Ciência e Tecnologia

Mestres budistas visitam o CERN

O que leva renomados mestres budista a visitar o maior centro de pesquisa nuclear? Isso é que vamos perceber já de seguida, embora na verdade estas sejam visitas já antigas, mas que mesmo assim são aqui publicadas para saciar os mais curiosos.

O que é e o que faz o CERN?

A Organização Europeia para a Investigação Nuclear, fundada em 1954 e conhecida como CERN, é uma organização científica e o maior laboratório de física de partículas do mundo. Fazem parte da Organização 23 Estados-Membros da UE, incluindo Portugal; 8 países e organizações internacionais possuem estatuto especial; e vários outros países também estão envolvidos em programas científicos, incluindo o Brasil.

Uma das finalidades do CERN é descobrir qual é a natureza do nosso universo, do que é que ele é feito e de como funciona. O CERN tem a missão de unir pessoas de todo o mundo para empurrarem as fronteiras da ciência e da tecnologia para o benefício de todos. A organização possui uma gama única de instalações de aceleradores de partículas que permitem pesquisas de vanguarda. No CERN são estudados os constituintes básicos da matéria (partículas fundamentais), ou seja, os menores blocos de construção do nosso universo. Num acelerado de partículas, conhecido como LHC, partículas subatómicas são colididas numa velocidade próxima à da luz. Esse processo dá pistas sobre como as partículas interagem e fornece insights sobre as leis fundamentais da natureza.

Além da pesquisa nuclear, o CERN foi várias vezes incubador de grandes avanços técnicos que se tornaram públicos pelo simples facto da organização publicar sempre os seus trabalhos ou descobertas em domínio público. Esses avanços abrangem várias áreas, incluindo a medicina e a internet. Sem o CERN não seria possível o leitor ou a leitora estar neste momento a ler este artigo e a consultar este website. É isso mesmo, foi nos laboratórios do CERN que nasceu a World Wide Web (www) e a linguagem de marcação HTML que permite o desenvolvimento de páginas Web. O físico responsável por essas inovações foi o Tim Berners-Lee.

Encontro entre Budismo e Ciência

Ao longo das últimas décadas o budismo e a ciência têm dialogado entre si. Um dos maiores promotores desses diálogos tem sido o Dalai Lama, que foi um dos responsável pela criação da Mind & Life, uma instituição que promove diálogos entre a ciência contemplativa e o budismo. O Dalai Lama também escreveu amplamente sobre budismo e ciência. O livro O Universo num Átomo é um dos seus livros que aborda pontos convergentes entre a ciência e a espiritualidade. Nesse livro o Dalai Lama diz que: “Em algumas escrituras antigas, os planetas são descritos como corpos esféricos suspensos no espaço vazio, de uma forma que não difere da concepção dos sistemas planetários na cosmologia moderna. […] No cerne da cosmologia budista está não só a ideia de que existem múltiplos universos — segundo alguns textos, infinitamente mais do que os grãos de areia do rio Ganges –, mas também a ideia de que eles se encontram num estado permanente de criação e destruição. Isto significa que o universo não tem um princípio absoluto. As questões que esta ideia levanta para a ciência são fundamentais. Houve um Big Bang ou houve vários? Existe um universo ou existem muitos, ou mesmo um número infinito? O universo é finito ou infinito, como afirmam os budistas? O nosso universo ir-se-á expandir indefinidamente ou a sua expansão abrandará, e chegará mesmo a inverter-se, de tal modo que no final acabará num bid crunch? O nosso universo faz parte de um cosmos que se reproduz eternamente? Os cientistas debatem estas questões intensamente.”

A visita do Dalai Lama ao CERN

A visita do Dalai Lama ao CERN aconteceu no dia 30 de agosto de 1983. O CERN é um centro de pesquisa científica, mas também é um lugar de intercâmbio entre a ciência e outros campos da cultura e da compreensão humana. A visita do Dalai Lama ofereceu exatamente essa oportunidade. Ele e a sua delegação de monges visitaram algumas instalações, incluindo o local onde foram descobertos os bósons W e Z. Alguns dos físicos do CERN fizeram breves apresentações sobre vários aspetos do trabalho do CERN, e um debate explorou os diferentes pontos de vista de budistas e físicos sobre uma série de tópicos de interesse mútuo.

A visita das monjas de Kung Fu ao CERN

Uma dúzia de monjas de kung fu de uma ordem budista liderada pelo Gyalwang Drukpa, estiveram no CERN em novembro de 2012. Enquanto Gyalwang Drukpa explicava como a sua energia era como a do cosmos, as monjas mostravam as suas proezas em artes marciais.

Gyalwang Drukpa volta ao CERN

A 23 de março de 2015 Gyalwang Drukpa, desde vez sem a companhia das monjas de Kung Fu, volta a visitar o CERN no âmbito do evento “Science Meets Buddhism: Great Minds, Great Matters” (A Ciência Encontra o Budismo: Grandes Mentes, Grandes Temas), no qual discutiu a intersecção da ciência, filosofia e espiritualidade com os principais cientistas do centro. Eles concordam que o budismo compartilha alguns pontos em comum com os princípios científicos modernos. Ambos procuram desenvolver uma compreensão mais profunda do mundo natural e das perceções da realidade. Os quatro palestrantes – Gyalwang Drukpa, o Diretor Geral (na época) Rolf Heuer e os teóricos do CERN Gian Giudice e Michelangelo Mangano – abordaram temas como as origens do universo e as diferenças entre o conhecimento e a compreensão.

“É sempre incrível a rapidez com que você identifica um terreno comum”, disse Michelangelo Mangano para o Drukpa. Enquanto isso Giudice discutia como o espaço vazio nunca é realmente vazio, mas sim preenchido com um campo de energia invisível que não podemos ver ou detetar. “Temos o mesmo conceito no budismo”, disse Gyalwang Drukpa. “Nós chamamos isso de Sunyata.”

A conferência terminou com líderes espirituais e cientistas do CERN a concordarem que a ciência e a espiritualidade moldam quem somos como humanos, e que a educação em ambos os domínios pode ajudar a cultivar uma apreciação do mundo natural e ajudar a desenvolver um futuro sustentável. “Ambos fazem parte da nossa vida e devem ser levados a sério”, disse Rolf Heuer.

Referências: CERN News, CERN Timeline, Reuters. Créditos da imagem de destaque: CERN; fotógrafo Maximilien Brice; tirada em 4 de novembro de 2005; licença CC-BY-4.0.

Observação: O conceito budista de Vacuidade (Sunyata) quer dizer que nós somos vazios de existência intrínseca, assim como todas as coisas. Isto é, nos somos interdependentes, existimos na dependência de muitos fatores, como o sol, água, etc. Para entender melhor este conceito consulte o link.

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