O Sandokai, um insigne poema do Budismo Zen, escrito por Shitou Xiqian no século VIII, apresenta uma profunda exploração da relação entre o mundo relativo das aparências e a realidade absoluta. Este texto conciso, composto por 44 linhas, transmite ensinamentos Zen cruciais que continuam a ressoar com praticantes e estudiosos ao longo dos séculos. A sua importância é particularmente notória na escola Soto Shu, onde é recitado nos mosteiros por todo o mundo. O poema aborda temas como a natureza da dualidade, a interdependência de todos os fenómenos, a Natureza-Buda e a aplicação prática destes princípios na meditação e na vida quotidiana. A longevidade do Sandokai, sobrevivendo por mais de 1300 anos, atesta a sua relevância perene e a profundidade dos seus ensinamentos, dando insights valiosos que transcendem o tempo e as culturas. Além disso, a sua criação num período de divergências entre escolas Zen revela uma intenção de promover a compreensão da verdadeira natureza da realidade como um caminho para a unidade.
Sandokai
A mente do Grande Sabio da Índia estava intimamente ligada de Leste a Oeste. Entre seres humanos há sábios e tolos, Mas no Caminho não há Fundador do Sul ou do Norte. A fonte sutil é clara e brilhante. As correntes tributárias fluem através da escuridão. Apegar-se às coisas é ilusão, Encontrar o absoluto ainda não é iluminação. Um e todos, as esferas subjetiva e objetivas são relacionadas E ao mesmo tempo independentes. Relacionadas e ainda assim funcionam diferentemente. embora cada um mantenha seu lugar. Forma faz com que o caráter e a aparência difiram. Os sons distinguem conforto e desconforto. O escuro faz de todas palavras, uma; A claridade distingue frases boas e más. Os quatro elementos voltam à sua natureza, Assim como uma criança para a sua mãe. Fogo é quente, vento é movimento, Agua é úmida e terra é dura. Olhos vêem, ouvidos escutam, narinas cheiram, língua sente o salgado e o azedo. Cada um independe do outro. Causa e efeito devem retornar à grande realidade, As palavras alto e baixo são usadas relativamente. Dentro da luz há escuridão, mas não tente compreender essa escuridão; Dentro da escuridão há luz, mas não procure por essa luz. Luz e escuridão são um par, Como o pé na frente e o pé detrás ao andar. Cada coisa tem seu valor intrínseco e está relacionada a tudo o mais em função e posição. Vida comum se encaixa no absoluto como uma caixa à sua tampa. O absoluto trabalha com o relativo, Como duas flechas se encontrando em pleno ar. Lendo estas palavras apreenda a grande realidade. Não julgue por nenhum valor. Se você não vê o Caminho, não o vê mesmo ao andar nele. Quando você caminha, não é perto nem longe. Se estiver deludido, estará há rios e montanhas de distância. Respeitavelmente digo àqueles que querem ser iluminados: "Noite e dia, não percam tempo."
Introdução
Contexto Histórico
O Sandokai emergiu na China durante o século VIII, um período amplamente reconhecido como a era de ouro do Budismo Chan (Zen), inserido na dinâmica dinastia Tang (618-906). O seu autor, Shitou Xiqian (700-790), é uma figura proeminente na história do Zen, considerado um mestre Chan (Zen) de grande importância e um ancestral para todas as linhagens Zen existentes. Shitou foi discípulo do Sexto Patriarca Huineng por um breve período e, posteriormente, tornou-se sucessor de Qingyuan Xingsi. Este período foi marcado pelo crescente destaque do Budismo Chan/Zen chinês como uma escola distinta, influenciada em alguma medida pelo Taoísmo, embora os seus princípios basilares sejam os ensinamentos do Budismo Mahayana surgido na Índia, e as suas doutrinas sejam diferentes. Contudo, a coexistência destas duas tradições levou a uma troca de ideias e práticas visível nos temas do Sandokai.
