O budismo é frequentemente apelidado de “ciência da mente” devido à sua abordagem mais empírica e experiencial. Embora essa aspeto seja verdade, na tradição budista, incluindo nos textos mais antigos, são inúmeras as referências ao que comumente nos referimos como fenómenos sobrenaturais, que, contudo, devem ser interpretados com cautela.
Conteúdo:
- Introdução
- Seres sobrenaturais na cosmologia budista
- Poderes supranormais
- Fenómenos extraordinários
- Práticas e rituais de proteção
- Astrologia e divinação
- Narrativas de milagres e eventos extraordinários
- Conclusão
Introdução
O budismo é eminentemente prático: visa a cessão do dukkha (insatisfação/sofrimento) por meio de sīla (ética), samādhi (estabilidade mental) e paññā (sabedoria). Embora não constituam o núcleo do caminho, os textos budistas relatam fenómenos extraordinários (iddhi, abhiññā) e práticas correlatas, além de diversos reinos cósmicos. A noção de sobrenatural evoca a ideia de fenómenos que transgridam as leis da natureza, eventos que se situam para além da ordem física conhecida, mas na concepção budista, fenómenos que poderiam ser classificados como sobrenaturais não são necessariamente entendidos como violações da ordem natural, mas sim como manifestações de uma realidade mais ampla acessíveis através de um desenvolvimento mental e espiritual avançado.
O budismo emergiu na Índia antiga há mais de 2500 anos (século 5 AEC), um período de efervescência intelectual e espiritual conhecido como período dos Upaniṣads. O panorama religioso era dominado pelas tradições védicas, com o seu complexo panteão de devas (seres celestiais) e rituais elaborados, e pelas diversas escolas de samaṇas (ascetas errantes), que exploravam práticas meditativas, austeridades e filosofias alternativas, muitas das quais incluíam crenças em poderes místicos e reinos de existência para além do humano. O Buda Gotama inseriu-se neste contexto, dialogando com estas tradições, adotando, rejeitando ou reinterpretando os seus elementos à luz da sua própria descoberta do caminho para a libertação (vimutti)
A abordagem do Buda face aos fenómenos extraordinários é pragmática. Embora os textos canónicos, como os Nikāyas em Páli, reconheçam a existência de seres como devas e brahmās, de poderes psiquicos (iddhi), e de conhecimentos superiores (abhiññā), o Buda consistentemente desencorajou o fascínio ou a busca por estes como fins em si mesmos, conforme relatado por exemplo no Kevaḍḍha Sutta (DN 11). Também no Sāmaññaphala Sutta (DN 2), em que o Buda descreve os “frutos da vida contemplativa”, são mencionados uma série de poderes psíquicos (iddhi), mas estes são contextualizados como etapas ou subprodutos do caminho espiritual, e não como o seu fim último. A sua preocupação central era o sofrimento (dukkha) e a sua cessação. Qualquer fenómeno, por mais espetacular que fosse, era avaliado pela sua relevância tendo em conta essa finalidade.
Ademais, a presença proeminente de elementos considerados sobrenaturais nos textos canónicos pode refletir tanto o contexto cultural quanto servir funções pedagógicas. Num meio imerso em mitos, poderes e cosmologias, a descrição de poderes e de vários reinos, bem como o reconhecimento de devas e Brahmā, mostra a amplitude do conhecimento do Buda sem transformar tais temas no objetivo do caminho. A cosmologia detalhada, com céus, infernos (niraya) e reinos de peta (fantasmas famintos), oferece um mapa vívido das consequências do kamma e também um referencial para estados contemplativos, tornando a ética e a prática mais palpáveis para aquela audiência. Ainda assim, tudo isso é apresentado sob a ordem causal (paṭicca-samuppāda, originação dependente) e permanece subordinado ao propósito central: a compreensão e cessação de dukkha.
Dada a presença ubíqua nos textos canónicos, a relevância da temática sobrenatural é inegável. Contudo, a aceitação de uma cosmologia expandida, que inclui elementos supranormais, distingue-se nitidamente da queda em práticas supersticiosas. Os textos budistas antigos criticam rituais vazios, adivinhação com fins lucrativos e a crença em fatalismos que negam o esforço pessoal. O critério budista para a validade de uma crença ou prática é a sua utilidade para o desenvolvimento de sīla, samādhi e paññā. O budismo reconhece um vasto universo cósmico, que transcende a experiência sensorial comum, mas, redireciona o foco do praticante para a experiência interna, o cultivo da mente e o esforço individual como chaves para a libertação. Esta abordagem equilibrada permite ao budismo dialogar com diversas culturas e as suas crenças, sem validá-las totalmente nem rejeitá-las dogmaticamente, avaliando-as sempre pela sua relevância para o despertar (bodhi).
