Budismo Geral Opinião e Perspetivas

Posso ser budista e seguir outra tradição espiritual ou religião?

Há meses, foi questionado no post Budismo, a ideia de Deus e o mundo espiritual, se dava para seguir o cristianismo e o budismo ao mesmo tempo. A resposta que se segue foi o que respondi em comentário e é uma mera opinião.

Poder pode, a questão é que por exemplo se você segue o cristianismo, acredita no Deus criador, faz várias praticas cristãs, faz as suas orações, pede coisas a Deus, pede perdão a Deus, pede pela salvação, entre outras práticas; e depois vai estudar seriamente o budismo, vai começa a perceber que do ponto de vista budista essas práticas e visão de mundo fazem parte do entendimento incorreto da realidade. E isto é apenas um exemplo, existem pontos convergentes entre ambas as tradições, mas também existem muitas divergências. Ou seja, se houver honestidade intelectual, fica complicado seguir as duas coisas seriamente e com coerência. À medida que se vai aprofundando na prática, vai chegar um momento que provavelmente vai ter de fazer uma escolha. Para seguir o budismo com seriedade terá de adotar o seu método de pensamento, o que implica descartar a ideia de um demiurgo, um Deus criador interferente, o que é inconciliável com as crenças cristãs. Não estou a desprezar as praticas e a visão cristã, apenas são caminhos com visões e finalidades diferentes; optar por um dos caminho não significa que não se respeite o outro.

Agora se você segue o cristianismo e encontra no budismo certas ferramentas ou ensinamentos que o ajudam e podem complementar a sua pratica, como a meditação, então é ótimo, e não vejo problema algum. Mas o que você está a seguir é o cristianismo, apenas encontra no budismo algumas ferramentas que lhe ajudam e reforçam a sua prática, sem lhe retirar seriedade e coerência. E o contrário seria a mesma coisa. Ou então você também pode seguir ambas as tradições, mas mais como um académico que as estuda, sem finalidade prática. Foi feita a comparação com o cristianismo mas o mesmo se aplica a outra tradição espiritual.

Numa fase inicial, explorar vários caminhos espirituais pode ser interessante, mas depois seria mais razoável manter a dedicação apenas num Caminho, pois temos também de ter em conta que o nosso tempo de vida é limitado, se não quisermos ficar no superficial não vai dar tempo para aprofundar tudo. E no caso do budismo dificilmente você fara um bom progresso no Caminho se fizer um monte de misturas, como se tivesse consumindo produtos de um supermercado espiritual.

Porém, você deve saber conviver em harmonia com outras religiões e com tolerância, e se por algum motivo você quiser ou tiver que participar num evento de outra religião, como por exemplo com familiares cristãos, isso não é nenhum problema, assim como também não é problema ter apreço por outras tradições espirituais. Outro aspeto é que existe tradições espirituais mais compatíveis com o budismo e outras menos.

Além do mais, é útil o diálogo inter-religioso, conhecer outras perspectivas e formas de ver o mundo, assim como de adquirir outros tipos de conhecimento, conhecer o mundo em que vivemos… não ficar preso numa espécie de bolha budista. Esse embate de ideais até acaba por fortalecer a própria confiança no budismo.

Mas esta é apenas uma opinião, cada um pode seguir o que bem entender! Por exemplo o padre americano Robert Kennedy também se tornou num professor de Zen Budismo e o monge trapista Thomas Merton estudou o Zen e até escreveu um livro sobre isso.


Atualização: Genshô Sensei no vídeo “Os outros são tão imperfeitos como nós”*, publicado no YouTube da Daissen em 30/06/2025, respondeu a uma questão como esta essencialmente com a mesma perspetiva. Genshô Sensei diz que aprender meditação não tem problema algum, não há problema algum nesse sentido da prática. Agora, ser por exemplo um padre e um professor do Zen… o Sensei aceita que professores pensem diferente, mas segundo a sua opinião é totalmente impossível conciliar. Como conciliar duas ideias tão diversas como no budismo não existir um Deus criador e interferente que castiga e exerce a sua justiça mandando para o inferno aqueles que falham, e levando ao paraíso aqueles que o seguem? Essa divindade é completamente negada no budismo, não existe um Deus criador vigiando e condenando ou criticando. No budismo a perspectiva é completamente diferente, no budismo todos os seres poderão ser um dia Budas, não existe uma condenação para ninguém, nem ninguém nos julgando, é a pessoa com o seu karma que constrói a sua vida e o seu futuro. Pode levar milhões de anos, mas as piores pessoas, depurando o seu karma através dos ciclos universais, um dia serão Budas. Não existe uma soteriologia da salvação no budismo nem a necessidade de pertencer a uma determinada igreja para ser salvo. A máxima da igreja católica é “Extra Ecclesiam nulla salus”, que significa “Fora da Igreja não há salvação”; essa não é a perspectiva do Zen, todas as pessoas de qualquer outra religião um dia poderão ser Budas. Não existe nenhuma condenação inelutável para um ser humano, existe só sofrimento e maneiras de escapar do sofrimento, é nisso em que o budismo está concentrado. Fica impossível conciliar duas doutrinas tão completamente diversas, a submissão a uma divindade ou medo a uma divindade, ser temente a Deus por exemplo, com o Zen. Nenhum aluno do Zen precisa ser temente a coisa alguma, ninguém está obrigado a estar sempre na Sangha ou seguir determinado mestre, ele pode tomar a decisão de aprender com um mestre, de pertencer à Sangha, mas é a sua decisão. O dedo do budismo aponta para a liberdade, não para a constrição, não para a ameaça, não para nenhum inferno nem promessa de nenhum paraíso. Então no sentido doutrinário é incompatível, no sentido do treinamento da prática de meditação isoladamente como técnica, não há problema algum.

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1 comment

  1. grato. Devo meditar na questão. Faz-se-me forte o retorno ao estudo do Kardecismo. Mas tem questões e explicações Budistas que clareiam assuntos e vice-versa com o Kardecismo… ABE

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