O próprio título Sandokai é idêntico ao de um influente texto Taoísta do século II, o Cāntóngqì de Wei Boyang, uma obra sobre alquimia interna frequentemente traduzida como “A Afinidade dos Três” ou “O Selo da Unidade dos Três”. Esta partilha de título não parece ser acidental, sugere que Shitou Xiqian estava a dialogar com o vasto panorama filosófico e espiritual da China da sua época, utilizando uma referência culturalmente ressonante para expressar uma verdade budista fundamental sobre a transformação da perceção. A alquimia Taoísta lida com a transmutação de elementos e a unificação de energias internas para alcançar a longevidade ou imortalidade. Ao adotar este título, Shitou pode ter pretendido estabelecer uma analogia metafórica, preconizando que a prática budista é uma forma de “alquimia espiritual” que transforma a perceção dualista numa visão unificada e libertadora da realidade – a realização da Budeidade.
A posição de Shitou na linhagem Zen, como discípulo de Qingyuan Xingsi, um dos principais sucessores de Huineng, confere ao Sandokai uma autoridade considerável dentro da tradição, dado que a transmissão do Dharma de mestre para discípulo é central no Zen. Naquela época, existiam diferentes escolas de pensamento Zen, incluindo uma divisão entre as escolas do norte e do sul, com debates acalorados sobre questões de princípio. O Sandokai surgiu neste contexto, procurando reconciliar estas diferentes perspetivas.
Significado do Título
O título “Sandōkai” (參同契) encerra em si uma profunda significância, sendo suscetível a diversas interpretações e traduções. Algumas traduções comuns incluem “União da Diferença e da Unidade”, “Harmonia da Diferença e da Igualdade” e “Identidade do Relativo e do Absoluto”. A variedade destas traduções reflete a riqueza e a profundidade do poema, aludindo que ele pode ser abordado e compreendido de múltiplas perspetivas.
Analisando os caracteres individualmente:
- 參 (San ou Cān): Este carácter remete para a pluralidade, diversidade, diferença e o mundo dos fenómenos. No contexto Zen, é frequentemente associado ao princípio japonês de ji (事), que se refere à realidade concreta, particular e fenoménica – o mundo tal como o experienciamos na sua multiplicidade. Para além disto, San pode também implicar “participar em”, “funcionar”, “fundir” ou “integrar”.
- 同 (Dō ou Tóng): Em contraste com San, Dō aponta para identidade, igualdade, unidade e comunalidade. Está ligado ao princípio japonês de ri (理), que denota a realidade absoluta, o vazio ou vacuidade (Śūnyatā). Dō, frequentemente usado como significando caminho, neste caso não é isso que representa.
- 契 (Kaiou Qì): Este carácter significa acordo, harmonia, o ato de “apertar as mãos”, fusão, interpenetração ou promessa. De forma particularmente elucidativa, o mestre Zen contemporâneo Shohaku Okumura Roshi explica Kai através da metáfora de um talhe (uma prática antiga em contratos): duas metades de uma peça de madeira, previamente separadas, são reunidas para confirmar um acordo. Esta imagem simboliza como o absoluto e o relativo, embora aparentemente distintos, são na verdade duas metades de uma única e inseparável realidade.
A tradução “Identidade do Relativo e do Absoluto” enfatiza a não separação entre estes dois aspetos da realidade, um tema central no Budismo Zen. Esta tradução direciona o foco para a ideia de que o mundo das aparências e a realidade última não são entidades distintas.
Podemos desde já notar que apesar da sugerida influência taoista, os temas e conceitos presentes no Sandōkai e que veremos de seguida, estão presentes nos antigos sutras Mahayana e até de alguma forma em suttas páli.
Temas e conceitos
Unidade e Interdependência
Um dos pilares centrais do ensinamento do Sandokai é intrincada relação entre o relativo (os fenómenos e a forma) e o absoluto (que remete para a vacuidade). Esta dinâmica é frequentemente ilustrada pela analogia da onda e da água: tal como a onda não é algo separado da água, mas sim a sua manifestação, o mundo das formas não é distinto da realidade absoluta.
Embora o termo sânscrito Śūnyatā não seja explicitamente utilizado no poema, o conceito do Vazio é o alicerce filosófico que sustenta toda a obra. O Vazio aqui não significa niilismo ou mera inexistência, mas sim a ausência de uma natureza fixa, independente e permanente nos fenómenos. É precisamente porque as coisas são “vazias” de uma existência isolada que podem interpenetrar-se e surgir de forma interdependente.
