Mingyur Rinpoche reflete sobre a essência da meditação e da consciência no quotidiano, questionando a forma superficial como o mindfulness é muitas vezes praticado hoje. Através de exemplos simples, mostra como reconhecer a mente pode gerar liberdade interior, compaixão e uma transformação pessoal com impacto no mundo.
Estas reflexões serviram de mote para as conferências que o Rinpoche proferiu em Lisboa e Coimbra, a 14 e 15 de agosto do passo verão. A sua passagem por Portugal incluiu ainda uma participação no programa “A Fé dos Homens” (RTP2), emitido a 1 de outubro de 2025.
Seguem-se abaixo as palavra de Mingyur Rinpoche no programa “A Fé dos Homens“.
«Na vida diária, uma das coisas mais importantes é nos conectarmos com os vislumbres da consciência. Na verdade, todos nós temos consciência, 24 horas por dia. Mesmo quando estás a dormir, o nível superficial da mente está inconsciente, mas o nível mais profundo está aberto. Portanto, ainda sentes frio, calor, se aparecer um mosquito, vais coçar, certo? Então a mente está sempre aberta, mas nós não a reconhecemos, não estamos conectados com a nossa consciência.
Então, toda a prática de meditação é conectarmo-nos com a nossa própria consciência. Especialmente na vida diária, podes conectar-te com qualquer objeto, enquanto bebes, comes, andas, no teu local de trabalho, na vida profissional, vida pessoal… Basta trazer alguns segundos de consciência. E por exemplo, se te sentires ansioso ou triste, especialmente estes hábitos automáticos, por exemplo se discutires com algum membro familiar, ou no local de trabalho… Basta apanhar esse momento, se conseguires apanhar esse momento, então tens liberdade!
Ver se “estou mais ou menos chateado?” Mas se não reconheceres esse momento, ainda que te estejas a dizer a ti próprio “não vou discutir, não vou discutir”, ele torna-se como a erupção de um vulcão. Então, essa consciência ajuda-nos realmente.
A essência da meditação é conectar-nos com a consciência. Consciência significa as qualidade fundamentais da mente: a lucidez, o saber… Consegues ver a minha mão, certo? Consegues ouvir o som, consegues sentir algo no corpo, e consegues pensar em pastel de nata!
Estou a fazer uma piada sobre a sobremesa pastel de nata. A imagem pode surgir na mente. Então a nossa mente é como um lago; os pensamentos, emoções… são como reflexos no lago. Apesar de surgirem tantos reflexos no lago, mas a água, a qualidade da água, a própria água, está para além dos reflexos, certo? O amarelo, vermelho, branco, preto… não altera a cor natural da água. Então, quando nos conectamos com isso, é o que chamamos de meditação.
Então, “ir além do Mindfulness” significa que… a meditação tornou-se muito famosa hoje em dia, mas tornou-se meditação tipo spa, só para nos sentirmos bem. E depois há o que chamamos de “olhar para fora” – o objeto é que importa. Nada de passado, nada de futuro, agora, aqui. Mente vazia, cérebro vazio. Assim não consegues verdadeiramente estar com qualquer que seja o fenómeno porque estás a bloquear tanta coisa.
E se disseres a ti mesmo: “não penses em pastel de nata”, O que acontece? Pensas mais! Ou se procurares paz, calma e concentração, estas desaparecem. Então, meditação não é sobre paz, calma e alegria; é sobre conectar com a consciência. E se te conectares com a consciência, a paz, calma e alegria serão produtos secundários! Elas vão dizer “estou bastante livre”. Mas quanto procuras pela paz, calme e alegria elas dizem “estou ocupada”.
Por isso, o nosso estilo é o que chamamos de “focado no sujeito” e não “focado no objeto”. E há bondade amorosa, compaixão, intenção, e há uma transformação profunda, não como na meditação tipo spa.
Penso que o maior problema do mundo atualmente e causado pelo Homem. Criamos guerras, e conflitos, e até ambientalmente muitos problemas vêm dos humanos. E quem controla os humanos? O que chamamos de “mente de macaco”! Todos nós temos este “bla bla bla” e perdemo-nos nele, e daí surgem os conflitos, guerras, sofrimento a nível pessoal, familiar, social, a nível nacional e global… E estes ensinamentos budistas ajudam realmente a encontrar a paz interior, paz que nasce da ligação à consciência, ao amor e compaixão e sabedoria. Assim podemos ajudarmo-nos a nós mesmos, aos nossos amigos, família, sociedade, e até a nível global. Se toda a gente tentar transformar-se a si mesmo, o mundo pode mudar.
Nenhum ditador quer mudar-se a si mesmo, eles querem mudar o mundo. Mas se quiseres mudar o mundo, o mundo torna-se caótico! Mas se toda a gente quiser se transformar a si mesma, o mundo torna-se pacifico, certo? Então estes ensinamentos são muito relevantes agora, neste tempo moderno.»
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