Uma perceção comum é que o Buda frequentemente permanecia em silêncio quando confrontado com questões sobre a natureza última da realidade. Esta ideia popular sugere que o seu silêncio derivava de várias razões, desde uma tentativa de evitar a especulação ociosa até uma admissão de agnosticismo ou mesmo de desconhecimento das respostas. Mas será essa uma perceção correta?
Conteúdo:
- Introdução
- As 10 questões não respondidas
- As 14 questões na tradição Mahayana e o Catuṣkoṭi
- As razões para “não responder”
- O sermão da flor: a transmissão sem palavras
- O mito da “recusa generalizada”
- A mestria pedagógica do Buda
- Conclusão
Introdução
O Buda era de facto um defensor do silêncio em certas circunstancias, como a alternativa à tagarelice ou por exemplo perante a raiva e, em certos períodos de retiro provavelmente não falava (MN 26, SN 45.11). Ele realmente também absteve-se de responder a um conjunto especifico de questões de natureza metafísica, conhecidas na tradição Páli como avyākata, que significa “não declarado”, “não explicado”, ou “indeterminado”. No entanto, uma visão popular, embora simplista, sugere que o Buda evitava sistematicamente responder a todas as questões de natureza metafísica, como por exemplo sobre a existência ou não de um Deus criador. Essa visão está longe da realidade, pois exceto um grupo de questões muito específicas que o Buda evitou responder por motivos que veremos mais adiante, o Buda sempre respondia ao que lhe era perguntado.
A ideia que o Buda evitava responder a qualquer tipo de questão metafísica, como argumentado por Bhante Dhammika, constitui um “mito” moderno que pode ter origem num desejo de cooptar o Buda para crenças particulares ou numa falha em examinar as fontes canónicas com a devida atenção.
As 10 questões não respondidas
Sobre a eternidade e finitude do mundo (quatro questões):
- O mundo (loko) é eterno? (sassato loko ti)
- O mundo não é eterno? (asassato loko ti)
- O mundo é finito (espacialmente)? (antavā loko ti)
- O mundo é infinito (espacialmente)? (anantavā loko ti)
Sobre a identidade ou diferença entre alma (jīva) e corpo (sarīra) (duas questões):
- A alma é o mesmo que o corpo? (taṃ jīvaṃ taṃ sarīran ti)
- A alma é uma coisa e o corpo outra? (aññaṃ jīvaṃ aññaṃ sarīran ti)
Sobre a existência do Tathāgata (epíteto que o Buda usa para se referir a si mesmo) após a morte (quatro questões):
- O Tathāgata existe após a morte? (hoti tathāgato param maraṇā ti)
- O Tathāgata não existe após a morte? (na hoti tathāgato param maraṇā ti)
- O Tathāgata existe e não existe após a morte? (hoti ca na hoti ca tathāgato param maraṇā ti)
- O Tathāgata nem existe nem não existe após a morte? (neva hoti na na hoti tathāgato param maraṇā ti)
Estas questões aparecem no Aggivacchagotta Sutta (MN 72), no qual Vacchagotta, um asceta errante, indaga o Buda sobre esses temas. Mas mesmo sem uma resposta cabal, o Buda justificou a sua posição dizendo: “A ideia especulativa de que o mundo não é eterno… que o mundo é finito… que o mundo é infinito… que a alma e o corpo são a mesma coisa… que a alma é uma coisa e o corpo outra… que após a morte um Tathagata existe… que após a morte um Tathagata não existe… que após a morte um Tathagata tanto existe como não existe… que após a morte um Tathagata nem existe, nem não existe é uma ideia emaranhada, uma ideia confusa, uma ideia contorcida, uma ideia vacilante, uma ideia que agrilhoa. Ela está atormentada pelo sofrimento, pela aflição, pelo desespero e pela febre e ela não conduz ao desencantamento, ao desapego, à cessação, à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nibbāna. Vendo esse perigo, eu não defendo nenhuma dessas opiniões especulativas.”
