Ciência e Tecnologia Opinião e Perspetivas

Prisões algorítmicas: manipulação, ilusão e cegueira coletiva na era da atenção

Os benefícios da tecnologia, o que incluí a internet e as redes sociais surgidas mais tarde, são inegáveis. Mas, quando as empresas criadoras dos produtos tecnológicos, principalmente as Big Techs, são dominadas pela ganância e, quando os próprios utilizadores usam esses mesmo produtos de forma ignorante, temos um sério problema. No fundo, quando empresas e utilizadores são controlados pelos 3 venenos da mente referidos no budismo, as vantagens da tecnologia podem tornar-se não apenas uma mera desvantagem, mas algo mais profundo, pois os produtos projetados moldam a nossa mente e levam-nos a tomar decisões prejudiciais para nós e para os outros.

A captura da atenção

“O setor de tecnologia não estava projetando produtos; estava programando utilizadores”, afirma James Williams no seu livro Liberdade e resistência na economia da atenção: Como evitar que as tecnologias digitais nos distraiam dos nossos verdadeiros propósitos. E, quando a maioria das pessoas na sociedade usa o mesmo produto, isso é mais que programar utilizadores, é programar a própria sociedade.

As redes sociais mais populares são projetadas para capturarem a nossa atenção, para nos levarem a clicar aqui ou ali e para nos deixarem presos o máximo de tempo possível aos ecrãs, pois quanto mais tempo passarmos ligados, maior são as receitas publicitárias. E assim, com base no conhecimento da psicologia e de como a mente funciona, os algoritmos são construídos para nos persuadir, para direcionar os nossos pensamentos ou ações de um modo ou de outro.

No inicio do Sec. XX, a indústria da publicidade começou sistematicamente a aplicar novos conhecimentos em psicologia humana. Por exemplo, fumar era algo associado aos homens e um tabu para as mulheres. Edward Bernays, influenciado pelos livros de Freud e pela fascinação das “forças irracionais ocultas dentro dos seres humanos”, perguntou-se como poderia fazer dinheiro com a manipulação do inconsciente. Edward começou a buscar por coisas que tocariam as emoções irracionais das pessoas, sendo que um dos seus primeiros clientes foi uma corporação americana de tabaco que queria aumentar as vendas. E se para isso, as mulheres fossem convencidas a fumar? Bernays começou a trabalhar nessa sentido, associando os cigarros à ideia de desafiar o poder masculino, à emancipação das mulheres, e à beleza feminina. No Desfile de Páscoa de 31 de março de 1929, nos EUA, mulheres contratadas foram fotografas a fumarem as suas “tochas da liberdade”. Dali em diante as vendas de cigarros para as mulheres dispararam; fumar, passou a significar ser uma mulher bela e independente. Esse episódio é contado no documentário o “Século do Ego”. Ou seja, cigarros associados à emancipação feminina não passou de uma persuasão em massa através da manipulação das nossas emoções. A publicidade expandiu-se para além do mero fornecimento de informações e passou a moldar comportamentos e atitudes. Hoje, mecanismos como esses são utilizados não apenas na publicidade mas também pelos algoritmos.

Para capturarem o máximo de tempo possível da atenção dos seus utilizadores e, para vencerem a feroz competição pela nossa atenção, o design de programação de redes sociais e outros produtos digitais apelam às nossas partes mais baixas, aos nossos impulsos tribais, e exploram as nossas vulnerabilidades cognitivas e os nossos vieses na tomada de decisões, que nas últimas décadas vêm sendo diligentemente catalogados. Entre esses vieses está a aversão à perda (como o “medo de ficar de fora”, condição conhecida FOMO, fear of missing out), comparação social, viés do status quo, da confirmação, da ancoragem, o efeito de enquadramento, e inúmeros outros.

A programação persuasiva não é inerentemente má, mesmo quando apela para os nossos vieses, mas torna-se um problema quando as motivações são alicerçadas na ganância e outros aspetos negativos da mente.

