Vícios e maus hábitos são padrões de ação e intenção repetidos que escravizam a mente. Do ponto de vista do Dhamma, eles nascem de tanha, o desejo ávido, e de avijja, a ignorância quanto à natureza impermanente (anicca) e insatisfatória (dukkha) das coisas. Podem manifestar-se no corpo, na fala e na mente, como por exemplo consumir compulsivamente, reagir com raiva, procrastinar, mentir para evitar desconforto, buscar distrações sem medida, etc. O traço comum é que tomamos o que parece dar alívio imediato como se fosse refúgio, e fortalecemos trilhas mentais que nos afastam da lucidez e da liberdade.
As consequências aparecem em três níveis. No imediato, há inquietação, perda de energia e de presença: a mente dispersa não percebe o que é benéfico e cai em repetição automática. No relacional, os vícios corroem a confiança e empatia, criando conflito, culpa e isolamento. No nível mais profundo, reforçam a roda do sofrimento (dukkha): quanto mais tentamos preencher o vazio com repetição, mais o vazio se amplia, porque a causa não é saciada pelo objeto, mas desfeita pela compreensão. Em termos kármicos, intenções não hábeis acumulam tendências que reaparecem quando houver condições, prolongando a insatisfação. Mesmo quando o hábito parece “inofensivo”, o preço é a liberdade reduzida: a capacidade de escolher com clareza fica capturada por impulsos.
Os vícios e maus hábitos devem ser superados porque obscurecem o que há de melhor em nós: a possibilidade de uma mente estável, amorosa e sábia. Superar não é reprimir com dureza, mas compreender e soltar. Primeiro, reconhecer honestamente o padrão e a sensação que o precede; a atenção plena (sati) mostrará o gatilho, o anseio, a promessa implícita. Depois, substituir por caminhos hábeis: onde há compulsão, cultivar contentamento (santutthi); onde há raiva, cultivar metta, a bondade amorosa; onde há torpor, energizar com esforço correto (sammā-vāyāma). A disciplina ética (sila) fornece limites que protegem a mente; a meditação estabiliza e ilumina; a sabedoria (paññā) vê que nenhuma onda de desejo dura. O Buda disse que aquilo que é frequentemente pensado, nisso a mente se inclina (Dvedhāvitakka Sutta, MN 19). Ao escolher repetidamente o hábil, a inclinação da mente muda para o que é hábil. Superar vícios é um ato de compaixão para nós mesmos e pelos outros. Liberta tempo, recursos e atenção para o que realmente nutre: relações verdadeiras, serviço, aprendizagem, contemplação. Dá alegria serena (pīti) e confiança, pois cada pequena vitória mostra que a mente é treinável e, sustenta a equanimidade (upekkha), aprendemos a permanecer com o que surge sem sermos arrastados. No fim, não se trata de “ser perfeito”, mas de abandonar o que causa dano e alimentar o que conduz à liberdade. É um trabalho que nem sempre e imediato mas gradual, cabe a cada um fazer o melhor que pode de forma a se melhorar.
Existem vários níveis de gravidade quando a vícios e maus hábitos, alguns, qualquer pessoa mesmo sozinha pode conseguir superar, outros, pode ser necessário o tratamento e terapia através da psicologia médica ou psiquiatria.
Abaixo, seguem-se anotações sobre a palestra “Vencendo os vícios e maus hábitos“, proferida por Ajahn Mudito e publicada no YouTube a 04/09/2020. Confira no final do post o vídeo integral da palestra.
A mente e os vícios
- Vencer um vício é uma ótima oportunidade para aprender mais sobre a mente. Ao vencer um vício a pessoa geralmente acaba saindo melhor do que entrou. Como é uma experiência destrutiva, ao vencer isso a pessoa acaba por sair mais sábia.
- A mente obcecada por alguma coisa é uma mente normal só que exagerada. São os mesmos padrões desejos, aversões, medos, ansiedades, raiva, etc, só que exagerado.
