Budismo Geral

A Cosmologia Budista

A cosmologia budista oferece um quadro conceptual abrangente para compreender a estrutura, a evolução e a natureza do universo, não como uma descrição científica literal no sentido moderno, mas como, segunda a tradição budista, uma visão percebida através da “visão divina” (divyacakṣus) de um ser iluminado, como um Buda ou um Arhat. Esta visão revela um cosmos vasto, tanto em termos espaciais como temporais, cujo propósito primordial é expor a dinâmica do ciclo de nascimento, morte e renascimento, conhecido como samsāra, que permeia inúmeros mundos e planos de existência. É como um mapa das complexidades da existência condicionada em direção à libertação final.


Conteúdo:


Introdução

Embora as sistematizações mais detalhadas e elaboradas surjam posteriormente, nomeadamente nos textos do Abhidhamma Piṭaka e nos comentários exegéticos, os fundamentos desta cosmologia encontram-se já nos discursos mais antigos do Buda, preservados no Cânone Páli. Os suttas contêm múltiplas referências a diferentes reinos de existência, desde os infernos mais profundos aos paraísos mais sublimes, habitados por uma miríade de seres, incluindo deuses (devas), espíritos (petas), animais e seres humanos, todos sujeitos a ciclos cósmicos de vasta duração.

É fundamental compreender que o objetivo primordial desta cosmologia não é fornecer uma explicação científica ou geográfica do universo físico, mas sim servir o propósito da libertação. Ao descrever a natureza impermanente (anicca), insatisfatória (dukkha) e desprovida de um “eu” substancial e independente (anattā) de toda a existência condicionada, a cosmologia visa cultivar no praticante um sentido de desapego em relação a todos os fenómenos compostos. Este entendimento motiva a busca diligente pela libertação (nibbāna) do ciclo de sofrimento. A ênfase recai, portanto, na experiência dos seres sencientes dentro destes reinos e no caminho que conduz ao fim do sofrimento, e não numa descrição literal do cosmos que deva ser validada por métodos científicos externos. Assim, a cosmologia budista funciona primariamente como um mapa ético e psicológico, onde a localização de um ser reflete o seu estado kármico e mental.

Para navegar neste mapa cósmico, é essencial apreender alguns conceitos que o sustentam:

  • Kamma (Skt. Karma): Literalmente “ação”, refere-se à volição ou intenção por detrás das ações de corpo, fala e mente. Estas ações intencionais produzem resultados ou consequências (vipāka) que moldam as experiências futuras do indivíduo, incluindo o reino em que renascerá após a morte. Ações consideradas hábeis (kusala), baseadas na generosidade, bondade e sabedoria, conduzem a renascimentos favoráveis nos reinos superiores (humanos ou celestiais). Pelo contrário, ações inábeis (akusala), enraizadas na ganância, ódio e ilusão, resultam em renascimentos nos reinos inferiores de sofrimento (animais, petas, infernos).
  • Saṃsāra: O ciclo incessante e repetitivo de nascimento, envelhecimento, doença, morte e renascimento, que abrange todos os planos de existência condicionados. Este ciclo é impulsionado pelas forças do kamma, do desejo ou ânsia (taṇhā) e da ignorância (avijjā) sobre a verdadeira natureza da realidade. O saṃsāra é intrinsecamente caracterizado pela insatisfatoriedade e pelo sofrimento (dukkha), mesmo nos reinos celestiais, devido à sua natureza impermanente.
  • Nibbāna (Skt. Nirvāṇa): Literalmente “extinção” ou “apagamento” (das chamas da ganância, ódio e ilusão), representa a libertação final e completa do ciclo de saṃsāra. É o estado incondicionado (asankhata), transcendente, de paz suprema, para além de todo o sofrimento, ignorância e da própria noção de renascimento. É algo para além de todos os conceitos e por impossível de exprimir corretamente por palavras. Alcançar o nibbāna é o objetivo último e a razão de ser da prática budista.

Compreender a cosmologia, mesmo que numa perspetiva simbólica ou psicológica para alguns praticantes modernos, reveste-se de grande importância no contexto global do Dhamma (os ensinamentos do Buda). Ela situa a existência humana não como um evento isolado, mas como uma oportunidade particularmente rara e preciosa dentro de um vasto espectro de possibilidades de vida, que vão desde os tormentos inimagináveis dos infernos até aos êxtases subtis, mas ainda assim temporários, dos reinos celestiais. A complexidade e a vastidão do cosmos – descrito com os seus 31 planos de existência, múltiplos, senão infinitos, sistemas-mundo, e ciclos temporais de duração inconcebível (kalpas) – servem para sublinhar a escala aparentemente interminável do saṃsāra. Esta perspetiva combate a complacência e reforça a urgência da prática espiritual, contextualizando a importância das Quatro Nobres Verdades e do Nobre Caminho Óctuplo como o meio para escapar a este ciclo vasto e, em última análise, insatisfatório. A cosmologia, portanto, não é um mero apêndice doutrinário, mas uma ferramenta pedagógica que enquadra a condição humana e a necessidade premente de libertação.

