Budismo Geral História e Arqueologia

Grandes discípulos/as do Buda | Parte 3/4: Leigos

Os leigos desempenharam um papel fundamental no budismo. Além do importante apoio há comunidade monástica eles praticaram de forma exímia e alcançaram altas realizações. Muitos acontecimentos históricos do budismo acontecerem em mosteiros fundados por leigos e vários ensinamentos de grande profundidade tiveram leigos como protagonistas. Note que o termo “leigo” é no sentido de praticante não-monástico e não no sentido de ser “leigo na matéria.”

1 – Monges | 2 – Monjas | 3 – Leigos | 4 – Leigas

Leigos (Upāsakas)

Anāthapiṇḍika
Citta
Hatthaka Ālavaka
Tapusa e Bhalika
Vimalakirti
Jivaka
Bimbisāra
Pasenadi

Anāthapiṇḍika

Anāthapiṇḍika (em Páli) ou Anāthapiṇḍada (em Sânscrito), foi um rico comerciante e banqueiro, e que se acredita ser o mais rico de Savatthi, a capital do antigo reino indiano de Kosala e o lugar onde o Buda passou mais tempo após a sua iluminação. O seu nome de nascimento era Sudatta, mas ele ficou mais conhecido por Anāthapiṇḍika, que significa literalmente “aquele que dá esmola”, devido à sua generosidade e reputação de ajudar os mais necessitados. Anathapindika fundou o Mosteiro Jetavana em Savatthi, considerado um dos dois templos mais importantes da época do Buda histórico, sendo o outro Migāramātupāsāda.

Após o primeiro encontro de Anāthapiṇḍika com o Buda, ele pediu para oferecer-lhe uma refeição, que o Buda aceitou, e então pediu para construir um templo para ele e os seus monges em Savatthi, com o qual o Buda concordou. Anāthapiṇḍika procurou por um local e encontrou um parque pertencente ao príncipe Jeta, filho do rei Pasenadi. Ele propôs ao príncipe comprar a área, mas o príncipe recusou, e depois que Anāthapiṇḍika insistiu, disse que lhe venderia o parque se ele o cobrisse com moedas de ouro, pensando que ninguém aceitaria tal preço. Para surpresa do príncipe, Anāthapiṇḍika concordou. Inspirado pela vontade do mercador e querendo compartilhar do mérito da oferenda, o príncipe Jeta doou as terras restantes e se ofereceu para construir o muro e o portão para o mosteiro, bem como fornecer árvores para madeira. O templo é frequentemente referido nas escrituras budistas como “Mosteiro de Anāthapiṇḍika no Bosque de Jeta” para dar reconhecimento a ambos os benfeitores. Muitos ensinamentos do Buda e eventos significativos aconteceram em Jetavana.

Depois de construir o mosteiro, Anāthapiṇḍika continuou a apoiar generosamente o Buda e a sua comunidade monástica ao longo da sua vida e tornou-se conhecido como o maior patrono e benfeitor do Buda, juntamente com a discípula leiga feminina, Visakha. Além de patronos, eles também serviam como os principais assessores do Buda no trato com o público em geral. Como patrono-chefe, Anāthapiṇḍika alimentava diariamente um grande número de monges do Buda e mantinha e abastecia regularmente o Mosteiro de Jetavana. Anāthapiṇḍika teve um filho e três filhas. Quando ele estava fora de casa, designava a sua filha mais velha para dar esmolas no seu lugar. Anāthapiṇḍika era considerado um dos grandes exemplos da adoção da virtude budista da generosidade. Além disso, Anāthapiṇḍika também era bem versado na doutrina budista.

Quando Anāthapiṇḍika adoeceu, ele foi visitado por Sāriputta e Ananda, dois dos principais discípulos do Buda. Depois de receber ensinamentos ele disse que foram os de maior profundidade que ouviu. Pouco depois de Sāriputta e Ananda partirem, Anāthapiṇḍika morreu. Segundo os textos budistas ele alcançou o primeiro estágio de iluminação, sotāpanna, e renasceu em Tusita, um dos reinos celestiais.

