Ao longo dos tempos os sonhos têm fascinado a humanidade. Há quem considere que são meras atividades mentais durante o sono, e quem ache que têm algum significado. Neste artigo vamos explorar a perspetiva budista, tendo como principal referencia o capítulo “Os Sonhos e seus Significados”, do livro “No Que Os Buddhistas Acreditam”, de Ven. Dr. K. Sri Dhammananda. Veremos também o que Gotama sonhou antes de se tornar um Buda, tendo como referência o Mahāsupinasutta (AN 5.196). O budismo é vasto e profundo, outras perspetivas podem existir entre as várias tradições budistas.
As causas e a natureza dos sonhos
Segundo o Ven. K. Sri Dhammananda, o budismo encara os sonhos maioritariamente como processos mentais (ideacionais), desmistificando a ideia de que todos os sonhos têm um significado profético ou espiritual. A psicologia budista adverte contra a exploração comercial da interpretação de sonhos, considerando-a uma prática que se aproveita da ignorância das pessoas. Ainda assim, o budismo aceita a ideia que alguns sonhos possam ter algum significado ou até ser fruto da intervenção de seres espirituais.
Antes de avançarmos é relevante lembrar que o processo de dormir possui 5 estágios: sonolência, sono leve, sono profundo, sono leve, e acordar.
O Ven. Dr. K. Sri Dhammananda, baseando-se no famoso livro ‘As Perguntas do Rei Milinda’, que faz parte de algumas versões do Cânone Páli, identifica seis causas primárias para os sonhos, que ocorrem principalmente no estágio de sono leve, comparado ao “sono do macaco”:
- Três causas orgânicas ou fisiológicas: o vento, a bílis e a fleuma (expressões usadas antigamente para certos processos orgânicos).
- Intervenção sobrenatural: Ação de devas (divindades) ou espíritos.
- Memórias: O reviver de experiências passadas.
- Profecias: A influência de eventos futuros.
Destas seis, o Venerável Nagasena, em resposta ao Rei Milinda, afirma que apenas os sonhos proféticos têm real importância, sendo os outros relativamente insignificantes. O Ven. Dr. K. Sri Dhammananda aprofunda esta classificação, agrupando os sonhos em categorias mais detalhadas:
Sonhos sem significado especial (os mais comuns)
Estes sonhos não são proféticos e não necessitam de interpretação. Dividem-se em dois tipos:
- Reflexos do Subconsciente: Durante o sono, os cinco sentidos desligam-se do mundo exterior, permitindo que a mente subconsciente se torne dominante. Pensamentos, ansiedades e experiências armazenadas são “reapresentados” sob a forma de imagens. Estes sonhos podem ter valor para a psiquiatria, mas são apenas reflexos da mente em descanso.
- Reações a Estímulos: São sonhos causados por perturbações internas ou externas.
- Fatores internos: Desconforto físico, como uma refeição pesada ou um desequilíbrio no corpo.
- Fatores externos: Fenómenos como o clima, ruídos (vento, chuva, janelas a bater) que a mente subconsciente deteta. A mente cria então imagens para “explicar” racionalmente a perturbação, permitindo que o sono continue.
Sonhos significativos ou proféticos (raros)
Estes sonhos são importantes, mas ocorrem raramente e apenas em conexão com eventos de grande relevância para o sonhador.
- Mensagens de seres de outros planos: O budismo menciona a existência de devas e espíritos, incluindo parentes falecidos que mantêm o seu apego a nós. Ao transferir-lhes méritos, fortalecemos essa conexão. Em momentos de grande perigo ou sorte iminente, eles podem ativar energias na nossa mente para nos enviar um aviso ou uma boa nova. Estas mensagens são simbólicas (como “negativos de fotos”) e requerem uma interpretação inteligente.
- Amadurecimento do Kamma: A nossa mente armazena todas as energias kármicas de ações passadas. Quando um kamma (uma ação de uma vida passada ou do início desta vida) muito forte está prestes a amadurecer e a produzir o seu resultado, a mente pode libertar essa energia na forma de um sonho vívido, antecipando o que está para acontecer. Isto é muito raro e acontece apenas a pessoas com uma estrutura mental particular.
- Sonhos telepáticos: Ocorrem quando duas pessoas vivas enviam fortes mensagens mentais uma à outra, geralmente em momentos de grande intensidade emocional. A mente em repouso durante o sono é um recetor ideal para estas mensagens concentradas.