Sistemas-mundo (lokadhātu / cakkavāḷa)

Um cakkavāḷa é um “sistema‑mundo” composto por um Sol, uma Lua, continentes (com Jambudīpa ao sul), oceanos e o Monte Meru (Sumeru ou Sineru) no centro, circundado por anéis de montanhas. Nessa estrutura situam-se os reinos da esfera do desejo. Simbolicamente, Meru pode representa o “eixo” da experiência condicionada e a tendência da mente em centralizar o mundo em torno do eu. Por vezes também é simbolizado como o desejo e apego em que orbitramos.

A tradição descreve “milhares” de sistemas‑mundo em três escalas. Um cúḷanika‑lokadhātu é um conjunto de mil cakkavāḷas (mil mundos). Um dvisahassi‑majjhima‑lokadhātu é um conjunto de mil mundos ao quadrado. E um tisahassi‑mahāsahassi‑lokadhātu é um conjunto de mil mundos ao cubo. Esses agrupamentos ilustram a vastidão do samsāra e o alcance dos ensinamentos de um Buda, não um catálogo físico. Referências canónicas são esparsas e poéticas, os números são realçados sobretudo em comentários.

Os 31 planos de existência, que veremos de seguida, são uma taxonomia dos renascimentos condicionados por kamma e pela qualidade da mente. Eles não estão “dentro” de um único cakkavāḷa. Em cada cakkavāḷa, os reinos do desejo têm localização simbólica/geográfica (infernos abaixo, humanos na superfície, devas do desejo em torno e acima do Meru). Já os planos de forma (ligados a jhānas de forma) e sem‑forma (ligados a jhānas imateriais) são supralocais, não circunscritos por um Sol/Lua específicos. Assim, muitos cakkavāḷas coexistem “dentro” do mesmo arcabouço de 31 planos, e os planos superiores transcendem a geografia de qualquer um deles.

Os 31 planos de existência

O cosmos budista é estratificado em 31 planos de existência distintos, que representam os possíveis destinos de renascimento para os seres sencientes, determinados pela natureza e qualidade do seu kamma. Estes planos estendem-se desde os reinos de maior sofrimento até aos estados de existência mais subtis e sublimes.

A forma como é sistematizado esses planos e reinos, assim como alguns termos, pode variar conforme as fontes e o proposito didático. Neste esquema foi usada a divisão em 3 esferas (triloka) com as suas subdivisões.

Kāmaloka | Esfera do desejo (11 planos)

Também referido como: Kāmadhātu (Mundos ou Reinos do Desejo) ou Kāmabhūmi (Reinos Sensuais).

Esta é a esfera mais baixa e mais densa, compreendendo os onze planos inferiores de existência, desde o inferno mais profundo até ao paraíso mais elevado dos devas que ainda experienciam desejos sensuais. Como o nome indica, este reino é caracterizado pela predominância dos cinco sentidos físicos e pela força motriz dos desejos sensuais (kãma): desejo por visões, sons, cheiros, sabores e sensações tácteis agradáveis. Todos os seres neste reino, incluindo humanos, animais, petas, asuras e os devas destes seis paraísos inferiores, estão sujeitos a emoções e paixões grosseiras como a luxúria, a raiva, a inveja, a ganância e o medo. É o reino onde a interação kármica através de ações físicas e verbais é mais manifesta e onde a influência de Māra (a personificação da tentação e do obstáculo à iluminação) é mais forte. Esta esfera pode ser subdividida da seguinte forma:

  • Kāmaduggati-bhūmi / Apāya-bhūmi (4 destinos infelizes): Os quatro estados de privação ou destinos infelizes, situados abaixo do plano humano. Estes reinos são caracterizados por intenso sofrimento físico ou mental, ou por limitações severas que impedem o desenvolvimento espiritual.
    • (1) Niraya (Infernos múltiplos, quentes e frios) – Caracterizado pelo tormento extremo. Duração de vida: variável, geralmente muito longa mas finito. Causa principal do renascimento: ações gravemente prejudiciais.
    • (2) Tiracchānayoni (Reino Animal) – Caracterizado pelo instinto, medo e ignorância. Duração de vida: variável. Causa principal do renascimento: Ignorância e crueldade.
    • (3) Peta (Fantasmas Famintos) – Caracterizado pela fome e sede insaciáveis. Duração de vida: variável. Causa principal do renascimento: Avareza e apego extremo.
    • (4) Asura (Titãs ou semideuses; por vezes separado do grupo apāya) – Caracterizado pela inveja, conflito e poder. Duração de vida: variável. Causa principal do renascimento: Ódio, ciúme e poder.
  • Kāmasugati-bhūmi (7 destinos felizes
    • (5) Manussaloka (Reino Humano) – É o plano habitado pelos seres humanos, localizado no continente sul, Jambudīpa (considerado como correspondendo ao nosso mundo conhecido). É considerado um reino único e auspicioso devido ao seu equilíbrio relativo entre prazer e dor, o que fornece tanto a motivação como a oportunidade para praticar o Dhamma e alcançar a libertação, uma condição que falta nos reinos de extremo sofrimento ou de prazer excessivo. Duração de vida: variável (+- 70-80 anos). Causa principal do renascimento: Kamma humano, virtude e sabedoria.
    • Kāmāvacara devaloka (Seis Paraísos Sensoriais): Planos de existência superiores ao humano, caracterizados por grande felicidade, beleza, poder e longevidade extraordinária, resultantes de kamma meritório. No entanto, mesmo estes reinos são impermanentes e fazem parte do saṃsāra.
      • (6) Catumahārājika (Paraíso dos Quatro Grandes Reis) – Situado nos flancos do Meru. Inclui gandhabbas, yakkhas e nāgas. Duração de vida: 500 anos celestiais / 9 milhões de anos humanos.
      • (7) Tāvatiṃsa (Paraíso dos Trinta e Três) – Situado no cume do Meru, palácio de Sakka. É um referência aos “trinta e três” devas que compõem a assembleia celestial liderada por Sakka no Tāvatiṃsa. A expressão remete a uma antiga convenção védico‑indoariana de “trinta e três deidades” (uma corte divina), não a 33 mundos separados. Duração de vida: 1000 anos celestiais / 36 milhões de anos humanos.
      • (8) Yāma (Devas “Livres de Conflito”) – Situado acima do Meru. Duração de vida: 2000 anos celestiais / 144 milhões de anos humanos.
      • (9) Tusita (Devas “Contentes”) – É a morada de Bodhisattvas (futuros Budas). Duração de vida: 4000 anos celestiais / 576 milhões de anos humanos.
      • (10) Nimmānarati (Devas que se “Deleitam nas Suas Criações”) – Duração de vida: 8000 anos celestiais / 2304 milhões de anos humanos.
      • (11) Paranimmitavasavatti (Devas que “Controlam Criações Alheias”) – Morada de Māra. Duração de vida: 16000 anos celestiais / 9216 milhões de anos humanos.