Numa outra ocasião, descrita no Ānanda Sutta (SN 44.10), Vacchagotta perguntou ao Buda: “Existe um eu”? O Buda permaneceu em silêncio. Vacchagotta continuou: “Então não há eu?” E novamente o Buda ficou em silêncio e, Vacchagotta partiu. Ānanda pergunta então ao Buda porque não respondeu ao errante Vacchagotta se existe ou não um eu. Ele respondeu:
“Ānanda, se eu, tendo sido perguntado pelo errante Vacchagotta se existe um eu, tivesse respondido que existe um eu, isso estaria conforme com aqueles brâmanes e contemplativos que são os expoentes da doutrina eternalista (isto é, a ideia de que existe uma alma eterna). E se eu… tivesse respondido que não existe um eu, isso estaria conforme com aqueles brâmanes e contemplativos que são os expoentes do niilismo (isto é de que a morte é a aniquilação da experiência). Se eu… tivesse respondido que existe um eu, isso seria compatível com o surgimento do conhecimento de que todos os fenómenos são não-eu?” Ānanda respondeu que não e o Buda continuou: “E se eu… tivesse respondido que não existe um eu, o confuso Vacchagotta ficaria ainda mais confuso: ‘Aquele eu que eu costumava ter, agora não existe?'”
Mais uma vez, fica claro porque o Buda permaneceu em silêncio, ele não queria ser identificado com nenhum ponto de vista filosófico particular e não queria confundir ainda mais quem fez a pergunta.
As 14 questões na tradição Mahayana e o Catuṣkoṭi
Enquanto que no Cânone Páli estão presentes dez questões não respondidas, as tradições textuais sânscritas, particularmente associadas ao florescimento do Mahayana, expandem frequentemente esta lista para catorze questões. Esta expansão não introduz novos temas, mas reflete uma aplicação mais sistemática e explícita do catuṣkoṭi, ou tetralema, à formulação das mesmas questões.
O catuṣkoṭi é uma estrutura lógica que examina quatro alternativas possíveis para uma dada proposição (P):
- P é verdadeiro (afirmação).
- P não é verdadeiro (negação).
- P é e não é verdadeiro (conjunção de afirmação e negação).
- P nem é, nem não é verdadeiro (negação de ambas, afirmação e negação).
É de notar que o Cânone Páli já aplica o tetralema completo às questões sobre o Tathāgata após a morte, mas geralmente omite a terceira e quarta alternativas para as questões cosmológicas.
| Tema da Questão | Formulação no Cânone Páli (10 Questões) | Formulação nas Tradições Sânscritas (14 Questões com Catuṣkoṭi) |
| Eternidade do Mundo | 1. O mundo é eterno? 2. O mundo não é eterno? | 1. O mundo é eterno? 2. O mundo não é eterno? 3. O mundo é ambos eterno e não eterno? 4. O mundo não é nem eterno nem não eterno? |
| Finitude do Mundo | 3. O mundo é finito? 4. O mundo não é finito? | 5. O mundo é finito? 6. O mundo não é finito? 7. O mundo é ambos finito e não finito? 8. O mundo não é nem finito nem não finito? |
| Alma e Corpo | 5. A alma é o mesmo que o corpo? 6. A alma é uma coisa e o corpo outra? | 9. A alma (ou o eu) é idêntica ao corpo? 10. A alma (ou o eu) é diferente do corpo? |
| Tathāgata após a Morte | 7. O Tathāgata existe após a morte? 8. O Tathāgata não existe após a morte? 9. O Tathāgata existe e não existe após a morte? 10. O Tathāgata nem existe nem não existe após a morte? | 11. O Tathāgata existe após a morte? 12. O Tathāgata não existe após a morte? 13. O Tathāgata existe e não existe após a morte? 14. O Tathāgata nem existe nem não existe após a morte? |
Esta formalização do catuṣkoṭi tornou-se uma ferramenta analítica importante na filosofia Madhyamaka, fundada por Nāgārjuna. Nāgārjuna utilizou esta lógica de quatro cantos para demonstrar a vacuidade (śūnyatā) de todos os fenómenos e a insustentabilidade de quaisquer visões fixas (diṭṭhi) sobre a realidade última. A recusa do Buda em subscrever qualquer uma das alternativas do tetralema para estas questões indeterminadas é interpretada, na perspetiva Madhyamaka, como uma indicação da natureza inefável da realidade e da libertação, que transcende as categorias limitadas do pensamento conceptual. A expansão para catorze questões, portanto, não representa apenas um exercício de exaustão lógica, mas serve para sublinhar de forma ainda mais enfática a inadequação da linguagem e dos conceitos para apreender a natureza da realidade última ou o estado de um ser plenamente liberto. A realidade em questão, como o estado do Tathāgata após a morte final, não se enquadra em nenhuma destas categorias. É, como os textos indicam, “inefável” e “para além da esfera da razão” (atakkāvacara).
