Amor Romântico, Amor Genuíno, Apego e Relações

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Nesta série de palestras, vamos conhecer o que alguns Mestres Budistas têm a dizer sobre o Amor, Apego e Relações.

Amor romântico e amor genuíno | Jetsunma Tenzin Palmo

«O problema é que nós sempre confundimos a ideia de amor com apego.

Sabe, nós imaginamos que o apego e o agarramento que temos nas nossas relações, demonstram que amamos, quando na verdade, é só apego, que nos causa dor. Porque quanto mais nos agarramos, mais temos medo de perder. E então se nós, de facto, perdermos, vamos sofrer.

O que quero dizer é que o amor genuíno é… Bom, o apego diz: “Eu te amo, por isso eu quero que você me faça feliz.” E o amor genuíno diz: “Eu te amo, por isso quero que você seja feliz. Se isso me incluir, ótimo! Se não me incluir, eu só quero a sua felicidade.”

É portanto um sentimento bem diferente.

Sabe, o apego é como segurar com bastante força. Mas o amor genuíno é como segurar com muita gentileza, nutrindo, mas deixando que as coisas fluam.

Não é ficar preso com força. Quanto mais agarrarmos o outro com força, mais nós sofreremos.

Porém é muito difícil para as pessoas entenderem isso, porque elas pensam que quanto mais elas se agarram a alguém, mais isso demonstra que elas se importam com o outro. Mas não é isso. Elas realmente estão apenas tentando prender algo porque elas têm medo de que se não for assim, elas é que acabarão se ferindo.

Qualquer tipo de relacionamento no qual imaginamos que poderemos ser preenchidos pelo outro será certamente muito complicado.

Quero dizer que, idealmente, as pessoas deveriam se unir já se sentindo preenchidas por si mesmas e ficarem juntas apenas para apreciar isso no outro, em vez de esperar que o outro supra essa sensação de bem estar que elas não têm sozinhas.

E isso gera muitos problemas. E isso junto com toda a projecção que vem do romance, em que projectamos as nossas ideias, desejos e fantasias românticas sobre o outro, algo que ele nunca será capaz de corresponder.

Assim que começamos a conhecê-lo, reconhecemos que o outro não é o príncipe encantado ou a Cinderela. É apenas uma pessoa comum, também lutando. E a menos que sejamos capazes de enxergá-las, de gostar delas, e de sentir desejo por elas e também ter bondade amorosa e compaixão, será um relacionamento muito difícil.»

Os elementos do amor genuíno | Thich Nhat Hanh

«Na tradição budista, nós falamos de amor, de amor genuíno, em termos de:

(1) bondade amorosa,
(2) compaixão,
(3) alegria,
(4) equanimidade, não-discriminação… inclusividade.

Para entender realmente a compaixão, você precisa também entender os outros três elementos do amor genuíno.

O primeiro elemento do amor genuíno é a bondade amorosa.

Ela tem o poder de oferecer felicidade, se o amor não é capaz de oferecer felicidade, então não é amor genuíno. O seu amor genuíno deve oferecer felicidade a você, a ele, e a ela, felicidade.

Não se trata da disposição de oferecer felicidade, pois se você não entende a outra pessoa, quanto mais você tentar fazer ela feliz, mais você vai fazê-la sofrer. Você precisa entender ele, entender ela… seus sofrimentos e necessidades antes de você poder praticar a bondade amorosa.

Na Ásia há uma fruta chamada Durian, muitas pessoas adoram ela. Mas para mim, eu não posso comê-la. Então você diz: “querido Thay, você deveria comer um pouco de durian”, então você me faz sofrer, por me amar. (Durian é uma fruta que parece uma jaca, mas tem um cheiro muito forte, chega a ser proibida em hotéis, metros e aeroportos do Sudeste Asiático)

Então nós devemos entender a outra pessoa para podermos de verdade fazê-la feliz. E é por isso que ‘entender’ é outra palavra para o amor, para a compaixão. E é por isso que devemos perguntar para os nossos parceiros: “Querida, você acha que eu te entendo o bastante?,  Se eu não te entendo o bastante, por favor, me ajude!”

Então… a bondade amorosa não é só a vontade de fazer uma pessoa feliz, mas a capacidade de fazer ele ou ela feliz. E isso requer entendimento. E o entendimento requer tempo para olhar profundamente.

O segundo elemento é a compaixão, que é ‘karuṇā’. A grande compaixão é chamada de ‘mahākaruṇā’.

A compaixão tem o poder de remover a dor e o sofrimento. Se o seu amor não faz a outra pessoa sofrer menos, então ele não é o amor genuíno. Você tem de entender o sofrimento dele, o desespero dela, para poder ajudá-lo ou ajudá-la a sofrer menos. E é por isso que você precisa ter o tempo pra olhar e para ouvir, e a compreensão vai criar o amor e a felicidade.

E a prática é que você tem que aplicar isso com você mesmo. Você tem que estar apto a se oferecer felicidade e compaixão. Temos compaixão suficiente… com o nosso próprio corpo? Com o nosso sentimento? Sabemos como lidar com o nosso corpo para fazê-lo sofrer menos? Sabemos como lidar com os nossos sentimentos para acalmar as nossas emoções?

Isso é amor próprio. A capacidade de amar outra pessoa depende inteiramente da capacidade de amarmos a nós mesmos e de ter cuidado com nós mesmos. Isto é verdade com a compaixão.

