Mahayana Theravada Vajrayana

Budas e mais Budas

Mais de 1000 Budas são mencionados nos textos budistas. O Buda Gotama, conhecido como o Buda histórico, ensinou o Dharma há mais de 2500 anos, dando origem ao que hoje conhecemos como “budismo”, ou para sermos mais precisos, BudaDharma, os ensinamentos do Buda. Mas para além do chamado Buda histórico, a tradição budista reconhece muitos mais. Neste artigo vamos conhecer um pouco sobre essa vastidão de Budas.


Conteúdo:


Introdução

O termo “Buda” (Buddha), derivado da raiz páli e sânscrita “budh“, significa “despertar” e designa um ser que alcançou a iluminação espiritual completa (bodhi), que realizou o Nibbāna (a ‘extinção’ do sofrimento) e atingiu a vimutti (libertação). Embora o título “Buda” seja mais comummente associado a Siddhartha Gotama, também referido como Shakyamuni, o mestre histórico que viveu no norte da Índia entre os séculos VI e IV AEC e cujos ensinamentos formam a base do Budismo, a tradição budista reconhece que ele não foi o único Buda. As escrituras mencionam explicitamente Budas que o precederam e predizem a vinda de Budas futuros.

Classificação dos tipos de Budas

Particularmente na tradição Theravada, mas com relevância conceptual noutras escolas, distinguem-se três tipos principais de seres iluminados, diferenciados pela forma como alcançam o despertar e pela sua capacidade de ensinar o caminho a outros:

  1. Sammāsambuddha ou Samyaksaṃbuddha (Buda Perfeitamente Iluminado): É um ser que redescobre por si mesmo o Dhamma ou Dharma, incluindo as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo, numa era em que esse conhecimento estava perdido. Embora possa ter tido mestres em estágios iniciais da sua busca espiritual, a descoberta fundamental do caminho para o Nibbāna é realizada por si mesmo, sem um guia. Ele possui a capacidade única de ensinar o caminho completo da libertação a outros, e assim estabelece uma dispensação (período de transmissão) do Dhamma (Buddha Sāsana). O Buda Gotama é o exemplo paradigmático deste tipo de Buda na nossa era, pois mesmo tendo aprendido estados meditativos avançados com Āḷāra Kālāma e Uddaka Rāmaputta, descobriu por si mesmo o caminho completo para a libertação (vimutti).
  2. Paccekabuddha ou Pratyekabuddha (Buda Solitário): É um ser que atinge o despertar através do seu próprio esforço assim como um Sammāsambuddha. No entanto, não estabelece uma dispensação completa do Dhamma como faz um Sammāsambuddha, ainda que possa ensinar outros de forma limitada através do seu exemplo e de breves instruções.
  3. Sāvaka ou Śrāvaka (discípulo): É um sinónimo de Arahant. Refere-se a alguém que alcança o despertar seguindo os ensinamentos de um Sammāsambuddha. Embora compartilhem a mesma libertação (vimutti) que um Sammāsambuddha, diferem no sentido de que realizaram o caminho seguindo os ensinamentos já revelados, em vez de os terem descoberto por si mesmos.

