Artes Vajrayana (Tibetano)

A caligrafia tibetana: mais do que palavras em papel é uma arte e prática espiritual

A caligrafia tibetana refere-se às tradições caligráficas usadas para escrever na língua tibetana. Além da sua função utilitária, é também considerada uma arte altamente respeitada. Tal como em outras partes da Ásia Oriental, esperava-se que nobres, lamas de alto escalão e pessoas de alta posição tivessem habilidades avançadas em caligrafia. Ao contrário de outras tradições caligráficas do leste asiático, para escrever era usado uma caneta de cana em vez de um pincel. Dada a natureza religiosa predominante da cultura tibetana, esta tradição caligráfica tem uma profunda relação com o budismo e as suas escrituras.

Origens

A escrita tibetana é um sistema de escrita alfassilabário de origem indiana. Segundo a historiografia tibetana, a escrita tibetana e as regras gramaticais foram introduzidas pelo budista tibetano Thonmi Sambhota na primeira metade do século VII, principalmente para a codificação dos textos sagrados budistas e para tornar os ensinamentos budistas disponíveis aos tibetanos. O rei Songtsen Gampo, tradicionalmente creditado como tendo introduzido o budismo no Tibete, teria enviado Thonmi Sambhoṭa para a Índia em 632 juntamente com outros eruditos para estudarem a arte da escrita. Algumas fontes atribuem ao próprio rei a criação da escrita tibetana e, portanto, o estabelecimento do tibetano clássico.

De uma perspetiva académica contemporânea, esta é apenas uma lenda inventada na segunda metade do século XI. Novas pesquisas e escritos sugerem que havia um ou mais scripts tibetanos em uso antes da introdução do script atual por Songtsen Gampo e Thonmi Sambhota. Os manuscritos de Tunhong são evidências-chave para essa hipótese.

Independentemente do século exato da introdução da escrita no Tibete, assim como o seu ou os seus criadores, o budismo desempenha um papel central na cultura tibetana e isso também é verdade para a escrita tibetana. Muitos exemplos de caligrafia tibetana vêm de textos religiosos e a maioria dos escribas tibetanos ou especialistas em caligrafia tibetana vêm de origens monásticas.

Estilos da caligrafia tibetana

A escrita tibetana pode ser dividida em dois tipos: Uchen (com cabeça ) e Umê (sem cabeça). Essas duas formas de escrita tibetana correspondem aproximadamente à escrita impressa e cursiva.

Uchen

O estilo Uchen é mais indicado para impressão, é também utilizado em manuscritos formais e é adequado para ser esculpido. Este formato é marcado pelas linhas horizontais no topo das letras (cabeça) e linhas verticais afuniladas. Está é a forma mais básica de caligrafia e a que todos os alunos devem dominar antes de passarem para outros estilos.

Umê

Este estilo é bem diferente do Uchen por causa da ausência das linhas horizontais e por ser cursivo. Esta forma possui ainda muitas outras variações, duas das mais utilizadas são:

  • Drutsa: Uma forma artística de caligrafia que é usada para documentos e títulos oficiais. Com as suas longas e afuniladas linhas descendentes, drutsa é formal e mais “extravagante” que alguns dos outros estilos.
  • Chuyig (também escrito como Kyug’yig ou G yuk yig ): significa “letras rápidas” ou “escrita fluida”. Esta forma de escrita cursiva é usada no dia a dia para coisas como notas manuscritas informais e cartas pessoais.

Existem também outras formas de escrita relacionadas com o Uchen e Umê, como a escrita vertical Phags-pa, que é um alfabeto desenhado pelo monge tibetano Drogön Chögyal Phagpa para Kublai Khan, o fundador da Dinastia Yuan (sucessora do Império Mongol), e que caiu em desuso com o advento da Dinastia Ming.

Uma arte e prática espiritual

As obras artísticas de caligrafia tibetana são diversas. Elas podem ser criadas com vários estilos de escrita e ter diferentes disposições (horizontal, vertical, circular, etc), assim como incluir mantras, frases budistas, símbolos, entre outros elementos. Tal como o Shodô, a criação deste tipo de obra também é uma forma de meditação. O artista inglês Tashi Mannox, que é um dos principais calígrafos contemporâneos desta arte tibetana, com base na sua experiência, acredita que está arte deve ser compartilhada como um “recipiente do Dharma”.

Sal Trun – Clear Creativity (Canal Tashi Mannox)

Segundo Tashi a cultura e a filosofia budista tibetana é uma tradição espiritual em que a caligrafia desempenha um papel reverenciado na direção ao despertar espiritual. Ela liga mil anos de sabedoria ao mundo de hoje. Esses antigos mantras e filosofias estão no coração da cultura tibetana. A forma mais sagrada da fala é o mantra, representando o supremo ou divino pela qualidade do som que produz, mas também pela sua forma física.

Desenhar esses textos é mais do que simplesmente colocar letras no papel, é uma jornada de descoberta de como incorporar a prática espiritual na vida quotidiana. É o entendimento de que a prática do Dharma se aplica a tudo. É um meio de expandir a mente e refletir sobre compaixão, empatia, impermanência e a conexão de tudo. As palavras nos guiam a sermos mais compassivos, amorosos, generosos e gentis.

Curiosidade: recorde mundial do maior pergaminho

O recorde mundial do maior pergaminho de caligrafia é de Jamyang Dorjee Chakrishar, que escreveu um pergaminho de 163,2 metros contendo 65.000 caracteres tibetanos. O pergaminho contém orações para o 14º Dalai Lama compostas por 32 monges diferentes.

Referências: Tibetan Nuns Project, Lion’s Roar, Wikipedia, Alansmlxl, Tashi Mannox.

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