Chegámos assim ao século XXI, como disse James Williams, “com persuasão sofisticada aliada a tecnologia sofisticada de modo a tornar prioridade nas nossas vidas os mais mesquinhos objetivos. […] A confluência dessas tendências resultou na ‘economia da atenção’ digital, ambiente no qual produtos e serviços digitais competem incansavelmente por capturar e explorar a nossa atenção. Nesse ambiente, ganhar significa fazer com que o maior número possível de pessoas gaste o máximo de tempo e atenção com o produto ou serviço — em que pese o facto de que, como se costuma dizer na economia da atenção, ‘o utilizador é o produto’.”

Temos um apetite quase infinito por distrações e vivemos num mundo em que a informação abunda, mas quando a informação se torna um recurso abundante, corre-se o risco de perder o controlo sobre os processos que regulam a atenção.

Nas suas obras 1984 e O Triunfo dos Porcos, George Orwell descreve sociedades controladas pela coação, pela dor e pelo medo, onde a liberdade é extinta através da repressão explícita. Em contrapartida, em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley profetizou que os maiores adversários da liberdade não surgiriam daquilo que tememos, mas daquilo que nos gera prazer e distração. Nesse cenário, as pessoas amam a própria opressão, tornando-se escravas de um sistema que sequer percebem existir.

Enquanto Orwell temia o banimento dos livros, Huxley temia que não houvesse motivo para os banir, pois ninguém mais teria o interesse de ler. Enquanto o primeiro temia que a verdade nos fosse escondida, o segundo temia que ela fosse afogada num mar de irrelevância e futilidade. Como bem resumiu o sociólogo Neil Postman na sua obra Divertindo-se até Morrer, o perigo não é apenas o que nos faz sofrer, mas o que nos entretém.

Se certas sociedades guardam semelhanças com o modelo orwelliano, a nossa sociedade moderna assemelha-se cada vez mais à visão de Huxley. Através das redes sociais e dos algoritmos de recomendação, vivemos num fluxo constante de dopamina, onde o entretenimento infinito não só nos aliena como nos torna vulneráveis à manipulação algorítmica. Exemplos como o do Brexit ou a crise dos Rohingya demonstram como estas ferramentas podem ser convertidas em armas de desinformação e ódio, moldando democracias e incitando conflitos sem que o cidadão perceba a origem da influência. Tornamo-nos assim, “escravos” dos nossos próprios impulso, sem a necessidade de um ditador com um martelo em punho.

Como disse James Williams: “As gerações futuras nos julgarão não apenas pela maneira como cuidamos do ambiente exterior, mas também dos nossos ambientes interiores. A crise atual não ocorre apenas sob a forma de temperaturas globais crescentes, mas também por nossa capacidade de atenção prejudicada. A nossa missão, portanto, é reprogramar não só o mundo real das coisas, mas também o nosso mundo interior, para que possamos dar atenção às coisas realmente importantes do mundo.”

Esta é por isso uma época em que precisamos cada vez mais entender como a nossa mente funciona. Se não nos conhecemos a nós próprios, acabamos por ser manipulados tanto pelas Big Techs, cujos seus algoritmos têm como premissa maximizar os lucros, como por quem através dessas ferramentas tenta atingir certos fins.

A crise dos Rohingya

Um dos primeiros exemplos trágicos do papel dos algoritmos na propagação de ódio e dilaceramento da coesão social ocorreu em 2016-2017, quanto os algoritmos do Facebook ajudaram a disseminar violência contra a minoria rohingya em Myanmar. As relações entre os budistas e os rohingya, que professam a religião muçulmana, não estavam livres de contendas, mas ainda assim iam convivendo juntos. A entrada do Facebook em Myanmar, que se tornou quase sinónimo de internet, mudou tudo.

Um monge budista radical e os seus seguidores começaram a partilhar mensagens divisavas, de desinformação e de ódio contra os rohingya. As mensagens reforçavam a ideia que essas pessoas eram terroristas, que queriam estabelecer uma jihad antibudista, que no passado e em outros locais os muçulmanos faziam perseguições aos budistas e que agora acontecia o mesmo em Myanmar. Um número inacreditável de teorias de conspiração surgiu, com mensagens que misturavam verdades, com meias verdades e mentiras. Os budistas, que representavam quase 90%, temiam perder o seu lugar ou se tornarem minoria.