Rūpaloka | Esfera da forma (16 planos; correlatos às rūpa-jhāna)

Também referido como: Rūpadhātu ou Rūpabhūmi (Mundos ou Reinos da Forma).

Acima do kāmaloka situam-se os planos de forma (rūpaloka), geralmente enumerados como 16 no Theravāda, com pequenas variações de contagem em algumas escolas sânscritas. Os seus habitantes são conhecidos como Brahmas, seres que renasceram aqui como resultado de terem alcançado e dominado os quatro níveis de absorção meditativa baseada na forma (rūpa-jhāna) numa vida anterior. Estes seres possuem corpos físicos, mas de uma natureza muito mais subtil e refinada do que os do kāmaloka, e invisíveis ao olho humano comum. Estão livres dos desejos sensuais grosseiros (como o desejo sexual, sendo assexuados) e das formas mais intensas de dor, experienciando em vez disso diferentes graus de felicidade e êxtase derivados da sua concentração meditativa (piti e sukha) ou de uma profunda equanimidade (upekkhā).

Uma das figuras desta esfera é o Baka Brahmā, considerado um Mahābrahmā (grande brahmā). Devido à sua longevidade, orgulho pelo renascimento elevado, e memória limitada de ciclos cósmicos, Baka desenvolve a visão ignorante de eternidade e supremacia, ele acredita ser eterno, todo-poderoso e o criador. No Brahmanimantanika Sutta (MN 49) o Buda refuta Baka.

O rūpaloka está hierarquicamente organizado de acordo com o nível de jhāna alcançado, com reinos específicos correspondendo ao primeiro, segundo, terceiro e quarto jhānas. Dentro dos reinos do quarto jhānas, encontram-se as cinco Moradas Puras (Suddhāvāsa), um destino exclusivo para os Anāgāmins (Não-Retornáveis).

  • (12) Brahmapārisajja (Séquito de Brahmā) – Duração de vida: ⅓ asaṅkheyya-kappa. Causa principal do renascimento: Grau menor do 1º jhāna.
  • (13) Brahmapurohita (Ministros de Brahmā) – Duração de vida: ½ asaṅkheyya-kappa. Causa principal do renascimento: Grau médio do 1º jhāna.
  • (14) Mahābrahmā (Grande Brahmā) – Duração de vida: 1 asaṅkheyya-kappa. Causa principal do renascimento: Grau superior do 1º jhāna.
  • (15) Parittābha (Devas de Radiância Limitada) – Duração de vida: 2 mahākappas. Causa principal do renascimento: Grau menor do 2º jhāna.
  • (16) Appamāṇābha (Devas de Radiância Ilimitada) – Duração de vida: 4 mahākappas. Causa principal do renascimento: Grau médio do 2º jhāna.
  • (17) Ābhassara (Devas de Radiância Fluente) – Duração de vida: 8 mahākappas. Causa principal do renascimento: Grau superior do 2º jhāna.
  • (18) Parittasubha (Devas de Glória Limitada) – Duração de vida: 16 mahākappas. Causa principal do renascimento: Grau menor do 3º jhāna.
  • (19) Appamāṇasubha (Devas de Glória Ilimitada) – Duração de vida: 32 mahākappas. Causa principal do renascimento: Grau médio do 3º jhāna.
  • (20) Subhakiṇṇa (Devas de Glória Refulgente) – Duração de vida: 64 mahākappas. Causa principal do renascimento: Grau superior do 3º jhāna.
  • (21) Vehapphala (Devas de Grande Fruto/Recompensa) – Duração de vida: 500 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização estável do 4º jhāna.
  • (22) Asaññasatta (Seres Inconscientes) – Duração de vida: 500 mahākappas. Causa principal do renascimento: Meditação focada na supressão da consciência.
  • (23) Aviha (Devas Não Decadentes) [Suddhāvāsa] – Duração de vida: 1.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização do 4º jhāna + estado de Anāgāmin.
  • (24) Atappa (Devas Sem Aflição) [Suddhāvāsa] – Duração de vida: 2.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização do 4º jhāna + estado de Anāgāmin.
  • (25) Sudassa (Devas Belos / Claramente Visíveis) [Suddhāvāsa] – Duração de vida: 4.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização do 4º jhāna + estado de Anāgāmin.
  • (26) Sudassī (Devas Clarividentes) [Suddhāvāsa] – Duração de vida: 8.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização do 4º jhāna + estado de Anāgāmin.
  • (27) Akaniṭṭha (Devas Supremos / Sem Inferiores) [Suddhāvāsa] – Duração de vida: 16.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização do 4º jhāna + estado de Anāgāmin.

