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Passo a passo, monges percorrem 3700 km em 108 Dias de Caminhada pela Paz

Terminou hoje a histórica “Caminhada pela Paz” (Walk for Peace) empreendida por um grupo de monges budistas nos Estados Unidos. Após 108 dias de peregrinação e cerca de 3700 quilómetros percorridos a pé desde Fort Worth, no Texas, o grupo chegou ao seu destino em Washington, D.C. Vários eventos estão agora programados na capital norte-americana para os próximos dias, marcando o culminar desta jornada que teve como propósito despertar a consciência para a paz, a bondade amorosa e a compaixão, tanto na América como no resto do mundo.

A missão e o simbolismo: “dizer ‘não’ com as pernas”

O grupo central é composto por monges da tradição Theravada do Centro Huong Dao Vipassana Bhavana, liderados pelo Venerável Bhikkhu Pannakara. A peregrinação, que teve início a 26 de outubro de 2025, transporta uma mensagem de ação pela paz e não-violência. Os monges esclarecem que: “O nosso caminhar, por si só, não pode criar a paz, mas quando alguém se cruza connosco — seja na berma da estrada, na internet ou através de um amigo — quando a nossa mensagem toca algo profundo dentro dessa pessoa, quando desperta a paz que sempre viveu silenciosamente no seu próprio coração — algo sagrado começa a revelar-se. Esta é a nossa contribuição, não para impor a paz ao mundo, mas para ajudar a cultivá-la, despertando um coração de cada vez.”

Para muitos observadores e líderes budistas, esta caminhada transcende o simbolismo religioso. Josh Korda, um professor de Dharma, descreve-a como o ato de “dizer ‘não’ com as pernas”, uma forma de resistência não violenta que transforma a vulnerabilidade e o medo sobre o estado do mundo numa ação concreta. Outros veem paralelos diretos com as marchas pelos direitos civis de Martin Luther King Jr. e o ativismo do mestre Thich Nhat Hanh, recordando que a paz é uma prática ativa de justiça social.

A acompanhar os monges esteve Aloka (que significa luz em páli), um cão que Bhikkhu Pannakara resgatou durante uma caminhada anterior na Índia.

Raízes históricas: uma tradição de resistência

Esta iniciativa não é um evento isolado, mas sim a continuação de uma linhagem específica de “peregrinações pela paz” (dhammayietra). A tradição remonta a 1992, quando o Venerável Maha Ghosananda liderou a primeira caminhada deste género no Camboja, guiando refugiados de volta às suas aldeias através de territórios ainda minados após o regime do Khmer Vermelho.

Os monges que caminharam pelas estradas dos EUA pertencem a uma tradição Theravada Viet-Khmer, transmitida pelo Venerável Ho-Tong, que introduziu o Budismo Theravada no Vietname numa época em que a região era dominada pela tradição Mahayana.

Resiliência face à tragédia

A determinação do grupo foi severamente testada em novembro, quando um camião embateu no veículo de escolta do grupo na Highway 90, perto de Dayton, Texas, ferindo dois monges. O Bhante Dam Phommasan, de 58 anos, sofreu ferimentos que exigiram a amputação da sua perna. Apesar do infortúnio, Bhante Dam aceitou o sucedido sem revolta: “Perder uma perna é um sacrifício que não me importo de fazer se ajudar a espalhar uma mensagem de paz, amor, esperança, compaixão, harmonia e bondade”, disse ele à WSB-TV. Independentemente da gravidade do incidente, o grupo, composto por cerca de 19 monges, decidiu prosseguir com a caminhada, enquanto a comunidade se unia em oração e apoio pela recuperação do monge ferido.

A presença das forças policiais ao longo da rota foi constantemente reforçada após o incidente, de forma a proteger os monges à medida que continuavam a sua caminhada. O líder espiritual do grupo, o Venerável Bhikkhu Pannakara, passou a usar uma coleção crescente de distintivos que lhe foram oferecidos simbolicamente. Expressando a sua gratidão, disse: “Aos agentes da polícia que nos protegeram, nos guiaram e nos mostraram tamanha bondade ao longo do caminho, obrigado.”