Portanto, a postura mais adequada sobre muitos destes fenómenos é manter um equilíbrio entre ceticismo e abertura. O Buda enfatizava a investigação pessoal (ehipassiko) e desencorajava a aceitação baseada apenas em autoridade. Este é um campo espinhoso em que é preciso ficar desconfiado, principalmente com alegações de habilidades extraordinárias por parte de pessoas comuns, ou quando nós próprios fruto da prática achamos que estamos desenvolvendo algum poder especial. Possuir eventualmente alguma dessas habilidades pode ser fruto de algum mérito mas não faz alguém mais próximo do despertar e até pode levar ao narcisismo espiritual. E conforme Ajahn Mudito referiu*, também existem problemas psiquiátricos e imaginação fértil, o que é o mais comum, na maioria das ocasiões são problemas psiquiátricos e não poderes psíquicos. Em termos do caminho para a iluminação pode ser um obstáculo, devemos ter cuidado com o ego e ficar desconfiados e céticos. Posto este aviso, de seguida vamos navegar por algumas das alegações “sobrenaturais” mencionadas nos textos budistas.
Seres sobrenaturais na cosmologia budista
A cosmologia budista povoa o universo com uma variedade de seres que transcendem a experiência humana comum. Estes seres desempenham papéis importantes na estrutura dos reinos de existência e nas narrativas dos primeiros textos budistas, que estão repletos de relatos das interações do Buda com vários seres sobrenaturais.
Devas e Brahmās: Os devas são seres celestiais ou deuses que partilham características semelhantes às divindades de outras tradições, como maior poder, longevidade e felicidade em comparação com os humanos. No entanto, é importante notar que, no budismo, os devas não são considerados imortais, onipotentes ou criadores do universo. A sua existência como devas teve início em algum momento do passado, através do renascimento impulsionado pelo seu kamma, e terá um fim, levando a um novo renascimento noutro plano de existência. Outros termos semelhantes utilizados nos textos budistas para se referirem a seres sobrenaturais incluem: devatā (“deidades”) e devaputta (“filho de deus”). Os devas estão organizados em diferentes planos de existência nas esferas kāmaloka (esfera do desejo), rūpaloka (esfera da forma) e ārūpyadhātu (esfera sem forma). Os devas do kāmaloka possuem corpos de matéria sutil (rūpa) e desfrutam intensamente dos prazeres sensoriais. O Kāmaloka abrange onze planos: infernos (niraya), animais (tiracchāna), petas, asuras, humanos (manussa) e os seis céus sensoriais de Cātummahārājika até Paranimmitavasavatti, todos abaixo dos mundos Brahmā do rūpaloka. Os devas do rūpaloka possuem corpos ainda mais mais sutis e habitam em planos superiores onde a paixão sensorial (kāmarāga) está ausente, embora formas refinadas de apego (rāga), ignorância (avijjā) e orgulho (māna) ainda persistam. Os seres do arūpaloka não possuem forma física ou localização espacial, correspondendo aos quatro estados de realização imaterial (arūpajjhāna). Alguns devas, especialmente do Kāmaloka, têm tradicionalmente o papel de protetores e apoiadores do Dhamma.
O Sīhasenāpati Sutta (AN 5.34) aborda as recompensas da doação (dāna). Neste discurso, o Buda explica ao general Sīha que um doador generoso e munificente é querido e agradável a muitas pessoas, é procurado por pessoas boas, adquire uma boa reputação e aborda qualquer assembleia com confiança e compostura. Além destes frutos visíveis na vida presente, o Buda afirma que, com a dissolução do corpo, após a morte, um doador generoso renasce num bom destino, num mundo celestial. Esta afirmação estabelece uma ligação direta entre a prática ética da generosidade e o renascimento em reinos superiores habitados por seres como os devas. A generosidade é vista como uma das três bases de ações meritórias e uma qualidade essencial de uma pessoa superior.
A figura de Brahmā no budismo é um tipo de deva que preside ao reino celestial de renascimento chamado Brahmaloka, um dos reinos mais elevados na cosmologia budista. É importante distinguir o conceito budista de Brahmā do conceito hindu de Brahman, que se refere à Realidade Última metafísica. No budismo, Brahmā é considerado um protetor dos ensinamentos do Buda e nunca é retratado como um deus criador e controlador do mundo. Na cosmologia budista existem vários brahmās, alguns dos quais podem ter visões erradas, como se fossem criadores (MN 49). A tradição budista relata que foi Brahmā Sahampati quem apareceu perante o Buda após a sua iluminação e o incitou a ensinar o conhecimento que havia alcançado (SN 6.1).
