Mente e Psicologia Theravada

Aspetos da mente e o processo cognitivo segundo o Abhidhamma

A mente ocupa uma posição de primazia inquestionável na doutrina budista. Os versos iniciais do Dhammapada proclamam: “Manopubbaṅgamā dhammā, manoseṭṭhā manomayā” – “A mente antecede todos os estados mentais. A mente é o seu criador, pois são todos forjados pela mente.”1 Esta afirmação realça a convicção budista de que a mente é um fator determinante na experiência da realidade, incluindo a experiência do sofrimento (dukkha) e o potencial para a libertação (nibbāna ou nirvāna).


Conteúdo:


Introdução

No Sutta Piṭaka vários aspetos da mente são expostos, e no Abhidhamma são dissecados, analisados e sistematizados, não como um exercido intelectual estéril, mas como um apoio no caminho para a libertação. Através desta análise torna-se possível identificar as raízes do sofrimento – os fatores prejudiciais como a ganância (lobha), a aversão (dosa) e a ignorância (moha) – e, concomitantemente, cultivar os fatores que conduzem à libertação, tais como a atenção plena (sati), a sabedoria (paññā), a não-ganância (alobha) e a não-aversão (adosa). Este conhecimento aprofundado é instrumental para o desenvolvimento do insight (vipassanā) sobre as três características da existência condicionada: a impermanência (anicca), a insatisfatoriedade ou sofrimento (dukkha) e a ausência de um eu substancial e permanente (anattā).

Uma rica variedade de termos são empregados para designar a mente e os seus diversos aspetos, refletindo a profunda sofisticação dos ensinamentos budistas. Alguns termos são utilizados como sinónimos, no entanto, cada um possui nuances e funções distintas. Cada termo ilumina um aspeto particular da cognição, da experiência subjetiva e do seu papel no caminho espiritual. Por exemplo, como será detalhado, citta tende a referir-se ao aspeto mais subjetivo e experiencial da consciência, mano à faculdade intelectual e integradora, e viññāṇa ao campo da reação sensorial e da consciência discriminativa. Embora o objetivo último do budismo transcenda a mera análise psicológica, visando a emancipação do ciclo de renascimentos (saṃsāra), a sua profunda investigação dos mecanismos mentais confere-lhe uma afinidade particular com o campo da psicologia.

Neste artigo serão apresentados alguns dos aspetos da mente encontrados nos textos budistas, porém, dada a vastidão de ensinamentos, muito ficará pode dizer. É no entanto importante ressalvar que estudar todos esses detalhes não é necessariamente fundamental para o praticante, e dependo da pessoa até pode tornar-se um empecilho.

Terminologia

Citta

Citta (Páli e Sânscrito) é fundamentalmente definido como aquilo que conhece, que experiencia ou que está ciente de um objeto (ārammaṇa). A própria palavra deriva da raiz verbal “citi“, que significa conhecer ou cognizar. No âmbito do Abhidhamma, citta é classificado como uma das quatro realidades últimas (paramatthadhamma). A consciência não é uma entidade monolítica ou contínua, mas manifesta-se como uma sucessão de estados momentâneos distintos, designados por momentos de consciência (cittakkhaṇa). Cada um destes momentos é extremamente breve e compreende três fases: surgimento (uppāda), permanência (ṭhiti) e cessação (bhaṅga).

A função primordial de citta é a de pensar (cinteti) ou cognizar objetos de toda a espécie. No complexo processo mental, citta atua como o “líder” ou “precursor” dos fatores mentais (cetasikas) que surgem concomitantemente com ele, partilhando o mesmo objeto e base. Os cetasikas são inseparáveis de citta: surgem e cessam em conjunto com o citta ao qual estão associados.

Citta e Viññāṇa funcionam quase como sinónimas mas com nuances diferentes, principalmente entre os suttas e o Abhidhamma. Citta nos suttas costuma indicar a mente enquanto campo a ser cultivado/purificado, o estado mental sujeito a treino, recolhimento e libertação, como Citta-bhāvanā (cultivo da mente). Viññāṇa nos suttas é o agregado de “consciência” e o elo na originação dependente.

No enquadramento Abhidhamma, uma das classificações dos cittas é segundo a sua natureza ética e funcional, no qual distinguem-se quatro categorias principais:

  1. Kusala citta: Consciência benéfica, hábil ou moralmente pura. Estas são as consciências que constituem kamma (ação intencional) benéfico, conduzindo a resultados futuros favoráveis.
  2. Akusala citta: Consciência prejudicial, inábil ou moralmente impura. Estas consciências constituem kamma prejudicial, levando a resultados futuros desfavoráveis.
  3. Vipāka citta: Consciência resultante. Estes são os cittas que são o resultado (vipāka) de kamma benéfico ou prejudicial realizado no passado. Incluem, por exemplo, a consciência sensorial que experiencia um objeto agradável ou desagradável.
  4. Kiriya citta (ou kriyā citta): Consciência funcional ou inoperativa. Estes cittas não são nem kamma (causa) nem vipāka (resultado). Incluem os pensamentos e ações dos Arahants (seres iluminados que já não geram novo kamma) e certas funções mentais básicas no processo cognitivo que são eticamente neutras.

O Abhidhamma, na sua análise detalhada, enumera 89 tipos de citta numa classificação mais concisa, ou 121 tipos numa análise mais expandida que considera os cittas dos níveis de jhāna (absorção meditativa) e os supramundanos de forma mais granular.

A minuciosa classificação dos cittas apresentada no Abhidhamma transcende uma mera taxonomia académica. Funciona, na verdade, como um mapa detalhado da consciência, capacitando o praticante a identificar com precisão os diversos estados mentais à medida que estes emergem na sua experiência. Esta capacidade de identificação permite a aplicação de antídotos específicos para os estados prejudiciais e o cultivo intencional e metódico dos estados benéficos. A análise do Abhidhamma, ao revelar a natureza momentânea e condicionada de cada citta, auxilia no desenvolvimento da introspeção, não apenas durante os períodos de meditação formal, mas também no decurso das atividades quotidianas. Esta precisão analítica constitui, assim, uma ferramenta poderosa para a transformação mental e para o progresso no caminho espiritual, permitindo ao indivíduo passar de uma reação passiva aos estados mentais para uma participação ativa na sua modelação.

