níveis espirituais. O Buda, com sua “omnisciência”, discerne precisamente o que cada ser necessita.
A doutrina do upāya é crucial para compreender a diversidade de ensinamentos budistas. O Sutra do Lótus, que postula o Veículo Único (Ekayāna), reconhece a profunda interconexão entre diferentes abordagens do Dharma, e é particularmente rico em parábolas que ilustram este conceito de upāya:
- A Parábola da Casa em Chamas (Capítulo 3): Um pai vê os seus filhos em perigo numa casa em chamas, absortos nos seus brinquedos. Com grande compaixão e sabedoria, ele usa diferentes métodos para motivá-los a buscar a segurança, adaptando a sua abordagem às diferentes disposições de cada filho. Quando todos estão seguros, compartilha com eles uma dádiva magnífica. Esta parábola ilustra como o Buda, com infinita compaixão, oferece diversos métodos de prática que se adequam às diferentes necessidades e capacidades dos praticantes. Cada método é completo e valioso em si mesmo, conduzindo ao despertar de acordo com as disposições individuais
- A Parábola da Cidade Fantasma (Capítulo 7): Um guia lidera um grupo de viajantes através de um deserto perigoso em direção a um tesouro distante. Quando os viajantes ficam exaustos e desanimados, o guia conjura magicamente uma bela cidade para que possam descansar e recuperar as forças. Depois de descansarem, o guia faz a cidade desaparecer e revela que o verdadeiro destino (o tesouro, simbolizando o Nirvāṇa último ou Budeidade) está próximo. A cidade fantasma representa os ensinamentos provisórios sobre o Nirvāṇa do Arhat, oferecidos como um descanso temporário para aqueles que ainda não estão prontos para aspirar à Budeidade completa.
- A Parábola das Ervas Medicinais (Capítulo 5): Uma grande nuvem derrama chuva uniformemente sobre a terra, nutrindo todos os tipos de plantas – ervas pequenas, arbustos e árvores grandes. Cada planta absorve a água de acordo com a sua própria natureza e capacidade, crescendo e florescendo à sua maneira. A chuva representa o Dharma universal do Buda, e as diferentes plantas representam os seres sencientes com as suas diversas capacidades. O Dharma é um só, mas beneficia cada ser de acordo com a sua receptividade.
É importante notar que estas parábolas representam uma interpretação Mahayana específica do caminho budista, diferentes tradições budistas têm as suas próprias interpretações válidas sobre o caminho para a libertação. Na tradição Theravada, por exemplo, a realização do Arahant representa o completo despertar e a libertação final (Nibbāna), conforme ensinado pelo Buda histórico no Cânone Páli (diferentemente da Parábola da Cidade Fantasma). Cada tradição budista oferece caminhos válidos e completos para a libertação, adaptados a diferentes disposições e contextos culturais. O Theravada preserva os ensinamentos fundamentais do Buda com a sua linhagem antiga e ininterrupta, enquanto que o Mahayana desenvolve aspectos complementares (mas não imprescindíveis) da prática. Os diferentes métodos e ênfases não são hierárquicos, mas representam a riqueza e adaptabilidade do Dharma para beneficiar todos os seres. Esta diversidade de aproximações ao caminho espiritual reflete a habilidade do Buda em oferecer ensinamentos apropriados para diferentes necessidades e capacidades, mantendo a essência do Dharma.
A doutrina do upāya é, assim, fundamental para o Mahayana, harmonizando a diversidade dos ensinamentos, justificando novas doutrinas e sublinhando a compaixão adaptativa do Buda como mestre universal.
Qualidades Supremas da Budeidade
No Mahayana a Budeidade é descrita através de conceitos que apontam para a sua natureza última e transcendente. A Budeidade, especialmente como Dharmakāya, é Inconcebível (Acintya), estando além do pensamento conceptual e da linguagem humana. Só pode ser apreendida por experiência direta, transcendendo dualidades.
É também Pura (Viśuddhi), completamente liberta de todas as aflições mentais (kleśa) e obscurecimentos cognitivos (jñeyāvaraṇa) que velam a verdadeira natureza da mente e da realidade. Na perspetiva do Tathāgatagarbha, esta pureza não é algo adquirido, mas a natureza intrínseca e original da mente (a “mente luminosa”), redescoberta após a remoção de obscurecimentos temporários.