Diferentes compreensões sobre o conceito de Buda nas várias tradições

  • Theravada: Esta escola, que se baseia predominantemente no Cânone Páli (Tipiṭaka), vê o Buda Gotama como um ser humano excecional, o “Mestre de deuses e humanos” (Satthā devamanussānaṁ), que atingiu a iluminação (bodhi) e o Nibbāna através dos seus próprios esforços. Embora dotado de profunda sabedoria e poderes supranormais (abhiññā), como a capacidade de recordar vidas passadas ou realizar milagres, um Buda vivo ainda está sujeito às limitações inerentes a um corpo físico, como a dor, o envelhecimento e a morte. O foco principal é no Buda histórico como um professor e exemplo supremo, cujos ensinamentos autênticos estão preservados no Cânone Páli. Se nos ativermos estritamente aos EBTs (Textos Budistas Antigos), como o Mahāpadāna Sutta (DN 14), são reconhecidos 6 Budas do passados (Vipassī, Sikhī, Vessabhū, Kakusandha, Koṇāgamana, Kassapa), se levarmos em conta adições posteriores, como o Buddhavaṃsa, são reconhecidos 28 Budas do passado. Metteyya (Maitreya) é mencionado com um futuro Buda.
  • Mahayana: As escolas Mahāyāna, que aceitam escrituras adicionais para além do Cânone Páli, concebem os Budas como seres transcendentes (lokuttara), quase divinos. Eles possuem poderes incomensuráveis, omnisciência e uma vida útil virtualmente eterna. A vida terrena de Shakyamuni Buda é frequentemente interpretada como uma mera manifestação ou “corpo de emanação” (Nirmāṇakāya), uma projeção habilidosa de um princípio último e absoluto, o “Corpo do Dharma” (Dharmakāya). O Mahayana postula a existência de inúmeros Budas (como Amitābha, Vairocana, Akṣobhya) e Bodhisattvas avançados (como Avalokiteśvara, Mañjuśrī, Kṣitigarbha) que residem em reinos celestiais ou “Terras Puras” (buddhakṣetra) e auxiliam ativamente os seres sencientes. O caminho do Bodhisattva é enfatizando, frequentemente o praticante faz o voto específico de libertar todos os seres do sofrimento antes de alcançar o Nirvaṇa final.
  • Vajrayana (Budismo Tântrico): Emergindo do Mahayana, o Vajrayana partilha a visão dos Budas como seres transcendentes, mas amplia o panteão de seres iluminados e faz uso de outras metodologias. Figuras tântricas únicas, incluindo Budas femininas (como Tara) e manifestações iradas ou ferozes (krodha), são proeminentes. O sistema dos Cinco Tathāgatas (ou Cinco Budas Dhyāni) é fulcral na cosmologia e prática Vajrayana. O conceito de Ādi-Buddha (Buda Primordial), a fonte última de todas as manifestações Búdicas, frequentemente associado ao Dharmakāya, ganha destaque. O Vajrayana utiliza práticas tântricas específicas, como a recitação de mantras, visualizações e rituais elaborados, como “meios hábeis” (upāya) para acelerar a transformação da consciência e a realização da Budeidade, por vezes visando alcançá-la numa única vida.

Independentemente das variações doutrinárias, a figura do Buda histórico possui uma importância central e unificadora em todo o espectro do Budismo. Historicamente, o Buda Gotama, em páli, ou Gautama, em sânscrito, é o fundador cujos ensinamentos originais deram origem a esta tradição espiritual e filosófica. Espiritualmente, o estado de Buda representa o culminar do caminho, a realização máxima da sabedoria e compaixão, e a libertação final do sofrimento. Os Budas, sejam eles históricos, cósmicos ou futuros, servem como fontes primordiais do Dharma, os guias que revelam o caminho. A diversidade de Budas e Bodhisattvas honrados nas diferentes tradições é um reflexo notável da capacidade do Budismo de se adaptar a variados contextos culturais e de responder às diversas necessidades psicológicas e espirituais dos seus seguidores. No fundo, todos eles apontam para o mesmo potencial inerente de despertar que tem cada ser senciente.

Os 28 Budas do passado na tradição Theravada

A tradição Theravada, preservada principalmente no Cânone Páli, reconhece uma linhagem de Budas que precederam o Buda Gotama. A fonte principal para esta linhagem é o Buddhavamsa.

O Buddhavamsa, que se traduz como “Crónica dos Budas”, é o décimo quarto livro do Khuddaka Nikāya (“Coleção de Textos Menores”), a quinta divisão do Sutta Piṭaka no Cânone Páli. Embora seja considerada uma adição relativamente tardia ao cânone, provavelmente compilada entre os séculos I e II AEC, este texto desempenha um papel importante na cosmologia Theravada.

Essa obra narra a história da vida do Buda Gotama e, mais extensivamente, das vidas dos 24 Budas que o precederam diretamente e que, em vidas passadas de Gotama (quando ele era o Bodhisatta Sumedha), previram a sua futura iluminação. O Buda Dīpankara foi o primeiro a fazer essa previsão. Além destes 24 predecessores imediatos, o Buddhavamsa e a sua tradição comentarial também mencionam três Budas ainda mais antigos, Taṇhaṅkara, Medhaṅkara e Saraṇaṅkara, que surgiram antes de Dīpankara, elevando o número total de Budas nesta linhagem específica para 28.

A compilação desta linhagem serve um propósito doutrinal importante: legitimar Gotama Buda, inserindo-o numa sucessão venerável e ininterrupta de Sammāsambuddhas. Isto não só estabelece a antiguidade e a autoridade dos seus ensinamentos, mas também reforça a ideia da consistência do Dharma. Cada Buda nesta linhagem redescobre e ensina as mesmas verdades adaptadas à sua época, demonstrando que o caminho para a libertação não é uma invenção singular de Gotama, mas uma verdade universal que é periodicamente revelada ao mundo.