Arūpaloka | Esfera sem forma (4 planos; correlatos às arūpa-jhāna)

Também referido como: Ārūpyadhātu ou Arūpabhūmi (Mundos ou Reinos Sem Forma).

Esta é a esfera mais elevada e mais subtil do universo condicionado, consistindo em quatro planos de existência. Os seres renascidos aqui alcançaram, numa vida anterior, os quatro estados de absorção meditativa sem forma, que transcendem qualquer perceção de forma material. Consequentemente, estes seres são puramente mentais, desprovidos de qualquer corpo físico ou localização espacial definida; existem apenas como consciência focada em objetos mentais extremamente subtis (espaço infinito, consciência infinita, nada, ou o estado de nem percepção nem não-perceção). Embora desfrutem de paz profunda e de vidas imensamente longas (medidas em dezenas de milhares de mahākappas), estes reinos apresentam uma desvantagem crucial do ponto de vista da libertação: devido à ausência de forma física e contacto com o mundo exterior, os seus habitantes são incapazes de ouvir os ensinamentos do Dhamma proferidos por um Buda. Sendo ainda parte do samsāra, o seu kamma meritório eventualmente esgota-se, levando a um novo renascimento noutro plano, potencialmente inferior. Isto sublinha que mesmo os estados de existência mais pacíficos e transcendentes dentro do cosmos condicionado não constituem a libertação final (nibbāna) e podem até ser um impedimento subtil, pois a libertação requer o desenvolvimento da sabedoria (paññā) através da compreensão do Dhamma, e não apenas a profundidade da concentração (samādhi). A oportunidade única oferecida pelo reino humano para encontrar e praticar os ensinamentos permanece, assim, insubstituível.

  • (28) Ākāsānañcāyatana (Esfera do Espaço Infinito) – Duração de vida: 20.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização da 1ª absorção sem forma.
  • (29) Viññāṇañcāyatana (Esfera da Consciência Infinita) – Duração de vida: 40.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização da 2ª absorção sem forma.
  • (30) Ākiñcaññāyatana (Esfera do Nada) – Duração de vida: 60.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização da 3ª absorção sem forma.
  • (31) Nevasaññānāsaññāyatana (Esfera de Nem Percepção Nem Não-Percepção) – Duração de vida: 84.000 mahākappas. Causa principal do renascimento: Realização da 4ª absorção sem forma.

INFOGRÁFICO com a sistematização dos planos, com uma ligeira diferença da categorização acima:

Os 6 reinos da existência

Em muitas escolas budistas, fala-se dos 6 reinos como um mapa compacto do samsāra. Trata-se, porém, de uma simplificação pedagógica dos 31 planos de existência mais detalhados na tradição Theravada. Nos 31 planos os “devas” estão subdivididos em numerosos planos celestiais pelas três esferas (kāmaloka, rūpaloka, arūpaloka), enquanto que o esquema dos 6 reinos agrega grande parte deles num único grupo. Segue uma breve descrição:

  • Devas: bem-aventurança e méritos mundanos, porém, ainda condicionados e impermanentes.
  • Asuras: inveja, competição e belicosidade, desejo de superioridade.
  • Humanos: mistura de dor e prazer, valioso pela oportunidade de prática.
  • Animais: ignorância e medo, vida dominada por instintos e sobrevivência.
  • Pretas: compulsão e carência insaciável, marcadas por ganância e apego.
  • Infernos: estados de grande sofrimento e agressão, frutos do ódio e crueldade.

Historicamente, essa forma fechada dos 6 reinos ganhou especial proeminência no universo indo-tibetano e no Mahayana, difundida por murais iconográficos da bhavachakra (Roda da Vida) e por textos e comentários tibetanos. O diagrama tradicional apresenta: no centro, os três venenos (lobha/ganância, dosa/aversão, moha/ignorância) impulsionando o giro; ao redor, o anel da ação kármica clara/escura levando a destinos favoráveis/desfavoráveis; o grande círculo com os 6 reinos; e a borda externa com as 12 nidanas (paṭicca-samuppāda, origem dependente) mostrando como a experiência cíclica se perpetua. A roda é segurada por Yama, simbolizando a impermanência e a morte; fora dela, o Buda aponta para a cessação, indicando o caminho de saída.