O desafio de os superar
- Um aspecto fundamental dos vícios é a falta de consciência ou um “ponto cego” em relação aos processos subjacentes que mantêm o comportamento viciante. A pessoa não consegue ver qual o processo que torna isso possível, o motivo de não conseguir largar. Mesmo quando compreendem que é um mau hábito, não conseguem largar.
- A ignorância é o elemento principal para não abandonar os vícios, não conseguir ver ou ter uma compreensão errada do que está acontecendo.
- A pessoa tenta superar mas não consegue porque não está trabalhando nas causas, se não está ciente do que esta acontecendo não consegue resolver.
- Desenvolver novos bons hábitos costuma ser mais fácil do que abandonar maus hábitos enraizados. Isso ocorre porque o facto de ser um hábito enraizado a pessoa não consegue ver o problema e lidar com isso. Eles existem num “ponto cego” em que a pessoa não consegue aceder.
- Há um período talvez longo em que muitas pessoas entendem que certo vicio é ruim mas não consegue parar, transitar para o ponto em conseguem parar com o vício, não conseguem suportar essa experiência, é doloroso demais.
- Para lidar com isso, as pessoas podem recorrer ao autoengano, criando justificativas para o seu comportamento ou procurando um estilo de vida em que é aceitável.
- Essa dificuldade em confrontar padrões negativos pode se estender além do abuso de substâncias para outros comportamentos prejudiciais e até mesmo para as sequelas de experiências traumáticas. Alguns podem achar “mais confortável” se identificar como uma pessoa má do que enfrentar memórias dolorosas associadas a ser bom.
- Uma pessoa boa tem sensibilidade às coisas ruins, para uma pessoa ruim está tudo certo com isso, então para algumas pessoas acaba sendo menos doloroso ser uma pessoa ruim.
- A incapacidade de suportar a perspectiva clara e correta sobre um hábito prejudicial leva à recaída e à busca por justificativas, incluindo um estilo de vida em que isso é elogiado por outras pessoas. Isso pode levar a uma vida construída sobre hipocrisia e o autoengano.
- Esses padrões enraizados podem até se manifestar mais claramente na velhice, à medida que as habilidades cognitivas diminuem, pois não existe mais a habilidade da mente para bloquear a verdade do que o que a pessoa tem feito.
Elementos chave para superar vícios e maus hábitos
- Aceitação e Honestidade: Encontrar um equilíbrio entre reconhecer o hábito como errado e aceitar a atual incapacidade de superá-lo imediatamente é crucial. Resistir ao impulso de mentir para si mesmo e manter uma perspectiva honesta é vital.
- Humildade e Autocompaixão: A humildade torna esse processo menos doloroso, enquanto a vaidade pode levar à raiva e à hipocrisia. A autocompaixão e o autoperdão também o tornam mais fácil. A pessoa que tem um ego muito grande em geral cai para o lado da hipocrisia. Se a pessoa é humilde e tem bem-querer por si mesma torna-se mais fácil.
- Sinceridade e Valor da Verdade: A sinceridade é essencial para resistir à hipocrisia e cultivar a autocompaixão. Priorizar a verdade e a honestidade acima do conforto, elogio ou admiração é fundamental. Se a pessoa sabe que é mentirosa e hipócrita é difícil ter bem-querer por si mesma. A honestidade para consigo mesma tem que estar acima de qualquer outra coisa. Conforto físico, vaidade, receber elogios, ser admirada, tudo isso tem que estar em segundo plano.
- Disciplina e Diligência: Com honestidade e autocompaixão, é necessária apenas uma pequena quantidade de disciplina para agir corretamente, ela só tem que prestar atenção aos seus hábitos. Com honestidade e bem-querer, a parte mais fácil é a disciplina e diligência.
- Atenção aos Padrões Mentais: Prestar atenção quando a mente começa a criar justificativas ou impulsos é fundamental para interceptar o hábito antes que ele se instale. Estar atento a esses processos da mente. Aprender a estar ciente das sensações, dos medos, das raivas, das ansiedades… é chave para conseguir vencer tudo isso.