Fatores Mentais (Cetasika / Caitta)

Os fatores mentais, conhecidos como cetasika em Páli e caitta em Sânscrito, são elementos na psicologia e filosofia budistas particularmente detalhados no Abhidhamma. São definidos como estados ou funções mentais que acompanham a consciência (citta), surgindo e cessando em conjunto com ela, partilhando o mesmo objeto de cognição e, nos seres que possuem uma base física, a mesma base material. São os cetasikas que conferem qualidade e cor à consciência, determinando a sua natureza ética – se é benéfica (kusala), prejudicial (akusala) ou eticamente neutra (abyākata). A tradição Theravada do Abhidhamma cataloga 52 fatores mentais distintos.

Ao identificar os fatores mentais individuais e compreender as suas funções e interações, o praticante desenvolve a capacidade de reconhecer os estados mentais prejudiciais que conduzem ao sofrimento (dukkha) e de cultivar ativamente os estados mentais benéficos que levam à purificação e à libertação.

Tabela com os 52 Fatores Mentais (Cetasika) no Abhidhamma

CategoriaNome em PáliTradução PT Breve Função
I. Universais (7)(Sabbacitta-sādhāraṇa) – Comuns a toda a consciência
PhassaContactoImpingir; unir consciência, faculdade e objeto
VedanāSensaçãoExperienciar o objeto (agradável, desagradável, neutro)
SaññāPerceçãoReconhecer qualidades; marcar para identificação futura
CetanāVoliçãoCoordenar fatores associados; é kamma
EkaggatāUnificação Mental/ConcentraçãoFocalizar a mente num objeto; samādhi
JīvitindriyaFaculdade Vital (mental)Manter a vida dos estados mentais coexistentes
ManasikāraAtençãoDirigir a mente e concomitantes para o objeto
II. Ocasionais (6)(Pakiṇṇaka) – Eticamente variáveis, presentes em certas consciências
VitakkaAplicação InicialDirigir a mente ao objeto; fator de jhāna
VicāraSustentação/ExameManter a mente no objeto, examinando-o; fator de jhāna
AdhimokkhaDeterminação/DecisãoResolução inabalável sobre o objeto
ViriyaEnergia/EsforçoApoiar e sustentar os concomitantes; superar a preguiça
PītiÊxtase/DeleiteInteresse e alegria no objeto; fator de jhāna
ChandaDesejo de Agir/IntençãoVontade de realizar uma ação ou atingir um resultado
III. Prejudiciais (14)(Akusala) – Acompanham apenas consciências prejudiciais
A. Universais Prejudiciais (4)(Presentes em todos os akusala cittas)
MohaIgnorância/DelusãoConfusão sobre a natureza do objeto; raiz de todo o mal
AhirikaAusência de Vergonha MoralNão ter vergonha de cometer o mal
AnottappaAusência de Temor das ConsequênciasFalta de medo de cometer o mal ou das suas consequências
UddhaccaInquietação/AgitaçãoEstado mental instável, dispersão
B. Grupo da Ganância (3)
LobhaGanância/ApegoDesejo egoísta, cobiça
DiṭṭhiVisão ErróneaCrenças falsas (e.g., negação do kamma, eternalismo, aniquilacionismo)
MānaPresunção/ConceitoOrgulho, arrogância, comparação com outros
C. Grupo da Aversão (4)
DosaAversão/ÓdioRaiva, hostilidade, má vontade
IssāInvejaRessentimento pelo sucesso ou felicidade alheios
MacchariyaAvareza/MesquinhezIncapacidade de partilhar; apego egoísta a posses ou qualidades
KukkuccaPreocupação/RemorsoAnsiedade sobre o mal feito ou o bem não feito
D. Par Prejudicial (2)(Frequentemente surgem juntos)
ThīnaPreguiça/Inércia MentalLentidão, falta de iniciativa mental
MiddhaTorpor/Inércia Física (mentalmente induzida)Sonolência, embotamento dos sentidos e da mente
E. Fator Isolado (1)
VicikicchāDúvida CéticaIndecisão perplexa sobre o Buda, Dhamma, Sangha, o caminho
IV. Benéficos (25)(Sobhana) – Acompanham consciências benéficas e algumas resultantes/funcionais belas
A. Universais Benéficos (19)(Sobhana-sādhāraṇa) – Comuns a todas as consciências belas
SaddhāFé/ConfiançaConfiança convicta no Buda, Dhamma, Sangha e na lei do kamma
SatiAtenção PlenaRecordação, presença mental, não-esquecimento do objeto
HiriVergonha MoralRepugnância intrínseca ao mal por auto-respeito
OttappaTemor das Consequências MoraisMedo de censura e dos resultados kármicos do mal
AlobhaNão-Ganância/GenerosidadeDesapego, ausência de cobiça
AdosaNão-Aversão/Amor Benevolente (Mettā)Ausência de ódio, benevolência
TatramajjhattatāEquanimidade/Neutralidade MentalEquilíbrio mental, imparcialidade perante os objetos
Kāya-passaddhiTranquilidade dos Agregados MentaisCalma, serenidade dos fatores mentais (excluindo citta)
Citta-passaddhiTranquilidade da ConsciênciaCalma, serenidade da consciência (citta)
Kāya-lahutāLeveza dos Agregados MentaisAgilidade, ausência de peso dos fatores mentais
Citta-lahutāLeveza da ConsciênciaAgilidade, ausência de peso da consciência
Kāya-mudutāFlexibilidade dos Agregados MentaisMaleabilidade, ausência de rigidez dos fatores mentais
Citta-mudutāFlexibilidade da ConsciênciaMaleabilidade, ausência de rigidez da consciência
Kāya-kammaññatāAdaptabilidade dos Agregados MentaisAptidão para o trabalho, prontidão dos fatores mentais
Citta-kammaññatāAdaptabilidade da ConsciênciaAptidão para o trabalho, prontidão da consciência
Kāya-pāguññatāProficiência dos Agregados MentaisCompetência, destreza dos fatores mentais
Citta-pāguññatāProficiência da ConsciênciaCompetência, destreza da consciência
KāyujukatāRetidão dos Agregados MentaisVerticalidade, honestidade dos fatores mentais
CittujukatāRetidão da ConsciênciaVerticalidade, honestidade da consciência
B. Abstinências (3)(Virati) – Abstenção de ações prejudiciais específicas
Sammā-vācāRecta PalavraAbster-se de mentira, calúnia, linguagem áspera, conversa fútil
Sammā-kammantaRecta AçãoAbster-se de matar, roubar, má conduta sexual
Sammā-ājīvaRecto Meio de VidaAbster-se de meios de vida prejudiciais
C. Incomensuráveis (2)(Appamaññā) – Atitudes ilimitadas em relação aos seres
KaruṇāCompaixãoDesejo de remover o sofrimento dos outros
MuditāAlegria AltruístaAlegrar-se com a felicidade e sucesso dos outros
D. Faculdade da Sabedoria (1)(Paññindriya)
Paññā (Amoha)Sabedoria (Não-Delusão)Compreensão da realidade como ela é; discernimento

