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Ódio e vaidade camuflados de compaixão

A compaixão nem sempre é aplicada de maneira hábil e frequentemente serve de desculpa para exprimir o ódio. Vejamos este exemplo tão comum nos dias de hoje. Alguém faz uma piada de mau gosto, diz algo “politicamente incorreto”, tem alguma atitude infeliz, ou até diz alguma verdade que outros não querem ouvir, e o que acontece nas redes sociais é uma explosão de críticas, que em grande parte são muito pouco construtivas. Podia ser uma oportunidade para expor construtivamente porque é que tal coisa ou situação não é correta (ou simplesmente não dar atenção para não reforçar essa padrão), mas o que acontece é uma enxurrada de mensagens com violência verbal, de ataque, de ódio, um linchamento em praça pública. Aquele ou aquela que está a criticar, acaba por vezes por fazer pior, e tudo isso supostamente motivado por “compaixão” e “inclusão”. Inclusão essa que muitas vezes é apenas censura mascarada e uma atitude repressiva e totalitarista. Pessoas são paranoicamente julgadas e por vezes as suas atitudes comparadas de forma exagerada a situações realmente graves. Há muita sensibilidade excessiva. Todos nós temos defeitos e virtudes. Precisamos construir uma sociedade melhor, mas isso não acontece atirando pedras e com a cultura do cancelamento.

Ajahn Mudito, no vídeo “O ódio disfarçado de compaixão”, e utilizando outros exemplos, aborda este assunto, de por compaixão as pessoas acabarem por ficar com ódio e raiva dos outros. Mudito questiona-se se é a raiva que é gerada por compaixão ou se a pessoa está usando a compaixão como desculpa para poder sentir raiva, para poder dar rédea livre ao ódio. Em questões sociais, assim como em outras situações, quando as pessoa querem que algo seja feito, têm esse desejo mas não estão disponíveis para o fazer, e juntamente com a falta de humildade, é comum isso fazer com que coloquem a culpa no outro e se autorizem a si mesmas a odiar o outro, reforçando a sensação de ego: “eu estou certo, você esta errado.” Ao não se saber aplicar a compaixão de maneira hábil e inteligente, vira o oposto.

Também bonitas atitudes como a ajuda ao próximo podem ter como motivação, não a pura compaixão, mas um desejo de reconhecimento, ou tantos outros motivos que são mais fruto do egoísmo que do altruísmo puro. Esse tipo de motivação impura tanto pode ser mínima e estar misturada com uma boa dose altruísmo, como pode ser a real força mobilizadora.

E nem sempre são apenas “os outros” a enveredarem por esses caminhos, todos nós, se não tivermos atenção à nossa mente, podemos ter atitudes que aparentemente têm motivos compassivos mas que na realidade estão contaminadas por “impurezas mentais”.

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