Lista completa dos 28 Budas:

  1. Taṇhaṅkara
  2. Medhaṅkara
  3. Saraṇaṅkara
  4. Dīpankara
  5. Koṇḍañña
  6. Maṅgala
  7. Sumana
  8. Revata
  9. Sobhita
  10. Anomadassi
  11. Paduma
  12. Nārada
  13. Padumuttara
  14. Sumedha
  15. Sujāta
  16. Piyadassi
  17. Atthadassi
  18. Dhammadassī
  19. Siddhattha
  20. Tissa
  21. Phussa
  22. Vipassī
  23. Sikhī
  24. Vessabhū
  25. Kakusandha
  26. Koṇāgamana
  27. Kassapa
  28. Gotama

Os 7 Budas da antiguidade:

Dentro desta linhagem, um grupo de particular importância é o dos “Sete Budas da Antiguidade”. Este grupo compreende os seis Budas que precederam imediatamente Gotama, mais o próprio Buda Gotama. O Mahāpadāna Sutta (DN 14) é um dos textos que faz referência a esses Budas.

Embora o DN 14 se concentre mais na biografia e nos eventos relacionados com a vida de Vipassī, e não detalhe os ensinamentos específicos de cada dos outros sete Budas, a premissa subjacente é que todos os Sammāsambuddhas redescobrem e ensinam essencialmente o mesmo Dharma libertador. Isto inclui as Quatro Nobres Verdades, o Nobre Caminho Óctuplo, a Origem Dependente (paṭiccasamuppāda), e os conceitos de impermanência (anicca), sofrimento (dukkha) e não-eu (anattā). As diferenças nos seus ensinamentos seriam mais de ênfase ou adaptação às condições específicas da sua época e audiência, mas a essência libertadora permanece a mesma.

Os Budas no Mahayana

O Budismo Mahayana expandiu vastamente a conceção da Budeidade, introduzindo um panteão rico e diversificado de Budas e Bodhisattvas cósmicos que habitam múltiplos universos e Terras Puras. Estes seres transcendentes não são meramente figuras do passado ou de um futuro distante, mas presenças ativas que podem interagir com os praticantes e auxiliar na sua jornada para a iluminação. Porém, o foco e a importância que se dá a esses Budas variam entre as escolas budistas, e apesar das diferenças, todas as tradições mantêm os ensinamentos fundamentais do Buda histórico. As diferentes abordagens são vistas como meios hábeis (upāya) para diferentes tipos de praticantes.

Os 1000 Budas do presente éon

O Budismo Mahayana destaca o conceito dos mil Budas que surgirão durante o presente éon cósmico, o Bhadrakalpa ou “Éon Afortunado”. Este período é considerado auspicioso pela vasta oportunidade de encontrar o Dharma e alcançar a libertação devido à aparição de um elevado número de Budas (geralmente entre 1000 e 1005, dependendo da fonte).

A principal escritura que detalha esta doutrina é o Bhadrakalpika Sutra (Sutra do Éon Afortunado), um texto Mahayana do século III EC. Ensinado por Shakyamuni, o sutra enumera os nomes destes mil Budas, fornecendo detalhes sobre as suas vidas futuras, incluindo local de nascimento, família, discípulos, tempo de vida e duração dos seus ensinamentos. Também explora as causas passadas que levaram estes seres a desenvolver a mente de iluminação ou despertar (bodhicitta) e inclui uma secção sobre as seis perfeições (pāramitā).

Os primeiros quatro Budas deste Bhadrakalpa são: Kakusandha, Koṇāgamana, Kassapa e Gautama (o Buda histórico). O Maitreya será o futuro Buda, assim como os seguintes dessa lista.

Esta doutrina representa uma expansão significativa da visão Mahayana sobre a Budeidade, sugerindo que a iluminação é uma ocorrência abundante numa escala cósmica. Alinha-se com a doutrina da Natureza Búdica (o potencial inerente de todos os seres para se tornarem Budas) e com o ideal universal do caminho do Bodhisattva. A existência de tantos Budas serve como inspiração, reforçando a crença na eficácia do caminho espiritual e na omnipresença da compaixão Búdica, oferecendo esperança aos praticantes ao longo das eras.

Budas de outras direções

Para além dos Budas do passado, presente e futuro no nosso éon, o Mahayana introduziu a devoção a Budas que presidem em Terras Puras (buddhakṣetra) localizadas noutras direções do cosmos. Dois dos mais proeminentes são Amitābha e Bhaiṣajyaguru.