Mandalas | Budismo Tibetano

A representação dos 6 reinos, seja em textos ou na arte, serve um propósito didático e psicológico importante. Para além da interpretação literal como locais de renascimento, estes reinos podem ser entendidos como metáforas para estados mentais e experiências que todos os seres humanos atravessam na vida presente. Podemos experienciar momentos de felicidade e orgulho “celestiais” (Deva), períodos de inveja e conflito (Asura), a condição humana equilibrada mas desafiadora (Manussa), momentos em que somos dominados por instintos básicos ou ignorância (Animal), fases de carência, desejo insaciável e frustração (Peta), ou períodos de raiva intensa, angústia e sofrimento “infernal” (Naraka). Nesta perspetiva, a Roda da Vida torna-se um espelho da nossa própria psique, revelando as tendências que nos prendem ao ciclo do sofrimento e as possibilidades de transformação inerentes à condição humana. Na prática, usar os 6 reinos como espelho da mente esclarece causa e efeito: quando ódio, cobiça e delusão dominam, “descemos”; quando generosidade (dāna), virtude (sīla), estabilidade mental (samādhi) e sabedoria (paññā) estão presentes, “ascendemos”. O propósito último não é escolher um reino melhor, mas cessar a roda, realizando o nibbāna por meio do Nobre Caminho Óctuplo.

Tabela: Os Seis Reinos

ReinoNatureza Predominante dos SeresAflição / Emoção PrincipalCausa Kármica PrincipalInterpretação Psicológica (Estado Mental Humano)
Deva LokaSeres Celestiais; felicidade, poder, longa vida, mas impermanente.Prazer, Orgulho, ComplacênciaAções Meritórias (generosidade, virtude, meditação básica).Estados de euforia, sucesso mundano, luxo, distração pelo prazer, falta de empatia.
Asura LokaSemi-deuses / Titãs; poderosos, mas invejosos e conflituosos.Inveja, Ciúme, Raiva, Paranoia, Competição, ConflitoAções fortes misturadas com ódio, orgulho, desejo de dominar.Ambição desmedida, rivalidade, sentimento de injustiça, agressividade, paranoia.
Manussa LokaSeres Humanos; equilíbrio de sofrimento e prazer, potencial único.Desejo, Aversão, Ignorância (mas capacidade de Sabedoria)Kamma humano misto; oportunidade de cultivar virtude e insight.A condição humana quotidiana, com as suas lutas, alegrias, dúvidas e potencialidades.
Tiracchāna YoniAnimais; dominados pelo instinto, ignorância e medo.Ignorância, Medo, Necessidades Básicas (fome, sexo)Comportamento baseado na estupidez, crueldade, seguir instintos cegamente.Estados de embotamento mental, agir por impulso, focar apenas na sobrevivência básica.
Peta LokaFantasmas Famintos; sofrem de fome e sede insaciáveis.Avareza, Ganância, Apego, FrustraçãoMesquinhez extrema, apego a posses, impedir a generosidade alheia.Sentimentos de carência constante, desejo insaciável, vício, incapacidade de receber.
NirayaSeres Infernais; tormento e dor excruciantes, mas finitos.Ódio, Raiva Extrema, Medo, AngústiaAções gravemente prejudiciais, visões erradas.Estados de raiva intensa, ódio, culpa avassaladora, depressão profunda, tortura mental.

Tempo cósmico

A cosmologia budista opera dentro de vastos ciclos temporais, enfatizando a natureza recorrente e impermanente do próprio universo.

Kalpas (éons)

O tempo cósmico é medido pela unidade kappa (Páli) ou kalpa (Sânscrito), um período de duração imensuravelmente longo. Existem diferentes tipos de kalpas (regular, pequeno, médio, grande), com durações que se estendem por biliões ou triliões de anos terrestres, embora os números exatos não sejam o foco principal. A vastidão incomensurável do tempo cósmico serve para reforçar a doutrina da impermanência (anicca) a uma escala universal. Se até os próprios universos e as suas eras são finitos, a busca por segurança ou permanência dentro do saṃsāra revela-se fútil, direcionando a aspiração para o nibbāna incondicionado.

Ciclos de destruição e renovação (expansão e contração)

O universo, na visão budista, não tem um início absoluto nem um fim definitivo. Em vez disso, passa por ciclos intermináveis de formação, permanência e dissolução. Um ciclo cósmico completo, denominado mahākappa (Grande Éon), é tradicionalmente dividido em quatro fases ou éons de duração “incalculável”, denominados de asaṅkheyya kappa:

  • Saṃvaṭṭa-kappa: O éon da dissolução, durante o qual o sistema-mundo se contrai e é destruído.
  • Saṃvaṭṭaṭṭhāyin-kappa: O éon da “permanência na contração”, onde o universo permanece num estado dissolvido.
  • Vivaṭṭa-kappa: O éon da evolução, quando o mundo-sistema começa a evoluir, a expandir-se e a formar-se novamente.
  • Vivaṭṭaṭṭhāyin-kappa: O éon da “permanência na expansão”, durante o qual o mundo existe na sua forma manifesta, como o período em que vivemos atualmente.

Os ciclos de contração e expansão afetam plenamente os reinos inferiores. Nas dissoluções por fogo, água ou vento, os reinos do kāmaloka (incluindo os devas) não persistem; alguns níveis do rūpaloka podem persistir, e os arūpaloka persistem totalmente.