Embora os ensinamentos fundamentais sobre a mente e a importância da sua purificação sejam partilhados por todas as escolas budistas, as diversas tradições desenvolveram abordagens analíticas e ênfases distintas no que diz respeito à natureza e classificação dos fatores mentais. Estas variações refletem diferentes desenvolvimentos filosóficos e metodológicos ao longo da história do budismo. Uma breve análise comparativa revela tanto um núcleo comum de compreensão como uma rica diversidade na exploração da psique humana.

Diversas tradições abidármicas, incluindo Theravada e Sarvāstivāda no budismo antigo, e Yogācāra no Mahayana, apresentam listas de fatores mentais que diferem em número e categorização, embora muitas funções básicas sejam reconhecidas por todas. Outras escolas antigas, como Sautrāntika, também contribuíram para essas classificações.

Mano

Mano (Páli; Sânscrito: manas) é um termo que denota predominantemente o funcionamento intelectual da consciência. É frequentemente traduzido como “mente” no sentido de intelecto ou faculdade racional. Embora no Abhidhamma mano seja por vezes utilizado como sinónimo de viṇṇāṇa (consciência) e citta (estado de consciência), a sua conotação mais específica aponta para a capacidade de pensar, raciocinar e processar informação. Mano é conceptualizado como a sexta base sensorial interna (manāyatana ou manindriya), tendo os objetos mentais (dhammā – ideias, conceitos, memórias, emoções, etc.) como a sua esfera de cognição correspondente, em paralelo com as cinco faculdades sensoriais físicas (olho, ouvido, nariz, língua, corpo) e os seus respetivos objetos.

Uma das funções centrais de mano é atuar como um sensus communis ou integrador da experiência sensorial. Recebe, coordena e processa as informações provenientes das outras cinco faculdades sensoriais físicas. Para além desta função integradora, mano está intrinsecamente envolvido na ideação (manosaṅkhāra) e no pensamento discursivo (manovitakkā), abrangendo atividades mentais como julgar, avaliar e conceptualizar objetos.

A distinção entre mano, citta e viññāṇa, embora subtil e por vezes fluida nos textos, é significativa. Enquanto viññāṇa representa de forma mais geral o campo da consciência sensorial e da reação aos estímulos, e citta denota o aspeto subjetivo e experiencial da consciência, incluindo a sua coloração emocional, mano destaca-se como o elemento mais refinado do pensamento, a faculdade intelectual propriamente dita. Alguns comentadores sugerem que citta é mais “substancial”, sendo a sede da emoção (comparável ao “coração” num sentido figurado), ao passo que mano representa um sentir ou pensar mais subtil e abstrato.

A função de mano como faculdade mental está intimamente ligada ao fator mental (cetasika) da atenção (manasikāra). Manasikāra, sendo um dos sete fatores mentais universais (sabbacitta-sādhāraṇa-cetasika), é responsável por dirigir a mente (mano e os cetasikas que o acompanham) para o objeto de cognição. Sem manasikāra, mano não se fixaria num objeto específico. Manasikāra é comparado ao leme de um navio, que o direciona para o seu destino (o objeto), ou a um cocheiro que guia os cavalos (os estados mentais associados). Assim, mano, enquanto faculdade, depende da função de manasikāra para se engajar com os seus objetos, sejam eles derivados dos sentidos físicos ou puramente mentais.

A literatura Páli apresenta várias frases idiomáticas que ilustram o uso de mano, como “manaṁ karoti“, que significa fixar a mente, prestar atenção ou dar importância a algo, e “manaṁ uppādeti“, que significa tomar uma decisão ou resolver algo. É também importante notar que mano é frequentemente associado à tendência de se apegar ao sentimento de “eu” ou ego, e à procura de satisfação dos desejos (taṇhā).

A conceptualização de mano como a sexta base sensorial, responsável por integrar os dados dos outros cinco sentidos e por processar objetos puramente mentais, coloca-o como um nexo fundamental na construção da nossa experiência do mundo. Não se trata de um recetor passivo de informação, mas de um processador ativo que desempenha um papel crucial na formação de conceitos, no pensamento discursivo e, significativamente, na emergência da noção de “eu” e das reações a ela associadas. A sua função como “porta da mente” (manodvāra) é central para grande parte da nossa vida mental, onde as impressões sensoriais são elaboradas e onde surgem pensamentos, memórias e planos. A compreensão do funcionamento de mano é, portanto, essencial para entender como a mente constrói a sua interpretação da realidade e como as tendências habituais de pensamento e reação podem ser investigadas e transformadas através da prática.

Viññāṇa

Viññāṇa (Páli; Sânscrito: vijñāna) é um termo central na psicologia budista, geralmente traduzido como “consciência”, mas também como “mente” ou “discernimento”. Embora possa ser usado de forma genérica, o seu significado técnico mais preciso aponta para a consciência que conhece, reconhece ou discrimina (vijānāti) os seus objetos. Esta função discriminativa é destacada, por exemplo, no Mahāvedalla Sutta (MN 43), onde se afirma que viññāṇa discrimina se uma sensação é agradável, desagradável ou neutra, enquanto vedanā (sensação) apenas sente, e saññā (perceção) apenas percebe ou nota as marcas do objeto.

