Seja belo(a), seja você mesmo(a)

Publicado em Atualizado em

Entrevista a Thich Nhat Hanh, por Andrea Miller, in Lion’s Roar. Ver Artigo Original.
Publicado no Olhar Budista com  a permissão da Parallax Press, divisão editorial da Comunidade Plum Village de Budismo Engajado, www.parallax.org.
Tradução de Bianca Cervo Pagnon.

É muito doloroso quando alguém que amamos passa por dificuldades sérias, como doença mental, estresse pós-traumático ou vício. Às vezes parece que os problemas dessa pessoa são tão grandes que nós não podemos realmente ajudar, dessa forma, nós podemos querer nos afastar dela e de seus problemas. Outras vezes, nós tentamos ajudar e acabamos consumidos pelas batalhas da outra pessoa. O que podemos fazer para ajudar nessas situações difíceis sem acabarmos sobrecarregados?

Quando você se sente sobrecarregado, você está se esforçando demais. Esse tipo de energia não ajuda nem a outra pessoa nem a você mesmo. Você não deve se apressar para ajudar logo de cara. Existem duas coisas: ser e fazer. Não pense muito em fazer – ser vem primeiro. Ser paz. Ser alegria. Ser felicidade. E depois fazer alegria, fazer felicidade – sobre a base do ser. Então, primeiro você deve focar na prática de ser. Ser renovado. Ser pacífico. Ser atencioso. Ser generoso. Ser compassivo. Essa é a prática básica. É como se a pessoa estivesse sentada aos pés de uma árvore. A árvore não faz nada, mas a árvore é fresca e viva. Quando você é como essa árvore, enviando ondas de frescor, você ajuda a acalmar o sofrimento na outra pessoa.

Sua presença deve ser agradável, deve ser calma e você deve estar lá para ele ou para ela. Isso já é muito. Quando as crianças gostam de vir e sentar perto de você, não é porque você tem muitos doces para distribuir, mas porque sentar perto de você é bom, é refrescante. Então, sente-se perto de quem está sofrendo e faça o seu melhor para ser o seu melhor – agradável, atencioso, fresco.

Se eu estou sentindo uma emoção muito difícil, talvez raiva, talvez tristeza profunda e eu tento focar na minha respiração, essa não é uma maneira de evitar minhas emoções?

As pessoas costumam perder a si mesmas em fortes emoções e ficam sobrecarregadas. Essa não é a maneira certa de lidar com a emoção, porque quando isso acontece, você é uma vítima da emoção. Para não se transformar numa vítima, respire e mantenha a calma, e você vai experimentar a compreensão de que uma emoção é apenas uma emoção, nada mais. Essa compreensão é muito importante, porque então você deixa de ter medo. Você está calmo, não está tentando escapar, e assim você pode lidar melhor com a emoção. Sua respiração é você, e você precisa de união com a sua respiração para ser mais você mesmo, para ser mais forte. Então, você conseguirá lidar melhor com suas emoções. Você não procura esquecer suas emoções, ao invés disso, procura ser mais você mesmo, de forma que esteja sólido o suficiente para lidar com elas.

Foi emocionante ver tantas crianças no retiro.

Eu me sinto confortável com crianças. Eu nunca me afastei das gerações mais jovens. Seja ela leiga ou monástica, a comunicação está sempre aberta com a geração mais jovem. Esse é um dos elementos da minha felicidade.

Às vezes jovens mães trazem seus filhos para a sala de meditação, porque elas não querem perder a palestra sobre o dharma. Isso é muito rico para todos. Os bebês não entendem o que está acontecendo, mas sentem a atmosfera pacífica. A energia de paz é rara na sociedade – é muito raro encontrar mil e quinhentas pessoas meditando e produzindo atenção plena e paz. Se você oferece às crianças um vislumbre de amor e paz, mesmo que elas sejam muito pequenas e não compreendam linguagem ainda, isso não quer dizer que elas não sintam isso. Tente imaginar uma jovem mãe amamentando seu filho durante um retiro. Ela está escutando o dharma, ela está consumindo o dharma, e o bebê está consumindo ambos, o leite e o dharma, ao mesmo tempo. Isso é muito bonito.

Mais tarde, quando essas crianças se depararem com a crueldade no mundo, elas lembrarão de quando tiveram a oportunidade de encontrar a energia da paz. Quando um sangha, uma comunidade Budista, se reúne e pratica, ele sempre pode produzir esse tipo de energia da paz, e os jovens podem experimentar isso e começar a plantar sementes para o futuro. O Budismo engajado procura levar essa energia pacífica para dentro de muitas situações diferentes. Em escolas, em hospitais, em saguões municipais, no congresso, a prática de respirar com atenção plena é possível.

Viver no momento presente é incompatível com aproveitar a mídia? Podemos ter atenção plena e ainda assim aproveitar a internet, a TV, os filmes e os livros?