Os algoritmo proativamente amplificavam e promoviam os conteúdos de ódio, dando a percepção de um problema real. Mas na realidade, as mensagens de ódio nem eram a maioria, existiam outras vozes em Myanmar, muitas das quais com opiniões moderadas e compassivas, contudo essas tinham menos visibilidade. Por exemplo, o abade budista Sayadaw U Vithuddha abrigou mais de 800 muçulmanos no seu mosteiro. Quando os extremistas cercaram o mosteiro e lhe exigiram que entregasse os muçulmanos, o abade lembrou à multidão os ensinamentos budistas sobre a compaixão e disse a elas que se levassem os muçulmanos teriam de o matar também. Sayadaw U Vithuddha e outros budistas partilhavam mensagens compassivas, mas na batalha por atenção, eram as mensagens repletas de ódio que se espalhavam pelo Facebook, o que culminou em ondas de grande violência.

Não é que os algoritmos tenham sido programados assim por maldade, mas porque esse tipo de conteúdo gera mais visualizações e prende as pessoas ao ecrã e, consequentemente gera mais receita publicitária. Foi dado claramente como provado o papel significativo dos algoritmos do Facebook nos acontecimentos violentos que se sucederam.

A desumanização dos rohingya, como se fossem bestas ou animais, servia de justificação para o monge radical. Além de um completo absurdo, mesmo que fosse o caso, nada justifica os ataques brutais ocorridos. Não existe nada, nem uma única palavra nos ensinamentos budistas que legitime o que aconteceu.

O 1º dos 5 preceitos budistas é precisamente não matar ou ferir seres vivos e, no Dhammapada, versus 129-130, o Buda diz claramente: “Todos tremem diante da punição, todos temem a morte. Colocando-se no lugar dos outros, não mate, nem faça com que os outros matem. Todos tremem diante da punição, a vida é preciosa para todos. Colocando-se no lugar dos outros, não mate, nem faça com que os outros matem.”

No Karaniya Metta Sutta (SN 1.8), o Buda declara: “Quem é hábil no que é benéfico, desejando alcançar aquele estado de paz, age assim: capaz, correto, honrado, com a linguagem nobre, gentil e sem arrogância. […] Todos os seres vivos que existem, fracos ou fortes, sem exceção, compridos, grandes, médios, curtos, sutis, grosseiros, visíveis e invisíveis, próximos e distantes, nascidos e por nascer: que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança. Que ninguém engane ou despreze outrem, em nenhum lugar, ou devido à raiva ou má vontade deseje que alguém sofra. Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida, ama e protege o seu filho, o seu único filho, da mesma forma, abraçando todos os seres, cultive um coração sem limites. Com amor bondade para todo o universo, cultive um coração sem limites: Acima, abaixo e em toda a volta, desobstruído, livre da raiva e da má vontade.”

Infelizmente, não foram essas as palavras que se espalharam, foi o ódio infundado, o que culminou em eventos trágicos. Sendo que, quando pessoas ou grupos que se chamam “budistas” cometem ou apoiam atos como a perseguição e violência contra os rohingya, isso não é o budismo, é a mente não treinada, capturada por identitarismo, medo e propaganda. Em termos budistas: ignorância (avijja), apego a visões (ditthi), e ódio (dosa) ofuscam a ética. “Budista” como rótulo cultural não garante a prática correta e a conduta ética.

Há que salientar que a responsabilidade não vai inteiramente para os algoritmos, as pessoas que partilharam mensagens de ódio e que perpetuaram os ataques, não estão isentas das suas próprias responsabilidades, mas a influência do Facebook na tragédia, mesmo que inadvertidamente, é inegável.

O Brexit e a eleição de Donald Trump

Outros exemplos emblemáticos do papel significativo dos algoritmos foram o Brexit e a primeira eleição de Donald Trump.

Relatórios de inteligência e investigações oficiais indicam que agentes estrangeiros orquestraram operações de influência, explorando um ecossistema digital onde a Cambridge Analytica foi uma peça-chave. Ao obter acesso indevido a dados de milhões de utilizadores do Facebook, esta organização facilitou uma microsegmentação agressiva de propaganda.

Através de exércitos de bots e trolls, foram disseminadas mensagens altamente segmentadas, combinando factos, meias-verdades e mentiras deliberadas para manipular a opinião publica. Esta engenharia social foi decisiva no Brexit e na eleição de Donald Trump, influenciando franjas do eleitorado para que votassem contra os seus próprios interesses e em prol de agendas geopolíticas externas.

