Budismo Geral História e Arqueologia

Grandes discípulos/as do Buda | Parte 2/4: Monjas

O Buda estabeleceu pela primeira vez na história uma comunidade monástica de mulheres. Elas são figuras centrais de algumas das histórias mais incríveis do budismo. Em algumas dessas histórias os eventos ocorrem principalmente enquanto pessoas comuns e culminam com a entrada na via monástica e no despertar. Noutras os eventos se passam maioritariamente durante a vida monástica.

1 – Monges | 2 – Monjas | 3 – Leigos | 4 – Leigas

Monjas (Bhikkhunis)

Mahāpajāpatī Gotamī
Khemā
Uppalavaṇṇā
Paṭācārā
Dhammadinnā
Sundari Nandā
Soṇā Theri
Sakulā Theri
Bhaddā Kuṇḍalakesā
Bhaddā Kapilānī
Kisā Gotamī
Ambapali

Mahāpajāpatī Gotamī

Mahāpajāpatī Gotamī (em Páli) ou Mahāprajāpatī Gautamī (em Sânscrito), foi a mãe adotiva, madrasta e tia materna do Buda. Ela também foi a primeira mulher ordenada monja pelo Buda.

A princesa Maya, mãe biológica do Buda e esposa do rei Suddhodana, morreu após o nascimento do Buda. Assim, a sua irmã Mahāpajāpatī assumiu o seu papel.

Após a morte do rei Suddhodana, quando Siddhartha já havia alcançado a Iluminação, Mahāprajāpatī decidiu que havia chegado a hora de tornar-se, ela própria, uma praticante monástica. Na antiga sociedade indiana estava vedado a uma mulher seguir o caminho espiritual a esse nível, não era permitido em qualquer lugar e por qualquer grupo religioso que uma mulher se tornasse monja. Mas ela estava decidida a trilhar o mesmo caminho que o Buda, e assim, vestiu um manto de renunciante, raspou o cabelo e juntamente com a sua nora Yaśodharā e outras 500 mulheres que tinham a mesma aspiração, foram procurar o Buda.

Segundo conta a história, o Buda ainda que reconhecesse a igualdade entre homens e mulheres recusou o seu primeiro pedido, pois as condições eram demasiados austeras, perigosas e desfavoráveis para as mulheres naquela sociedade. Aquele era uma época em que as mulheres tinham pouco papel na sociedade, além de esposas e mães. Elas frequentemente eram consideradas propriedade do marido ou dos pais e os perigos a enfrentar seriam muitos. Mas Mahāpajāpatī e as suas companheiras não estavam dispostas a desistir e seguiram o Buda que se dirigia para Vesāli. Ela fez o pedido novamente e o Ven. Ananda interveio perguntando ao Buda: “Se as mulheres praticarem o Dharma apropriadamente, serão elas capazes de alcançar os mesmos frutos do Caminho para a Liberação?” O Buda afirmou que sim, as mulheres podem obter exatamente as mesmas realizações que os homens, todas podem alcançar a iluminação. Essa foi uma declaração inédita na Índia daquele tempo.

E assim, apesar de todas as dificuldades que teriam de ultrapassar, Mahāpajāpatī Gotamī foi ordenada pelo Buda, e seguidamente as restantes companheiras. Nesse dia deram origem à primeira comunidade monástica de mulheres na história da Índia e do mundo.

Numa sociedade em que estava vedado às mulheres seguirem um caminho espiritual a esse nível, ao longo da sua carreira monástica, Mahāpajāpatī e as suas companheiras tiveram de enfrentar muitos desafios advindos do seu tempo e da sua cultura. Mas todas elas perseveraram. A própria Mahāpajāpatī levou uma vida de firme dedicação à prática espiritual, ajudando e instruindo as demais monjas budistas. Ela ficou conhecida como a “Grande Anciã”, aquela com mais tempo de ordenação entre todas as monjas.

Nos seus últimos momentos, segundo a história, Mahāpajāpatī já com 120 anos, anunciou que adentraria o parinirvāṇa e consolou as suas companheiras dizendo: “Todos os fenómenos são impermanentes, no fim todos temos que nos separar”. E assim dizendo, ela entrou nos profundos estados meditativos e se foi. Mahāprajāpatī foi a única pessoa nos registos budistas que fez essa passagem de modo idêntico ao próprio Buda.