A análise mais comum de viññāṇa nos suttas é a sua divisão em seis tipos, cada um correspondendo a uma das seis bases sensoriais internas (ajjhattika-āyatana) e ao seu respetivo objeto externo (bāhira-āyatana):

  1. Consciência visual (cakkhu-viññāṇa): Surge em dependência do olho (cakkhu) e das formas visíveis (rūpa).
  2. Consciência auditiva (sota-viññāṇa): Surge em dependência do ouvido (sota) e dos sons (sadda).
  3. Consciência olfativa (ghāna-viññāṇa): Surge em dependência do nariz (ghāna) e dos odores (gandha).
  4. Consciência gustativa (jivhā-viññāṇa): Surge em dependência da língua (jivhā) e dos sabores (rasa).
  5. Consciência tátil (kāya-viññāṇa): Surge em dependência do corpo (kāya) e dos tangíveis (phoṭṭhabba).
  6. Consciência mental (mano-viññāṇa): Surge em dependência da mente (mano) e dos objetos mentais (dhammā).

Cada um destes tipos de consciência é específico à sua base sensorial e surge apenas quando há contacto (phassa) entre a base sensorial interna, o objeto sensorial externo e a própria consciência.

No processo cognitivo, viññāṇa é um elo fundamental. É através da consciência sensorial que o mundo é experienciado. A emergência de viññāṇa é apresentada como um pré-requisito para o surgimento do desejo (taṇhā). Assim, a compreensão e o desapego em relação a viññāṇa são essenciais para a erradicação do sofrimento. No célebre “Sermão do Fogo” (Ādittapariyāya Sutta, SN 35.28), o Buda adverte que as bases sensoriais, os objetos sensoriais, as consciências sensoriais, o contacto e as sensações daí resultantes, estão em chamas com o fogo da cobiça, da aversão e da ilusão. Para alcançar a libertação, é necessário desenvolver o desencanto (nibbidā) em relação a estes.

Viññāṇa é um dos cinco agregados (pañcakkhandhā), mais especificamente, um dos cinco agregados de apego (upādānakkhandhā) que constituem a totalidade da experiência de um ser e são a base do sofrimento quando agarrados. Os cinco agregados são: forma material (rūpa), sensação (vedanā), perceção (saññā), formações mentais (saṅkhāra) e consciência (viññāṇa). Neste contexto, viññāṇa não se refere apenas à simples consciência dos dados sensoriais, mas implica também um nível de aperceção que reflete memória e reconhecimento, distinguindo-se, por exemplo, da perceção (saññā) que apenas apreende marcas distintivas como cores.

Viññāṇa desempenha um papel central como o terceiro dos doze elos (nidāna) na cadeia da Origem Dependente (paṭiccasamuppāda), que descreve o processo pelo qual o sofrimento surge e se perpetua. Nesta sequência:

  1. Viññāṇa é condicionado pelas formações mentais (saṅkhāra): “saṅkhāra-paccayā viññāṇaṃ“. As intenções e tendências latentes criam a base para a manutenção da consciência.
  2. Viññāṇa e mente-corpo (nāma-rūpa) são interdependentes: “viññāṇa-paccayā nāma-rūpaṃ” (a consciência condiciona mente-corpo) e “nāma-rūpa-paccayā viññāṇaṃ” (mente-corpo condiciona a consciência). Esta interdependência é crucial e ilustra que não há uma entidade primordial, mas um processo de co-surgimento.
  3. Viññāṇa atua como uma “força vital” ou “corrente de consciência” (viññāṇa-sota) que proporciona continuidade através dos renascimentos. É a consciência de renascimento (patisandhi-viññāṇa) que se estabelece num novo ser no momento da conceção, ligando uma vida à seguinte.

A interdependência entre viññāṇa e nāma-rūpa no contexto da Origem Dependente é um dos ensinamentos mais profundos do budismo sobre a natureza da existência. Desafia as noções lineares de causalidade e a crença numa alma ou “eu” transmigrante e imutável. Em vez disso, o que se descreve é um processo dinâmico e contínuo de surgimento condicionado, onde a consciência e o organismo psicofísico se sustentam e se perpetuam mutuamente, impulsionando o ciclo de sofrimento e renascimento (saṃsāra). A analogia dos dois feixes de juncos que se apoiam um no outro, mencionada no Nalakalapiyo Sutta (SN 12.67), ilustra vividamente esta relação recíproca. A compreensão desta dinâmica é vital para desmantelar a crença num “eu” substancial e para entender o mecanismo do renascimento, não como a transmigração de uma alma, mas como a continuação de um fluxo de consciência condicionado por ações passadas e presentes. A libertação implica a interrupção deste ciclo através da cessação das suas condições, nomeadamente a ignorância (avijjā) e o desejo (taṇhā).

Nāma

O termo nāma (Pāli e Sânscrito) designa os aspetos mentais, imateriais ou nominais da experiência, em contraste direto com rūpa, que denota a forma material, física ou corpórea. No contexto da análise da pessoa humana, nāma refere-se ao conjunto dos elementos psicológicos, enquanto rūpa abrange os elementos físicos.

A díade nāmarūpa (mente-matéria, nome-forma) é um dos conceitos centrais para a compreensão budista do ser e da experiência. Nāma e rūpa não são vistos como entidades separadas e independentes, mas como intrinsecamente interdependentes e inseparáveis na constituição de um “ser individual” e dos seus processos vivenciais. Em última análise, o organismo psicofísico que percebemos como um “eu” ou uma “pessoa” nada mais é do que este composto dinâmico de fenómenos mentais (nāma) e materiais (rūpa) em constante fluxo.