Amitābha (“Luz Infinita”), também conhecido como Amitāyus (“Vida Infinita”), é o Buda que preside à Terra Pura Ocidental de Sukhāvatī (“Terra da Suprema Felicidade”). Ele é uma figura central no Budismo da Terra Pura, uma das escolas mais populares da Ásia Oriental. Os praticantes dessa escola almejam renascer nessa Terra Pura para ouvirem o Dharma diretamente de Amitābha e assim progredirem rapidamente para a iluminação. Sukhāvatī é descrita como uma terra de beleza inigualável, livre de sofrimento, e onde os seres renascem em flores de lótus. Esta tradição é particularmente significativa peloa sua acessibilidade a todos os praticantes, independentemente de sua capacidade de realizar práticas complexas, enfatizando a importância da fé sincera e da devoção.

Bhaiṣajyaguru (“Mestre da Cura”), ou o Buda da Medicina, preside à Terra Pura Oriental de Vaiḍūryanirbhāsa (“Brilho do Lápis-lazúli”) e é associado à direção Leste e à cura. O Bhaiṣajyaguruvaiḍūryaprabharāja Sutra detalha os seus doze grandes votos para aliviar diversos sofrimentos dos seres, desde doenças físicas e mentais até à provisão de bens materiais, libertação de prisioneiros e a condução à iluminação. Na iconografia, ele é tipicamente de tom azulado, segura uma tigela de néctar curativo e uma planta medicinal, e é acompanhado pelos Bodhisattvas Sūryaprabha e Candraprabha. As práticas devocionais, como a recitação do seu mantra e nome, e a visualização da sua forma, visam purificar o karma, aliviar doenças e promover o bem-estar geral.

O surgimento de Budas cósmicos como Bhaiṣajyaguru e Amitābha no Mahayana, reflete a adaptação do Dharma às diversas necessidades dos praticantes. Enquanto Budas anteriores tinham um papel mais generalizado, esses Budas cósmicos oferecem especializações funcionais. Por exemplo, Bhaiṣajyaguru, em particular, responde à preocupação universal com a doença e o sofrimento, oferecendo esperança de cura no presente através de práticas acessíveis. Essa especialização demonstra a natureza compassiva do Mahayana, criando “portas” variadas para o caminho espiritual.

Os 8 grandes mahasattvas (aṣṭa-mahabodhisattva)

No Theravada o termo bodhisattva refere-se ao Siddhartha Gotama nas vidas anteriores e durante a própria vida antes de se tornar num Buda. Mas no Mahayana o termo ganha um significado adicional, que vai desde um praticante que faz os votos de bodhisattva, até a seres altamente realizados chamados mais precisamente de mahasattvas. Um bodhisattva adia a libertação completa para se continuar manifestando no samsara a fim de ajudar todos os seres no caminho para a iluminação. O conceito do adiamento da iluminação final é uma característica distintiva do ideal do bodhisattva no Mahayana.

A quantidade de mahasattvas é incalculável, mas os 8 grandes mahasattvas são os mais próximos do Buda e os mais frequentemente mencionados. As descrições e atributos podem ter variações consoante as escolas.

O Mahasattva Avalokiteśvara (Chenrezig), um dos mais famosos, personifica a compaixão universal de todos os Budas. Frequentemente é apelidado como “Aquele que ouve os lamentos do mundo”. Na Índia e no Tibete, Avalokiteśvara é tradicionalmente representado em forma masculina. No entanto, ao migrar para a China, transformou-se na figura feminina de Kuan Yin, representação que continuou no Japão como Kannon e na Coreia como Gwan-eum.

Representação de Avalokiteśvara com 1000 mãos no documentário Samsara.

No Kāraṇḍavyūha Sutra, Avalokiteśvara emerge como uma emanação do Buda Amitābha, personificando a compaixão universal. A sua manifestação mais conhecida, com mil braços e onze cabeças, simboliza a capacidade infinita de auxiliar os seres sencientes, transcendendo todas as limitações. O Saddharma Puṇḍarīka Sutra (Sutra do Lótus), capítulo 25, descreve como Avalokiteśvara pode assumir 33 diferentes formas para beneficiar os seres, adaptando-se às necessidades e contextos culturais específicos. Esta capacidade de transformação demonstra o princípio budista de upāya (meios hábeis).