Um tema central é a Não-Dualidade (Advaya). A mente iluminada de um Buda opera além das distinções conceptuais comuns (sujeito/objeto, saṃsāra/Nirvāṇa). A realização da vacuidade (śūnyatā) dissolve essas oposições, sendo o Dharmakāya a própria expressão desta não-dualidade fundamental.
O conceito de Natureza Búdica (Tathāgatagarbha / Buddhadhātu) sintetiza estas qualidades, referindo-se ao potencial para a Budeidade.
Implicações para a Prática Budista
A concepção do Buda em cada tradição budista molda significativamente a prática, desde a meta final às técnicas meditativas e à relação com o mestre.
Relevância para Diferentes Escolas
- Theravada: O Buda Gotama é um modelo humano. A prática foca-se em seguir os seus ensinamentos (Nobre Caminho Óctuplo do Cânone Pali), com ênfase na ética (sīla), meditação (samatha/vipassanā) e sabedoria (paññā) para alcançar o Nibbāna através do próprio esforço. A recordação do Buda (Buddhānussati) fortalece a confiança.
- Mahayana (Geral): A visão de um Buda transcendente e a Natureza Búdica (Tathāgatagarbha), fundamentam o caminho do Bodhisattva. A aspiração (bodhicitta) de alcançar a Budeidade completa para todos é um aspeto importante.
- Chan/Zen: Enfatiza a realização da natureza inerentemente iluminada (a mente do Buda) através do zazen, enraizado na vacuidade e Natureza Búdica.
- Terra Pura (Jōdo shū): Foca-se na devoção ao Buda Amitābha e na recitação do seu nome (Nembutsu), confiando no “outro-poder” (tariki) e graça (adhiṣṭhāna) para renascer na Terra Pura.
- Budismo Tibetano (Vajrayana): Incorpora as doutrinas Mahayana com métodos tântricos. Práticas como o Yoga da Deidade (visualizar-se como um Buda/Bodhisattva) usam mantras, mudras e mandalas para transformar a mente e alcançar a Budeidade numa só vida.
Impacto na Prática Devocional
No Theravada, a devoção é primária ao Buda histórico, Dhamma e Sangha (Triplo Refúgio), cultivando fé/confiança e inspiração. No Mahayana, o campo devocional expande-se para um vasto panteão de Budas cósmicos e Bodhisattvas, vistos como fontes ativas de compaixão e bênçãos (adhiṣṭhāna). Práticas como cânticos, oferendas e visualizações são proeminentes e eficazes para acumular mérito e conectar-se com seres iluminados.
Relação Mestre-Discípulo
- Theravada: O “bom amigo” espiritual (kalyāṇa-mitta) é um guia importante, mas a autoridade final está no Dhamma-Vinaya e no esforço individual.
- Mahayana/Vajrayana: O Guru/Lama assume uma grande importância, transmitindo ensinamentos, iniciações (abhiṣeka) e bênçãos (adhiṣṭhāna). É frequentemente visto como manifestação do Buda, sendo a devoção ao Guru (Guru Yoga) um importante aspecto para um progresso mais rápido.
Estes são apenas traços gerais das implicações práticas derivadas da concepção do Buda que cada escola tem.
Budeidade Transcendental vs. Conceito de Deus: uma distinção fulcral
Embora as concepções Mahayana do Buda (Dharmakāya eterno, Sambhogakāya glorioso) possam parecer teístas, há diferenças filosóficas e doutrinárias fundamentais entre a Budeidade transcendental e o conceito de um Deus criador pessoal.
Diferenças Essenciais
- Não-Criador: O Budismo rejeita um Deus criador do universo. A existência é explicada pela Origem Dependente e karma. O Buda, mesmo como Dharmakāya, não cria nem julga o cosmos. Textos clássicos refutam a ideia de um criador supremo.