Frequentemente, nāmarūpa é analisado através da lente dos cinco agregados (khandhas ou skandhas). Nesta formulação, rūpa corresponde ao primeiro agregado (forma material). Nāma, por sua vez, engloba os quatro agregados mentais restantes:

  1. Vedanā: Sensação (agradável, desagradável ou neutra).
  2. Saññā: Perceção (reconhecimento, identificação, rotulagem).
  3. Saṅkhāra: Formações mentais (volições, intenções, hábitos, tendências e outros fatores mentais ativos).
  4. Viññāṇa: Consciência (o ato de estar ciente de um objeto).

Nāmarūpa figura como o quarto elo (nidāna) na cadeia da Origem Dependente, a fórmula que explica o ciclo de causalidade que perpetua o sofrimento e o renascimento. O seu surgimento é condicionado pela consciência (viññāṇa): “viññāṇa-paccayā nāma-rūpaṃ” (com a consciência como condição, surge mente-matéria). Por sua vez, nāma-rūpa condiciona o surgimento das seis bases sensoriais (saḷāyatana): “nāma-rūpa-paccayā saḷāyatanaṃ“.

É importante notar que, neste contexto específico da Origem Dependente, a composição de nāma é frequentemente definida de forma mais restrita. Para evitar uma redundância lógica (visto que viññāṇa já é o elo precedente que condiciona nāmarūpa), o Abhidhamma e alguns suttas especificam que nāma aqui se refere a um conjunto particular de fatores mentais (cetasikas) que surgem em concomitância com viññāṇa, mas excluindo viññāṇa em si. Estes fatores são tipicamente identificados como: sensação (vedanā), perceção (saññā), volição (cetanā), contacto (phassa) e atenção (manasikāra). Rūpa continua a referir-se à materialidade.

A compreensão profunda da natureza de nāmarūpa – a sua interdependência, impermanência (anicca), insatisfatoriedade inerente (dukkha) e ausência de um eu substancial (anattā) – é fundamental para a prática budista. Este entendimento ajuda a desmantelar a ilusão de um “eu” permanente, independente e controlador, que é a raiz do apego e do sofrimento. A contemplação da natureza transitória dos agregados de nāmarūpa, observando o seu constante surgir e cessar, conduz progressivamente ao desapego e à diminuição do sofrimento.

A definição aparentemente variável de nāma – por vezes abrangendo os quatro agregados mentais (incluindo viññāṇa) e, noutras ocasiões (particularmente na Origem Dependente), referindo-se a um conjunto específico de cetasikas que exclui viññāṇa – não representa uma contradição interna nos ensinamentos budistas. Pelo contrário, ilustra a precisão e a adaptabilidade contextual da terminologia budista para diferentes fins analíticos. No contexto geral da descrição dos constituintes de um ser, nāma pode legitimamente incluir todos os aspetos mentais, incluindo a consciência. Contudo, na fórmula específica da Origem Dependente, a definição mais restrita de nāma (como vedanā, saññā, cetanā, phassa, manasikāra) é crucial para delinear com clareza a sequência causal e a relação de interdependência entre viññāṇa (o fator condicionante) e os outros aspetos mentais e físicos que são condicionados por ele. Se viññāṇa fosse incluído em nāma nesta fórmula particular, a clareza da relação condicional “viññāṇa paccayā nāma-rūpa” seria obscurecida, pois viññāṇa estaria a condicionar-se a si mesmo de forma tautológica. Esta distinção demonstra a sofisticação analítica do pensamento budista, que ajusta as suas definições para servir ao propósito específico da análise em questão, seja ela uma descrição geral dos componentes da personalidade ou uma elucidação da dinâmica causal do sofrimento.

Hadaya

O termo Páli hadaya (Sânscrito: hṛdaya) é comummente traduzido como “coração”. No contexto budista, hadaya transcende a mera referência ao órgão físico, assumindo uma conotação significativamente emocional e mental. É frequentemente entendido como a sede do pensamento e do sentimento, especialmente de emoções intensas e profundas, alinhando-se com o seu uso nas tradições védicas mais antigas.

Para além das emoções fortes, hadaya também se relaciona com estados mentais mais subtis e contemplativos, como em “hadayassa santi” (calma do coração). No desenvolvimento da psicologia do Abhidhamma surge o conceito hadaya-vatthu, ou “base do coração”. Esta não se refere simplesmente ao órgão cardíaco como entendido pela anatomia moderna, mas a uma forma subtil de matéria (rūpa) localizada no coração físico, que serve como base material para o surgimento da consciência mental (mano−viññāṇa) e dos restantes processos mentais que não dependem diretamente dos cinco órgãos sensoriais físicos. O Visuddhimagga lista o hadaya como uma das substâncias do corpo. Esta “base do coração” é considerada o suporte físico para mano-dhātu (elemento mental) e mano-viññāṇa-dhātu (elemento da consciência mental). No sistema Abidhamma, para manter a regra “toda consciência precisa de uma base material” (exceto em certos casos imateriais condicionados de modo especial), o hadaya‑vatthu cumpre esse papel para o mental não ligado aos cinco sentidos. . É uma doutrina característica do Abhidhamma e dos seus comentários, e que não aparece nos suttas.

É importante notar que hadaya pode, de facto, referir-se ao órgão cardíaco físico em certos contextos anatómicos, contudo, o seu uso mais frequente e significativo na psicologia budista é como a sede da vida mental e emocional, muitas vezes funcionando como um sinónimo poético ou enfático de citta, especialmente quando se pretende realçar a profundidade ou a intensidade da experiência mental.

A introdução do conceito de hadaya−vatthu no Abhidhamma como a base física da mente (distinta do cérebro, que não é explicitamente identificado com esta função nos textos Páli canónicos) é uma tentativa de ancorar os fenómenos mentais (nāma) numa base material (rūpa), em consonância com o dualismo nāma-rūpa. Esta conceptualização reflete, possivelmente, uma compreensão cultural mais ampla, prevalente na Índia antiga, que via o coração como o centro nevrálgico da emoção e da cognição, uma perspetiva que difere consideravelmente da visão neurocêntrica predominante na ciência moderna. Não se trata de uma identificação simplista da mente com o órgão cardíaco biológico, mas da postulação de uma “matéria sensível” específica, localizada no coração, que serve de suporte indispensável para o desenrolar dos processos mentais não diretamente ligados aos cinco sentidos externos. Esta teoria permite ao Abhidhamma manter a coerência do seu sistema explicativo da interdependência entre mente e matéria.