Hoje, os resultados são inequívocos. O Brexit resultou num fracasso económico e social, tendo as promessas de campanha falhado em toda a linha. Igualmente grave foi a radicalização interna, como o movimento conspiratório QAnon nos EUA, que alimentado por este ecossistema de desinformação, serviu de catalisador para a invasão ao Capitólio em 2021. O que começou como manipulação digital externa culminou num ataque direto e violento às instituições democráticas.

Eleger um político é algo de grande responsabilidade. Se temos dados reais sobre o perfil de determinado político, o elegemos, e essa pessoa torna o país e o mundo pior, somos de certa forma co-responsáveis. Por isso é necessário grande cuidado para analisarmos os factos e não nos deixarmos manipular. Por exemplo, numa reportagem* que vi na RTP sobre a comunidade portuguesa nos EUA, estava sendo mostrado como a vida dessas pessoas piorou com e eleição do Trump; foi então perguntado a uma dessas pessoas em quem é que votou, e a resposta foi que tinha votado em Trump. Ora, o perfil de Donald Trump já era conhecido, mas ainda assim, muitas pessoas votaram nele. O extremar de comportamentos que tem existido na sociedade leva-nos a um sítio pior do que estávamos antes de tentarmos sair dele. Há coisas que precisam ser mudadas? De acordo, mas isso não se faz com visões ideológicas extremas e nefastas.

Manipulação das mentes

Uma das características os seres humanos é o comportamento em grupo, o que implica a validação pelos seus pares. As redes socias permitem muito mais validação que na vida real. Sempre que recebemos um like ou um comentário positivo são libertadas pequenas quantidades de dopamina no nosso cérebro. Integrar grupos significa desenvolver identidades, identidades conduz ao antagonismo, o antagonismo conduz ao confronto. O confronto gera duas emoções fundamentais, medo e ódio (o que inclui a revolta). As redes sociais exacerbam estes instintos naturais. Nós somos bons, eles são maus, coesão e validação entre nós, medo e ódio em relação a eles. Nós somos bons porque somos patrióticos, eles são maus porque são traidores, nós somos bons porque somos o proletário, eles são maus porque são os burgueses. Nós bons, eles maus. Com base na nossa identidade definimos o “inimigo” e entremos em confronto com eles. A identidade conduz à divisão e à polarização.

Estar atrás de um computador dá uma sensação de segurança, o que leva a uma maior facilidade de proferir insultos. O facto do ecrã nos impedir de ver as reações das nossas vítimas, faz com que não tenhamos consciência de que do outro lado estão seres humanos e acabamos por ultrapassar a barreira da decência. Por isso as discussões nas redes sociais muitas vezes parecem verdadeiras “guerras”.

As teorias da conspiração são apelativas porque alimentam a sensação de ser especial, de perceber aquilo que a “manada” não vê. Já o populismo atrai porque oferece respostas simples para problemas complexos. Em ambos os casos, a simplificação da realidade e o reforço da identidade pessoal ajudam a explicar o seu poder de sedução.

É isso que se passa nas redes sociais, e é através desses mecanismo que as pessoas acabam por ser manipuladas, manipulação essa que muitas vezes é encetada por forças políticas, sejam elas internas ou externas. Esse é inclusive um perigo para a sociedade democrática.

O jornalista e escritor José Rodrigues dos Santos, no livro A mulher do Dragão Vermelho, afirmou através do personagem principal: “Dizia-se que a liberdade era um tesouro, mas na verdade ela era mais do que um tesouro porque não tinha preço. […] As pessoas no Ocidente haviam sido tão mimadas pela liberdade e pela democracia e davam-nas de tal modo como garantidas que até se davam ao luxo de achar pirosa a sua exaltação. Mas era quando a ameaça se tornava real que a arrogância se esfumava e o piroso se revelava tão perturbadoramente importante.”