A tradição Vajrayana, que se desenvolve sobre os alicerces filosóficos do Mahayana, herda esta compreensão da vacuidade e dos limites da conceptualização.
As razões para “não responder”
A decisão do Buda de não responder a essas dez ou catorze perguntas não é um sinal de desconhecimento. Diversas razões fundamentam o seu posicionamento, sendo a sua preocupação primordial a libertação do sofrimento (dukkha). Nas secções acima já tocamos um pouco nas razões para o seu silêncio, mas vamos aprofundar um pouco mais neste secção.
A mais célebre justificação encontra-se na parábola da flecha envenenada, narrada no Cūḷamālunkya Sutta (MN 63), em que Mālunkyāputta ameaça abandonar a vida monástica caso não fique esclarecido. Nesse sutta, Buda compara a situação de quem exige respostas às questões metafísicas antes de praticar o Dhamma à de um homem ferido por uma flecha embebida em veneno. Este homem, em vez de permitir que lhe removam a flecha e tratem a ferida imediatamente, insiste em saber quem o atingiu, a que casta pertencia o arqueiro, qual a sua altura e cor de pele, de que tipo de madeira era feito o arco, qual a natureza da pena da flecha, etc. Buda salienta que o homem morreria antes de obter todas essas informações. A analogia é clara: as questões metafísicas são como as perguntas do homem ferido; o que é verdadeiramente urgente e essencial é remover a “flecha” do sofrimento através da prática do Nobre Caminho Óctuplo. A parábola não nega necessariamente a validade teórica das questões, mas questiona a sua relevância imediata e a sua prioridade face ao problema existencial premente do sofrimento. É uma questão de foco e de economia de esforço espiritual.
Intimamente ligada a esta parábola está a razão da inutilidade de tais especulações para o fim do sofrimento. O Buda considerava que o conhecimento resultante destas investigações não contribuía para o desenvolvimento ético e mental, para a sabedoria libertadora, nem para alcançar o Nibbāna. No próprio MN 63, ele afirma explicitamente: “E por que não declarei isso [as dez questões]? Porque não é benéfico, não pertence aos fundamentos da vida santa, não conduz ao desencantamento, ao desapego, à cessação, à paz, ao conhecimento direto, ao despertar, ao Nibbāna. É por isso que não o declarei.”.
Ademais, algumas das questões, especialmente as relativas à existência do Tathāgata após a morte (parinibbāna), tocam em realidades que transcendem as categorias do pensamento e da linguagem convencionais. O Nibbāna, o estado de libertação final, e, por extensão, o estado de um ser que o atingiu, é descrito nos textos como “profundo, imensurável, difícil de sondar como o grande oceano” (gambhiro appameyyo duppariyogāho seyyathāpi mahāsamuddo). Tentar enquadrá-lo nos termos binários de “existe” ou “não existe” seria redutor e enganoso. A linguagem humana, desenvolvida para descrever o mundo fenoménico e condicionado, é inadequada para expressar o incondicionado (asaṅkhata). Aliás, falar de Nibbāna como um “estado”, por si só já não é coreto, estes são os limites da linguagem, é como tentar explicar a alguém que nunca provou o chocolate qual o seu sabor, é impossível, podemos dar algumas indicações, como dizer que é doce, mas a pessoa nunca vai realmente saber qual o seu sabor sem provar.