O terceiro é a alegria. ‘Mudita’.

Se o amar faz a outra pessoa chorar todos os dias, isso não é o amor genuíno.

Então, você cria a alegria, para você mesmo e para a outra pessoa. E há muitas maneiras práticas para criar alegria, sem ter que ir ao mercado e comprar alguma coisa, para dar pra ele ou pra ela.

Então, você respira conscientemente, trazendo a sua mente para o seu corpo, você se sente revigorado e agradável e você vai até a pessoa e diz “Querida, sabe de uma coisa? Eu estou aqui para você.”

Como você pode amar se você não está presente? Amar significar estar presente. Estar presente pela pessoa que você ama. Se você está tão ocupado no seu trabalho e tão ocupado ganhando dinheiro, você não tem tempo pra você mesmo e para a sua pessoa amada. E é por isso que é preciso respirar consciente, caminhar consciente, para trazer sua mente para seu corpo, e para se sentir relaxado, revigorado e amável, e para pronunciar o mantra “Querida, eu estou aqui pra você.”

E isto é trazer a alegria pra você e para a outra pessoa. E quando você está realmente presente, e oferece a sua presença para ele ou pra ela, você tem a oportunidade de reconhecer a presença da outra pessoa como algo muito precioso pra você.

E é aí que você pode repetir o segundo mantra: “Querida(o), eu sei que você está aí, e eu estou tão feliz.”

Ser amado significa ser reconhecido como um ser existente. E você está conduzindo e seu carro pensando em inúmeras coisas, exceto na pessoa que está sentada bem ao seu lado, ela não pode estar feliz de maneira nenhuma.

Então, enquanto estiver conduzindo use a sua plena consciência e diga: “Querida, sabe de uma coisa? Eu sei que você está aí… bem ao meu lado, e eu estou muito feliz!”

São práticas simples, como essa práticas de plena consciência que podem trazer alegria.

E, se ele está no escritório… você pode praticar o mantra através do telefone, ou mandar um e-mail para ele dizendo: “Querido, eu sei que você está aí, e eu estou muito feliz.”

E é por isso que criar a alegria faz parte do amor genuíno.

E o quarto elemento, a inclusividade.

Nós não podemos entender a compaixão, profundamente,  sem entender-mos o quarto elemento do amor genuíno.

No amor genuíno não há mais discriminação entre o que ama e o que é amado. Você não pode dizer “Querida, isso é problema seu.”

No amor genuíno o meu problema é o seu problema. A minha felicidade é a sua felicidade. O meu sofrimento é o seu sofrimento. Não há mais fronteiras.

Inclusividade.

No amor genuíno a felicidade e o sofrimento não são mais questões individuais, e se você continua a amar dessa maneira, você começa a incluir todos nós no seu amor genuíno.

Os quatro elementos do amor genuíno também são chamados de as quatro mentes ilimitadas.

Eles nunca serão excessivos. Você começa com uma pessoa, e então se você seguir o caminho do verdadeiro amor, seu coração vai abrir, abrir, e abrir, até que você inclua todos nós nele.

Isso é o amor genuíno, é o tipo de amor que pode engrandecer o seu coração sem nunca parar.

Um dia o Buda estava segurando uma tigela de água com a sua mão esquerda e com a mão direita um punhado de sal. Ele jogou o sal na água e misturou. Então ele perguntou aos monges: “Meus queridos amigos… vocês acham que podem beber esta água? Está tão salgada. Mas se vocês jogarem essa quantidade de água num grande rio, não vai fazer a água do rio ficar salgada de forma alguma, e milhares de pessoas vão continuar a beber a água do rio.

O mesmo acontece com alguém com um grande coração, um coração bom e cheio de compaixão, ele não sofre mais. As coisas que fazem as outras pessoas sofrerem não o fazem sofrer. É como um punhado de sal, que pode salgar uma tigela de água, mas que não é capaz de fazer o grande rio salgado, de maneira alguma.”

Então, os quatro ‘brahmavihārā’, os quatro elementos do amor genuíno são ilimitados, porque amar dessa maneira vai fazer com que um dia você inclua todos os seres no coração.

Você não ama somente humanos, mas animais, plantas e minerais. Os minerais também estão vivos e os minerais também podem sofrer. E esse é o amor que é recomendado pelo Buda O amor sem fronteiras, sem discriminação. E o quarto elemento do amor genuíno é a inclusividade, sem discriminação, de qualquer forma. preto ou branco, norte ou sul, rico ou pobre, todos estão ao alcance do seu amor.

Quando você tem esse tipo de amor você não sofre mais. E você está numa situação de ajudar muitas pessoas.

E é por isso que todos nós que queremos ser úteis para a sociedade, devemos cultivar o amor genuíno. Com o amor genuíno nós somos nutridos, somos fortes o bastante. E se soubermos como construir uma comunidade de amor, uma comunidade de amor e de compaixão, então teremos o poder suficiente para fazer as mudanças na nossa sociedade.»

Por que o Budismo não apoia o amor romântico? | Thich Nhat Hanh

Amor e apego | Monge Genshô

Amor e apego | Tsering Paldron

 

É amor ou apego? Como diferenciar? | Monja Coen

Amor e Relações | Dzongsar Khyentse Rinpoche

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Sugestões de leitura:

Veja também:


Sobre Jetsunma Tenzin PalmoThich Nhat Hanh, Monge GenshôTsering PaldronMonja CoenDzongsar Khyentse Rinpoche

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