Alguns devas e brahmās visitavam regularmente o Buda para ouvirem ensinamentos e colocarem questões sobre o Dhamma, noutras ocasiões, o Buda utilizava os seus poderes supramundanos para viajar até aos reinos dos devas a fim de lhes ensinar. Estas interações demonstram a amplitude do público ao qual o Buda dirigia os seus ensinamentos, abrangendo não apenas humanos, mas também outras formas de vida senciente, que por mais elevadas que sejam, ainda estão sujeitas ao saṃsāra.
Yakkhas e outros seres não-humanos: Os yakkhas (Sânscrito: yakṣa) constituem uma classe ampla de espíritos da natureza, geralmente associados a água, fertilidade, árvores, florestas, tesouros e áreas selvagens. Podem ser benevolentes, malévolos ou ambivalentes na sua natureza. Nos textos budistas, os yakkhas são frequentemente descritos como não-humanos (amanussa), mas não como deuses sublimes. Existem diferentes tipos de yakkhas, com diversas associações e poderes. Alguns atuam como guardiões de locais ou protetores, enquanto outros são retratados como seres predadores ou malévolos que podem causar sofrimento. O Buda e os seus discípulos interagiram com yakkhas em várias ocasiões, conforme relatado nos primeiros textos. O Buda ensinava o Dhamma a estes seres, e alguns yakkhas tornaram-se seus seguidores e protetores. Por exemplo, o Atanatiya Sutta (DN 32) apresenta Vessavana (também conhecido como Kuvera), um dos Quatro Grandes Reis e senhor dos yakkhas, recitando um encantamento de proteção para o Buda e os seus seguidores contra yakkhas malévolos.
Além dos devas que habitam nos paraísos celestiais e dos yakkhas, a cosmologia budista inclui outros seres não-humanos, como os Nāgas (serpentes divinas, associados a água e proteção); Bhummadevas (devas que habitam locais específicos na terra); os Rukkha Devas (devas que habitam as árvores); os Gandhabhas (músicos celestiais); Petas (espíritos famintos, que sofrem intensamente de fome e sede devido a ações passadas negativas); os Asuras (titãs, frequentemente retratados como estando em conflito com os devas); os Maras (demónios ou seres que tentam obstruir o caminho para a iluminação); entre outros.
Petavatthu (“Histórias dos Petas”): É uma escritura budista Theravada incluída na Coleção Menor (Khuddaka Nikaya) do Sutta Pitaka do Cânone Páli. É composto por 51 narrativas em verso que descrevem como os efeitos de más ações, frequentemente relacionadas com avareza e falta de generosidade, podem levar ao renascimento no infeliz mundo dos petas, ou espíritos famintos. Mais importante ainda, detalha como as ações meritórias realizadas pelos vivos podem beneficiar esses seres em sofrimento. Muitas histórias no Petavatthu envolvem petas que são parentes falecidos dos vivos, mostrando a sua dependência do mérito transferido pelos seus familiares para aliviar o seu sofrimento. Por exemplo, o Tirokuḍḍha Sutta (Kp 7) explica como oferecer comida e vestuário aos monges e dedicar o mérito aos Petas pode trazer alívio para estes seres. O Petavatthu ilustra o conceito de kamma e a interconexão entre diferentes planos de existência na cosmovisão budista e, as consequências de ações não virtuosas, ao mesmo tempo que destaca a importância da compaixão e da prática de mérito em benefício de outros seres, mesmo aqueles em sofrimento nos reinos não visíveis.
Vimanavatthu (“Histórias das Mansões Celestiais”): É outra escritura Theravada do Khuddaka Nikaya que contém 83 histórias em verso. Cada história descreve a vida e as ações de um deva que habita numa mansão celestial (vimāna) como resultado de boas ações realizadas em vidas passadas como humanos. Estas histórias frequentemente seguem um padrão onde o discípulo do Buda, Mahamoggallana, pergunta ao deva a razão da sua residência divina, e o deva relata as boas ações que praticou na sua vida anterior. O Vimanavatthu oferece exemplos positivos de como a prática ética e as boas ações conduzem ao renascimento em reinos celestiais, fornecendo modelos de conduta virtuosa para os praticantes. As histórias ilustram vividamente a lei do kamma e o processo de renascimento, mostrando como ações específicas em vidas anteriores resultam em experiências particulares no presente reino celestial.
Poderes supranormais
O desenvolvimento de capacidades que transcendem a experiência humana comum é reconhecido no budismo como uma possibilidade decorrente da prática espiritual avançada, particularmente através do cultivo de samādhi e paññā. Essas habilidades costumam ser referidas como poderes supranormais, poderes sobrenaturais ou poderes psíquicos. Em páli são conhecidos como Iddhis e em sânscrito como Siddhis.
Estes poderes são frequentemente agrupados sob o termo Abhiññā (Páli), que se traduz como “conhecimentos superiores” ou “conhecimentos diretos”. Tradicionalmente são listados seis Abhiññā:
- Iddhividha (Poderes Psíquicos Diversos): A capacidade de manifestar vários poderes supranormais, como multiplicar o corpo, tornar-se invisível, passar através de obstáculos sólidos, caminhar sobre a água, voar pelo ar, tocar o sol e a lua, e viajar para outros reinos de existência.