Mahāpajāpatī Gotamī é das monjas mais respeitadas pela comunidade budista feminina, tanto no passado como na atualidade.

Khemā

Khemā (em Páli) ou Kṣemā (em Sânscrito), foi uma das principais discípulas do Buda. Segundo o Cânone Budista Páli ela é considerada a primeira das duas principais discípulas femininas, juntamente com Uppalavaṇṇā. Buda a declarou como a maior em sabedoria, juntamente com o discípulo Sāriputta.

Khemā nasceu na família real do antigo Reino de Madra, e era a esposa do rei Bimbisara do antigo reino indiano de Magadha. Por conta da sua inteligência e beleza incomum, ela sentia-se superior a todos, mas o seu marido estava ciente do seu potencial e achava que o Buda lhe podia ajudar a abrir o olho da sabedoria. E assim, o rei, que contratou poetas para cantar sobre a beleza do mosteiro em que o Buda estava hospedado, convenceu Khemā a visitar o Buda. Khemā foi visitar o Buda e alcançou a iluminação como leiga enquanto ouvia um dos seus sermões, considerado um feito raro nos textos budistas. Após a sua realização, e com o apoio do seu marido, Khemā entrou na vida monástica, tornado-se assim uma monja.

Khemā instruiu e cuidou das demais praticantes e o Buda a elogiou pelas suas habilidades de ensino e liderança. No Khemā Sutta, ela deu ensinamentos ao rei Pasenadi, e quando ele faz as mesmas perguntas ao Buda, fica surpreendido pelas respostas serem exatamente iguais às de Khemā. Ela também está associada a várias figuras duma variedade de contos e histórias chamadas de jatakas, em que são descritas as vidas anteriores do Buda e dos seus discípulos e discípulas.

Uppalavaṇṇā

Uppalavaṇṇā (em Páli) ou Utpalavarṇā (em Sânscrito), foi uma das principais discípulas do Buda, sendo considerada a segunda principal juntamente com Khemā. Uppalavaṇṇā significa “cor de um nenúfar azul”, ela ganhou esse nome devido à cor azulada da sua pele. De acordo com a tradição Theravada, Uppalavaṇṇā era filha de um rico comerciante, era bela e tinha numerosos pretendentes, no entanto, ela optou por seguir a vida monástica. De acordo com a tradição Mulasarvastivada, Uppalavaṇṇā teve uma vida tumultuada como esposa e cortesã antes de se converter ao budismo e se tornar uma monja.

Utpalavarṇā alcançou um profundo despertar enquanto contemplava uma vela recém acesa. Ela vislumbrou profundamente a lei da origem interdependente ao aperceber a interação da chama, do pavio e dos demais elementos que participavam daquele processo. Após a sua iluminação ela desenvolveu o domínio de Iddhipada, ou poderes espirituais, levando o Buda a declará-la a sua discípula feminina mais importante em poderes psíquicos. A sua contraparte masculina era o Moggallāna. Embora o Buda desaconselhasse o uso corriqueiro de habilidades extraordinárias, ele próprio chegou a pedir que alguns dos seus discípulos e discípulas exibissem as suas capacidades quando a situação era propícia. Assim sendo, houve ocasiões onde ele pediu que Utpalavarṇā demonstrasse as suas habilidades a fim de dissipar as dúvidas de alguns praticantes, os quais insistiam em crer que mulheres não eram capazes de grandes realizações espirituais.

Apesar dos seus poderes psíquicos ela foi violentada numa cabana sem os consegui usar para se defender devido ao seu karma passado. Esse episódio, assim como um semelhante do Moggallāna, demonstram que até mesmo os maiores arhants estão sujeitos à maturação dos seus antigos karmas negativos do passado. Esse episódio também é representativo da insegurança que as mulheres viviam na época. Após o sucedido a comunidade de praticantes teve de rever as questões de segurança. O Buda transferiu todas as monjas que viviam em cabanas solitárias naquela região para o mosteiro de Jetavana, de modo que suas residências ficassem mais ao fundo do bosque (para acessá-las, qualquer um teria primeiro que passar pelas residências dos monges). Mais tarde, outros reis e benfeitores ajudariam na construção de novos mosteiros para as praticantes.

Assim como Khemā, ela era uma exímia praticante, liderou a comunidade monástica feminina e era um dos modelos a seguir.

