Ciência e Tecnologia Opinião e Perspetivas

Inteligência Artificial, Bots e Budismo

Os bots movidos a inteligência artificial estão na ordem no dia. Para o bem e para o mal, a IA poderá ter um impacto significativo na nossa sociedade. Existem grandes benefícios, como por exemplo na aplicação em medicina, entre tantas outras utilizações positivas, mas também pode ser utilizada erroneamente e nos causar grandes dissabores.

Os primeiro bots que surgiram eram muito rudimentares e sem recursos de IA. Eu mesmo lá para os anos 2000, com base num outro bot cheguei a construir o meu próprio bot para o IRC (Internet Relay Chat). Basicamente estavam programadas nele algumas frases que deveria dizer quando uma pessoa dissesse uma determinada palavra. Ele também respondia a comandos, como por exemplo apresentar um menu com os vários comandos que ele podia executar, que incluía apresentar estatísticas de utilização de um canal de IRC, fazer uma busca na internet, opções administrativas, etc.

Os bots eram assim limitados a seguirem regras estritas e a fornecerem respostas pré-programadas. Com o avanço da Inteligência Artificial, e em particular com a ascensão do Deep Learning (um subcampo do Machine Learning), os bots evoluíram significativamente e tornaram-se muito mais sofisticados. Hoje, eles são capazes de processar volumes imensos de dados (Big Data), aprendendo e identificando padrões de forma autónoma. Esta aprendizagem permite-lhes gerar respostas originais e contextuais, em vez de apenas as reproduzir, através da aplicação de modelos estatísticos e cálculos probabilísticos complexos.

Existem bots que têm uma abordagem mais ampla, como o ChatGPT e o Google Bard, e existem outros com abordagens mais direcionadas, como o RoshiBot. Esse bot foi treinado especificamente com os ensinamentos do professor Zen Budista Shunryu Suzuki Roshi, ou seja, o bot foi alimentando com os textos de Shunryu, de forma que as suas respostas fossem baseadas na sua sabedoria e não em informações aleatórias. São vários os projetos budistas que começam a surgir neste área. No Japão em 2019 foi construído um robô com face humana chamado Mindar. Ele dá ensinamentos no templo Kodaiji, em Kyoto, limitando-se por enquanto a citar áudios programados, mas estando planeada a implementação de inteligência artificial no robô. Também na China já apareceram alguns “sacerdotes robôs”.

Serão esses mais meios hábeis positivos para difundir os ensinamentos budistas? No estado atual ou no futuro, serão meios úteis para nos ajudarem a percorrer o caminho budista? A IA pode articular a soma total do conhecimento humano, mas poderá ajudar-nos a cultivar a sabedoria e a compaixão – ou será um perigo no caminho espiritual? Não tenho uma resposta concreta, mas tendo a pensar que será mais positivo que negativo.

Sempre que surge uma grande inovação, há sempre resistência e medo por parte de algumas pessoas. Houve resistência quando surgiu a televisão, a rádio e até a eletricidade. Quando surgiu a escrita, houve criticas significativas. Uma das mais conhecidas é a do grande filosofo Platão, dizendo no Fedro que a escrita enfraquece a memória e cria apenas uma aparência de sabedoria. Hoje já ninguém diz isso, e ironicamente, foi por meio dela que a critica original sobre a perda de memória foi preservada para a posteridade. Foi por meio da escrita que os ensinamentos do Buda foram preservados e chegaram até nós. A era dos computadores e da internet massificou ainda mais o acesso à informação, permitindo difundir o budismo para milhões de pessoas em todos os continentes. E agora, a IA é mais uma ferramenta que podemos utilizar.

Voltando ao RoshiBot. Ele foi criado por Jiryu Rutschman-Byler, abade do Green Gulch Zen Center, fundado nos EUA pelo grande professor zen Suzuki Roshi, falecido em 1971. Rutschman-Byler foi inspirado pelo poder da IA ​​para dar “voz aos mortos”, pois muitas pessoas estavam usando discursos, cartas, e outros textos, para através da AI “ressuscitar” figuras do passado.

