Educação

Parentalidade e educação à luz da sabedoria budista e da perspetiva contemporânea

Educar é um trabalho tremendo. Não existem fórmulas mágicas e muitos fatores podem influenciar no adulto em que a criança se vai transformar. Ainda assim, existem dados e evidências que podem indicar a melhor direção. Partindo de ensinamentos budistas e de matérias jornalísticas, o presente texto oferece algumas dicas.

Educar não se resume a transmitir conhecimento e impor regras. É um processo mais amplo que inclui capacitar indivíduos a serem livres, responsáveis e autónomos, a se desenvolverem em termos de caráter e personalidade, a compreenderem a realidade, a viverem em sociedade de forma ética e construtiva. Acrescentando uma perspetiva budista, educar é também ajudar a que as crianças cresçam com menos sofrimento (dukkha) e mais capacidade de viverem com responsabilidade, alegria e bondade. Trata-se de cultivar um caráter assente na virtude (sīla), na estabilidade mental (samādhi) e na sabedoria (paññā). Conectando com a vida familiar, isso significa ensinar limites e responsabilidade com ternura, treinar a atenção e a regulação emocional e fomentar a reflexão sobre a consequências das ações. O objetivo não é formar crianças obedientes, mas pessoas capazes de compreenderem as consequências das suas ações e de agirem com consideração própria e pelos outros.

Fundamentos éticos: traduzir o Dharma para a infância

O virtude ou ética faz parte da estrutura budista e é uma base para qualquer estrutura educativa sólida. Os Cinco Preceitos clássicos são as fundações para essa base e podem ser adaptados ao universo infantil de forma a terem uma linguagem que a criança compreenda e vivencie:

  • Não ferir e respeito por todos os seres: Uso de “mãos gentis” e cuidado ativo com pessoas, animais (incluindo insetos) e objetos. Se algo é partido ou alguém é magoado, o foco é a reparação.
  • Generosidade e respeito à propriedade: Em vez de apenas “não roubar”, ensina-se a não pegar o que não é nosso, a pedir antes de usar, a devolver depois e a cultivar a gratidão pelo que se tem.
  • Limites corporais: O respeito pelo corpo – o próprio e o dos outros – entender que o corpo é precioso e deve ser tratado com consentimento e respeito.
  • Veracidade e fala hábil: Encoraja-se a fala honesta sem medo excessivo. Quando a criança erra, o ambiente deve ser seguro o suficiente para que ela assuma a responsabilidade. Evitar insultos e palavras que dividem, preferindo uma comunicação que seja verdadeira, benéfica e oportuna.
  • Valorizar o que é saudável para o corpo e mente: Alimentação preferencialmente saudável. Doces e guloseimas não precisam de ser totalmente proibidos, mas não devem ser excessivos e prejudiciais. Dispositivos eletrónicos devem ser evitados em idades precoces e à medida que a criança cresce o seu uso deve ser moderado. Gradualmente deve desenvolver uma maior consciência daquilo que consome (ex: comida, música, filmes, outros produtos), percebendo os seus efeitos tanto em si, como nos outros e no mundo. A clareza mental deve ser valorizada, evitando substâncias que turvam a mente.

Este treino ético deve ser sustentado por um ambiente doméstico definido pelas Quatro Moradas Sublimes (Brahmavihāras):

  • Metta (Bondade amorosa): Desejar e promover o bem-estar de todos.
  • Karunā (Compaixão): Responder ao sofrimento com ação e cuidado.
  • Muditā (Alegria empática): Alegrar-se genuinamente com as conquistas dos outros, combatendo a inveja.
  • Upekkhā (Equanimidade): Manter uma firmeza serena diante de ganhos e perdas, sucessos e fracassos.

Para cultivar estas virtudes, pequenas práticas podem ser inseridas no quotidiano, por exemplo, de manhã ajudar a criança a definir uma intenção positiva (ex: “Hoje falarei com gentileza”); na tarde incentivar a praticar dāna (generosidade), como ajudar a pôr a mesa ou partilhar um brinquedo; na noite fazer uma revisão do dia com 3 perguntas: “O que fiz de benéfico? Onde causei dano? O que aprenderei para amanhã?” Esta é apenas uma estratégia que pode ser adapta e melhorada, e entre muitas outras possíveis, como ajudar a reconhecerem as suas emoções, a regularem reações e a desenvolverem clareza, envolvimento em projetos de solidariedade, debates sobre dilemas éticos (mentir para proteger alguém?), ajudar a construir boas amizades, etc. E evidentemente levando em conta a faixa etária da criança.