Esta visão não-dual transcende a dicotomia habitual com que vemos o mundo. O texto ensina que opostos aparentes, como luz e escuridão, alto e baixo, surgem mutuamente e são inseparáveis. Neste contexto, “escuridão” não tem nada de pejorativo, pois simboliza o absoluto, a unidade universal do grande vazio, desprovida de forma e discriminação. Em contraste, a Luz representa a dimensão do relativo, o mundo dos fenómenos, da multiplicidade e da diferenciação. É a “claridade” que caracteriza a discriminação relativa, é devido a ela que se torna possível distinguir cada coisa no universo, separando o alto do baixo, o “isto” do “aquilo”. O verso de que “dentro da luz há escuridão, mas não a consideres escuridão” desafia-nos a ver para além das categorias rígidas, percebendo a unidade subjacente a todas as distinções Esta profunda interconexão é capturada pela ideia, derivada do Avataṃsaka Sūtra (Sutra da Guirlanda de Flores), de que “não se pode pegar num grão de poeira sem pegar no mundo inteiro”. Nada existe isoladamente; cada ação repercute em todo o sistema.
O Sandokai adverte que “apegar-se às coisas é ilusão”. O sofrimento nasce da tentativa de fixar o que é, por natureza, transitório e relativo. Assim, reconhecer a fluidez e a interdependência da realidade torna-se um passo fundamental na prática budista para alcançar uma compreensão libertadora.
Natureza-Buda
O Sandokai alude ao conceito Mahayana de Natureza-Buda, que enfatiza o potencial para a iluminação inerente a todos os seres sencientes. Esta perspetiva proporciona uma base para a compaixão e a não discriminação, pois reconhece a mesma essência iluminada em todos.
Transcendência das divisões sectárias
O verso “Mas no Caminho não há Fundador do Sul ou do Norte” é uma referência direta às disputas sectárias do Budismo Chan na China do século VIII. As escolas do Norte eram associadas a uma abordagem gradual à iluminação, enquanto as escolas do Sul preconizavam uma iluminação súbita. Shitou, com esta afirmação, transcende estas divisões, declarando que o verdadeiro Caminho de Buda é uno e não depende de linhagens geográficas, capacidades individuais ou abordagens metodológicas particulares. Esta declaração não é apenas um apelo à unidade, mas uma aplicação prática do princípio central do poema: a unidade fundamental que subjaz à diversidade aparente.
A imagem da “fonte sutil é clara e brilhante” e das correntes que “fluem através da escuridão” além de ser outra metáfora para a relação entre o absoluto e o relativo, podem também ser entendidos como os diversos ensinamentos, pontos de vista ou mesmo as diferentes escolas budistas que emanam da única fonte da verdade. A unidade da fonte manifesta-se na diversidade dos ramos, e ambos coexistem sem impedimento, cada um contido no outro.
Relação com Madhyamaka
O Sandokai possui uma relação com a Madhyamaka (Escola Caminho do Meio) do Budismo Mahayana, que enfatiza a vacuidade (śūnyatā) de todos os fenómenos. A ligação com a Madhyamaka coloca o Sandokai dentro de uma tradição filosófica budista profunda e sofisticada, oferecendo uma base intelectual para os seus ensinamentos. A influência do pensamento Madhyamika é visível na sua formulação, especialmente no que diz respeito à compreensão da natureza da realidade como vazia de existência inerente. O conceito de śūnyatā é essencial para a compreensão da não dualidade e da interdependência. Entender a vacuidade ajuda a desconstruir as nossas perceções ilusórias de uma realidade sólida e independente. O Caminho do Meio serve como princípio orientador, evitando os extremos do eternalismo e do niilismo.
O Sandokai na prática Zen
A centralidade do Sandokai manifesta-se, desde logo, no seu uso litúrgico: o poema é entoado diariamente nos templos Soto Zen em todo o mundo, integrando o serviço de sutras matinal. Frequentemente emparelhado com o Hōkyōzanmai (“Canção do Samadhi do Espelho Precioso”), este canto transcende o ritual mecânico, constituindo uma prática de corporificação dos seus ensinamentos.