O mantra “Oṃ Maṇi Padme Hūṃ” é considerado a essência da compaixão de Avalokiteśvara, sendo praticado por milhões de budistas em todo o mundo. Na tradição Vajrayana, Avalokiteśvara ocupa um lugar importante nas práticas de desenvolvimento da bodhicitta (mente do despertar) e da compaixão. Os Dalai Lamas são considerados suas emanações, manifestando essa compaixão no mundo contemporâneo.

Esta flexibilidade de representação de Avalokiteśvara nos ensina que as qualidades iluminadas transcendem conceitos limitantes de género, cultura ou forma. Seja como figura masculina, feminina ou além do género, Avalokiteśvara permanece como um símbolo universal da compaixão ilimitada e da capacidade de adaptação do Dharma às necessidades de todos os seres.

Além de Avalokiteśvara, os outros sete grandes mahasattvas complementam este grupo, cada um manifestando diferentes qualidades da mente iluminada:

  • Mañjuśrī representa a sabedoria transcendental (prajñā), sendo frequentemente retratado empunhando uma espada flamejante que corta a ignorância. Aparece frequentemente em muitos sutras Mahayana dialogando com o Buda.
  • Vajrapāṇi representa o poder espiritual e a energia dos Budas. É um protetor do Dharma e é representado empunhando um vajra, simbolizando a força inquebrável da iluminação.
  • Kṣitigarbha é Conhecido como o “Bodhisattva do Submundo”. Ele fez votos de não alcançar a budeidade até que todos os reinos inferiores estejam vazios. É um protetor especial dos que sofrem nos reinos infernais.
  • Samantabhadra representa a prática e a meditação, sendo associado aos dez grandes votos que exemplificam a conduta ideal do Mahayana. Ele é frequentemente retratado nos sutras como o modelo de prática diligente.
  • Maitreya é o futuro Buda. Atualmente habita no céu Tusita e representa a bondade amorosa universal. Mais à frente veremos um pouco mais sobre Maitreya.
  • Ākāśagarbha é conhecido como o “tesouro espacial ilimitado”, pois a sua sabedoria é considerada tão ilimitada quanto o próprio espaço.
  • Sarvanivāraṇaviṣkambhin é invocado para remover ou eliminar todos os obstáculos e para garantir uma meditação bem-sucedida.

Os Budas no Vajrayama

O Vajrayana, ou Budismo Tântrico, representa um desenvolvimento posterior dentro da tradição Mahayana. É particularmente proeminente no Tibete e regiões vizinhas, bem como em algumas escolas do Leste Asiático (como Shingon no Japão). O Vajrayana partilha a visão Mahayana e adicionalmente introduz conceitos, iconografia e métodos de prática distintivos.

Ādi-Buddha: O Buda Primordial

No Budismo Vajrayāna, o Ādi-Buddha representa a natureza fundamental da Budeidade, não um indivíduo histórico. Ele é a personificação do Dharmakāya, simbolizando a natureza última da mente que está além dos extremos conceituais de existência e não-existência, permanência e impermanência. Como símbolo da realização completa, ele representa a natureza pura e luminosa da mente (prabhāsvara) e a fonte das manifestações iluminadas.

Diferentes escolas Vajrayana identificam o Ādi-Buddha com figuras específicas:

  • Samantabhadra (Nyingma): Na escola Nyingma, Samantabhadra (“Todo-Bom”) é o Ādi-Buddha, distinto do Bodhisattva com o mesmo nome. Ele personifica a natureza nua, não-condicionada e primordialmente pura da mente, a união da consciência (rigpa) e vacuidade (śūnyatā). Iconograficamente, é frequentemente representado nu e de cor azul-escura, por vezes em união sexual (yab-yum) com a sua consorte Samantabhadrī, simbolizando a inseparabilidade da aparência e vacuidade.
  • Vajradhara (Sarma): Nas escolas Sarma (Kagyu, Sakya e Gelug), Vajradhara (“Portador do Vajra”) é geralmente o Ādi-Buddha. Considerado a essência de todos os Budas e a personificação do Dharmakāya, ele é tipicamente azul-escuro, adornado como um Bodhisattva e segurando um vajra (método/compaixão) e um sino (sabedoria/vacuidade) em mãos cruzadas, representando a união indivisível destes aspetos da iluminação. Também pode ser representado em união yab-yum.