Disciplina austera e desafios físicos

A natureza da caminhada é fisicamente extenuante. O líder, Bhikkhu Pannakara, realizou a jornada descalço, enfrentando ferimentos diários. Além disso, dois dos monges observam o dhutanga, uma prática austera que interdita a postura deitada. Como tal, estes monges nunca se deitam, nem mesmo para dormir, recuperando as energias através da meditação sentada durante a noite.

As dificuldades foram agravadas pelas condições meteorológicas, com o grupo a enfrentar neve, gelo e temperaturas gélidas à medida que avançavam para norte, em direção à Virgínia.

A dependência da generosidade alheia é total. Tal como na tradição das esmolas na Tailândia, a caminhada é um “exercício de confiança” (trust fall), onde os monges dependem inteiramente das ofertas de comida das comunidades por onde passam para sobreviver.

Impacto social e comunitário

O impacto social desta iniciativa tem sido vasto. A “Walk for Peace” acumulou mais de um milhão de seguidores nas redes sociais, onde partilham atualizações diárias. À passagem pelas várias cidades, centenas de pessoas juntam-se para testemunhar a caminhada, oferecendo comida e apoio logístico.

Um marco significativo foi atingido ao 100.º dia, quando o grupo chegou a Richmond, na Virgínia. Foram recebidos por multidões e pela Governadora Abigail Spanberger, que proclamou o dia 2 de fevereiro como o “Dia da Caminhada pela Paz” no estado.

A repercussão da iniciativa é transversal: há relatos de polícias, equipados com coletes à prova de bala, a juntarem as mãos em anjali (gesto de oração) à passagem dos monges, e o interesse pela caminhada já chegou a locais tão distantes como outros continentes.

Thousands gather at Capitol to see Buddhist monks ‘Walk for Peace’ (YouTube: ABC 11)

Ano do Cavalo de Fogo (2026)

Sobre o ano novo e a jornada destes monges, Dzongsar Jamyang Khyentse publicou a seguinte mensagem no dia 8 de fevereiro:

«Cá estamos nós no final do ano velho, ansiosos pela alvorada de mais um “novo” ano e, mais uma vez, dou por mim sobrecarregado pela necessidade de dizer algo “significativo”. (Espero que esta mensagem sirva para todas as celebrações de Ano Novo em 2026, desde o calendário lunar ao solar e todas as que fiquem pelo meio.)

É costume nesta altura oferecer presentes e palavras auspiciosas na esperança de que uma sucessão de circunstâncias favoráveis pavimente o nosso caminho ao longo dos próximos doze meses. Tradicionalmente, existem inúmeras imagens auspiciosas que eu poderia escolher para vos enviar, como por exemplo a foto de uma flor deslumbrante ou um dos oito símbolos auspiciosos. Mas, honestamente, a foto de peixes dourados auspiciosos não significa assim tanto para mim. Preferia enviar-vos uma recordação da melhor coisa que aconteceu no ano passado. Podem achar difícil imaginar o que poderá ter sido essa “melhor coisa”, especialmente dado o pandemónio de insegurança que foi desencadeado pelos grandes e poderosos à medida que as suas vidas confortáveis começaram a escapar-lhes. Se for esse o caso, tentem abrir o coração e a mente e olhem noutra direção. Para além de todo o alvoroço míope que domina as manchetes, há tanta beleza, inspiração e encorajamento a serem encontrados.

No meu caso, o que derreteu o meu coração orgulhoso e frio foi ver fotos e vídeos dos incríveis monges na sua “Caminhada pela Paz”. Dou por mim a chorar sempre que vejo ou leio algo sobre a sua jornada. Tanta gente foi tocada por estes monges. Um polícia americano robusto, de arma à cintura, curvou-se humildemente perante um monge para lhe prestar respeito. Pessoas de todas as idades e de todos os quadrantes da sociedade alinharam-se nas ruas para oferecer aos monges gorros de lã, batons de cieiro e até sanduíches. E os nativos americanos que galoparam atrás dos monges para pedir bênçãos. Estas pessoas podem nunca chegar a saber quem são os monges. Podem nunca aprender nada sobre o caminho que escolheram. Podem nunca perceber que as vestes usadas pelos monges são o estandarte do Buda. No entanto, ver os monges simplesmente a caminhar traz-lhes felicidade.