- Dibbasota (Audição Divina ou Clariaudiência): A capacidade de ouvir sons tanto humanos como divinos, próximos ou distantes, grosseiros ou subtis.
- Cetopariyañāṇa (Conhecimento da Mente dos Outros ou Telepatia): A capacidade de conhecer e compreender os estados mentais, pensamentos e emoções de outros seres.
- Pubbenivāsānussatiñāṇa (Recordação de Vidas Passadas): A capacidade de recordar as próprias existências anteriores, por vezes em grande detalhe e abrangendo muitos éons.
- Dibbacakkhu (Olho Divino ou Clarividência): A capacidade de ver seres em vários planos de existência, de perceber o seu surgir e desaparecer de acordo com o seu kammavipāka, e de ver fenómenos distantes ou ocultos.
- Āsavakkhayañāṇa (Conhecimento da Destruição das Impurezas ou Intoxicações Mentais): O conhecimento direto da erradicação das impurezas fundamentais (āsava) – a impureza do desejo sensual (kāmāsava), a impureza do desejo de existência (bhavāsava), a impureza das visões erróneas (diṭṭhāsava, por vezes incluída na de ignorância), e a impureza da ignorância (avijjāsava). Este é o conhecimento que leva à libertação final e à realização do Nibbāna.
Uma distinção importante é feita entre os cinco primeiros Abhiññā e o sexto, o Āsavakkhayañāṇa. Os cinco primeiros são considerados mundanos (lokiya), o que significa que podem ser alcançados por qualquer indivíduo que desenvolva suficientemente o cultivo mental, incluindo praticantes de outras tradições espirituais ou mesmo indivíduos que não buscam a libertação do Saṃsāra. Estes poderes, por si só, não conduzem à iluminação e podem até tornar-se uma fonte de apego, orgulho e distração do caminho. Em contraste, o Āsavakkhayañāṇa, o conhecimento da destruição das impurezas, é supramundano (lokuttara) e exclusivo dos Budas e Arahants. É este sexto conhecimento superior que erradica as causas fundamentais do sofrimento (ignorância, desejo, ódio) e leva diretamente à realização do Nibbāna. Esta distinção hierárquica demonstra inequivocamente que, para o budismo, o importante não é a aquisição de capacidades extraordinárias ou experiências psíquicas, mas sim a purificação completa da mente e a sabedoria libertadora.
Referências a esses poderes são mencionados em numerosos suttas, como o Sāmaññaphala Sutta (DN 2) e o Kevaddha Sutta (DN 11), já mencionados anteriormente. No Iddhipada-vibhanga Sutta (SN 51.20), o Buda descrevem essas habilidades da seguinte forma: “Quando, bhikkhus, as quatro bases do poder espiritual tiverem sido desenvolvidas e cultivadas desse modo, um bhikkhu exerce os vários tipos de poderes supra-humanos: tendo sido um, ele se torna vários; tendo sido vários, ele se torna um; ele aparece e desaparece; ele cruza sem nenhum problema uma parede, um cercado, uma montanha ou através do espaço; ele mergulha e sai da terra como se fosse água; ele caminha sobre a água sem afundar como se fosse terra; sentado de pernas cruzadas ele cruza o espaço como se fosse um pássaro; com a sua mão ele toca e acaricia a lua e o sol tão forte e poderoso; ele exerce poderes corporais até mesmo nos distantes mundos de Brahma. […] Um bhikkhu, com o elemento do ouvido divino, que é purificado e ultrapassa o humano, ouve tanto os sons divinos como os humanos e tanto aqueles distantes como os próximos. […] Um bhikkhu compreende as mentes de outros seres, de outras pessoas, abarcando-as com a sua própria mente. […] Um bhikkhu se recorda das suas muitas vidas passadas, isto é, um nascimento, dois nascimentos, três nascimentos, quatro, cinco, dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, cem, mil, cem mil, muitos ciclos cósmicos de contração, muitas ciclos cósmicos de expansão, muitas ciclos cósmicos de contração e expansão, ‘Lá eu tinha tal nome, pertencia a tal clã, tinha tal aparência. […] Um bhikkhu, por meio do olho divino, que é purificado e ultrapassa o humano, vê seres falecendo e renascendo, inferiores e superiores, bonitos e feios, afortunados e desafortunados. Ele compreende como os seres prosseguem de acordo com as suas ações. […] Quando as quatro bases do poder espiritual tiverem sido desenvolvidas e cultivadas desse modo, um bhikkhu, com a eliminação das impurezas mentais, permanece num estado livre de impurezas com a libertação da mente e a libertação pela sabedoria, tendo conhecido e manifestado isso para si mesmo no aqui e agora.”