Embora Samantabhadra e Vajradhara sejam expressões equivalentes do Dharmakāya, a sua iconografia reflete ênfases distintas. Samantabhadra, sem adornos, foca na pureza primordial (Dzogchen Nyingma), enquanto Vajradhara, com implementos tântricos, enfatiza a manifestação da Budeidade primordial através de meios hábeis (Tantras superiores das escolas Sarma). Ambas as figuras personificam o Absoluto no Vajrayana, oferecendo um foco para a compreensão da realidade última. Esta distinção iconográfica reflete as diferentes ênfases metodológicas das escolas, embora o resultado final seja o mesmo: a realização da natureza última.

Os 5 Dhyani Budas (ou 5 Tathagatas)

O conceito dos Cinco Dhyani Budas, também conhecidos como os Cinco Tathagatas, os Cinco Budas da Sabedoria, ou os Cinco Budas da Meditação, está presente no Budismo Mahayana e particularmente no Vajrayana. Eles são personificações arquetípicas de cinco aspetos da consciência iluminada e em algumas escolas são entendidos como emanações do Adi-Buda (Buda Primordial).

Cada Dhyani Buda está associado a um tipo particular de sabedoria, a um defeito específico que ajuda a superar, e a uma correspondente família ou linhagem de Budas. Eles também estão associados a direções e aos 5 elementos e, distingue-se por uma cor e um gesto de mão (mudra). Os Dhyani Budas são frequentemente representados em mandalas.

A doutrina relacionada aos Dhyani Budas faz parte dos ensinamentos tântricos. Eles servem como figuras importantes para exercícios de meditação e visualização. Ao visualizar estas figuras búdicas e meditar nas suas qualidades e simbolismos, o praticante visa transformar as cinco aflições mentais principais (os “cinco venenos”) nas cinco sabedorias iluminadas correspondentes, realizando assim a natureza pura da sua própria mente. Como este é um ensinamento tântrico, a compreensão completa requer instrução de um mestre qualificado. Abaixo segue-se uma tabela sobre os 5 Dhyani Budas.

Nome do BudaSignificado do NomeDireçãoCorElementoMudraSabedoria RepresentadaDefeito Superado
VairocanaO IluminadorCentroBrancoEspaçoDharmachakraSabedoria de DarmataIgnorância
AkshobhyaO ImutávelLesteAzulÁguaBhumisparshaSabedoria do EspelhoRaiva, ódio
RatnasambhavaNascido de JoiaSulAmareloTerraVaradaSabedoria da IgualdadeOrgulho, ganância
AmitabhaLuz InfinitaOesteVermelhoFogoDhyanaSabedoria DescriminativaApego
AmoghasiddhiRealização InfalívelNorteVerdeArAbhayaSabedoria da CausalidadeInveja, ciúme

Tara: uma Buda feminina

Tara (também conhecida como Ārya Tārā ou Jetsün Dölma, “Venerável Mãe da Libertação”) é uma figura feminina especialmente reverenciada no Vajrayana. No Mahayana, pode surgir como uma bodhisattva, mas no Vajrayana, Tara é considerada uma Buda feminina.

O Tara Tantra descreve-a como “mãe dos Budas dos três tempos” que transcende as noções de samsara e nirvana. Ela é uma das deidades femininas mais significativas, mencionada em textos como o Mañjuśrīmūlakalpa e o Guhyasamāja Tantra.

A Tara possui inúmeras formas ou emanações, sendo a Tara Verde a origem das vinte e uma Taras, cada uma com atributos, cores, implementos e atividades distintas. A Tara Verde permanece a forma mais importante de deidade no Budismo Tibetano e está associada à família do Buda Amoghasiddhi. A Tara Verde e a Tara Branca são populares como deidades de meditação (yidams). “Oṃ Tāre Tuttāre Ture Svāhā” é o mantra associado a ela.

Tara Mantra ”Om tare tuttare ture soha”

As Dakinis

No budismo Vajrayana, Dakini é uma classe de divindades/seres femininos associados à sabedoria (prajñā). O tibetano khandroma ou khandro significa literalmente “a que vai no céu/espaço”, e é frequentemente também traduzido como “dançarina/viajante do céu”. Khandro também funciona como título honorífico para praticantes femininas realizadas e, em alguns contextos, para consortes tântricas, sem que se limite a esse uso.

As Dakinis manifestam diferentes aspectos da iluminação, sendo que algumas são consideradas Budas completos. A mais elevada categoria, as Jñānaḍākinīs, representa a própria natureza da mente iluminada, sendo inseparável dos Cinco Dhyani Budas em essência e qualidades.