A disciplina é importante, não deve ser descurada, mas deve ser compassiva, corrigindo sem humilhação, nomear o comportamento, mostrar as consequências e convidar a reparar, enfatizando a causa-efeito em vez de castigo punitivo. O ambiente deve ser de segurança e confiança em vez de medo e punição. Conforme diz Mário Sérgio Cortella, a tarefa das crianças arrumarem o que usaram numa sala de aula, não tem uma função de natureza disciplinar para conduzir mentes ao adestramento, pelo contrário, é para que ela se habitue a ordenar; a disciplina é organização da liberdade; a disciplina não constrange, a disciplina faz com que sobre tempo; a disciplina organiza liberdade. Conforme também se costuma dizer no Zen em relação á prática do samu (o trabalho, atividades do dia a dia, mantendo a mente contemplativa), “quando limpamos fora, estamos limpando dentro”. O caminho para uma mente mais saudável, equilibrada e limpa, é o cultivo e desenvolvimento de hábitos que possuem essas qualidades.

As crianças aprendem sobretudo pelo exemplo, como tal, a educação passa em grande parte pelo exemplo dos pais e tutores. O que vale ensinar ser uma pessoa virtuosa quando não se é virtuoso? Os país devem vivenciar o que ensinam, mais do que impor devem modelar pelo seu próprio exemplo. Pais que falam com gentileza, assumem os erros e lidam com a frustração de forma equilibrada, tornam-se modelos vivos e não apenas palavras. A conduta dos adultos é o ensinamento mais forte, a educação pelo exemplo é muito mais benéfica e eficaz.

O Sigalovada Sutta (DN 31) é um texto budista no qual o Buda dá diretrizes para a conduta leiga, é um texto que deve ser entendido no contexto daquela sociedade e época. Nesse sutta estão incluídos deveres recíprocos entre pais e filhos. Cabe aos pais refrear a criança do que é prejudicial, estabelecê-la no que é benéfico, educá-la em competências para a vida e apoiá-la no momento certo; por outro lado, os filhos adultos, depois de terem sido sustentados, devem sustentar os pais, fazerem as suas tarefas e serem dignos da herança recebida.

A moda da parentalidade gentil

Nos últimos anos, a chamada parentalidade gentil ganhou popularidade, sobretudo nas redes sociais. Críticos argumentam que esta “moda” estaria a criar uma geração demasiado branda e despreparada para a dureza do mundo. A parentalidade gentil é frequentemente confundida com mimo ou falta de limites, no entanto, essa é uma interpretação incorreta, ser gentil não é ser permissivo. Segundo psicólogos, a parentalidade gentil não constitui um estilo científico autónomo, porém, aproxima-se de um dos estilos parentais.

Os estudos categorizam os estilos parentais em quatro tipos: negligente, autoritário, permissivo e autoritativo (ou participativo). Os pais negligentes não têm níveis elevados de afeto para com a criança nem regras sobre o comportamento da mesma. Os pais permissivos são carinhoso, mas falham na estrutura; perante um mau comportamento, podem pedir “por favor, para”, mas não aplicam consequências. Os pais autoritários exigem obediência cega e punem severamente, ignorando o mundo emocional da criança. Os pais autoritativos combinam altos níveis de afeto, validação emocional, empatia e respeito pela criança, mas com limites firmes e claros. Se uma criança atira comida para o chão, a resposta não é a palmada (autoritária) nem a inação (permissiva), mas sim a validação do impulso de brincar seguida de uma consequência lógica: “A comida fica no prato. Se atirares de novo, terei de retirar o prato”. O objetivo é criar adultos resilientes e saudáveis, não protegê-los de toda a frustração. Isso espelha a visão budista de upekkha (equanimidade) e disciplina compassiva: corrigir sem humilhar, mostrando a consequência dos atos.