O Buda reconhecia que estes poderes psíquicos mundanos poderiam ser adquiridos como um subproduto natural de níveis profundos de samādhi, especificamente através da mestria dos jhanas. No entanto, a sua perspetiva sobre estas capacidades era de cautela. Ele advertia que não eram essenciais para a libertação e poderiam facilmente tornar-se um obstáculo se o praticante desenvolvesse apego a eles, orgulho ou os utilizasse para fins mundanos, como impressionar os outros ou obter ganhos materiais. O já mencionado Kevaddha Sutta (DN 11) é um exemplo desta atitude, onde o Buda desencoraja fortemente a exibição de poderes psíquicos. Existe mesmo uma regra no código monástico (vinaya) que proíbe os monges de exibirem os seus eventuais poderes psíquicos a leigos. O único poder verdadeiramente valorizado é o Āsavakkhayañāṇa, pois é este que corta as raízes do Saṃsāra, assim como a “maravilha da instrução”, que é a capacidade de guiar os outros no caminho da libertação do sofrimento através do ensino do Dhamma.
Fenómenos extraordinários
Para além dos poderes psíquicos, o universo budista é permeado por relatos de fenómenos paranormais ou experiencias extraordinárias. Manifestações e aparições de Budas, Bodhisattvas, divindades protetoras ou mesmo de espíritos são muitas vezes relatadas na tradição budista. Estas experiências podem ser interpretadas de diversas formas: como fantasias e projeções da própria mente, como experiências visionárias que ocorrem durante estados meditativos profundos, como encontros reais com seres de outros planos de existência, ou como uma combinação destes fatores. No geral o budismo enfatiza a importância do discernimento e a importância do praticante não se deixar levar ou iludir por tais experiências.
O budismo tibetano é particularmente rico em referências a poderes e fenómenos extraordinários. Seguem-se alguns exemplos.
As délok são pessoas, frequentemente mulheres, que se acredita terem aparentemente morrido e depois retornado. A palavra tibetana délok significa precisamente “retornou da morte”. As délok viajam pelos bardos do pós-morte, muitas vezes acompanhadas por uma divindade que as protege e explica o que está acontecendo, e ao retornarem à vida descrevem o que viram e sentiram nos infernos e paraísos búdicos. As narrativas das délok desempenharam uma importante função social e pedagógica na sociedade tibetana tradicional, reforçando de forma as crenças no kamma, no renascimento e na realidade dos diferentes planos de existência. As visões de Dawa Drolma e Lingza Chökyi (séculos XIX–XX), são alguns dos relatos clássicos.
Os oráculos, por sua vez, são médiuns através dos quais divindades protetoras do Dharma ou espíritos locais comunicam com o mundo humano. No Tibete, oráculos estatais, como o famoso Oráculo de Nechung (protetor do estado tibetano e do Dalai Lama), e oráculos locais desempenharam historicamente um papel significativo na tomada de decisões políticas e religiosas, na oferta de proteção e na realização de profecias.
Na tradição Dzogchen há relatos de um fenómeno chamado “corpo de arco‑íris” (jalü), que consiste em sinais que podem ocorrer quando um mestre realiza plenamente rigpa (natureza desperta) no momento da morte. Esses sinais podem ser fenómenos externos como arco‑íris no céu, luminosidade e outras alterações atmosféricos. Casos mais raros como encolhimento e desaparecimento do corpo físico também são relatados. Existem vários exemplos documentados, tanto do passado como mais recentes. Por exemplo, em 1987, durante os rituais fúnebres e cremação de Chögyam Trungpa Rinpoche, supostamente apareceram alguns arco‑íris.
Perante estas manifestações mais espetaculares do sobrenatural, é sempre importante voltar a lembrar a atitude do Buda, que enfatizava a importância da transformação interior e do desenvolvimento da sabedoria através da prática ética e da disciplina mental, em vez de se dar demasiada importância a esses fenómenos ou depender de poderes ou manifestações externas.
Práticas e rituais de proteção
As tradições budistas desenvolveram um vasto reportório de práticas ritualistas que visam oferecer proteção contra perigos, doenças e influências negativas, bem como promover a paz e o bem-estar. A importância dada a essas praticas varia entre as escolas e distingue-se da adoração teísta.
- Rituais de proteção (paritta): Na tradição Theravada, os cantos de paritta (proteção) são uma prática comum. Consistem na recitação de suttas específicos do Cânone Páli, como o Ratana Sutta (Discurso da Joia, Snp 2.1), o Karaniya Metta Sutta (Discurso sobre o amor universas, Snp 1.8), o Maṅgala Sutta (Discurso sobre as Bênçãos, Kp 5), e o Āditta Sutta (Discurso do Fogo, SN 35.28), com o objetivo de afastar perigos, doenças, influências malévolas e promover o bem-estar e boas qualidades mentais.