Esta profundidade é enriquecida pela sua raiz na escola Huayan, uma das mais sofisticadas tradições do budismo chinês. A dialética que Shitou Xiqian estabelece entre o universal (absoluto) e o particular (relativo) deriva diretamente do pensamento desta escola, que se fundamenta no vasto Avataṃsaka Sūtra (Sutra da Guirlanda de Flores). Esta obra sugere que cada partícula do universo contém e reflete a totalidade, como na famosa metáfora da Rede de Indra. Ao beber deste sutra, Shitou não cria uma doutrina isolada, mas articula uma visão Zen específica, ancorada numa rica tradição espiritual e transformando a complexidade doutrinária na clareza poética e prática do Sandokai.
Inspirado pela obra de Shitou, segundo académicos e mestres Zen, Dongshan Liangjie (Tōzan Ryōkai), um mestre Chan do século IX, terá composto os “Cinco Graus” (Wuwei em chinés, go-i em japonês), um poema de cinco estrofes que expressa a interação entre a verdade absoluta e a relativa, e que descreve os estágios de realização na prática do Budismo Chan/Zen.
Desta forma, o Sandokai exemplifica traços distintivos do Chan/Zen, como o uso de uma linguagem que aponta para lá dos conceitos. Sob esta luz, a iluminação deixa de ser um constructo intelectual para se tornar uma transformação profunda da perceção, radicada na prática contínua (zazen e sesshin). É esta disciplina constante que cultiva a clareza necessária para que a Natureza-Buda se manifeste, preconizando uma harmonia subtil entre o esforço gradual da prática e o insight súbito da realização.
Relevância na vida quotidiana
Os princípios do Sandokai encontram eco nas vivências diárias ao revelarem a unidade que subsiste sob a superfície das aparências. A aplicação destes ensinamentos implica uma transformação profunda na nossa perceção e na interação com o mundo. Ao reconhecer que nada existe de forma isolada, somos naturalmente impelidos a agir com maior compaixão e responsabilidade, promovendo a paz interior e a harmonia nas relações.
Através da compreensão da não-dualidade, este texto exorta-nos a superar as barreiras da separação — frequentemente a raiz do sofrimento — e a dissolver clivagens tanto internas (entre mente e corpo) como externas (entre o “eu” e o “outro”). Esta visão permite cultivar laços interpessoais mais saudáveis, reconhecendo a natureza búdica em cada ser e o impacto coletivo de cada gesto individual.
No contexto contemporâneo, esta sabedoria oferece ferramentas valiosas para a gestão do stresse e a resolução de conflitos. Face a um mundo crescentemente fragmentado, a perspetiva da unidade fornece uma base ética para abordar desafios globais, inspirando soluções colaborativas para as alterações climáticas e a desigualdade social. Hoje, a relevância do Sandokai permanece inabalável, lembrando-nos que a prática não se cinge à almofada de meditação, mas serve, sim, de bússola espiritual para uma vida ética numa era de complexidade sem precedentes.
Referências: Ensinamento de Genshô Sensei (Daissen); Huayan Buddhism and the Phenomenal Universe of the Flower Ornament Sutra (Ancient Dragon Zen Gate); What-the-Sutra-Says: The Sandokai (IZAUK); Sandōkai – Rev. Saidō Kennaway (Journal of the Order of Buddhist Contemplatives); Sandokai (3 Talks on the Identity of Relative and Absolute) (Red Rocks Zen Circle); Chan Buddhism (Stanford Encyclopedia of Philosophy); Riding the Turtle of Wisdom – The Themes of the Sandokai (The Trace of the Moonbird); Shitou Xiqian – “Stone Head”, Poet and Lineage Holder (The Trace of the Moonbird); Five Ranks (Wikipedia); Sandokai (Wikipedia); Shitou Xiqian (Wikipedia); Sekito Kisen’s Sandokai: The Identity of Relative and Absolute – Part 1 (Zen Studies Podcast); Sekito Kisen’s Sandokai: The Identity of Relative and Absolute – Part 2 (Zen Studies Podcast).
Veja também:
- Anatta (não-eu): desconstruindo a ideia de um “eu” permanente
- Sutra do Coração | Canções, recitações e palestras
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