- Natureza da Mente/Realidade: A Budeidade não é uma entidade separada, mas a natureza fundamental da mente e da realidade: vazia (śūnya) e luminosa. A iluminação é a realização desta natureza, não a união com um ser externo.
- Não-Teísta/Trans-Teísta: O Budismo é não-teísta. Devas (deuses) são seres sujeitos ao karma, não objetos de refúgio. A libertação depende da prática individual, não da graça divina.
- Universalidade da Natureza Búdica: A doutrina do Tathāgatagarbha afirma que o potencial para a Budeidade é inerente a todos os seres, não um estatuto exclusivo de uma divindade.
Base Filosófica
As diferenças assentam em conceitos como:
- Śūnyatā (Vacuidade): Todos os fenómenos (incluindo Budeidade) são desprovidos de existência inerente, contrastando com um Deus substancial e auto-existente.
- Não-Dualidade: A realização búdica transcende dualidades. O Dharmakāya é a natureza não-dual da realidade, não um criador separado.
- Compaixão Espontânea: A compaixão do Buda manifesta-se naturalmente da vacuidade e interconexão, sem ser um ato de vontade criadora.
- Omnisciência Não-Conceptual: É a sabedoria sobre a natureza da realidade para a libertação, não um conhecimento factual total como o de um Deus teísta.
Fundamentação Textual
Diversos textos suportam esta distinção:
- Laṅkāvatāra Sutra, Tathāgatagarbha Sutra e o Ratnagotravibhāga: Descrevem a Natureza Búdica como potencial e pura, sem atribuir poder criador.
- Prajñāpāramitā Sutras: Enfatizam a vacuidade de tudo, refutando visões substancialistas.
- Kevaddha Sutta (DN 11): Mostra a superioridade da realização do Buda sobre a limitação dos deuses (como Brahma).
- Mūlamadhyamakakārikā (MMK) de Nāgārjuna (Cap. 24): Argumenta que a vacuidade (śūnyatā) é a natureza última de todos os fenómenos, incluindo o Nirvāṇa e o próprio Buda, refutando visões essencialistas.
- Anattā-lakkhaṇa Sutta (SN 22.59): Estabelece o não-eu (anattā), incompatível com a noção de alma ou Deus pessoal.
- Aggi-Vacchagotta Sutta (MN 72): A recusa do Buda em responder a certas questões sobre si mesmo após a morte aponta para a transcendência da Budeidade, além de categorias conceptuais aplicáveis a Deus.
- Brahmajāla Sutta (DN 1): Aborda diferentes visões erróneas.
Apesar da linguagem por vezes exaltada e das concepções transcendentes desenvolvidas no Mahayana, para um entendimento mais fidedigno é importante a compreensão desta distinção.
Conclusão
O Theravada, através do Cânone Páli, vê o Buda como um ser humano excecional, um modelo de esforço pessoal cujas qualidades e poderes derivam da sua realização. O foco é seguir o Nobre Caminho Óctuplo para atingir o Nibbāna.
O Mahayana expandiu esta visão, com a doutrina do Trikāya a definir a Budeidade em três dimensões: o Dharmakāya (absoluto), o Sambhogakāya (celestial) e o Nirmāṇakāya (manifesto e compassivo). Sutras revelam um Buda imensurável, cuja vida histórica foi um meio hábil (upāya). A sua sabedoria (prajñā) é ligada à vacuidade (śūnyatā) e a compaixão (mahākaruṇā) impulsiona a libertação universal. A Natureza Búdica (Tathāgatagarbha) afirma o potencial de iluminação em todos. Apesar das qualidades transcendentes, esta visão distingue-se claramente do conceito de Deus criador, fundamentada na vacuidade e não-dualidade.
Tanto o Theravada como o Mahayana (estendendo-se ao Vajrayana), embora tenham algumas visões distintas, partilham o mesmo núcleo doutrinário, que inclui as Quatro Nobres Verdades, o Nobre Caminho Óctuplo, a Origem Dependente, um não-teísmo, e o reconhecimento de múltiplos Budas (passados e futuros como Maitreya), sendo Siddhārtha Gotama o Buda histórico e fundador do que hoje chamamos de “budismo”.