- Amuletos e objetos sagrados: O uso de amuletos, talismãs e outros objetos considerados sagrados é também comum em várias tradições budistas. Estes objetos, que podem incluir imagens do Buda, relíquias de mestres ou outros itens abençoados, são vistos como possuindo poder protetor ou como fontes de bênçãos.
- Mantras e dharanis: Desempenham um papel importante na prática budista, particularmente nas tradições Mahayana e Vajrayana. Acredita-se que a recitação destes sons sagrados pode ajudar a purificar a mente, invocar a proteção de deidades e facilitar o desenvolvimento de qualidades espirituais. Os mantras são frases curtas (exp: Om Maṇi Padme Huṃ), enquanto que os dharanis são geralmente frases mais longas, por vezes resumos de ensinamentos, que funcionam como fórmulas protetoras e mnemónicas, ajudando a reter o Dhamma.
- Exorcismo no budismo: Existem rituais e práticas que podem ser descritos como uma forma de exorcismo ou pacificação. Estes rituais visam afastar espíritos malévolos ou influências negativas que se acredita estarem a causar sofrimento ou problemas. Estes rituais frequentemente envolvem a recitação de parittas ou mantras, a geração intensa de compaixão e benevolência em direção ao ser perturbador, a invocação de deidades protetoras e, idealmente, o ensino do Dhamma a esse ser, oferecendo-lhe um caminho para a sua própria libertação do sofrimento. Um ponto de assinalar é que a abordagem budista para lidar com entidades consideradas malévolas é sempre compassiva, visando o afastamento ou se possível a sua transformação e pacificação através da compaixão e da sabedoria.
Estes rituais, assim como o uso de objetos sagrados refletem uma resposta às necessidades humanas de segurança e proteção, integrando elementos culturais e crenças populares dentro da estrutura budista. Embora o foco principal do budismo seja a transformação interior através da prática do Dhamma, estas práticas podem oferecer apoio psicológico e comunitário, servindo como métodos hábeis para indivíduos em diferentes estágios do caminho espiritual.
Astrologia e divinação
Nos textos canónicos, como o Brahmajāla Sutta (DN 1) e outros, o Buda lista explicitamente a astrologia, a quiromancia, a adivinhação baseada em presságios e outras artes semelhantes como tiracchāna-vijjā (“artes inferiores“). Estas artes são consideradas práticas inadequadas para os monges e monjas, pois são vistas como distrações do caminho para o despertar. A preocupação subjacente é que a dependência de tais práticas pode levar à superstição, à ansiedade desnecessária sobre o futuro e, principalmente, à abdicação da responsabilidade pessoal pelas próprias ações e destino.
Não há, contudo, uma negação absoluta da possibilidade de existirem influências cósmicas ou da previsão de certas tendências gerais. A visão predominante é que, embora possam existir tais influências, o kamma individual e o esforço consciente e ético no presente são mais determinantes do que qualquer configuração astrológica ou presságio.
Apesar desta posição encontrada nos textos canônicos, é um facto histórico que, em muitas culturas budistas, a astrologia e outras formas de adivinhação são popularmente praticadas por leigos. Frequentemente, estas práticas coexistem com a devoção budista num quadro sincrético, onde os indivíduos podem consultar astrólogos para questões mundanas como casamento, negócios ou saúde, enquanto seguem os ensinamentos budistas para o seu desenvolvimento espiritual.
Narrativas de milagres e eventos extraordinários
As escrituras budistas e as biografias de grandes mestres estão repletas de relatos de milagres e eventos extraordinários. Além do próprio Buda, existem histórias relativas aos seus discípulos, como Mahāmoggallāna (conhecido pelos seus iddhis), assim como de figuras posteriores. Seguem-se algumas dessas histórias.
Narrativas celestiais em suttas
No Acchariya‑abbhuta Sutta (MN 123), o maravilhoso irrompe quando o bodhisatta (Gotama antes de ser Buda) falece no paraíso Tusita e renasce na terra: devas guardam e honram a mãe, um brilho imensurável (obhāsa) supera o resplendor dos céus, e o universo treme e se agita. O nascimento é apresentado como puro e extraordinário; o recém‑nascido, caminha sete passos para o norte, contempla as direções e proclama que esta é sua última existência. Os devas e brahmās, exultam, enquanto sinais cósmicos marcam cada etapa dessa chegada singular.
No Sakkapañha Sutta (DN 21) é narrado um encontro mítico entre o Buda e Sakka, senhor dos devas, que desce do reino celestial acompanhado por vários devas, incluindo Pancasikha, um músico divino. Essa sua chegada é marcada por luzes celestiais que iluminam montanhas e vilarejos, causando espanto nos humanos. Nesse teatro de maravilhas, o Sakka busca no Buda respostas para as suas indagações.
