“O Tigre e o Morando” é uma parábola do zen bastante conhecida, existem diferentes versões desse conto, como é o caso do “Doce Sabor do Mel”. O desfecho é semelhante, mas enquanto numa das versões a conclusão é interpretada de um ponto de vista positivo, na outra é olhada de uma forma mais negativa. Cada versão tenta passar uma mensagem diferente. De seguida veremos as duas versões.
O Tigre e o Morando
Um homem, viajando pelo campo, encontrou um tigre. Ele correu, com o tigre em seu encalço. Aproximando-se de um precipício, tomou as raízes expostas de uma vinha selvagem em suas mãos e pendurou-se na beira do abismo. O tigre o farejava acima. Tremendo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre a esperá-lo. Apenas a vinha o sustinha. Mas, ao olhar para a planta, viu dois ratos, um negro e outro branco, roendo aos poucos sua raiz. Nesse momento, seus olhos perceberam um belo morango vicejando perto. Segurando a vinha com uma mão, ele pegou o morango com a outra e o comeu.
— Que delícia! — ele disse.
Comentário de Coen Sensei no seu livro “108 Contos e Parábolas Orientais”: “Essa é uma das analogias sobre a vida humana. Estamos fugindo de um animal que pode nos matar, presos por um fio — o qual está sendo roído pela noite e pelo dia (os ratos branco e preto) —, e apreciamos a doçura do momento. O que mais haveria para ser feito? A morte é certa, mas até morrer podemos apreciar a vida. Você aprecia sua existência? Mesmo com dificuldades, problemas, insatisfações, doenças e mortes? Percebe também a doçura de um nascer do sol, de uma flor ou de uma criança? Sorri à lua e às estrelas? Reconhece o som dos pássaros e da alegria? Não veja apenas o lado sombrio, veja a luz, pois sem ela nem a sombra existiria.”
O Doce Sabor do Mel
A história é basicamente a mesma da anterior e é ilustrada por esta imagem:

Neste caso em vez de um morango, o individuo desfruta do mel que goteja de uma colmeia. O mel representa os prazeres sensoriais que nos distraem da realidade da nossa situação. Os ratos representam o dia a a noite, consumindo todo o tempo da nossa vida. O tigre representa o passado e as ações da qual o homem tenta fugir. Os dragões representam a retribuição kármica, a inevitabilidade do homem colher os frutos das suas ações.
Esta versão não é sobre viver o momento presente, ela serve como uma alegoria para a condição humana no samsara: estamos constantemente cercados pelos perigos da morte, renascimento e impermanência, mas nos distraímos com prazeres momentâneos, ignorando a nossa verdadeira situação. A maioria da sociedade encontra-se nesse estado, distraída com o mel dos desejos e apegos, e procurando a saciedade imediata sem pensar que inevitavelmente irá colher os frutos das suas ações. Dessa forma, o homem erra achando que está fazendo o que é certo e, mesmo errando inconscientemente, colherá de igual modo os frutos da sua inconsciência.
Imagem de destaque gerada por IA.
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