Durante o Saṃvaṭṭaṭṭhāyin-kappa, em que os mundos inferiores permanecem destruídos, os seres que morrem durante ou antes da destruição renascem tipicamente em reinos superiores que não são afetados, como os Ābhassara, no rūpaloka. Ali vivem por um longo período “feitos de mente, auto-luminosos, alimentando-se de êxtase”, até que o mundo inferior volte a se expandir e surjam condições para novos renascimentos em planos mais densos.

Em dissoluções mais raras “por mente” (tradição comentarial), até os reinos sem forma cessam. Em todos os casos, os planos não são eternos, pois são condicionados e, portanto, impermanentes.

A origem da sociedade humana

O Agañña Sutta (DN 27) apresenta uma narrativa mítica sobre a origem da sociedade humana após um ciclo cósmico de contração e expansão. Os seres luminosos do reino de Ābhassara, inicialmente sutis, radiantes e sustentados por êxtase, degradam-se ao ceder ao desejo e apego à “essência da terra”, tornando-se progressivamente mais grosseiros, dependentes de alimentos densos e diferenciados em sexos. Com isso surge a atração sexual, o trabalho agrícola, a propriedade, o roubo, a punição, etc. Dessa dinâmica nascem as divisões sociais – governantes, brâmanes, comerciantes e servos – não como ordem divina, mas como fruto de ações humanas.

Este sutta pode ser visto como o equivalente budista ao livro do Génesis, levando-se em conta que no sutta não existe a figura de um Deus Criador e que não se trata de um começo absoluto mas um dos contínuos recomeços no saṃsāra como parte do ciclo contínuo cujo início não pode ser determinado.

O ponto fulcral do Agañña Sutta, mais do que fornecer uma história da evolução ou da cosmogénese, é apresentar uma narrativa cosmológica para fins éticos e sociais. Ele subverte a justificação divina da hierarquia de castas, mostrando que as divisões sociais surgiram de causas naturais e morais (ou imorais), nomeadamente a ganância, o desejo e a ignorância. Demonstra como as escolhas e ações dos seres têm consequências diretas não só para eles próprios, mas também para a evolução do seu ambiente e da sua estrutura social. A “queda” dos seres luminosos não é causada por uma força externa, mas pela sua própria sucumbência ao desejo, ligando intrinsecamente a cosmologia à psicologia e à ética budista.

Ampliando a paisagem: as Terras Puras

A tradição Mahayana admite ainda incontáveis Terras Puras não mapeadas nos 31 planos, como a Sukhāvatī (Terra Pura de Amitābha), descrita nos Sukhāvatīvyūha Sūtras como um buddha-kṣetra (campo de um Buda) além deste nosso sistema-mundo. É um ambiente totalmente favorável à prática budista: ausência de renascimentos inferiores, vida longa, sons e paisagens que lembram o Dhamma, companhias virtuosas e presença compassiva de Amitābha, Avalokiteśvara e Mahāsthāmaprāpta. Ainda assim, continua a ser um mundo condiciono. A entrada dá-se por fé confiante, votos de aspiração, recitação do nome de Amitābha, o cultivo de bodhicitta e méritos. Lá, a prática continua até à plena iluminação, sem obstáculos grosseiros de desejo, aversão e confusão.

O conceito Lokuttara

Lokuttara, que significa “supramundano” ou “além do mundo”, designa o domínio que transcende o “mundo” condicionado (loka) dos cinco agregados e dos renascimentos em qualquer esfera cosmológica. O sentido técnico de lokuttara aparece especialmente associado ao Nobre Caminho Óctuplo quando este é qualificado como supramundano (lokuttara) e ao conhecimento que culmina na realização das Quatro Nobres Verdades, produzindo a entrada na corrente e, por fim, o nibbāna. Assim, lokuttara não é um “lugar” na cosmologia, mas a realização que põe fim ao trânsito por ela.

Os planos de existência, inclusive os imateriais, pertencem todos ao âmbito mundano (lokiya), condicionados por kamma e sujeitos a surgimento e cessação. Mesmo as moradas mais sutis, por sublimes que sejam, permanecem dentro do samsāra. O lokuttara, por sua vez, refere-se às realizações que cortam as condições do renascimento. Nesse sentido, o nibbāna é explicitamente descrito como “não condicionado” (asaṅkhata) e “além” das esferas do mundo (Ud 8.1), servindo como o polo transcendental que confere orientação à prática no meio da vasta cartografia cosmológica.

Portanto, lokuttara é o eixo de transcendência que relativiza todos os mapas de mundos. A prática correta torna-se “lokuttara” quando está informada pela penetração das quatro verdades e conduz ao abandono das impurezas. Essa realização não acrescenta um novo “céu” ao inventário cosmológico, mas dissolve a necessidade de qualquer destino, estabelecendo a libertação que não depende de nascimento, localização ou tempo.

Aspectos culturais e artísticos

A cosmologia budista é frequentemente representada na arte e em edifícios como templos e stūpas. Além de servirem para transmitir a essência dos ensinamentos cosmológicos, servem de auxilio para contemplação.