Estes sutas são notáveis pelo estilo narrativo e conteúdo miraculoso, mais similares aos encontrados posteriormente nos sutras Mahayana. Estes são apenas dois exemplos de como elementos mais míticos e cósmicos, muito presentes nos suttas Mahayana, já estavam evidentes nos textos do Cânone Páli.
A Lenda do Milagre Duplo e a Transmissão do Abhidhamma
De acordo com a tradição comentarial, em Sāvatthī, mestres de outras tradições desafiaram o Buda, questionando os seus poderes e ensinamentos. Em resposta, o Buda concordou em realizar uma demonstração dos seus poderes psíquicos (iddhi).
O rei Pasenadi de Kosala mandou construir um pavilhão especial para o evento. No dia determinado, um devoto chamado Gandamba ofereceu uma mangueira que milagrosamente cresceu até à sua altura total num instante. O Buda então realizou o Yamaka Pātihāriya (Milagre Duplo):
- Raios de água e fogo emanavam simultaneamente de diferentes partes de seu corpo
- Criou múltiplas formas de si mesmo, algumas sentadas, outras em pé
- Estas formas faziam perguntas e davam respostas sobre o Dhamma
- O espetáculo incluía manifestações que demonstravam tanto os aspectos mundanos quanto supramundanos do Dhamma
Após esta demonstração extraordinária, o Buda ascendeu ao céu Tāvatiṃsa para a estação das chuvas (vassa). Lá encontrou a sua mãe falecida, Mahā Māyā, que havia renascido como uma deva. Durante três meses, o Buda permaneceu neste reino celestial ensinando o Abhidhamma à sua mãe e a outros devas. Para manter as suas obrigações terrenas, o Buda criava uma forma duplicada de si mesmo através de poderes psíquicos para continuar os ensinamentos no céu; descia diariamente à Terra para coletar esmolas; e encontrava-se com o Venerável Sariputta para transmitir um resumo dos ensinamentos do Abhidhamma. Sariputta, dotado de grande sabedoria, expandia estes ensinamentos resumidos e os transmitia aos seus discípulos, estabelecendo assim a linhagem terrena do Abhidhamma.
Ao final dos três meses, no dia de Pavāraṇā (que marca o fim da estação das chuvas), o Buda retornou à Terra através de uma tripla escada: de ouro, prata e joias. Este evento, conhecido como Devorohana, é dito ter ocorrido próximo à cidade de Sankassa. O Buda desceu acompanhado por várias divindades, com Brahma à sua direita e Sakka à sua esquerda.
Nota: É sabido que o Abhidhamma foi sistematizado ao longo de séculos, por exemplo o Kathāvatthu (“Pontos de Controvérsia”), inclui debates entre escolas budistas, que naturalmente ainda não estavam formadas no tempo de Buda. A autoria dessa compilação é atribuída ao Venerável Moggaliputta Tissa durante o Terceiro Concílio. Logo, o Buda nunca poderia ter transmitido todo o conteúdo do Abhidhamma. Se existiu alguma transmissão, foram os seus princípios, que posteriormente a tradição elaborou e sistematizou. O Abhidhamma é a terceira cesta do Cânone Páli, composto por vários volumes e, apesar da sua respeitabilidade e importância, não é geralmente classificado com um EBT (Textos Budistas Antigos), contudo, o seu arcabouço técnico tem precedentes e evidências nos suttas (Nikāyas).
Breve historia do Milarepa
Milarepa, nascido no Tibete (séc. XI–XII), começou a sua vida marcado por rancor e desejo de vingança. Após a morte do pai, foi explorado por parentes; instigado pela mãe, aprendeu feitiçaria nociva com um mestre obscuro e realizou atos devastadores que mataram e feriram muitas pessoas. Esse “poder” o mergulhou em culpa e medo karmico.
Buscando libertação, encontrou Marpa, o Tradutor, que o submeteu a duras provas: construir e desfazer torres de pedra, suportar reprovações e esperar por instruções. Essas provações quebraram o orgulho mágico e purificaram a sua mente. Por fim recebeu iniciações vajrayana e instruções de mahamudra. Retirou-se para cavernas, viveu de urtigas e praticou intensamente até realizar a vacuidade.
A “magia” de outrora, usada para ferir, foi transmutada em siddhis que serviam à prática: suportar frio extremo, mover-se levemente, curar e, sobretudo, transformar kleshas (aflições mentais) em sabedoria. Nas suas “Canções de Realização”, ele ensina que o verdadeiro milagre é domar a mente e cessar o mal: abandonar ações nocivas, cultivar mérito e ver a natureza vazia e luminosa dos fenómenos. Assim, Milarepa passa de feiticeiro vingativo a yogi santo, modelo de arrependimento, renúncia e esforço contínuo.