A Nobel da Paz Maria Ressa, declarou que*: “Estamos a caminho de outra era de fascismo em que o controlo sobre nós é o controlo da mente. […] Estamos literalmente a eleger líderes iliberais democraticamente. E o que depois vemos é que estas contas falsas que espalham desinformação trabalham em conjunto, a nível global. […] A liderança hoje é difícil, na melhor das hipóteses, e impossível, na pior, por causa da forma como as pessoas recebem notícias, em particular os jovens. […] Citando um antigo chefe da União Soviética e antigo chefe do KGB, Yuri Andropov: ‘A desinformação é como a cocaína – se a tomarmos uma ou duas vezes, estamos bem, mas se a consumirmos a toda a hora, ficamos viciados’. Nós, cidadãos de todo o mundo, tornámo-nos viciados, o que significa que não conseguimos ajudar-nos a nós próprios. Não somos saudáveis. Perdemos o nosso poder. […] Em todos os países, as duas linhas de fratura que são abertas à força pelas operações de desinformação são as mesmas: género e raça.”

No final do livro Protocolo Caos, José Rodrigues dos Santos referiu: «É certo que, num primeiro momento, a substituição da verdade pela mentira tem como efeito os eleitores tomarem decisões com base em informação falsa, o que produz resultados catastróficos. Má informação conduz a más decisões. É o que está a acontecer nos regimes liberais devido à manipulação das redes sociais por atores antiliberais. Mas a prazo as pessoas aperceber-se-ão de que a informação é falsa e começarão a pôr em dúvida tudo o que ouvem e leem. O resultado final, como se constatou ao longo da História nos regimes ditatoriais em geral e nos totalitários em particular, é que se irá criar a convicção generalizada de que não existe verdade. “Se toda a gente te mentir, a consequência não é que acreditas na mentira, mas que as pessoas deixam de acreditar no que quer que seja”, estabeleceu Hannah Arendt sobre os regimes totalitários, o que levou Timothy Snyder a avisar que “o autoritarismo começa quando já não conseguimos estabelecer a diferença entre o que é verdadeiro e o que é atraente”. Não é por isso difícil imaginar o efeito devastador para as democracias liberais do uso destas tecnologias por parte de ditaduras antiliberais […]. A última palavra deixo-a a Aleksandr Soljenítsin e ao alerta que o grande escritor russo lançou à humanidade sobre a permeabilidade nos regimes liberais às ideias antiliberais, palavras que permanecem hoje tão válidas como quando foram redigidas, às escondidas e a medo, num dos momentos e locais mais sombrios do século XX. “A natureza humana está cheia de enigmas e contradições”, escreveu o autor de O Arquipélago Gulag. “Um dos enigmas é: como é possível que pessoas que foram esmagadas pelo absoluto peso da escravidão e atiradas para o fundo de um poço mesmo assim tenham força para se levantarem e libertarem, primeiro no espírito e depois com o corpo; enquanto aqueles que voam sem restrições sobre os cumes da liberdade de repente perdem o gosto pela liberdade, perdem a vontade de a defender e, confusos e perdidos para lá da esperança, quase começam a desejar a escravidão. Ou de outro modo: por que razão sociedades embrutecidas por meio século de mentiras que foram forçadas a engolir encontram dentro delas uma certa lucidez de coração e espírito que lhes permite ver as coisas na sua verdadeira perspetiva e compreender o real significado dos acontecimentos; enquanto sociedades que têm acesso a todo o tipo de informação de repente mergulham na letargia, numa espécie de cegueira em massa, um tipo de autoengano voluntário.” Esta é uma descrição exata do nosso mundo.»

Um mundo de ilusões

Nas redes sociais quase todos querem ter opinião, pessoas que pensam que sabem tudo, como uma espécie de tudólogos, mas muitas vezes sem realmente terem conhecimento dos factos e opiniões bem fundamentadas. Umberto Eco, filósofo, escrito, professor e autor dos célebres livros Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, afirmou que: “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam num bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um Prémio Nobel. É a invasão dos imbecis.” Talvez essa seja uma declaração um tanto exagerada, pois também é positivo que todos tenhamos acesso a plataformas em que nos podemos expressar, sem ficarmos reféns de uma elite que escolhe o que pode ser dito ou não, além de que não são apenas “imbecis” que frequentam as redes socias, também existem “Umbertos Ecos” nas redes. Mas não deixa de ser verdadeiro que o que mais há nas redes sociais são imbecilidades.