Existem bons livros e filmes que você pode aproveitar. Não há problema em divertir-se com eles. Mas, às vezes, a qualidade do filme ou livro realmente não é boa, e mesmo assim você não desliga, porque se fizer isso, terá de retornar e experimentar o sofrimento dentro de você. Essa é a prática de muitas pessoas na nossa sociedade. Muitas pessoas não conseguem estar consigo mesmas. Elas têm dor, sofrimento, ou preocupações dentro de si, e elas leem ou assistem ou escutam para encobrir isso, para fugir de si mesmas.

Consumir mídia dessa forma é apenas fugir e o seu efeito dura pouco. Você pode esquecer o seu sofrimento por algum tempo, mas em algum momento você terá que voltar a si mesmo. O Buda recomendou não tentar fugir, mas aprender a tomar conta de nós mesmos e transformar nosso sofrimento.

O que você diria para alguém que acha a meditação sentado dolorosa e difícil e que luta para praticá-la?

Não a pratique mais.

Sério?

Sim, sim. Se você não acha sentar agradável, não sente. Você precisa aprender o espírito correto de sentar-se. Se você faz muito esforço quando senta, fica tenso e isso cria dor por todo o seu corpo. Sentar deveria ser agradável. Quando você liga a TV na sua sala, você fica sentado durante horas sem sofrer. Mas, quando se senta para meditar, você sofre. Por quê? Porque você briga. Você quer ter sucesso na sua meditação, e então, luta. Quando você está vendo televisão, você não luta. Você precisa aprender a sentar sem lutar. Se você sabe sentar dessa forma, sentar-se é muito agradável.

Quando você está sentado, você se sente leve, você se sente renovado, você se sente livre.

Quando Nelson Mandela visitou a França, um jornalista perguntou a ele o que ele mais gostava de fazer. Ele disse que, porque ele era tão ocupado, o que ele mais gostava de fazer era sentar e ficar sem fazer nada. Porque sentar e não fazer nada é um prazer – você se renova. É por isso que o Buda descreveu essa prática como sentar sobre uma flor de lótus. Quando você está sentado, você se sente leve, você se sente renovado, você se sente livre. E se você não sente isso quando senta, então sentar-se se tornou uma espécie de trabalho pesado.

Às vezes, se você não dormiu o suficiente ou se está resfriado ou algo assim, talvez sentar não seja tão agradável como você gostaria. Mas se você está se sentindo normal, experienciar o prazer de sentar é sempre possível. O problema não é sentar ou não sentar, mas como sentar. Como sentar de forma a tirar o máximo de proveito disso – de outra forma, você estaria desperdiçando seu tempo.

O senhor coloca muito mais ênfase no prazer – no prazer de respirar, de sentar, de caminhar, de aproveitar a vida de forma geral – do que muito outros professores budistas.

Nos ensinamentos de Buda, tranquilidade e alegria são elementos da iluminação. Na vida há muito sofrimento. Por que você tem que sofrer ainda mais praticando o budismo? Você pratica o budismo para sofrer menos, não é? O Buda é uma pessoa feliz. Quando o Buda senta, ele senta com felicidade, e quando ele caminha, ele caminha com felicidade. Por que eu iria querer fazer as coisas de forma diferente do Buda? Talvez as pessoas tenham medo que os outros podem dizer, “você não é sério na sua prática. Você sorri, você ri, você está se divertindo. Para praticar com seriedade você deve ser muito sombrio, muito sério.” Talvez as pessoas que querem receber mais doações façam isso – para dar a impressão de que praticam de forma mais séria do que os demais. Pegue a prática de sentar durante a noite toda. Você não pode descansar e pensa que é uma prática muito intensa, mas você sofre a noite toda e toma café para conseguir ficar acordado. Isso não faz sentido. É a qualidade da meditação que ajuda você a se transformar, não sentar-se muito e sofrer enquanto faz isso. Meditação sentada e caminhando servem para serem aproveitadas e também para olharmos profundamente e desenvolvermos compreensão. Essa compreensão pode nos liberar do medo, da raiva, do desespero.

Eu realmente gostei da meditação andando ao ar livre que fizemos durante o retiro.

Normalmente, na tradição budista, você senta e, então, levanta e caminha lentamente na sala de meditação e, então, você senta novamente. Nós não fazemos isso aqui. Ao invés disso, nós caminhamos ao ar livre. Essa prática ajuda porque você pode aplicá-la na sua vida diária. Você caminha normalmente – não muito devagar – então não parece que você está praticando e as pessoas veem você como normal. E, então, quando você vai para casa, quando está andando do estacionamento para o seu escritório, você pode desfrutar a caminhada.

A prática básica é saber como desfrutar – como desfrutar caminhar e sentar e comer e tomar banho. É possível desfrutar cada coisa, mas nossa sociedade é organizada de tal forma que nós não temos tempo para desfrutar. Nós temos que fazer tudo rápido demais.

O que você acha que faz de uma pessoa um budista?