O Processo Cognitivo (Citta-Vīthi)

A mente, na perspetiva budista, não é uma entidade estática, mas um fluxo dinâmico de eventos mentais interconectados. A interação entre os diferentes aspetos da mente – citta, mano, viññāṇa – e os fatores mentais (cetasikas) que os acompanham, dá origem aos complexos processos cognitivos e aos diversos estados de consciência, incluindo os estados meditativos profundos.

O Abhidhamma oferece uma análise extraordinariamente detalhada do processo cognitivo, conhecido como citta-vīthi (literalmente, “estrada” ou “curso da consciência”). Este modelo descreve como a consciência experiencia um objeto através de uma sequência rápida de momentos de consciência distintos (cittakkhaṇa), cada um com uma função específica. Embora a experiência nos pareça contínua, o Abhidhamma revela que ela é composta por estes momentos discretos que surgem e cessam a uma velocidade prodigiosa – biliões num piscar de olhos. Um processo cognitivo completo através de uma das cinco portas sensoriais físicas (pañcadvāra) é classicamente descrito como consistindo em 17 momentos de citta, desde o impacto inicial do estímulo até ao seu registo final.

Processo da Porta Sensorial (Pañcadvāravīthi) – Os 17 Momentos

Quando um objeto sensorial (uma forma visível, um som, um odor, um sabor ou um tangível) colide com a respetiva faculdade sensorial, desencadeia-se uma pañcadvāravīthi. A sequência típica é a seguinte:

  1. Atīta-bhavanga (Bhavanga Passado): Um momento de bhavanga (consciência subliminar ou fluxo vital) que já cessou quando o objeto sensorial entra no alcance da porta sensorial.
  2. Bhavanga-calana (Bhavanga Vibratório): O fluxo de bhavanga é perturbado pelo impacto do objeto, fazendo-o vibrar por um momento.
  3. Bhavanga-upaccheda (Bhavanga Interrompido): O fluxo de bhavanga é interrompido, cessando para dar lugar ao processo cognitivo ativo.
  4. Pañcadvārāvajana (Advertência na Porta dos Cinco Sentidos): Um citta funcional que se vira para o objeto na porta sensorial relevante (olho, ouvido, etc.), “advertindo” ou tomando conhecimento da sua presença.
  5. Pañca-viññāṇa (Consciência Sensorial): Um dos cinco tipos de consciência sensorial (e.g., cakkhu-viññāṇa – consciência visual; sota-viññāṇa – consciência auditiva, etc.). Este citta é um resultado (vipāka) de kamma passado e tem a função simples de ver a forma, ouvir o som, etc., sem ainda identificar ou reagir.
  6. Sampaṭicchana (Consciência Receptora): Um citta resultante que recebe o objeto que foi apreendido pela consciência sensorial.
  7. Santīraṇa (Consciência Investigadora): Um citta resultante que investiga ou examina brevemente o objeto recebido.
  8. Votthapana (ou Vavatthāna) (Consciência Determinante): Um citta funcional (especificamente, mano-dhātu ou elemento mental) que determina a natureza do objeto e prepara a resposta subsequente. É neste ponto que a transição para uma resposta mais elaborada ocorre.
  9. Javana (Impulsão – 7 momentos): Uma sequência de sete momentos de citta idênticos em função, que “correm” sobre o objeto. É durante estes momentos de javana que ocorre a resposta ativa e eticamente significativa ao objeto. Estes cittas podem ser benéficos (kusala) ou prejudiciais (akusala), ou, no caso de um Arahant, funcionais (kiriya). É aqui que o kamma é gerado.
  10. Tadārammaṇa (Consciência Registadora – 2 momentos): Literalmente “tendo aquele objeto”. Se o objeto sensorial for suficientemente intenso e certas outras condições estiverem presentes (como ocorrer no plano sensorial e não ser um citta de jhāna), estes dois momentos de citta resultante surgem, registando ou “saboreando” o rescaldo do processo de javana antes que a mente retorne ao estado de bhavanga.

Processo da Porta da Mente (Manodvāravīthi)

Este processo ocorre quando o objeto de cognição é puramente mental (uma ideia, memória, conceito) ou quando a mente reflete sobre uma experiência sensorial anterior. É geralmente mais curto do que o processo da porta sensorial, tipicamente com 10 a 12 cittas, pois omite os momentos de consciência sensorial e recepção específicos das portas físicas. A sequência usual é:

  1. Bhavanga-calana
  2. Bhavanga-upaccheda
  3. Manodvārāvajana (Advertência na Porta da Mente): Um citta funcional que se vira para o objeto mental.
  4. Javana (7 momentos): Semelhante ao processo da porta sensorial, onde ocorre a reação kármica.
  5. Tadārammaṇa (2 momentos): Opcional, dependendo das condições.

O Papel de Mano e dos Cetasikas em cada etapa

Mano, na sua função de manodvārāvajana (no processo da porta da mente) ou como o votthapanacitta (no processo da porta sensorial, que é funcionalmente um mano-dhātu), desempenha um papel crucial na advertência inicial ao objeto mental e na determinação da resposta. Os sete cetasikas universais (phassa, vedanā, saññā, cetanā, ekaggatā, jīvitindriya, manasikāra) estão presentes em cada um destes momentos de citta. Outros cetasikas – ocasionais, prejudiciais ou benéficos – surgem dependendo da natureza do citta em cada etapa, especialmente durante os momentos de javana. Por exemplo, se a resposta de javana for de raiva, os cetasikas prejudiciais como dosa (aversão), moha (ignorância), ahirika (falta de pudor moral), anottappa (falta de temor moral) e uddhacca (inquietação) estarão presentes. Se a resposta for de generosidade, os cetasikas benéficos como alobha (não-ganância), adosa (não-aversão), amoha (não-ilusão; isto é, paññā quando se manifesta como sabedoria), saddhā (confiança), sati (atenção plena), hiri (pudor moral), ottappa (temor moral), tatramajjhattatā (equanimidade imparcial), passaddhi (serenidade de corpo/mente), lahutā (leveza), mudutā (maleabilidade), kammatā (prontidão/operosidade) e pāguññatā (proficiência) estarão ativos, conforme o tipo de javana kusala.