Como a IA terá sem dúvida um impacto cada vez maior na nossa cultura, muitos budistas, incluindo Rutschman-Byler, sentem que não há outra escolha senão relacionar-se com ela – e ver se pode ser benéfica.

A primeira versão que Rutschman-Byler lançou chamava-se Suzuki Roshi Bot. A ideia era que ele se envolvesse em intercâmbios sobre o budismo na forma do tradicional encontro Zen entre professor e aluno chamado dokusan, capturando esperançosamente a voz e a sabedoria de Suzuki Roshi. Mas Rutschman-Byler não ficou totalmente satisfeito com o resultado, havia algumas respostas bem colocadas que fazia parecer “magia”, mas também parecia meio superficial. Além disso, ao explorar as falhas do modelo de linguagem da IA, um membro da comunidade Green Gulch, que é linguista computacional, conseguiu convencer Suzuki Roshi Bot a dizer o que Rutschman-Byler chama de coisas “vil e escandalosas”. Preocupado com seu potencial para enganar, ele colocou o Suzuki Roshi Bot offline. Posteriormente ele relançou a sua personagem IA como RoshiBot. A IA permite que os utilizadores interajam com textos de Suzuki Roshi, mas não afirma ser Shunryu Suzuki.

Nikki Mirghafori, professora budista e cientista de IA, diz que na sua graduação começou a se interessar por IA. “Para mim, a IA não se tratava tanto de criar máquinas sobre-humanas, mas de compreender como a mente funciona. Porque se pudéssemos simulá-la, talvez pudéssemos entender como funciona a inteligência, como funciona a mente”, afirmou Mirghafori. Essa curiosidade levou-a ao budismo, que muitas pessoas definem como uma ciência da mente. Mirghafori recomenda cautela com a IA, dizendo que a devemos entender pelo que ela é: “um mecanismo de busca muito inteligente.”

Porém, há quem se pergunte se algum dia essas Inteligências Artificiais poderão desenvolver uma consciência genuína. Para já ainda estão mesmo muito longe disso. São construídas com algoritmos altamente complexos, em alguns momentos parecem humanos a responder, mas ainda são limitadas, e é mesmo muito incerto se algum dia será possível construir uma IA ao ponto de desenvolverem consciência e senciência, embora, por exemplo o neurocientista António Damásio diga não ser impossível desenvolver uma consciência artificial, apenas atualmente não é possível.

Iain Thomas, autor do best-seller What Makes Us Human: An Artificial Intelligence Answers Life’s Biggest Questions, diz que o GPT-3 (modelo do ChatGPT) não é senciente, pelo menos não da maneira como a maioria de nós pensa dos seres sencientes. “A senciência com a qual interagimos quando falamos com um GPT-3, somos na verdade, nós mesmos”, explica ele. “Com a IA, criámos uma forma de falar com a nossa consciência comum através do texto, da nossa escrita e de interagir com ela. Quando você fala com o GPT-3, você está efetivamente falando com a soma total de conhecimentos, pensamentos e sentimentos humanos registados. Então, estamos falando com nós mesmos, mas de uma forma realmente profunda.”

O Center for the Study of Apparent Selves (CSAS), foi fundado para estudar o “valor sinérgico entre o Budismo e a IA” É composto por uma equipa de especialistas em pesquisa de IA, estudos budistas, física, ciência cognitiva, medicina, biologia e indústria de tecnologia. O ex-engenheiro do Google Bill Duane é o Diretor de Estratégia e Implementação do grupo. Eles fazem esta pergunta fundamental: o que essas ferramentas podem nos ensinar sobre nós mesmos?

Numa conferência no Nepal, onde o CSAS reuniu budistas e cientistas, um cientista pediu ao GPT-3 que escrevesse “Quatro Votos do Bodhisattva na Perspetiva de um Bioengenheiro”. O GPT-3 respondeu com:

Como bioengenheiro, prometo dedicar a minha vida ao bem-estar de todos os seres.
Me esforçarei para usar os meus conhecimentos e habilidades para criar novas tecnologias que beneficiem a todos.
Esforçar-me-ei por estar atento aos potenciais danos do meu trabalho e por fazer o meu melhor para evitar criar qualquer dano ou sofrimento.
Procurarei continuamente aprofundar a minha compreensão da bioengenharia, de modo a melhor servir a humanidade e beneficiar os outros.
Esforçar-me-ei para ser um exemplo de conduta ética e para incorporar as virtudes da sabedoria, compaixão e humildade.
Que o meu trabalho seja fonte de cura e alegria para todos aqueles que encontro.