Infelizmente muitas pessoas confundem sonhos insignificantes (que são a maioria) com sonhos com significado, perdendo tempo e dinheiro consultando falsos médiuns e interpretadores de sonhos. O Buda estava consciente de que isso poderia ser explorado para o ganho pessoal e, portanto, preveniu os monges contra a prática de adivinhação, astrologia e interpretação de sonhos.
A vida como um sonho e o despertar
Num sentido mais filosófico, o Ven. Dr. K. Sri Dhammananda argumenta que todos os seres mundanos são sonhadores, mesmo quando acordados. Vivemos num “mundo de sonho” onde percebemos como permanente aquilo que é impermanente (juventude, saúde, vida) e como real o que não tem substância. O sonho durante o sono é apenas outra dimensão deste estado.
Os únicos que estão verdadeiramente “despertos” são os Budas e os Arahants (seres iluminados), pois eles viram a realidade como ela é. Por esta razão, eles não sonham:
- As suas mentes estão permanentemente “acalmas”, impedindo a ocorrência dos sonhos comuns.
- Eles erradicaram completamente a energia do desejo, não havendo energia residual de ansiedade ou insatisfação que possa gerar sonhos kármicos.
O Buda é conhecido como “o Desperto” precisamente por ter transcendido este estado de sonho.
Por fim, o Ven. Dr. K. Sri Dhammananda nota que a mente, livre dos cinco sentidos durante o sono, pode produzir pensamentos claros e criativos, explicando por que grandes artistas e pensadores, como Goethe, encontravam inspiração nos seus sonhos.
Os sonhos de Gotama antes de se tornar um Buda
O Mahāsupina Sutta (AN 5.196) narra cinco sonhos auspiciosos que o Bodhisatta Siddhattha Gotama teve antes de alcançar a Iluminação completa e perfeita (anuttarā sammāsambodhi). Estes sonhos são apresentados como presságios da sua futura condição de Buda e do impacto universal dos seus ensinamentos.
Descrição e simbolismo dos sonhos
O sutta descreve os cinco grandes sonhos da seguinte forma:
- A Terra como leito: O Bodhisatta sonhou que a vasta Terra era a sua cama, a cordilheira dos Himalaias, o rei das montanhas, era o seu travesseiro. A sua mão esquerda repousava no mar oriental, a direita no mar ocidental, e ambos os pés no mar meridional.
- A erva ascendente: Uma espécie de erva chamada tiriyā cresceu do seu umbigo e elevou-se até tocar o céu.
- Os vermes brancos de cabeça negra: Vermes brancos com cabeças negras subiram pelos seus pés e cobriram-no até aos joelhos.
- Os pássaros purificados: Quatro pássaros de cores diferentes (simbolizando as quatro castas da Índia antiga: brâmanes, guerreiros, mercadores e trabalhadores) vieram das quatro direções, pousaram aos seus pés e tornaram-se completamente brancos.
- A montanha imaculada: O Bodhisatta caminhou sobre uma enorme montanha de excrementos, mas permaneceu imaculado, sem se sujar.
Interpretação
O próprio sutta fornece a interpretação destes sonhos, revelando o seu significado profético:
- A Terra como leito: Pressagiava a sua descoberta da Iluminação suprema e inigualável (anuttarā sammāsambodhi). A sua influência abrangeria o mundo inteiro.
- A erva ascendente: Indicava que, uma vez desperto para o Nobre Caminho Óctuplo, ele o proclamaria eficazmente a todos os seres, tanto humanos como divinos (devas), alcançando as esferas mais elevadas.
- Os vermes brancos de cabeça negra: Prenunciava que muitos chefes de família leigos, vestidos de branco (odātavasana, referindo-se aos leigos em contraste com os monges de vestes tingidas), encontrariam refúgio vitalício no Tathāgata (um epíteto do Buda).
- Os pássaros purificados: Simbolizava que pessoas das quatro castas sociais renunciariam à vida mundana para seguir o Dhamma−Vinaya (Doutrina e Disciplina) ensinado pelo Tathāgata, e alcançariam a libertação suprema (vimutti).
- A montanha imaculada: Revelava que o Tathāgata receberia abundantes oferendas das quatro necessidades básicas (vestes, comida de esmola, alojamento e medicamentos), mas usá-las-ia com total desapego, sem se deixar contaminar ou prender por elas, discernindo o perigo do apego e a via de escape.
Referências: No Que Os Buddhistas Acreditam; Mahāsupina Sutta (AN 5.196).
Veja também:
- [Vídeo-Retiro] Yoga dos Sonhos (várias horas de ensinamentos + documentário + artigo)
- Bardo Thodol: o Processo da Morte e do Pós-Morte de acordo com “O Livro Tibetano dos Mortos”
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