O modelo do citta-vīthi oferece uma visão penetrante sobre a natureza construída e momentânea da nossa realidade percebida. A experiência, que subjetivamente nos parece um fluxo contínuo e unificado, é, de acordo com esta análise, uma sucessão incrivelmente rápida de momentos de consciência discretos e condicionados. A identificação dos momentos de javana como o locus onde o kamma é gerado possui implicações profundas para a prática espiritual. É precisamente neste ponto crítico do processo cognitivo que a atenção plena (sati) e a sabedoria (paññā) podem intervir. Ao compreender que a reação kármica não é instantânea nem uma propriedade inerente de um “eu” fixo, mas ocorre numa fase específica e identificável do processo mental, o praticante ganha a oportunidade de observar o desenrolar deste processo e, com treino, de transformar respostas habituais e prejudiciais em respostas conscientes, deliberadas e hábeis. Esta capacidade de intervir no fluxo da consciência, modulando os momentos de javana, é fundamental para o caminho budista de purificação e libertação.

Aplicações Práticas para o Desenvolvimento Mental

A análise detalhada da mente e dos fatores mentais no budismo, particularmente no Abhidhamma, não é um fim em si mesma, mas serve como um fundamento robusto para aplicações práticas destinadas ao desenvolvimento mental e à libertação do sofrimento (dukkha). Este conhecimento encontra a sua expressão mais significativa na meditação (bhāvanā) e na sua aplicação na vida diária.

Na Meditação (Bhāvanā)

A meditação é o laboratório onde a compreensão teórica da mente e dos cetasikas se torna experiencial.

Desenvolvimento da Atenção Plena (Sati) para Reconhecer e Transformar Cetasikas

A atenção plena (sati), ela própria um fator mental benéfico (sobhanacetasika), é a pedra angular da meditação budista. É a capacidade de manter uma consciência clara e sem julgamento do que está a ocorrer no momento presente, seja uma sensação física, um sentimento, um estado mental ou um objeto mental. Através do treino em sati, o meditador aprende a reconhecer a presença de cetasikas prejudiciais – como os cinco obstáculos (nīvaraṇa): desejo sensual, má vontade, preguiça e torpor, inquietação e remorso, e dúvida cética – assim que eles surgem na mente. Da mesma forma, aprende a reconhecer e a apreciar o surgimento de cetasikas benéficos. O Satipaṭṭhāna Sutta (MN 10, DN 22) é o discurso que estabelece as bases para esta prática, ensinando a contemplação do corpo, das sensações, da mente (estados de consciência) e dos objetos mentais (incluindo os cetasikas). Uma vez reconhecido um estado mental prejudicial, a atenção plena permite criar um espaço para não reagir impulsivamente, possibilitando a aplicação de antídotos ou simplesmente a observação da sua natureza impermanente até que se dissipe.

Observação da Mente e dos Fatores Mentais em Vipassanā

A meditação de desenvolvimento de insight (vipassanā-bhāvanā) envolve a observação direta, equânime e atenta dos fenómenos mentais (nāma) e físicos (rūpa) à medida que surgem e cessam no momento presente. O conhecimento do Abhidhamma, com a sua taxonomia dos cittas e cetasikas, fornece um “mapa” analítico que auxilia o meditador a identificar e compreender a natureza destes fenómenos. Ao observar, por exemplo, um pensamento de raiva, o meditador pode reconhecê-lo não como “a minha raiva”, mas como o surgimento de um akusalacitta acompanhado por cetasikas como dosa (aversão), moha (ignorância), etc., todos eles impermanentes, insatisfatórios e desprovidos de um “eu” substancial. Essa visão direta, apoiada por sati e paññā, promove a desidentificação e a libertação progressiva.

Cultivo de Estados Mentais Benéficos

A meditação não se limita à observação passiva; inclui também o cultivo ativo de qualidades positivas. A meditação da calma (samatha-bhāvanā) visa desenvolver estados de concentração profunda (jhāna), que são inerentemente benéficos e caracterizados pela presença proeminente de cetasikas como pīti (êxtase), sukha (felicidade) e ekaggatā (unificação mental). Práticas específicas como a meditação do amor benevolente (mettā-bhāvanā) e as outras moradas sublimes (brahmavihāra – compaixão, alegria altruísta, equanimidade) são explicitamente desenhadas para cultivar os cetasikas benéficos de adosa (não-aversão), karuṇā (compaixão), muditā (alegria altruísta) e upekkhā (equanimidade).

A aplicação prática do conhecimento abhidhammico na meditação transforma o que poderia ser uma análise puramente intelectual numa ferramenta experiencial e transformadora. A capacidade de, durante a meditação, nomear (mentalmente) e identificar cetasikas específicos à medida que surgem – por exemplo, reconhecer “isto é uddhacca (inquietação)” ou “isto é pīti (êxtase)” – aguça a introspecção e pode acelerar significativamente o processo de purificação mental. O meditador deixa de ser uma vítima passiva dos seus estados mentais e torna-se um observador conhecedor e, eventualmente, um modelador consciente da sua paisagem interior. Esta clareza analítica, quando combinada com a prática sustentada, permite uma compreensão mais profunda da mecânica da mente e uma maior eficácia na erradicação das impurezas e no cultivo das qualidades conducentes à libertação.

É sempre no entanto importante voltar a repetir que conhecer todos estes detalhes específicos pode ser um apoio mas não é imprescindível para o meditador, e dependendo da pessoa pode ser contraproducente, além de que existem diferentes abordagens e estratégias igualmente válidas.

Na Vida Diária

A relevância da compreensão da mente e dos fatores mentais estende-se para além da almofada de meditação, permeando todos os aspetos da vida quotidiana. A prática budista visa uma transformação integral do ser, e o discernimento dos estados mentais é uma ferramenta que ajuda nesse processo.