Para mim, a parte mais impressionante de tudo isto é que, pelo simples ato de caminhar, os monges plantam uma semente em todos os que põem os olhos neles, forjando uma ligação entre milhares de pessoas e o Buda. Os monges alcançaram mais ao caminhar pela América durante dois meses do que os lamas tibetanos alcançaram ao ensinar no Ocidente durante anos. Disse isto mesmo aos meus amigos e eles acham que estou a exagerar. Mas estarei? Orgulhamo-nos de ser objetivistas, racionais e pragmáticos, mas todo o nosso pensamento racional desmorona-se quando vislumbramos um monge a caminhar na neve e uma inexplicável sensação de paz profunda inunda as nossas mentes e corações. É este sentimento de paz profunda que falta a tantos de nós.

Perguntam-me muitas vezes: “Como posso viver de forma significativa?”. O “sentido” não é um sentimento. O “sentido” não é a chamada felicidade ou plenitude — a felicidade e a plenitude vêm e vão. O “sentido” não pode ser encontrado na oposição estridente ou no ativismo, que pouco mais faz do que acorrentar a liberdade pessoal. Aqueles que gritam por liberdade tornam-se muitas vezes “carne para canhão” das grandes corporações. Encontramos sentido na vida ao assumirmos a responsabilidade e ao dedicarmo-nos a realizar algo “significativo”. Os monges decidiram simplesmente caminhar pela paz. Esta decisão importa tanto para eles que tudo o resto é mero detalhe. O “sentido da vida” é, portanto, algo que nós próprios construímos.

O ato de apaziguamento é digno de celebração — não a minha versão de paz, não a vossa versão de paz, apenas a paz. Estou feliz por poder partilhar esta imagem convosco. Se sentirem momentaneamente o que eu sinto, já vale a pena.

No próximo ano, o ano do Cavalo de Fogo, muitos futuros amigos serão concebidos e muitos outros nascerão. Rezo para que a vossa geração faça um trabalho melhor a cuidar deste mundo do que nós fizemos.

Rezo para que os meus jovens amigos, aqueles que já nasceram neste mundo, aprendam a ser resilientes. Nesta era de megalomania e obsessão por selfies, rezo para que, de vez em quando, cultivem a empatia, colocando-se no lugar dos outros.

Os meus amigos mais velhos, pessoas da minha idade, nem sempre tiveram o luxo de escolher a direção das suas vidas. Quando tivemos escolha, ao escolhermos uma opção tivemos automaticamente de excluir as outras, tornando impossível experienciarmos tudo na vida.

Rezo para que sejamos todos maduros o suficiente para aceitar a dor da “consciência”, que não é necessariamente má e é muitas vezes humilhante. Aqueles cujas vidas são demasiado confortáveis raramente experienciam a boa fortuna de estarem conscientemente despertos e quase nunca são humildes. A humildade é uma qualidade de que todos precisam neste momento. Por outras palavras, celebrem a vida que levaram até agora e rezem para que consigam aproveitar ao máximo a vida que vos resta.

Em conclusão, prostro-me do meu quarto no Extremo Oriente em direção à América no Ocidente, onde os monges estão na sua “Caminhada pela Paz”. Rezo por todas as crianças que perderam as suas mães nas guerras intermináveis deste mundo. E por aqueles que, como eu, são seguidores do Buda, rezo para que nunca deixemos de ansiar pela verdade.»

A chegada a Washington, D.C.

Com a chegada a Washington, D.C., o objetivo inclui um pedido ao Congresso para reconhecer o Vesak (o dia que comemora o nascimento, iluminação e morte de Buda) como feriado federal. Contudo, como reforça o Venerável Bhikkhu Pannakara, a capital não é o destino final, pois “a paz mundial é algo pelo qual precisamos de caminhar durante o resto da nossa vida”. A jornada destes monges atua como um “íman”, alinhando momentaneamente as vidas das pessoas que encontram com a compaixão e a serenidade.

Documentário

O canal do YouTube Buddha’s Wisdom produziu um ótimo documentário sobre esta jornada.

WALK FOR PEACE | BUDDHIST MONKS Cross AMERICA (YouTube: Buddha’s Wisdom)

Fontes: Dhammacetiya; FB Walk for peace; Buddhistdoor I, II, III, IV, V; Lion’s Roar; Tricycle.

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