Citta

Citta (em Páli) ou Citra (em Sânscrito ), foi um dos principais discípulos leigos masculinos do Buda, juntamente com com Hatthaka de Alavi. Ele é considerado o principal discípulo leigo masculina na exposição do Dharma. No livro “The Buddha & His Disciples”, Ven. S. Dhammika diz que: “Muitas vezes se pensa erroneamente que o trabalho dos monges e monjas é praticar e ensinar o Dharma, enquanto que o trabalho dos leigos e leigos é praticar os Cinco Preceitos e apoiar os monges e monjas, provendo-lhes as suas necessidades. Esta é uma crença incorreta e perigosa, e em países onde é amplamente aceite, ajudou a levar à corrupção do Dharma. O objetivo do Buda era desenvolver uma comunidade de discípulos, ordenados e leigos, homens e mulheres, que fossem bem versados no Dharma, que o praticassem plenamente, que o ensinassem e aprendessem uns com os outros. Enquanto o Buda elogiou Anathapindika pela sua grande generosidade, ele reservou o seu maior elogio para Citta de Macchikasanda e Hatthaka de Alavi, porque ambos eram hábeis e diligentes em dar algo infinitamente mais precioso do que coisas materiais – o Dharma.”

Depois de se tornar discípulo leigo do Buda, Citta compartilhou e explicou os ensinamentos do Buda para os outros cidadãos, e converteu quinhentos deles, e em uma outra ocasião levou todos os novos convertidos a Savatthi para visitar o Buda. O Buda considerava Citta o mais erudito e lúcido de todos os professores leigos do Dharma. Os discursos no Tipitaka transmitidos para e por Citta, indicam a sua profunda compreensão dos aspetos mais sutis do Dharma de Buda.

O Citta não foi apenas capaz de ensinar o Dharma, mas também capaz de demonstrar a superioridade do Dharma sobre outras doutrinas. Certa vez, Nigantha Nataputta, o fundador do jainismo e um dos mais conhecidos mestres religiosos da época, chegou a Macchikasanda com um grande número de discípulos. Citta foi ao encontro de Nataputta que, sabendo que ele era um discípulo do Buda, perguntou-lhe: “Você acredita, como o Buda ensina, que é possível atingir um estado meditativo onde todos os pensamentos param?” “Não”, respondeu Citta, “O Buda ensina isso, mas eu não acredito”. Surpreso e satisfeito que Citta parecia estar dizendo que duvidava de alguns dos ensinamentos do Buda, Nataputta olhou em volta para todos os seus discípulos dizendo: “Vejam que pessoa direta e inteligente é Citta.” E Citta perguntou: “O que é melhor, venerável senhor, saber ou acreditar? O conhecimento é muito melhor do que a crença. Eu posso atingir aquele estado meditativo onde todo pensamento cessa. Então, porque eu deveria acreditar que o que o Buda diz é verdade? Eu sei que é verdade.”

Num outra ocasião o monge Sudhamma teve um comportamento inapropriado para com o Citta. O Buda o repreendeu e numa reunião da Sangha onde as transgressões dos monges são discutidas, foi decidido que Sudhamma deveria pedir perdão a Citta. Esse episódio demonstra que todos cometemos erros, incluindo monges que estão no caminho para a iluminação e portanto não são perfeitos. Também demonstra a importância do perdão e que os budistas devem pedir perdão para a pessoa a que o ato foi feito e não para o Buda.

Mais tarde, Citta ficou doente e estava com pouco tempo de vida. Enquanto jazia no seu leito de morte, segundo a história, os devas se reuniram ao seu redor dizendo-lhe para se concentrar em renascer numa posição de riqueza e poder, que ele poderia renascer como um grande monarca. Porém ele havia alcançado o estágio de iluminação Anāgāmi, aquele que não retorna. Ele renasceria no reino celestial onde eventualmente alcançaria a iluminação completa.

O Buda disse que um discípulo leigo devotado deve estimular o desejo de se tornar como Citta e Hatthaka, enquanto os bhikkhus devotados devem aspirar a igualar Sāriputta e Mahāmoggallāna. Eles são como modelos de referência estabelecidos para leigos e monges.

Hatthaka Ālavaka

Hatthaka Ālavaka (em Páli) ou Hastaka Āṭavaka ( em Sânscrito ), e também conhecido como Hatthaka de Āṭavī, foi um dos principais discípulos leigos do Buda. Ele era especialmente conhecido pela habilidade de trazer pessoas para o budismo usando as “quatro bases da simpatia”. De acordo com o Comentário Páli SA.iii.223, Hastaka era um dos sete leigos que sempre estava acompanhado por quinhentos discípulos leigos.