  • Representações Artísticas:
    • Pintura (Thangkas, Murais): No Tibete, as thangkas (pinturas em tecido) são um meio comum para representar a Roda da Vida (bhavacakra). Outras thangkas podem depictar maṇḍalas, Terras Puras como Sukhāvatī, ou hierarquias de Budas, Bodhisattvas e deidades protetoras nos seus respetivos reinos celestiais. Pinturas de murais em templos também narram visualmente histórias dos Jātakas (vidas anteriores do Buda, muitas vezes passadas em reinos animais ou celestiais) ou descrevem vividamente as alegrias dos céus e os tormentos dos infernos, servindo como ensinamentos morais e visuais.
    • Mandalas: Literalmente “círculo”, é uma forma de arte particularmente significativa no Vajrayana. Representa simbolicamente o universo, um palácio divino ou um campo búdico. As maṇḍalas são usadas como objetos de contemplação, servindo de ferramentas para visualização em práticas tântricas. Podem ser pintadas, desenhadas, construídas tridimensionalmente ou criadas com areia colorida (sendo depois desfeitas para simbolizar a impermanência).
    • Escultura: Estátuas de Budas e Bodhisattvas, bem como de devas e figuras mitológicas, povoam os templos e locais sagrados, dando forma física aos habitantes dos diferentes reinos cosmológicos.
  • Influência na Arquitetura:
    • Stūpas: O stūpa, um monumento relicário budista, é frequentemente concebido como uma representação arquitetônica tridimensional da cosmologia. Exemplos monumentais como Borobudur, em Java (Indonésia), são interpretações magníficas do universo budista. A estrutura de Borobudur, com a sua base quadrada, terraços circulares e o stūpa central no topo, simboliza a ascensão através das três esferas – Kūmaloka (base com relevos de desejos mundanos), Rūpaloka (terraços quadrados com relevos da vida do Buda e Jātakas) e Arūpaloka (terraços circulares austeros com stūpas perfurados contendo Budas, representando a transcendência da forma) – culminando no nibbāna (simbolizado pelo stūpa central). O próprio monumento é visto como uma maṇḍala tridimensional e uma representação do Monte Meru, o eixo cósmico. O percurso em torno e através dos níveis do stūpa espelha a jornada espiritual do praticante em direção à iluminação.
    • Templos: Muitos templos, além das suas obras de arte, são eles próprios inspirados em palácios celestiais.
  • Rituais: A cosmologia informa muitos rituais budistas. As oferendas de flores, incenso, luz, comida e água feitas em altares são atos de respeito e devoção dirigidos aos Budas, Bodhisattvas e devas que habitam os reinos superiores. Estes atos cultivam a generosidade e a confiança. Em algumas tradições, rituais específicos são realizados para beneficiar seres em reinos inferiores, como os petas, através de oferendas e transferência de mérito, aliviando o seu sofrimento e reforçando a interconexão entre os reinos. Os rituais podem também invocar a proteção de devas e outras entidades consideradas guardiãs do Dhamma.
  • Expressões Culturais: As narrativas cosmológicas, como as histórias sobre os diferentes reinos, as vidas dos Budas e Bodhisattvas, as façanhas dos devas e as punições nos infernos, tornaram-se parte integrante do tecido cultural de muitas sociedades budistas. Elas são recontadas em sermões, literatura popular, teatro, dança e festivais, moldando assim a visão do mundo, os valores éticos e a imaginação coletiva de gerações.

Estas expressões artísticas e culturais demonstram que a cosmologia budista não é uma abstração distante, mas um sistema vivo que informa a perceção da realidade e a prática religiosa de forma concreta e experiencial. A arte e a arquitetura funcionam como “mapas” visuais e espaciais que guiam o praticante na sua jornada interior, espelhando a progressão através de diferentes níveis de consciência em direção ao objetivo final da iluminação.

Fontes textuais da cosmologia budista

A cosmologia budista baseia-se numa vasta e diversificada gama de fontes textuais, acumuladas ao longo de séculos e refletindo a evolução do pensamento nas diferentes escolas e tradições. A cosmologia não deriva de um único texto canónico, mas sim de informações dispersas e sistematizações progressivas encontradas em várias camadas da literatura budista. Seguem-se algumas dessas fontes.