Vajrayoginī, por exemplo, é considerada a forma feminina suprema de Buda, incorporando a sabedoria não-dual. Ela é frequentemente associada à família do Buda Akshobhya, embora a sua natureza transcenda categorizações limitadas. Da mesma forma, Vajravārāhī manifesta a união inseparável de sabedoria (prajñā) e método hábil (upāya), aspectos fundamentais do caminho para a iluminação. A sua forma é uma expressão hábil que auxilia os praticantes a compreenderem a natureza última da mente através da prática tântrica

As Dharmaḍākinīs, ainda que não completamente iluminadas, alcançaram realizações significativas no caminho. Elas podem manifestar-se como mestres do Dharma, guiando praticantes em direção à iluminação. Historicamente, várias mestras femininas realizadas foram reconhecidas como emanações de Dakinis.

Na tradição Vajrayana, estas manifestações búdicas femininas são vistas como expressões da vacuidade dinâmica e da sabedoria primordial (yeshe). Cada aspecto das suas formas – cores, implementos, posturas – comunica aspectos específicos do estado desperto.

O Budismo Vajrayana, com o seu vasto panteão de deidades femininas, é uma das tradições espirituais que mais horam figuras divinas femininas. Estas divindades não são apenas objecto de devoção, mas constituem caminhos espirituais completos que muitos praticantes, sejam homens ou mulheres, seguem para alcançar realizações espirituais. O objetivo do caminho da Dakini não é adorar uma deidade externa, mas sim invocar a “Dakini interior”, que é a consciência liberta de cada um. Este facto tem origem na doutrina tântrica que promove a noção de que a natureza sagrada é universal e fundamental em todos os seres. Isto permite que as mulheres assumam papéis reverenciados como Guru e Lama.

O conceito de Dakini possui dois níveis: a Dakini arquetípica (a forma visualizada, como Troma) e a verdadeira Dakini, que representa a mente iluminada. As duas estão ligadas, pois a forma simbólica representa qualidades espirituais profundas, como a vacuidade, a sabedoria e a superação do ego.

Mais exemplos de Dakinis:

  • Yeshe Tsogyal (séc. VIII–IX, Nyingma): consorte e principal discípula de Padmasambhava; vista como emanação de Samantabhadri. Associada a termas e à realização suprema.
  • Machig Labdrön (séc. XI–XII, Chöd): fundadora do Chöd; identificada com Prajñaparamita e Vajravarahi; reconhecida como dakini de sabedoria e atividade compassiva.
  • Niguma (séc. XI, linha Shangpa Kagyu): grande ioguini, transmissores dos “Seis Yogas de Niguma”; considerada emanação de Vajradhara/Dorje Chang em aspecto feminino.
  • Sukhasiddhi (séc. XI, Shangpa Kagyu): mestra realizada, parceira de Niguma na linhagem; vista como dakini de sabedoria e longevidade.
  • Mandarava (séc. VIII, Nyingma): consorte de Padmasambhava; emanação de Sarasvati; honrada como dakini e bodhisattva feminina.
  • Sera Khandro (1892–1940, Nyingma): tertön e ioguini; as suas revelações e ensinamentos a colocam como dakini de realização.
  • Tare Lhamo (1938–2002, Nyingma): tertön e mestra contemporânea; frequentemente referida como manifestação de Tara/dakini.
  • Jetsunma Tenzin Palmo (n. 1943, Drukpa Kagyu): embora ela própria seja discreta quanto a títulos, muitas linhagens a elogiam como ioguini realizada; às vezes referida como dakini de atividade e sabedoria por devotos.
  • Machik Ongjo (em algumas listas Kagyu): mestra do ciclo de Chöd; considerada manifestação de Prajñaparamita.
  • Dechen Gyelmo / Dechen Wangmo (diversas ioguinis Nyingma com este nome): reconhecidas como dakinis tertön ou consortes realizadas.

Como sempre no Vajrayana, a compreensão profunda destes aspectos requer iniciação e a orientação adequada de um mestre qualificado.

Aspectos pacíficos e irados

As deidades búdicas no Vajrayana podem manifestar-se tanto em formas pacíficas quanto iradas. Os aspetos pacíficos representam qualidades como amor e compaixão, enquanto que os aspetos irados simbolizam a energia poderosa necessária para superar obstáculos, negatividades e ilusões no caminho para a iluminação, entre outros significados.