Luang Pu Mun interagindo com Nāgas e divindades das árvores
Luang Pu Mun (1870-1949) frequentemente relatava que Nāgas o visitavam durante o seu thudong (peregrinação ascética), especialmente ao redor da Caverna de Chiang Dao ou ao longo do Rio Mekong, na Tailândia. Ele referia que eles eram orgulhosos e muito curiosos, e vinham examinar se realmente esse monge possuía pura virtude e forte poder meditativo. Também Bhummadevas e Rukkha Devas apareciam com frequência como grupos de seres radiantes vestidos com roupas brancas e imaculadas, às vezes brilhando com a sua própria luz. Quando vinham ouvir o Dharma chegavam em grandes grupos. Eles não caminhavam sobre a terra como o humanos, deslizavam graciosamente pelo ar. A comunicação era mental e de forma muito rápida. Luang Pu Mun frequentemente concluía essas histórias lembrando aos seus discípulos que “Ver devas ou Nāgas não é tão importante quanto ver as impurezas dentro de sua própria mente.”
A maioria desses relatos foi registado por Luang Ta Maha Bua, que os ouviu diretamente de Luang Pu Mun (Ajahn Mun Bhuridatta) durante ensinamentos de meditação.
Conclusão
Nas diversas tradições budistas, são evidentes os aspetos que podem ser considerados sobrenaturais, este artigo apresenta apenas uma amostra, pois muito mais poderia ser referido. Tais elementos desempenharam um papel importante na transmissão dos ensinamentos, na adaptação cultural e na resposta às necessidades espirituais dos praticantes. O sobrenatural no budismo não deve ser nem ignorado nem abraçado de forma acrítica. É importante encontrar um equilíbrio entre a aceitação dos elementos que podem inspirar a prática, e um ceticismo saudável que encoraja a investigação pessoal e o discernimento. O Buda sempre enfatizou a importância da experiência direta e da sabedoria na jornada espiritual.
O sobrenatural pode ser uma parte da paisagem da cosmovisão budista, oferecendo narrativas e símbolos que enriquecem a nossa compreensão do mundo e do nosso lugar nele. No entanto, o foco deve permanecer no caminho da prática da ética, da disciplina mental e do desenvolvimento da sabedoria, que são os meios genuínos para alcançar a paz interior e a libertação do ciclo de sofrimento. É importante distinguir o essencial do acessório, os elementos sobrenaturais quando abordados com discernimento, podem complementar e enriquecer a prática budista, mas nunca devem obscurecer o objetivo final da libertação.
Suttas mencionados: Brahmajāla Sutta (DN 1); Sāmaññaphala Sutta (DN 2); Kevaḍḍha Sutta (DN 11); Sakkapañha Sutta (DN 21); Atanatiya Sutta (DN 32); Acchariya‑abbhuta Sutta (MN 123); Āditta Sutta (SN 35.28); Iddhipada-vibhanga Sutta (SN 51.20); Sīhasenāpati Sutta (AN 5.34); Maṅgala Sutta (Kp 5); Tirokuḍḍha Sutta (Kp 7); Karaniya Metta Sutta (Snp 1.8); Ratana Sutta (Snp 2.1).
Referências: The Buddhist Cosmos – Ajahn Puṇṇadhammo (Abhayagiri); Teacher of the Devas (Access to Insight); Ghosts, Nagas, Demons and Duality (Buddha Weekly); Buddhist Exorcism (Buddha Weekly); Is there room for the supernatural in Western Buddhism? Four sutra (Buddha Weekly); Indian Society and Thought at the Time of Buddha (Study Buddhism); Astrologia Tibetana (Study Buddhism); Buddhism & the supernatural (Sujato’s Blog); Devas and Aliens (Tricycle: The Buddhist Review); Brahmā (Buddhism) (Wikipedia); Buddhist cosmology (Wikipedia); Deva (Buddhism) (Wikipedia); Iddhi (Wikipedia); Miracles of Gautama Buddha (Wikipedia); Vimānavatthu (Wikipedia); Yaksha (Wikipedia); Comunicação com as Divindades das Árvores e Nāgas (Theravada).
Leitura complementar:
- A Cosmologia Budista
- O Samsara, a Roda da Vida e os 6 Reinos da Existência Cíclica
- Budismo, a ideia de Deus e o mundo espiritual
- A Metafísica no Budismo
- O Misticismo no Budismo
- O silêncio do Buda e as questões não respondidas
Veja também:
- Budismo, a ideia de Deus e o mundo espiritual
- O Altar Budista e a prática devocional
- Há vida após a morte, garante o médico cirurgião Manuel Sans
- Monge tibetano clinicamente morto não apresenta sinais de decomposição
- O Sincretismo no Budismo
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