Temos acesso a uma imensidão de informação, mas ao dependermos de feeds geridos por algoritmos, acabamos presos em bolhas ideológicas e realidades paralelas. Esse ciclo de retroalimentação reforça as nossas próprias convicções e vicia o nosso olhar, impedindo-nos de perceber outras perspetivas.

Yuval Noah Harari, que no seu livro Nexus fala das redes de informação, desde a pré-história até às redes sociais modernas e IA, diz: “Na Grécia antiga, Platão enunciou a famosa alegoria da caverna, na qual um grupo de pessoas está acorrentado a vida toda dentro de uma ­caverna, de frente para uma parede vazia. Uma tela. Nessa tela, elas veem várias sombras projetadas. Os prisioneiros acham que as ilusões que veem é a realidade. Na Índia antiga, sábios budistas e hindus afirmavam que todos os homens são prisioneiros de maya — o mundo das ilusões. Aquilo que costumamos chamar de ‘realidade’ não passa, muitas vezes, de ficções na nossa mente. Pessoas podem travar guerras inteiras, matando outras e se dispondo a morrer, por causa da sua crença nesta ou naquela ilusão. René Descartes, no século XVII, temia que um demónio maldoso o estivesse mantendo preso num mundo de ilusões, criando tudo o que ele via e ouvia. A revolução dos computadores nos põe frente a frente com a caverna de Platão, com maya e com o demónio de Descartes.”

Devo dizer que o problema não é os computadores e a internet em si, como Noah também concorda. O computadores e a internet nos trouxeram inúmeros benéficos, mas, é preciso usá-los adequadamente. Além disso, apesar do design dos algoritmos promoverem as mensagens mais insensatas, são os humanos que as escrevem e partilham. Infelizmente, ainda existe muito xenofobismo, chauvinismo, e outros aspetos negativos da mente humana, que antes estavam “adormecidos” mas que novas forças políticas têm vindo a normalizar, com a ajuda dos algoritmos, é certo, mas não só.

O papel do jornalismo

Em tempos como estes, mais do que nunca o papel de jornalismo é de fundamental importância. É verdade que os meios de comunicação social muitas vezes estão ao serviço de grandes grupos económicos ou de outros interesses e nem sempre tudo nos é contado. Também é verdade que na busca por audiências a seriedade por vezes é descurada. Mas também é verdade que existem meios sérios e que numa sociedade democrática o jornalismo é vital.

Nas redes sociais quase não há filtro, tudo é partilhado, seja verdade ou mentira, enquanto que o jornalista, embora possa cometer erros, tem que fazer um verificação cuidados antes de publicar algo para podermos ser bem informados. Por isso, embora possamos usar redes sociais, não devemos descurar a informação vinda do jornalismo serio, o que também não significa que não se possa questionar o que nos é passado e que se tenha de “engolir” tudo. Os meios de comunicação social têm linhas editoriais variadas, conhecê-las ajuda a perceber melhor o seus alinhamentos.

Atualmente com a internet, já não precisamos de acompanhar as noticias do modo tradicional, como ficar a assistir a tudo o que é debitado na TV. Através dos websites e apps (uns dos benefícios tecnológicos), podemos ter um papel mais ativo, filtrando o que é mais útil, deixando de lado o irrelevante, e evitando perder tempo desnecessário. Sempre nos podemos distanciar totalmente, mas se somos cidadãos ativos, com o dever de votar e tomar decisões, ficar numa redoma não será o mais indicado. Precisamos de conhecer o mínimo do que se passa no país e no mundo, evitando no entanto, o excesso de informação que coloque em causa o próprio bem-estar.

Usar a tecnologia sem ser usado por ela

A tecnologia não precisa ser demonizada mas sim usada a nosso favor. A internet, funcionando quase como uma espécie de Rede Indra, permitiu aproximar pessoas de diferentes países e culturas, quebrando barreiras geográficas e sociais. Ajudou a que qualquer um possa compartilhar a sua arte e facilitou o encontro entre minorias e grupos de pessoas com os mesmo interesses. A internet facilitou o acesso à informação e à educação (plataformas de vídeos não servem apenas para a partilha de vídeos irrelevantes). Tornou muitos trabalhos mais flexíveis e ajudou a uma maior colaboração. A telemedicina permitiu consultas médicas para quem vive em áreas remotas ou tem dificuldade de locomoção. O acesso à preciosa sabedoria milenar budista ficou acessível a um número muito maior de pessoas. A tecnologia e a internet criaram um ecossistema de possibilidades que expande as nossas capacidades intelectuais, sociais e físicas, se usadas com discernimento.