O silêncio de Buda sobre estes aspetos não é um agnosticismo, mas um reconhecimento honesto dos limites da descrição conceptual. Qualquer tentativa de descrever o inefável em termos convencionais levaria inevitavelmente a mal-entendidos e a novas formas de apego – apego a uma descrição. O silêncio, neste contexto, aponta para a necessidade de uma compreensão experiencial.
Outra razão é o perigo do emaranhado das visões especulativas (diṭṭhi). O termo diṭṭhi refere-se a visões, opiniões ou especulações teóricas. O apego a estas visões (diṭṭhi-upādāna) é considerado um dos grilhões (saṃyojana) que prendem os seres ao ciclo de renascimentos, o saṃsāra. Responder de forma definitiva às avyākata poderia facilmente levar ao surgimento de novas diṭṭhi, solidificando crenças dogmáticas e, consequentemente, gerando mais apego, conflito e disputa. O Brahmajāla Sutta (DN 1), por exemplo, cataloga 62 formas de visões erróneas, muitas delas diretamente relacionadas com as temáticas das avyākata. O problema não é ter uma perspetiva, mas o apego a ela, transformando-a numa identidade ou numa verdade absoluta e imutável. Ao não declarar, o Buda corta pela raiz a proliferação de tais apegos, incentivando uma atitude de não-apego epistémico.
No Aggivacchagotta Sutta (MN 72), após Vacchagotta expressar confusão pelo facto de o Buda não adotar nenhuma das visões sobre o Tathāgata após a morte, o Buda utiliza a poderosa analogia do fogo extinto. Ele pergunta a Vacchagotta: se um fogo à sua frente se extinguisse, para onde teria ido? para norte, sul, este ou oeste? Vacchagotta admite que a pergunta não se aplicaria, pois o fogo extinguiu-se devido à falta de combustível. O Buda então explica que, da mesma forma, o Tathāgata é aquele que abandonou os cinco agregados (khandhas) que constituem a base para a designação de um “eu” e para a existência condicionada. Tendo estes agregados sido erradicados, tal como o combustível do fogo, o Tathāgata é “profundo, imensurável, difícil de sondar como o grande oceano”. As categorias “existe”, “não existe”, “existe e não existe”, “nem existe nem não existe” já não se aplicam. A analogia do fogo extinto não apenas ilustra a inadequação das perguntas, mas também aponta subtilmente para a natureza do Nibbāna como a cessação das condições que dão origem ao ser fenoménico. O “problema” não está na resposta, mas na pergunta, que pressupõe um quadro ontológico que já não se aplica ao ser liberto, pois a base para essa designação cessou.
Um dos discursos mais elucidativos sobre a amplitude do conhecimento do Buda e o motivo para não abordar qualquer tema está no Simsapa Sutta (SN 56.31). Neste sutta, o Buda, encontrando-se num bosque de árvores simsapa, apanha um punhado de folhas e pergunta aos monges presentes se são mais numerosas as folhas na sua mão ou as folhas na floresta. Os monges respondem, naturalmente, que as folhas na floresta são muito mais numerosas.