- Resiliência e Aceitação do Desconforto: Estar disposta a experimentar o desconforto que o mau hábito geralmente alivia é necessário. Conforto e tranquilidade não são antónimos; pode-se estar tranquilo mesmo sentindo desconforto. Se a pessoa só aceita o que é agradável não consegue nada, tem que estar disposta a estar desagradável, a estar bem com isso. Essa é uma capacidade nobre, é algo para a pessoa ter orgulho. Ser capaz de suportar algo desagradável, ter a capacidade de aguentar com a mente tranquila e serena é a qualidade espiritual de Khanti. A meditação é uma ferramenta valiosa para cultivar essa habilidade, é um ótimo laboratório para treinar essas coisas. Se a pessoa não tem a disposição para passar pelo desconforto, ela jamais vai poder presenciar e pegar o processo mental do vício. Se sempre que surge ela busca logo alguma coisa, o máximo que consegue é reprimir, mas não consegue resolver o problema.
- Contexto Favorável: Assim como uma árvore precisa do ambiente certo para crescer, o bem-estar mental requer um contexto favorável. Se for retirado o contexto em que é possível a árvore surgir, então a árvore não surge. Saúde mental e bem-estar também possuí um contexto. Viver num chiqueiro e achar que a mente tem que ser feliz aí está errado, se a pessoa quer que a mente seja feliz tem que dar condições para ela ser feliz. Isso inclui boas amizades, cuidar da saúde física, fazer contacto com coisas saudáveis, com a natureza, com pessoas sábias se possível, senão fazer contacto com palavras de sabedoria. É necessário procurar atividades saudáveis que nutrem a mente. E cada pessoa é diferente, uns gostam mais de música, outros de desporto, outros de outro hobby. Algumas atividades são saudáveis para todos, como o contacto com a natureza. Ter um pouco de silêncio na vida também é importante. Mesmo em ambientes desafiadores, é importante fazer um esforço para se conectar com a natureza e a sabedoria.
- Substituindo o Hábito: Simplesmente remover um mau hábito deixa um vazio. É essencial substituí-lo por uma alternativa agradável, prazerosa e saudável. Se vai tirar à mente um prazer nocivo, então em contrapartida tem que oferecer um prazer saudável. Mas cuidado com o apego mesmo aos prazeres saudáveis. Há que ter capacidade de abrir mão quando necessário e não ficar obcecado em controlar tudo.
- Inteligência no Pensamento: Reconhecer e combater as justificativas e mentiras da mente é crucial. Inteligência em cortar os pensamentos nocivos, não deixar a mente arrastar a pessoa. Criatividade e disposição para fazer o que funciona são importantes.
- Além dos Vícios Grosseiros: Vencer o hábito da mentira, da raiva, da preguiça, etc.
- Aprender a Estar Bem Consigo Própria: A pessoa não suporta ficar sozinha porque não suporta a própria presença, a companhia dela mesma é desagradável. Desejos insatisfeitos, lembranças amargas, maus hábitos de pensamentos, ganância por estímulos… Uma pessoa “normal” hoje em dia é um fenómeno doloroso. Isso empurra as pessoas a buscarem distrações fora, não querem enxergar ou experienciar algo, buscam então coisas para se distraírem. Mal elas sabem, que se apaziguassem o que está queimando por dentro, o prazer e a felicidade seriam muito maiores. Passam a vida inteira correndo atrás de sombras sem realmente encontrarem satisfação.
- Momentos Para Tomar Decisões: Não tomar decisões vindas de emoções negativas como raiva, inveja, vaidade, rancor, confusão mental… qualquer decisão que venha disso não deve ser tomada. Para saber se a decisão está corrompida pelas kilesas, esperar passar a raiva, a ganância, o desejo, a ansiedade, etc, e quando passar pensar de novo no assunto e tomar a decisão. Decidir o que é apropriado fazer quando a mente está estabelecida em bem-querer.
Vídeo da palestra:
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