Reconhecimento e Gestão de Estados Mentais no Quotidiano

O conhecimento dos cetasikas permite ao indivíduo desenvolver uma maior sensibilidade para com os seus próprios estados internos à medida que estes surgem nas interações diárias e em resposta a várias situações. Torna-se possível identificar a presença subtil ou manifesta da ganância (lobha), da raiva (dosa), da inveja (issā), do orgulho (māna), ou, inversamente, da generosidade (alobha/cāga), da paciência (khanti/adosa), da alegria pelos outros (muditā). Este reconhecimento consciente no calor do momento é o primeiro e crucial passo para evitar ser arrastado por emoções negativas e para escolher respostas mais ponderadas, éticas e hábeis. Por exemplo, ao sentir a irritação a surgir numa discussão, o reconhecimento de dosa pode criar uma pausa, permitindo uma resposta menos reativa.

Cultivo de Qualidades Positivas

A vida diária oferece inúmeras oportunidades para o cultivo ativo de qualidades mentais benéficas. A prática formal dos brahmavihāras (amor benevolente, compaixão, alegria altruísta e equanimidade) pode ser estendida às relações interpessoais, transformando a maneira como interagimos com familiares, amigos, colegas e até estranhos. O desenvolvimento consciente de hiri (vergonha moral intrínseca) e ottappa (temor das consequências do mal) atua como “guardiões do mundo” (lokapāladhamma), protegendo o indivíduo e a sociedade de ações prejudiciais e promovendo a integridade pessoal e a harmonia comunitária. Da mesma forma, qualidades como saddhā (fé ou confiança esclarecida), viriya (energia ou esforço correto), alobha (não-ganância), adosa (não-aversão) e paññā (sabedoria) podem ser intencionalmente cultivadas nas diversas circunstâncias da vida, desde decisões financeiras até à forma como se lida com desafios e sucessos.

Superação de Obstáculos (Nīvaraṇa)

Os cinco obstáculos (nīvaraṇa) – desejo sensual (kāmacchanda), má vontade (vyāpāda), preguiça e torpor (thīna-middha), inquietação e remorso (uddhacca-kukkucca), e dúvida cética (vicikicchā) – não se manifestam apenas durante a meditação formal, mas são também entraves significativos à clareza mental, à paz interior e à conduta ética na vida diária. A compreensão destes obstáculos como constelações específicas de akusalacetasikas ajuda a identificar as suas causas subjacentes e a aplicar os antídotos apropriados. Por exemplo, o desenvolvimento ativo de mettā (amor benevolente) contraria a má vontade, e o despertar da energia (viriya) combate a preguiça e o torpor.

A prática budista, portanto, não se confina a momentos isolados de contemplação, mas visa uma integração holística dos seus princípios na existência quotidiana. A aplicação da compreensão dos estados mentais e dos seus fatores constituintes no dia-a-dia contribui para uma transformação autêntica e duradoura. O reconhecimento dos cetasikas no momento em que surgem, especialmente os prejudiciais, permite uma “pausa consciente”. Esta pausa, por mais breve que seja, pode interromper os ciclos de reatividade automática e prejudicial, abrindo espaço para uma resposta mais alinhada com os valores éticos e com o objetivo da libertação. A vida diária torna-se, assim, um campo de treino contínuo para a atenção plena, a sabedoria e o cultivo de um coração e mente mais puros e equilibrados, conforme ilustrado pela capacidade de transformar reações iniciais baseadas em hábitos/tendências (gati) e fatores prejudiciais em ações morais e benéficas através da reflexão e do cultivo intencional de fatores benéficos.

Conclusão

A exploração budista da mente e dos seus fatores constituintes revela um sistema psicológico e filosófico de extraordinária profundidade e sofisticação. A análise detalhada de todos esses componentes, particularmente proeminente no Abhidhamma, visa desvelar os mecanismos subjacentes ao sofrimento e ao ciclo de renascimentos, bem como o caminho para a sua cessação – nibbāna.

É importante enfatizar a interação sinérgica entre o estudo teórico (pariyatti) dos ensinamentos sobre a mente e a sua aplicação prática (paṭipatti). A análise intelectual, por mais sofisticada que seja, só atinge o seu pleno potencial libertador quando validada e aprofundada pela experiência direta da meditação e pela sua integração na conduta diária. É esta combinação que conduz à realização penetrante (paṭivedha) da verdadeira natureza da mente e à libertação final.

___
Nota:

  1. Existem variadas traduções desse verso. Essa tradução em específico é da edição do Dhammapada traduzido do páli para o inglês por Acharya Buddharakkhita, com tradução para o português por Ajahn Dhammiko, e publicado pelo Mosteiro Sumedharama. ↩︎

Referências: The Abhidhamma in Practice (Access to Insight); Introduction to the Abhidhamma (Abhidhamma.org); Cetasikas (Buddho.org); Reality and Ethics in the Abhidhamma (Buddho.org); The Cognitive Process According to the Abhidhamma (Buddho.org); Abhidhamma in Theravada Buddhism (drarisworld); Mental Defilements in Theravada Buddhism (drarisworld); Mental factor of attention (manasikāra) in Theravada Buddhism (drarisworld); Abhidharma (Encyclopedia.com); The Theravada Abhidhamma Its Inquiry into the Nature of Conditioned Reality (IBC-elibrary); Buddhist Psychology: An Inquiry into the Analysis and Theory of Mind in Pali Literature (PhilArchive); The Fifty-One Mental Events (Plum Blossom Sangha); Citta Vithi – Fundamental Sensory Unit (Pure Dhamma); Citta Vithi – Processing Of Pancadvara And Manodvara Sense Inputs (Pure Dhamma); A comparative study on the concept of ”mental disorder” as revealed in Buddhist psychology and abnormal psychology (ResearchGate); Vijñaptimātratā and the Abhidharma context of rarly Yogācāra (ResearchGate); Difference Between Citta, Mano and Manokamma (Sasanarakkha.org); Nature Of Citta, Mano And Viññāṅa (UNDV); Mental factors (Buddhism) (Wikipedia); The Real Existents (The Wisdom Experience); Five Groups or Aggregates (Wisdom Library).

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