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Leonard Cohen, um artista zen-budista

Considerado um dos maiores escritores de canções da segunda metade do século XX, Leonard Cohen faleceu com 82 anos no dia 7 de Novembro de 2016.

Nos anos 90 passou 5 anos vivendo como monge Zen Budista no Mt. Baldy em Los Angeles. Lá foi-lhe atribuído o nome Jikan, que significa “o silencioso”.

Leonard Cohen foi comparado a Bob Dylan pela profundidade das suas letras. O músico e poeta aplaudiu a recente atribuição do Nobel da Literatura a Dylan e considerou que foi como “dar uma medalha ao monte Evereste por ser a montanha mais alta”. O próprio Cohen foi várias vezes apontado como candidato ao Nobel.

“A aparente contradição está em perfeita harmonia com sua personalidade, que nunca cedeu às expectativas dos outros e sempre manifestou um gosto pela ambiguidade, ou, em outras palavras, por colocar mais questões do que respondê-las, de forma gentilmente provocativa.

A influência de Roshi [o seu mestre zen] se estendeu para sua obra, que deixou um pouco de lado o humor quase sarcástico do álbum de 1974, New Skin for the Old Ceremony, que surpreendeu pela variação de temas, arranjos e ritmos, e os equívocos de Death of a Ladies Man (1977), que trazia Bob Dylan e Allen Ginsberg nos backings de uma canção e Suzanne na capa. Em Recent Songs (1979) e principalmente em Various Positions, gravado depois de um longo período de reavaliação, em 1984, Cohen desaparece para em seu lugar surgir um compositor ainda mais sutil e profundo, com canções de grande ”sensualidade espiritual”, como a belíssima Hallelujah, o que levou Dylan a comentar que eram como orações.

O tempo como cozinheiro do mestre e amigo Roshi, em que acordava todos os dias às 3 da manhã para trabalhar e meditar, rendeu um livro de poemas e desenhos, The Book of Longing, e um novo disco depois de nove anos. Ten New Songs (2001), meio soul, meio gospel, foi gravado em sua garagem e escrito em parceria com uma de suas backing vocals, Sharon Robinson.” (Daniel Benevides)

Algumas das suas canções mais famosas são Hallelujah e Dance me to the end of love, nessas e em várias outras canções podemos constatar em certos detalhes a influência budista, mas na canção Anthem é claramente notório um sabor budista muito característico, sem dúvida influenciado pela prática de Cohen ao longo de quatro décadas da sua vida.

Monja Ishin, uma admiradora do trabalho do Cohen, diz que “a ao meu ver, a letra desta música [Hallelujah] é um tanto irónica e triste – ou, talvez, resignada. Mas é uma letra bem Zen também…” e que “poucas pessoas realmente prestam atenção à letra, fixando-se na beleza da música – e acabam não percebendo a emoção da letra.”

Segundo uma reportagem no site Rolling Stone, Cohen terá dito que, “Este mundo é cheio de conflitos e cheio de coisas que não podem ser reconciliadas, mas há momentos em que podemos transcender o sistema dualista, reconciliar e abraçar toda a desordem, e é isto que quero dizer com  ‘Hallelujah!’ (…) O único momento em que você pode viver aqui confortavelmente nestes conflitos absolutamente irreconciliáveis, é quando você abraça tudo isso e diz ‘Olha, não entendo nada destas %#$^&^&  mesmo – Hallelujah!` Este é o único momento em que vivemos aqui plenamente como seres humanos.”

As letras de Cohen costumam focar o lado mais sombrio da vida, e ainda assim encaram brutalmente a realidade da experiência humana com um vislumbre de esperança. As letras em Anthem são reminiscentes do conceito japonês wabi-sabi e da arte japonesa de reparar cerâmica –  kintsugi, onde as rachaduras são remendadas com ouro para destacar a beleza da imperfeição.

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“Esqueça a sua perfeita oferenda / Há uma falha em tudo / É assim que a luz entra.”
(da música: Anthem)
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Leonard Cohen narrou o documentário The Tibetan Book of the Dead, um documentário baseado no Livro Tibetano dos Mortos (Bardo Thodol), sobre o processo de morte e renascimento. No link disponibilizado poderá ver o documentário na integra.

Confira também as seguintes entrevistas em inglês:
Leonard Cohen on his Life as a Zen Monk

Leonard Cohen interview

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“Se você não se tornar o oceano / vai ficar enjoado / todos os dias”
(do poema: Good advice for someone like me)
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Atualização (12/11/2019): Foi lançado um novo videoclip fiel à tradição budista e à própria biografia de Cohen como praticante do Zen. Segundo o realizador Daniel Askill, o vídeo é “uma narrativa silenciosa e simbólica que mostra o desapego do ego e as armadilhas da fama”.  Askill disse quer quis fazer algo relacionado com os anos de Leonard como monge Zen.

Oiça mais algumas músicas de Leonard Cohen, no Youtube com legendas:

Veja também:


Wikipédia-eng: Leonard Cohen

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