O Buda então explica: “Da mesma forma, monges, há muito mais coisas que eu descobri, mas não vos revelei. O que eu vos revelei é apenas um pouco.” A razão para esta seletividade, continua ele, é que o conhecimento não revelado “não está relacionado com o objetivo, não é fundamental para a vida santa, não conduz ao desencantamento, ao desapego, à cessação, à tranquilidade, ao conhecimento superior, à iluminação ou ao Nibbāna.” Em contraste, aquilo que ele escolheu revelar são as Quatro Nobres Verdades: “O que eu revelei é: ‘Isto é Sofrimento, esta é a Origem do Sofrimento, esta é a Cessação do Sofrimento, e este é o Caminho que leva à Cessação do Sofrimento'”.
O sermão da flor: a transmissão sem palavras
A tradição Chan/Zen enfatiza um outro episódio em que o Buda teria ficado em silêncio.
Diz-se que, um dia, o Buda reuniu a assembleia no Pico dos Abutres para um ensinamento. Em silêncio, sem pronunciar qualquer palavra, ergueu uma flor nas mãos. A multidão permaneceu confusa. Apenas Mahākāśyapa sorriu levemente. O Buda então declarou: “Tenho o tesouro do verdadeiro Dharma, o olho do Dharma, a maravilhosa mente do nirvana, a forma verdadeira sem forma, a sutil porta do Dharma que não depende de palavras e letras, transmitida fora das escrituras. Entrego-a agora a Mahākāśyapa.” Assim, segundo a tradição Chan/Zen, ocorreu a transmissão mente a mente, de coração a coração (ishin-denshin em japonês), sem mediação de discursos.
Na sequência desta narrativa, Mahākāśyapa é reconhecido como o primeiro patriarca na linhagem que mais tarde na China viria a chamar-se Chan e, no Japão, Zen. Essa transmissão não nega os suttas, mas afirma que a realização do Dhamma (Dharma) se dá por insight direto, para além de conceitos.
Esta história não aparece nos suttas do Cânone Páli nem, ao que se sabe, nos Āgamas chineses. Ela surge em textos do Chan na China medieval. É uma construção hagiográfica para afirmar a legitimidade da linhagem do Chan como uma transmissão direta do despertar.
A lição central é que a sabedoria liberadora (paññā) não se reduz a palavras. A flor é um gesto apontando para talidade (tathatā), a “coisa como é”, e o sorriso de Mahākāśyapa expressa o reconhecimento imediato dessa talidade. Isso ecoa temas canônicos como “ehipassiko” (venha e veja) e a ênfase na experiência direta do Nibbāna. O verdadeiro Dhamma, é transmitido além das palavras. As palavras não fazem jus ao Dhamma, não fazem jus à verdade dharmica.
Ainda hoje, a tradição da transmissão “mente a mente, de coração a coração” continua no Zen.
O mito da “recusa generalizada”
A interpretação moderna do silêncio do Buda como uma recusa generalizada em responder a questões pode ter várias origens. Uma delas pode ser uma leitura superficial da sua postura em relação às dez questões não respondidas, sem levar em consideração o contexto específico destas questões e a vasta gama de outros tópicos sobre os quais ele ofereceu ensinamentos detalhados. Além disso, esta interpretação pode ter sido influenciada por agendas intelectuais ou religiosas posteriores, que procuravam apresentar o Buda como um agnóstico ou até mesmo um niilista.
No entanto, uma análise cuidadosa dos textos do Cânone Páli revela evidências significativas que contradizem a ideia de uma recusa generalizada em responder a perguntas. Os Nikayas contêm inúmeros suttas onde o Buda responde a uma vasta gama de questões colocadas por discípulos, ascetas errantes, reis e outras pessoas, incluindo questões metafísicas e cosmológicas. A sua recusa em responder era específica para um certo tipo de questões que ele considerava prejudiciais ou irrelevantes para o objetivo da libertação do sofrimento. O volume e a variedade das suas respostas nos textos indicam que ele era um professor ativo e envolvente, disposto a esclarecer dúvidas e a oferecer orientação sobre o caminho espiritual.