  • Referências nos Suttas (Cânone Páli): Os discursos atribuídos ao Buda e aos seus discípulos diretos, compilados no Sutta Piṭaka, contêm as referências mais antigas a elementos cosmológicos, embora muitas vezes de forma fragmentária ou contextual. Suttas importantes incluem:
    • O Agañña Sutta (DN 27), que descreve a evolução do mundo e da sociedade no início de um novo ciclo cósmico.
    • O Saleyyaka Sutta (MN 41) e o Saṅkhārupatti Sutta (MN 120), que detalham as ações (kamma) que levam ao renascimento em diferentes planos, desde os infernos até aos céus.
    • O Brahmajāla Sutta (DN 1), que discute as visões erradas sobre a origem do mundo, incluindo a crença de Mahābrahmā de ser o criador.
    • O Brahmanimantanika Sutta (MN 49), que também refuta a crença de brahmā em ser o criador.
    • O Mahāpadāna Sutta (DN 14) e o Cakkavatti-sīhanāda Sutta (DN 26), que abordam os ciclos de Budas passados, o ideal do Rei Universal (Cakravartin), e os ciclos de declínio e renovação moral e temporal no mundo.
    • O Itivuttaka (parte do Khuddaka Nikāya), uma coleção de ditos curtos que contém referências a devas, infernos e à importância do kamma.
    • Numerosos discursos dispersos no Aṅguttara Nikāya e no Saṃyutta Nikāya mencionam interações com devas, descrições de céus e infernos, e explicam a relação entre kamma e renascimento.
  • Abhidhamma Piṭaka: Esta “cesta” do Cânone Páli tem uma abordagem analítica e sistemática dos ensinamentos, descrevendo processos mentais e causais visando a libertação. Nele estão contidas várias referências cosmológicas.
  • Comentários posteriores (Atthakathā): A literatura comentarial, composta séculos após o Buda, com destaque para Buddhaghosa (séc. V EC), amplia e sistematiza a cosmologia presente nos suttas e no Abhidhamma. Ela fornece definições, classificações (incluindo a consolidação dos 31 planos de existência), narrativas explicativas e articulações doutrinais que integram cosmologia, ética e meditação, tornando o material mais acessível ao estudo e à prática.
  • Textos Mahayana relevantes: As escolas Mahayana introduziram novos sutras e tratados que expandiram significativamente a paisagem cosmológica:
    • O Sūtra do Lótus revela a natureza transcendente e a longevidade inconcebível do Buda e alude a múltiplos campos búdicos.
    • O Avataṃsaka Sutra apresenta uma visão grandiosa de um cosmos infinito e interpenetrado, repleto de incontáveis Budas e Bodhisattvas ensinando simultaneamente em múltiplos reinos.
    • Os Sutras da Terra Pura (como o Sukhāvatīvyūha Sūtra Maior e Menor) descrevem detalhadamente a Terra Pura de Sukhāvatī criada pelo Buda Amitābha e explicam como renascer lá através da fé e da prática devocional.
    • Tratados da escola Yogācāra, como o Mahāyānasūtrālaṃkāra (atribuído a Asaṅga/Maitreya), desenvolvem a doutrina dos Três Corpos do Buda (Trikāya), que tem implicações cosmológicas sobre como a Budeidade se manifesta no universo.
    • Tratados da escola Madhyamaka, como o Mūlamadhyamakakārikā (Versos Fundamentais do Caminho do Meio) de Nāgārjuna, exploram a vacuidade (sūnyatā) de todos os fenómenos, aplicando esta análise também aos constituintes do mundo e da cosmologia.
  • Textos Vajrayana relevantes: A tradição tântrica possui os seus próprios textos que apresentam cosmologias específicas ligadas às suas práticas:
    • O Kālacakra Tantra e seus comentários apresentam uma cosmologia própria que correlaciona macrocosmo e microcosmo, integrando ciclos de tempo, astrologia/astronomia, a geografia mítica de Śambhala e a fisiologia sutil (nāḍī, prāṇa, bindu), em função das práticas de yoga do Kālacakra.
    • O ciclo dos “Pacíficos e Irados” (Zhi-khro), associado a Karma Lingpa, inclui o Bardo Thodol e expõe um quadro cosmológico visionário dos bardos, descrevendo deidades, estados intermediários e instruções de reconhecimento da luminosidade para orientar a transição pós-morte.

Esta estratificação textual demonstra que a cosmologia budista não é monolítica, mas sim um corpo de conhecimento que evoluiu organicamente ao longo da história, com diferentes escolas a enfatizarem aspetos distintos e a desenvolveram novas perspetivas. Mas apesar da diversidade, a essência permanece a mesma.

Conclusão

A cosmologia budista oferece uma visão pluridimensional e vasta do universo que vai além da mera descrição física. Estruturada em reinos de existência e vastos ciclos de tempo, o seu propósito central é orientar o praticante para a libertação (nibbāna).

Os ensinamentos cosmológicos, presentes nos antigos suttas e detalhados no Abhidhamma e nos comentários posteriores, não se destinam a ser um mapa literal do cosmos. Pelo contrário, funcionam como um guia para a compreensão da natureza da existência, do sofrimento (dukkha) e do caminho para a sua cessação. A perspetiva do Buda era essencialmente pragmática: em vez de especular sobre a origem ou estrutura do universo, utilizou a compreensão da nossa existência dentro deste cosmos como um meio direto para alcançar a libertação.

Neste contexto, conceitos essenciais como o kamma (ação volitiva), o saṃsāra (o ciclo de renascimento) e o nibbāna (o estado incondicionado) estão intrinsecamente ligados à cosmologia, fornecendo um quadro ético e espiritual para a prática.

Ao descrever os vários reinos e os ciclos cósmicos, a cosmologia evidencia a natureza impermanente e, por conseguinte, insatisfatória de toda a existência condicionada. Esta perceção é indispensável, pois motiva os praticantes a aspirarem ao nibbāna, o estado para além do sofrimento e do ciclo de renascimento.

Para os praticantes modernos, esta cosmologia mantém-se relevante. Independentemente de algumas descrições não se alinharem com a ciência contemporânea, os seus princípios subjacentes continuam a oferecer perceções valiosas sobre a natureza da realidade, a interconexão de todos os seres e as consequências éticas das nossas ações. Quer seja interpretada de forma literal ou simbólica, a cosmologia budista fornece um alicerce significativo para a prática espiritual e a busca da libertação.

Referências: The Buddhist Cosmos – Punnadhammo Mahathero (eBook); Heaven: sagga (Access to Insight); Buddhist rebirth in different planes of existence (The British Library); Borobudur (Britannica); What are the six realms? (Tricycle); Buddhist cosmology (Wikipedia); Kalachakra (Wikipedia); The Six Buddhist Realms of Existence (Wisdomlib);

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