Certa vez, ele levou quinhentas pessoas, todas obviamente interessadas em praticar o Dharma, para ver o Buda, que lhe perguntou: “Como você consegue fazer com que tantas pessoas se interessem pelo Dharma?” Hatthaka respondeu: “Senhor, eu faço isso usando as quatro bases da simpatia, que você mesmo me ensinou. Quando sei que alguém pode ser atraído pela generosidade, eu sou generoso. Quando sei que alguém pode ser atraído por palavras gentis, eu falo com elas com bondade. Quando eu sei que elas podem ser atraídas fazendo-lhes uma boa ação, eu lhes faço uma boa ação, e quando eu sei que elas podem ser atraídas por tratá-las de forma igual, eu as trato com igualdade.” O Buda o elogiou por essa qualidade e outras adicionais: fé, virtude, consciência, medo de culpa, capacidade de bom ouvinte, caridade, sabedoria e modéstia.

A modéstia, em particular, era evidente no caráter de Hatthaka. Enquanto alguns se orgulham da sua riqueza ou eram motivados pelo auto-engrandecimento quando convertiam outros ao Dharma, Hatthaka sempre foi tranquilo e despretensioso. Eles fez tudo o que pôde para que as pessoas se interessassem pelo Dharma, puramente por preocupação com elas, não para a sua própria reputação.

Hatthaka alcançou o estado de Anāgāmi, quando morreu renasceu como um deva e uma noite foi visitar o Buda. O Buda perguntou se ele tinha algum arrependimento e ele respondeu: “Morri lamentando apenas por nunca ter visto o Buda o suficiente, ouvido o Dharma o suficiente, e ter sido capaz de servir a Sangha o suficiente”.

Tapusa e Bhalika

Trapusa e Bahalika foram os dois primeiros discípulos leigos do Buda. O primeiro relato de Trapusa e Bahalika aparece na seção Vinaya do Tripiṭaka. Eles oferecem ao Buda a sua primeira refeição após a sua iluminação e refugiam-se no Dharma. Nesse momento a Sangha monástica ainda não havia sido estabelecida. Xuanzang, um monge do século 7, diz que o budismo foi levada para a Ásia Central por Trapusa e Bahalika, os dois mercadores que ofereceram comida ao Buda após a sua iluminação. Ele também descreve que antes de Trapusa e Bahalika partirem após o encontro com o Buda, pediram algo a Buda para que o pudessem honrar e recordar. O Buda ofereceu-lhes 8 fios de cabelo como relíquias. Eles as colocaram numa caixa de ouro e a levaram para para Bailkh, a cidade deles, onde fizeram uma stupa. Xuanzang conta que foi a primeira stupa budista, e que o Buda deu as instruções para a erguerem, dobrando três mantos em quadrados, empilhando-os e depois completando com uma tigela invertida.

Segundo as crónicas do Sri Lanka o que se afirma é que os dois irmãos mercadores, que viajavam para diferentes partes da região, encontraram o Buda logo após a sua iluminação, oferecem as primeiras esmolas e se refugiam no Buda e no Dharma. Eles pediram ao Buda algo para o honrar e o Buda deu-lhes 8 punhados do seu cabelo. Eles partiram e chegaram a Thiriyaya (nordeste do Sri Lanka) vindos da Índia. Em Thiriyaya algumas das relíquias de cabelo que eles trouxeram foram consagradas numa Stupa construída no topo de uma montanha que agora é chamada Girihandu Seya. Essa é considerada a primeira Stupa no Sri Lanka.

Quanto à tradição de Mianmar a história também é semelhante, mas os dois irmãos partem para Mianmar após o encontro com o Buda. Em Mianmar e com a ajuda do governante local, o rei Okkalapa, encontraram a Colina Singuttara, onde as relíquias de outros Budas anteriores ao Buda Gautama foram consagradas, e nesse local colocam os 8 punhados do cabelo do Buda Gautama. O Pagode Shwedagon assinala o local, que é o mais importante do budismo em Mianmar.

Vimalakirti

Vimalakirti era um famoso comerciante e discípulo de Buda, e é a figura central do sutra Mahayana “Vimalakirti Sutra”, que o apresenta como o ideal praticante leigo do budismo Mahayana. Referências a ele surgem por volta do primeiro século, nomeadamente na época do Nagarjuna, que foi uma figura importante no desenvolvimento do Budismo Mahayana. Nos textos mais antigos Vimalakirti não é mencionado.