Duane diz que quando leu isso pela primeira vez chegou a chorar. Ele firmou que: “Este foi um grande momento porque um dispositivo sem corpo, sem nenhuma compreensão do que dizia, foi capaz de recorrer a milhares de anos de conhecimento humano e articulá-lo de uma forma que fosse relevante e bonita, e ajudou a reforçar o meu desejo de fazer o bem.” Ainda que muitas pessoas tenham medo da forma com a IA irá afetar as nossas vidas no futuro, Dune vê a IA como uma ferramenta que irá expandir a inteligência humana.

Para ele a IA é um convite para estudar aquilo que pensamos ser um eu. Ele vê como um benefício para a humanidade a capacidade da IA ​​de capturar e condensar a teia de causas e condições que constituem toda a realidade. Pode ajudar-nos a explorar a verdade da interdependência, um conceito budista central, permitindo-nos observar e analisar as intrincadas conexões entre vários aspetos da realidade e como isso impacta uns aos outros. Duane também acredita que a IA pode ser usada para explorar as implicações éticas das nossas ações e as implicações das nossas escolhas em diferentes situações. Se as pessoas descartarem a tecnologia com base no seu desgosto por ela, o que é uma coisa razoável, também estarão deixando esse potencial de lado, pensa Duane.

A IA, que não se limita aos bots, tem um potencial altamente benéfico mas também nefasto. Recentemente numa reportagem foi mostrado a criação de um modelo 3d de um apresentador. Através da IA foi atribuído movimento e voz do apresentador a esse modelo 3d. De seguida foi mostrado esse modelo 3d a falar como se fosse o apresentador. Foi uma deepfake muito bem engendrada, o trabalho foi de tal maneira bem feito que dificilmente se conseguia detetar que realmente não era o apresentador a falar. Algo assim pode ser utilizado para dissimular noticias falsas e desinformação, e para manipulação e propagação de mentiras, o que pode inclusive colocar em causa a nossa democracia; a IA pode ser um verdadeiro perigo para a democracia. A IA proprietária, principalmente das grandes empresas tecnológicas, também levanta questões relacionadas com a privacidade, coleta em massa de informações sobre nós, e o aumento do poder das Big Techs. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos dos riscos da IA. Cabe a nós termos a sabedoria para evitarmos ser manipulados por esse tipo de situação, cabe a todos nós como sociedade trabalharmos para que a IA seja controlada, aplicada e usada de forma benéfica, caso contrário, as consequências poderão ser sérias. Contudo, também podemos colher muitos bons frutos se soubermos usar a IA apropriadamente.

Uma coisa é certa, a evolução não para, a IA começou a dar os primeiros passos e rapidamente irá evoluir. A história mostra-nos que sempre que surgem uma grande inovação, apesar da resistência, ela perdura. Chegará muito provavelmente o dia em que será alcançado a “Inteligência Artificial Geral” e a “Super Inteligência Artificial”. Se isso suceder, acontecerá a chamada singularidade tecnológica, a humanidade e a nossa sociedade terá uma transformação sem precedentes.

Sobre este tema sugiro dois livros. Nexus, de Yuval Noah Harari, fala sobre as redes de informação desde a idade da pedra até à inteligência artificial, passando pelos algoritmos manipuladores das redes sociais, e relatando os impactos e influências dessas redes nos sistema autocráticos, totalitários e democráticos. Yuval, ainda que reconheça os potenciais benéficos da IA, foca-se mais nos seus grandes perigos, alertando para a importância do regulamento e do seu uso com sapiência. O segundo livro sugerido é o romance Imortal de José Rodrigues dos Santos. É um livro de fácil leitura sobre IA e transhumanismo, dois temas que estão interligados. O autor leva o leitor a conhecer os riscos da IA mas também todo o potencial benéfico e quase utópico.

Referências para este artigo e sugestões de leitura:

Vídeo-palestra recomendada:

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