O que precisamos ao usar a tecnologia é precisamente discernimento e intenção correta e consciente. Ter alguns limites também é necessário se quisermos ter liberdade, pois sermos movidos apenas pelos nossos apetites é escravidão.

Se pertentemos usar as redes sociais, podemos tomar algumas medidas, tais como:

  • limitar o tempo de uso;
  • não passar o tempo precioso fazendo scrolling infinitamente;
  • definir intenções (por que entro aqui?);
  • sermos seletivos no que seguimos e no que nos envolvemos;
  • escutar ou ler cuidadosamente o que os outros dizem em vez de reagir impulsivamente;
  • falar e debater com elevação (evitando falácias, e levando em conta que o interlocutor pode usar muitas falácias, que aliás é muito aplicado por quem tem visões extremistas, o que torna o debate improdutivo);
  • ter capacidade de duvidar da própria opinião;
  • estar disposto a entender os outros e até a mudar de opinião;
  • abster-se de opinar quando não tem informações ou conhecimento suficiente sobre determinado assunto;
  • ser equilibrado ao receber críticas (cada um tem o direito à sua opinião, isso pode ser uma forma de a pessoa se sentir melhor com ela mesma, não se tem que provar nada a ninguém, talvez a pessoa até esteja certa, quem está em paz não sente necessidade de atacar ninguém);
  • evitar a exposição exagerada; refrear a vaidade;
  • fazer uso das opções disponíveis das redes e aplicações, tais como filtros e configurações de privacidade.

É importante também não acreditar imediatamente em tudo o que se lê e vê, saber identificar o verdadeiro e falso, cruzar fontes de informação e refletir. Por exemplo, numa época de polarização política, somos inundados com visões extremistas tanto de esquerda como de direita. Muitas dessas posições enquadram-se perfeitamente nas 14 carteiristas do fascismo referidas por Umberto Eco: (1) Culto da tradição; (2) Rechaço do modernismo; (3) Culto da ação pela ação; (4) Rechaço do pensamento crítico; (5) Medo ao diferente; (6) Apelo às classes médias frustradas; (7) Nacionalismo e xenofobia; (8) Inveja e medo do “inimigo”; (9) Princípio de guerra permanente, antipacifismo; (10) Elitismo, desprezo pelos fracos.; (11) Heroísmo, culto à morte; (12) Transferência da vontade de poder a questões sexuais; (13) Populismo qualitativo, oposição aos apodrecidos governos parlamentares; (14) Novilíngua. Estes elementos também são típicos de outros tipos de despotismo ou fanatismo, termos ciência dessas características ajudar a evitar cairmos em ideologias extremistas. “Quando o fascismo voltar, ele não dirá ‘eu sou o fascismo’. Ele dirá ‘eu sou a liberdade'”, terá dito também Umberto Eco.

Muito do que aparece nas redes sociais depende do que a alimentamos, mas, se não estão sendo úteis o que temos que fazer é cortar totalmente ou usar de forma muito mais limitada. Contudo, a internet não se limita às redes sociais, que é uma criação muito mais recente, e nem as redes sociais se limitam às das Big Techs. Tendo ou não redes sociais, existem outras opções livres dos algoritmos persuasivos, tais como fóruns e outras tecnologias. O RSS por exemplo, é uma tecnologia que muitos sites/blogs suportam. Em vez de recebermos os seus conteúdos através das redes sociais e ficarmos assim dependentes da organização e seleção pelos algoritmos dessas redes, podemos através de aplicações de RSS feeds subscrever os sites ou blogs que queremos acompanhar. Nessas aplicações é possível organizar e categorizar o conteúdo que recebemos sem qualquer intermediário, somos nós a fazer a curadoria. Essa é uma forma muito mais eficaz de acompanhar diversos tipos de conteúdos, inclusive, o website Olhar Budista suporta essa tecnologia.