Ambos os aspectos são manifestações da mesma natureza búdica, e a ira aqui é uma manifestação vigorosa (yeshe khro bo), não uma emoção comum. A escolha da prática com uma deidade específica depende das disposições do praticante e requer uma iniciação e orientação adequada.

Metteyya (Maitreya): O futuro Buda

Para além dos Budas do passado, as tradições budistas, incluindo o Theravada, mencionam a vinda de um futuro Buda, conhecido como Metteyya em páli e Maitreya em sânscrito.

A menção mais antiga e canónica de Metteyya encontra-se no Cakkavatti-Sīhanāda Sutta (DN 26) do Cânone Páli. Este sutta descreve um ciclo cósmico de declínio e subsequente restauração. Prevê que, num futuro distante, quando os ensinamentos do Buda Gotama tiverem sido completamente esquecidos e a sociedade humana se tiver degenerado, os sobreviventes desse período de violência extrema (“intervalo da espada”) começarão a praticar a virtude, dando início a uma era futura de grande longevidade, paz e prosperidade na qual Metteyya surgirá no mundo, sucedendo assim a Gotama.

Nos EBTs (Textos Budistas Antigos), como o DN 26, as referências a Metteyya são bastante limitadas. Textos posteriores, como o Buddhavamsa, assim como textos Mahayana e comentários, fornecem descrições mais elaboradas.

O papel principal de Metteyya será o de restabelecer o Dharma na Terra. Ele ensinará as mesmas verdades que Gotama e os Budas anteriores e, os seus ensinamentos serão perfeitamente adaptados às capacidades e necessidades dos seres da sua era. A vinda de Metteyya simboliza assim a resiliência e a perenidade do Dharma, assegurando que o caminho para a iluminação estará novamente acessível à humanidade no futuro.

Metteyya ou Maitreya é uma figura de grande importância na tradição Mahayana. Ele é considerando um Bodhisattva de alto nível, atualmente residindo no céu Tusita, onde o Buda Gotama também residiu antes de seu último nascimento. Ele ensina o Dharma a seres celestiais enquanto aguarda o momento mais propicio para renascer na Terra. A sua residência em Tuṣita tornou-se ela própria um destino de renascimento aspirado por muitos praticantes, que desejam encontrar Maitreya e receber os seus ensinamentos diretamente antes da sua vinda à Terra.

Observa-se, portanto, uma evolução no papel de Metteyya/Maitreya. Enquanto que no Theravada ele é visto essencialmente como o próximo futuro Buda, no Mahayana ele tem um papel mais elaborado como Bodhisattva ativo no presente. Muitos detalhes específicos, assim como a importância que se atribui, variam entre as escolas budistas.

Conclusão

Para além do Buda histórico, na doutrina budista estão presentes um número significativo de Budas. A importância que se dá a esses Budas e as práticas associadas variam consoante as escolas budistas. Apesar dessa rica diversidade e de diferentes perspectivas, todas elas reconhecem o Buda Gotama e os seus ensinamentos como sendo a base que forma o budismo.

Referências: Dhyani-Buddha | Five Wisdom Buddhas (Britannica), Mahayana, Dharma, Sutras (Britannica), Pali canon | Definition, Contents, & Facts (Britannica), 28 Buddhas (British Library), Bodhisattva Ideal in Buddhism (BuddhaSasana), The Coming Buddha, Ariya Metteyya (BuddhaSasana), Amitayurdhyana Sutra (Rigpa Wiki), Eight great bodhisattvas (Rigpa Wiki), Fortunate Aeon (Rigpa Wiki), Fortunate Aeon Sutra (Rigpa Wiki), Medicine Buddha (Samye Institute), Buddha (Stanford Encyclopedia of Philosophy), DN 14: Mahāpadānasutta (SuttaCentral), DN 26: Cakkavattisutta (SuttaCentral), Cakka,vatti Sīha,nāda Sutta (The Minding Centre), 28 Buddhas (Tibetan Buddhist Encyclopedia), Adi Buddha & Principal Buddhist deities (Tibetan Buddhist Encyclopedia), Mahayana sutras (Tibetan Buddhist Encyclopedia), Buddhahood (Wikipedia), Buddhavaṃsa (Wikipedia), Dakini (Wikipedia), Five Tathāgatas (Wikipedia), Maitreya (Wikipedia), Tara (Wikipedia), Adi-buddha (Wisdomlib), Bhadrakalpa: Significance and symbolism (Wisdomlib), Shravakas and pratyekabuddhas: Significance and symbolism (Wisdomlib), The Role of the Dakini (Buddhistdoor).

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