Compaixão (e gentileza) sem estrutura transforma-se em permissividade; estrutura sem compaixão degenera em autoritarismo. Validar emoções não significa aceitar qualquer comportamento, significa reconhecer o que a criança sente e, ao mesmo tempo, ensinar formas hábeis de agir. Estudos indicam que crianças criadas com este equilíbrio tendem a ser mais resilientes e a obterem melhores resultados académicos, emocionais e sociais.

Para alcançar este equilíbrio na prática, os especialista identificam quatro fatores como essenciais no desenvolvimento de uma criança: estrutura, calor humano, reconhecimento como indivíduo e uma abordagem parental idealizada para largos anos. E se errar, não há necessidade de recriminação, pois as crianças não precisam de um modelo de ser humano perfeito.

A importância da autonomia: a lição holandesa e o locus de controlo

Enquanto que os pais americanos (e de outros países) debatem-se com o medo e a superproteção, limitando a liberdade física dos filhos em nome da segurança, as crianças nos Países Baixos destacam-se como as mais felizes do mundo, segundo relatórios da UNICEF.

Na Holanda, é comum ver crianças e adolescentes a percorrerem quilómetros de bicicleta sozinhos para a escola ou atividades, independentemente das condições meteorológicas. Esta liberdade de movimento não é negligência; é um voto de confiança. Desenvolve o que os psicólogos chamam de “locus interno de controlo“: a crença de que o indivíduo tem agência sobre a sua vida e a capacidade para resolver problemas. A ausência desta autonomia está correlacionada com taxas crescentes de ansiedade e depressão juvenil.

Esta tese é corroborada pela jornalista Susan Dominus no seu livro The Family Dynamic. Ao investigar famílias que criaram filhos excecionalmente bem-sucedidos (desde atletas olímpicos a empreendedores), Dominus descobriu um padrão: os pais apoiavam, mas não controlavam. Um exemplo paradigmático é o de Sarah True, atleta olímpica. Quando, aos 14 anos, quis atravessar um lago a nado, o pai não proibiu (medo) nem impôs um treino rígido (controlo). Ele simplesmente acompanhou-a num barco, garantindo a segurança básica, enquanto ela nadava por sua conta e risco. Estes pais permitiam que os filhos tomassem decisões difíceis e, crucialmente, que falhassem, entendendo que o fracasso é uma ferramenta pedagógica insubstituível para o amadurecimento.

No Japão também é comum crianças com idade muito precoce irem sozinhas para a escola, e se necessário as pessoas da comunidade se posicionam em locais sensíveis, como cruzamentos, para orienta-las a atravessar a estrada.

Claro que, aumentar a liberdade e autonomia, também tem que levar em conta outros contextos, talvez existem locais demasiado perigosos que torne inapropriado crianças pequenas irem sozinhas para a escola, questões legais de certos países também podem ser um impedimento e a criança pode ainda não ter a maturidade suficiente. Tudo isso é algo que tem que ser avaliado pelos pais, e quando não é possível ser feito de uma forma, outras estratégia podem ser adotadas.

Muitos pais caem na armadilha de controlar excessivamente os filhos na tentativa de garantirem o seu sucesso. Contudo, evidências sugerem o oposto. Pais de filhos extremamente bem-sucedidos tendem a apoiar os sonhos dos filhos sem controlar cada detalhe do seu progresso. Evidentemente, o que é ser bem-sucedido depende de diferentes perspectivas, se para uns uma pessoa do sucesso passar por exemplo por construir uma grande carreira profissional, para outros pode não passar por aí. Mas essa é uma discussão que não será feita neste artigo, o importante a reter aqui é a importância da autonomia responsável e gradual e também do exemplos dos próprios pais, em vez de superprotegerem, estes pais focam-se em serem bons exemplos.

É importante salientar que dar liberdade sem orientação e qualquer limite é abandono; dar orientação com liberdade demasiado limitada é controlo. O caminho do meio passa por acordos claros, confiança progressiva e supervisão sem extremos.

Espiritualidade e meditação para crianças

Para famílias interessadas na espiritualidade, surge frequentemente a questão: como introduzir a meditação para crianças?

Sendo logo direto, a meditação de criança pequena é ser criança, essa é a opinião de Kōmyō Sensei, deixar a criança ser criança.