De igual modo, os smartphones tanto podem ser uma ferramenta extremamente útil como uma fonte de problemas. O que colocamos nesses dispositivos e a forma como usamos depende de nós. Tanto os podemos usar para aceder a conteúdos insignificantes, como para ler um bom livro (ebook) ou escutar um podcast de qualidade. Nos smartphones podemos configurar as notificações dando prioridade ao que é realmente importante, silenciado o que é menos importante e bloqueando o que é irrelevante.

É inevitável sermos influenciados, para bem e para o mal, pelo que contactamos no mundo. Para termos uma mente saudável precisamos de fazer contacto com o que é saudável e eleva a mente, e evitar o não-saudável, de forma equilibra e sem extremismos, pois não podemos e nem devemos colocar uma barreira para tudo. Aprender a pensar e refletir, fazer buscas ativas pelos assuntos que temos interesse, em vez da dependência de recomendações (ou seja serem os algoritmos a decidirem o que metemos na cabeça), dá-nos um maior controlo. Por outro lado, também podemos tirar partido das recomendações dos algoritmos para descobrir novos conteúdos, o que é preciso é uma maior consciência na sua utilização. Além disso, usar a tecnologia apropriadamente significa também termos momentos apenas para nós, offline e livres de estímulos.


“Não nos devemos contentar com o que nos dizem. Devemos averiguar se é verdade. Saber se é a única verdade e cotejá-la [compará-la, confrontá-la] com a verdade dos outros. Há que procurar sempre o outro lado de tudo.”
– José Saramago, “A corrupção é um cancro oculto”, La Voz de Asturias, Entrevista em 1995


Atualização 1: coincidentemente, no dia em que este artigo foi publicado (praticamente concluído há dias), o parlamento português aprovou um diploma que limita o acesso a redes sociais a menores de 16 anos. Devo dizer que apesar do que foi exposto neste artigo tenho sérias dúvidas que colocar limites à liberdade seja o melhor caminho a seguir. Penso que a educação, o estimulo do pensamento crítico, a consciencialização e uma melhor regulamentação para as Big Techs seria uma abordagem mais assertiva.

Atualização 2 (30/03/2026): Vai ser publicado em Portugal o livro “A Onda” de Todd Strasser. Embora não seja diretamente sobre redes sociais, pois foi originalmente escrito em 1981, ele aborda temas como a manipulação de massas, conformismo e perda de identidade individual, mostrando como a necessidade de pertença pode sobrepor-se ao pensamento crítico. O livro é baseado numa experiência real com alunos do ensino secundário, em que um professor decide mostrar os mecanismos psicológicos que levaram à ascensão do nazismo, com o objetivo de provar que mesmo sociedades democráticas não estão imunes ao fascismo. Mas o que seria um exemplo prático, acaba por sair do controlo. No livro, o autor demostra como um grupo de jovens pode ser rapidamente seduzido por ideologias autoritárias quando esta se apresenta de forma organizada, convincente e apelativa. “Sabes, querida, eu pensei que eles iam detestar aquilo, receber ordens e serem obrigados a sentar-se direitos e a declamar respostas. Em vez disso, reagiram como se tivessem estado toda a vida à espera de uma coisa assim. Foi estranho”, afirma o professor depois da primeira aula. O movimento ganha dimensão, os alunos viram-se uns contra os outros, considerando que só quem está dentro da “Onda” é especial, e quem está fora sente-se excluído. “De repente, sinto-me sozinho. É como se todos os meus amigos fizessem parte de um movimento louco e eu fosse um excluído só porque me recuso a fazer como eles”, afirma um deles. “O fascismo não é uma coisa que os outros fizeram, está aqui, em todos nós”, lembra o professor. Para saber mais sobre o livro consulte o artigo da CNN Portugal: Pode um movimento fictício de manipulação de massas ser um perigo real? “A Onda” é um alerta sobre a vulnerabilidade humana às ideologias extremistas. Em 2008 um filme Alemão com o mesmo nome foi adaptado do livro. Vi há anos o filme e recomendo. “Como Ser um Tirano”, é uma minissérie documental também interessante.

Atualização 3 (24/05/2026): a CNN publicou um artigo precisamente sobre a importância de ensinar às crianças o pensamento crítico para que saibam como se manterem seguras na Internet, uma solução alternativa a simplesmente proibir-se o acesso às redes: Esta competência pode proteger as crianças dos perigos das redes sociais.

Sugestão de palestra:

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