O Sutra de Vimalakirti teve uma importância considerável para o Budismo Mahayana, como por exemplo a escola Zen. O sutra ensina assuntos como a não-dualidade, vacuidade e o poder benevolente dos bodhisattvas.

Vimalakirti era conhecido pela profunda sabedoria, que nem os monges mais sábios o conseguiam superar. Certa vez, o Buda sucessivamente apela a uma série de discípulos mais avançados, incluindo três bodhisattvas e um chefe de família, para o irem visitar e perguntarem pela sua saúde. Mas todos eles se recusaram, pois Vimalakirti frequentemente triunfava quando debatiam sobre a doutrina budista. Numa das histórias mais conhecidas de Vimalakirti, os discípulos do Buda o encontraram quando iam para o mosteiro e perguntaram: “Aonde vais, Vimalakirti?” Vou para o mosteiro, respondeu. “Para o mosteiro? Mas a direção que você vai é a da cidade!”, responderem os monges. E, Vimalakirti calmamente disse: “Sim. Lá onde eu trabalho é que estão as pessoas que sofrem, precisam de empregos, de ajuda e ensinamentos, lá precisam de mim. Lá é o meu mosteiro.”

Jivaka

Jīvaka foi o médico pessoal do Buda e do rei Bimbisāra. A sua reputação era tão grande que ele não conseguia atender todas as solicitações.

Jīvaka foi adotado pelo príncipe Abhaya, filho do rei Bimbisāra. Segundo a história o príncipe Abhaya estava cavalgando pela cidade quando viu um bando de corvos circulando e grasnando alto em torno de um pequeno pacote. Abhaya foi ver e se deparou com um bebê recém-nascido que havia sido deixado para morrer entre o lixo na beira da estrada. Movido por compaixão ele decidiu adotar Jīvaka. Mais tarde ele soube que foi a cortesã Sālavatī que descartou o filho ilegítimo por o considerar um fardo. Quando Jīvaka soube das suas origens, decidiu que um dia seria preservador da vida, e assim, ele veio a tornar-se num grande médico da sua época.

À medida que Jīvaka entrou em contacto com o Buda, ele se tornou um importante defensor da doutrina budista e acabou por fundar o mosteiro Jīvakarāma. Mais tarde, Bimbisara foi morto pelo seu filho Ajatashatru, que usurpou o trono. Eventualmente, Jīvaka foi fundamental para que ele fosse ver o Buda, a quem o novo rei se arrependeu dos atos que havia cometido. Vários textos e procedimentos médicos medievais na Índia e na China são atribuídos a Jīvaka.

Bimbisāra

Bimbisāra foi o rei de Magadha. Considera-se que ele lançou as bases para a posterior expansão do Império Maurya. Para fortalecer a sua posição ele usou várias alianças de casamento. De acordo com as escrituras budistas Bimbisāra conheceu o Buda pela primeira vez antes da sua iluminação e mais tarde se tornou um discípulo importante, sendo descrito como um amigo e protetor. Bimbisāra consegue alcançar o sotāpanna, o primeiro estágio de iluminação. O rei Bimbisāra foi preso pelo seu filho Ajatashatru, que o deixou morrer à fome e o sucedeu no trono.

Pasenadi

Pasenadi foi um governante de Kosala, cuja capital era Savatthi. Ele foi um proeminente seguidor leigo do Buda, tendo construído muitos mosteiros. Pasenadi teve duas consortes. A sua principal consorte, a rainha Mallika, era filha de um fabricante de guirlandas. A sua segunda consorte, Vasabha Khattiya, era filha de Mahanama (um dos primos do Buda e irmão de Anuruddha). A sua irmã Kosala Devi foi a primeira esposa do rei Bimbisāra.

Partes anteriores:
1 – Monges | 2 – Monjas

Parte seguinte:
4 – Leigas

Referências: The Buddha & His Disciples (S. Dhammika); The Great Chronicle of Buddhas (Mingun Sayadaw); Buddhivihara: Great Male Disciples Of Buddha; Buddhivihara: Great Female Disciples Of the Buddha; Buddhivihara: Lay Disciples; Buddhivihara: Royal Patrons; Budismo sem Dúvidas: Principais Discípulas do Buddha; Wikipedia: Śrāvaka; Wikipedia: Ten principal disciples; Wikipedia: List of Buddhists; Buddhist Dictionary of Pali Proper Names.

Veja também:

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