Este artigo serve apenas para dar uma ideia geral das características do Buda e como ele é visto pelas diferentes tradições. Foi escrito com o máximo de cuidado para evitar interpretações erróneas, mas dada a profundidade e subtileza do tema, é possível que existem alguns erros doutrinários. Para um entendimento mais preciso consulte um (a) professor (a) qualificado (a).
Suttas/Sutras mencionados: Brahmajāla Sutta (DN1); Kevaddha Sutta (DN 11); Mahāparinibbāna Sutta (DN 16); Lakkhaṇa Sutta (DN 30); Mahāsīhanāda Sutta (MN 12); Ariyapariyesana Sutta (MN 26); Maha-Saccaka Sutta (MN 36); Aggi-Vacchagotta Sutta (MN 72); Brahmāyu Sutta (MN 91); Acchariya-abbhuta Sutta (MN 123); Dhatuvibhanga Sutta (MN 140); Anattā-lakkhaṇa Sutta (SN 22.59); Vakkali Sutta (SN 22.87); Dona Sutta (AN 4.36); Prajñāpāramitā Hṛdaya (Sutra do Coração); Vajracchedikā Prajñāpāramitā (Sutra do Diamante); Saddharma Puṇḍarīka Sutra (Sutra do Lótus); Avataṃsaka Sutra (Sutra da Guirlanda de Flores); Suvarṇaprabhāsa Sutra (O Sutra da Luz Dourada); Tathāgatagarbha Sutra; Śrīmālādevī Siṃhanāda Sutra; Mahāyāna Mahāparinirvāṇa Sutra; Laṅkāvatāra Sutra.
Referências: Buddhism and the God-idea (Access to Insight); Buddhism (Britannica); Mahayana, Dharma, Sutras (Britannica); The Pali Canon: How We Know What the Buddha Taught (Buddho.org); The Mahāsāṃghikas and the Origin of Mahayana Buddhism: Evidence Provided in the *Abhidharmamahāvibhāṣāśāstra (CORE); The Tathagatagarbha – Ven. Khenchen Rinpoche (Dharma Download); Ten special powers (dasabala) of Lord Gautama Buddha – Dr. Ari Ubeysekara (drarisworld); Chapter 1 Origin and Development of Mahāyāna Buddhism Introduction (Mahachulalongkornrajavidyalaya University); The Tathagatagarbha Doctrine (Minnesota Zen Meditation Center); The Theory of Two Truths in India (Stanford Encyclopedia of Philosophy); The 32 Major Marks of a Buddha’s Physical Body (Study Buddhism); On the 32 marks (Sujato’s Blog); Mahayana Buddhism: The Doctrinal Foundations – Paul Williams (Super.so); One Reality, Many Descriptions Part 1: Emptiness (The Zen Studies Podcast); One Reality, Many Descriptions Part 6: Trikaya (The Zen Studies Podcast); Buddha-nature (Tibetan Buddhist Encyclopedia); The buddhist conception of omniscience (Tibetan Buddhist Encyclopedia); The three Kaya’s (Tibetan Buddhist Encyclopedia); What is skillful means (upaya)? (Tricycle); Outline of Western Scholarship on Buddha-Nature (Tsadra Foundation); The Doctrine of Kaya (Trikaya) – Prof. P.C.Yogi (University of Cambridge); Selections from the Avataðsaka Sütra (University of Hawaii); The Concept of Buddhahood in Early and Mainstream Mahāyāna Buddhism (University of the West); Buddhahood (Wikipedia); Early Buddhist schools (Wikipedia); Eternal Buddha (Wikipedia); Mahayana sutras (Wikipedia); Buddhahood: Significance and symbolism (Wisdomlib); Mahasamghika (Wisdomlib); The Ten Powers: Dasabala-ñāṇa (Wisdomlib); Trikaya: Significance and symbolism (Wisdomlib); Mahasanghika (World History Encyclopedia); I Am Always Here! (Zen Center of Los Angeles).
Leitura complementar:
Veja também:
- O que é o Budismo? Quem foi o Buda?
- De quem é o budismo mais verdadeiro?
- Dificuldade e ambivalência na compreensão das palavras originais proferidas pelo Buda
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