Uma pessoa pode não se dizer budista, mas pode ser mais budista que alguém que se diz. Budismo é feito de atenção plena, concentração e compreensão. Se você possui essas coisas, você é budista. Se você não as possui, você não é um budista. Quando você olha para uma pessoa e você vê que ela é atenta, que é compassiva, que é compreensiva e tem discernimento, então você sabe que ela é budista. Mas, mesmo que ela seja uma monja, se não tiver essas energias e qualidades, ela tem apenas a aparência de budista, mas não o conteúdo.

Uma cerimônia pode fazer alguém um budista?

Não, não é através de uma cerimônia que você se torna budista. É se comprometendo a praticar. Os budistas ficam presos em uma porção de rituais e cerimônias, mas o Buda não gosta disso. Nos sutras, especialmente nos ensinamentos dados pelo Buda logo após sua iluminação, ele disse que nós deveríamos nos livrar dos rituais. Você não atinge a iluminação ou a liberação apenas porque você realiza rituais, mas as pessoas fizeram o budismo muito ritualístico. Nós não somos bons com o Buda.

Você precisa acreditar em reencarnação para ser budista?

Reencarnação significa que existe uma alma que sai do seu corpo e entra em outro corpo. Essa é uma noção muito popular, muito errada da continuação no budismo. Se você pensa que existe uma alma, um eu, que habita um corpo e que deixa esse corpo quando ele se desintegra e toma outra forma, isso não é budismo.

Quando você olha para uma pessoa, você vê cinco skandhas ou elementos: forma, sentimentos, percepções, formações mentais e consciência. Não existe uma alma, um eu, fora desses cinco, então quando esses cinco elementos se dissolvem, o karma – as ações que você realizou durante a sua vida – é a sua continuação. O que você fez e pensou ainda existe como energia. Você não precisa de uma alma, ou de um eu, para continuar.

Você é mais do que apenas esse corpo porque os cinco skandhas estão sempre produzindo energia.

É como uma nuvem. Mesmo quando a nuvem não está lá, ela continua sempre como neve ou chuva. A nuvem não necessita de uma alma para continuar. Não há começo ou fim. Você não precisa esperar até a dissolução total desse corpo para continuar – você continua a todo momento. Suponhamos que eu transmita minha energia a centenas e pessoas, eles, então, me continuam. Se você olhar para eles e vir a mim, bem, então você viu a mim. Se você pensa que eu sou apenas isso (aponta para si mesmo), então você não viu a mim. Mas quando você me vê em minhas falas e ações, você vê que elas dão continuidade a mim. Quando você olha para os meus discípulos, meus estudantes, meus livros e meus amigos, você vê a minha continuação. Eu nunca vou morrer. Existe a dissolução desse corpo, mas isso não significa a minha morte. Eu continuo, sempre.

Isso vale para todos nós. Você é mais do que apenas esse corpo porque os cinco skandhas estão sempre produzindo energia. Isso é chamado karma ou ação. Mas não existe ator – você não precisa de um ator. Ação é bom o suficiente. Isso pode ser compreendido em termos de física quântica. Massa e energia, e força e matéria – eles não são coisas separadas. Eles são a mesma coisa.

O que podemos fazer sobre o alto nível de materialismo em nossa cultura?

Você pode construir um ambiente onde as pessoas vivam de forma simples e feliz, e convidar outras pessoas para vir e observar. Essa é a única coisa capaz de convencê-los a abandonar sua ideia materialista de felicidade. Elas pensam que apenas quando você tem muito para consumir você pode ser feliz, mas muitos são muito ricos sem serem felizes. E existem aqueles que consomem muito menos, mas são mais felizes.

Nós precisamos demonstrar que viver de forma simples, com a prática do dharma, pode ser muito gratificante, porque até que as pessoas vejam isso, que experimentem isso, elas não poderão ser convencidas. Em Plum Village, nós rimos o dia todo, mas nenhum de nós possui uma conta bancária própria. Nenhum de nós possui um carro ou um telefone próprios. Nós só comemos comida vegetariana. Mas nós não sofremos porque não comemos ovos ou carne. Na verdade, nós ficamos mais felizes porque sabemos que não estamos comendo seres vivos e estamos protegendo o planeta. Isso traz muita alegria. Nós somos afortunados de poder viver assim, comer assim.

Existe uma crença de que, a menos que você tenha muito dinheiro, a menos que você detenha uma alta posição na sociedade, você não pode ser verdadeiramente feliz. É difícil abandonar essa crença até você ver a verdade de que a felicidade é possível de outra maneira. Perceber isso vai tornar o futuro possível para nossas crianças. Então eu penso que nos círculos budistas nós precisamos nos reorganizar para podermos mostrar às pessoas um modo de vida feliz, baseado no entendimento mútuo e não no materialismo. Apenas palestras sobre o dharma não bastam, porque palestras são só palavras. Apenas quando as pessoas virem uma comunidade não materialista como essa, quando virem uma forma de vida como essa, é que elas serão convencidas.

Veja também:


Sobre Thich Nhat Hanh | Lista de Mestres e Professores

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