O impacto desta má interpretação do silêncio do Buda pode ser significativo. Pode levar a uma visão incompleta ou distorcida do budismo, apresentando-o como uma filosofia niilista ou agnóstica, quando na verdade oferece um sistema ético, filosófico e meditativo profundo e abrangente. Além disso, pode desencorajar a investigação e o questionamento dentro da prática budista, quando o próprio Buda encorajava o questionamento hábil como parte do caminho para a compreensão. Corrigir esta má interpretação é portanto essencial para apresentar uma imagem mais precisa e útil dos ensinamentos do Buda e para encorajar uma abordagem informada e ativa à prática budista.
A mestria pedagógica do Buda
O silêncio de Buda perante as avyākata deve também ser entendido no contexto da sua extraordinária habilidade pedagógica. Ele era conhecido como um mestre inigualável, o anuttaro purisadamma-sārathi – o “condutor insuperável de homens a serem treinados”. Uma característica basilar da sua pedagogia era a arte de adaptar a profundidade e o foco dos ensinamentos à capacidade, disposição e necessidades específicas dos seus ouvintes. Essa abordagem personalizada visava facilitar a compreensão e promover o progresso espiritual de cada pessoa, reconhecendo que nem todos estavam no mesmo ponto do caminho ou tinham a mesma capacidade de apreensão.
A forma como o Buda lidava com as questões que lhe eram colocadas é um exemplo claro desta mestria. A Vacchagotta, que se mostrava confuso e enredado em especulações, o Buda usou a analogia do fogo extinto para ilustrar a inaplicabilidade de certos conceitos. A Mālunkyāputta, que demonstrava impaciência e ameaçava abandonar a vida monástica se as suas questões metafísicas não fossem respondidas, o Buda recorreu à incisiva parábola da flecha envenenada para realçar a urgência da prática.
Conclusão
O “silêncio” do Buda perante as questões indeterminadas não foi um sinal de ignorância, evasão ou agnosticismo. Pelo contrário, foi uma estratégia intencional, precisa e profundamente compassiva. Este silêncio seletivo serviu múltiplos propósitos: evitar especulações filosóficas estéreis que não conduzem à libertação; impedir o apego a visões fixas (diṭṭhi), que são um obstáculo ao progresso espiritual; proteger os ouvintes de conceitos que transcendem a linguagem e o pensamento convencionais, evitando assim mal-entendidos; e, acima de tudo, focar a atenção e o esforço dos seus discípulos no caminho prático e urgente para a cessação do sofrimento, as Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo. Além disso, o Buda quando não respondia diretamente, não se limitava a ficar calado, ele explicava a sua a sua posição. Na generalidade, o Buda respondia à maioria das perguntas que lhe eram colocadas.
Suttas mencionados: Brahmajāla Sutta (DN 1); Cūḷamālunkya Sutta (MN 63); Aggivacchagotta Sutta (MN 72); Ānanda Sutta (SN 44.10); Simsapa Sutta (SN 56.31).
Referências: What Buddhists Believe – K. Sri Dhammananda (Budsas.org); What are the ten questions that the buddha did not answer? (Dhammakami.org); Ten Un-answered questions (avyākata) of Lord Gautama Buddha (drarisworld); Misconceptions On The Topics The Buddha “Refused To Answer” (Puredhamma.net); The Fourteen Questions to Which Buddha Remained Silent (Study Buddhism); Silence and the Buddha – Piya Tan (The Minding Centre); The ‘Ten Undeclared Questions’ and the simile of the poison arrow (Turning Wheel Buddhist Temple); Flower Sermon (Wikipedia); The unanswerable questions (Wikipedia).
Leitura complementar:
- A Cosmologia Budista
- O Samsara, a Roda da Vida e os 6 Reinos da Existência Cíclica
- Budismo, a ideia de Deus e o mundo espiritual
- A Metafísica no Budismo
- O Misticismo no Budismo
- O Sobrenatural no Budismo
- Link externo:
- O mito do silêncio de Buda – Bhante Dhammika (Budismo e Sociedade)
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