O Sensei, que considera criança quem tem idade abaixo de 15 anos, diz que a estrutura psicológica da criança ainda está em formação, e o zazen (meditação sentada da tradição Zen) não é uma técnica de relaxamento, mas uma ferramenta profunda de auto-observação, o equilíbrio e a calma que o zazen oferece é um subproduto que exige muito trabalho interior.

A “meditação” da criança deve ser o brincar, a exploração e o contacto com a natureza. Práticas como a meditação a andar – caminhar num parque, observar uma flor, sentir a respiração – são muito mais adequadas, pois integram o movimento e a energia natural da infância.

A melhor forma de ensino é, invariavelmente, o exemplo. Se a criança vir os pais a praticar, pode naturalmente desenvolver curiosidade e pedir para se juntar. Nesse caso a criança poderá praticar o tempo que quiser, nem que seja por 5 minutos. Ou seja, a pratica meditativa formal pode ser apresentada à criança, mas não deverá ser uma imposição. “A criança precisa ser criança. Essa é a grande meditação da criança”.

Existirão outras abordagens e também diferentes exercícios que contemporaneamente são chamados de meditação que poderão ser adequados e benéficos para crianças. Mas a meditação e prática espiritual não deve ser uma imposição.

O longo curso: boas práticas para pais de filhos adultos

Quando os filhos se tornam adultos, a parentalidade altera-se significativamente. Ellen Hamada Crane, advogada e sacerdote budista, descreve a parentalidade de filhos adultos como um “delicado exercício de equilíbrio”, e que os ensinamentos budistas lhe proporcionaram uma
maneira de apoiar os seus filhos com compaixão, aceitação e uma compreensão mais profunda das suas necessidades. Crane dá algumas dicas:

  1. Amor Incondicional: Manter a base de afeto, mas evitar a codependência e condescendência. Por vezes, o “amor disciplinador” (tough love) é necessário para não alimentar comportamentos destrutivos. É essencial que os filhos saibam que são amados incondicionalmente, mesmo quando falham ou enfrentam desafios como abuso de substâncias.
  2. Respeito e ausência julgamento: Aceitar que os filhos podem escolher caminhos radicalmente diferentes das expectativas dos pais. Confiar que eles são capazes de lidar com as consequências das suas vidas é uma forma de respeito.
  3. Desapego e presença: É importante distinguir desapego de distanciamento. O distanciamento implica indiferença ou frieza; o desapego budista significa amar sem se apegar a um resultado específico ou tentar controlar as escolhas do outro.
  4. Escuta honesta: Estar aberto ao diálogo, ajudá-los a considerar opções e oferecer opiniões caso queiram.
  5. Soltar o controlo: Não tentar controlar tudo, reconhecer que são adultos faz parte de aceitar a realidade tal como ela é.
  6. Soltar a culpa: Compreender o conceito de interdependência ajuda os pais a libertarem-se da culpa excessiva. O sucesso ou o fracasso de um filho resulta de inúmeras causas e condições, não apenas da ação dos pais.
  7. Encontrar significado em todas as áreas da vida.

Conclusão

Educar é um ato de treinar para a liberdade. É oferecer raízes de afeto e responsabilidade, para depois dar asas de autonomia e sabedoria. Educar é participar conscientemente no florescimento de outro ser humano e, inevitavelmente, no nosso próprio.

O objetivo primário do budismo é o despertar, não é a educação, contudo, o budismo tem um conjunto de métodos e ferramentas que favorecem o desenvolvimento de um ser humano virtuoso.

Referências: O que é esta moda da “parentalidade gentil”? Ficámos demasiado brandos com os nossos filhos? (CNN Portugal); Porque é que as crianças deste país são as mais felizes do mundo? Uma adolescente dá uma ideia (CNN Portugal); Quer que os seus filhos tenham muito sucesso? Então não faça isto (CNN Portugal); # 423 Perguntas e Respostas – Meditação para Crianças – Monge Kōmyō (Podcast Gotas do Dharma); Compassion Corner: Resources for Teaching Children Empathy for Insects and Other Crawly Creatures (Buddhistdoor); Best Practices for Parents of Grown Children (Lion’s Roar).

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