Paṭācārā

Paṭacārā ou Patachara foi uma figura feminina notável no budismo. Entre as discípulas de Gautama Buda, ela foi a principal expoente do Vinaya, as regras da disciplina monástica. A história dela é uma das mais impactantes, trágicas, e cheias de reviravoltas. Paṭacārā tinha um irmão e era filha de um rico comerciante. Os seus pais eram super protetores e a trancaram numa torre para impedi-la de estar na companhia de qualquer jovem pretendente.

Apesar das precauções, Paṭacārā apaixona-se pelo servo da sua família, chamado de Amarsh. Eles têm um caso amoroso e, quando ela descobre que os seus pais lhe organizaram um casamento com um jovem de igual posição social, decide fugir com o seu amante. Eles se estabelecem numa pequena aldeia, levam uma vida simples e de luta mas se amam muito. Quando ela está grávida e próxima de dar à luz, pede ao marido que a leve à casa dos seus pais para ter lá o filho, conforme era a tradição. Ele recusa afirmando que certamente os seus pais o torturariam ou o prenderiam. Ela começou então a viajar sozinha, porém o seu marido acaba por se juntar a ela. Durante a viagem ela entra em trabalho de parto e acaba por ter o filho. Como já não havia motivo para continuarem a viagem até à casa dos país, eles voltam para a aldeia.

Anos mais tarde, e novamente gravida, viaja mais uma vez até à casa dos seus país com o marido e o filho. Durante a viagem começa uma grande tempestade e ela começa a entrar em trabalho de parto. Ela pede ao seu marido para coletar alguma madeira para fazer um abrigo. Enquanto ele estava procurando por madeira é picado por uma cobra e morre. Ela deu à luz o segundo filho e na manhã seguinte encontra o marido morto. Paṭacārā sente-se culpada pelo que aconteceu. Ela continua a sua jornada até à casa dos pais, e quando chegou a um rio que estava transbordando, ela não consegue atravessar com as duas crianças. Então ela deixa o filho mais velho na margem, carrega o bebé deixa-o na outra margem, e volta para pegar o filho mais velho. A meio do caminho um grande pássaro pega no bebé sozinho e voa com ele. A mãe grita e acena para o pássaro largar o bebé, o filho mais velho ao ver a mãe a acenar entra no rio e é arrastado pela corrente. Ela perde os dois filhos e segue a viagem devastada. Quando está quase a chegar à casa dos seus pais, fica a saber que a tempestade fez a casa desabar e que os seus pais e o irmão morreram. Paṭacārā ficou tão devastada e sentiu-se tão culpada com tudo o que aconteceu que começou a enlouquecer. Ela arranca as suas roupas puxa os cabelos e vagueia nua pelas ruas. As pessoas ao a verem assim começam a insultá-la e algumas até atiram lixo para cima dela.

Ela desloca-se até a um mosteiro onde estava o Buda, mas os monges a impedem de entrar. O Buda a viu e diz aos monges para a deixarem entrar. Ele deu-lhe ensinamentos, ela começa a recuperar-se, torna-se monja, e mais tarde acaba por alcançar o despertar.

Dhammadinnā

Dhammadinnā foi considerada a primeira das discípulas femininas na “capacidade de expor o Dharma”. Ela era a esposa de um comerciante. O seu marido após conhecer o Buda alcançou um alto estágio de realização. Dhammadinnā expressou o desejo de também aprender com o Buda, e apoiada pelo marido acabou mesmo por se tornar monja. Ela progride, supera seu marido e alcança o mais alto estado de iluminação. Dhammadinnā passou a ensinar grandes audiências, incluindo reis e ilustres figuras. Ela é um dos vários exemplos de mulheres que superaram o progresso espiritual dos seus professores e maridos, mostrando a igualdade de género nos ensinamentos do Buda.

Sundari Nandā

Sundari Nandā era meia-irmã de Siddhartha Gautama, que mais tarde se tornou um Buda. Ela se tornou monja e alcançou o despertar, tornando-se assim numa Arhat. Sundari Nandā foi considerada a principal entre as monjas na prática de jhana (absorção meditativa avançada).

Soṇā Theri

Soṇā teve muitos filhos e chegou à idade avançada sem grandes dificuldades. Ele cuidou dos filhos com grande dedicação. O seu marido era um discípulo leigo do Buda que mais tarde se tornou monge. Com idade avançada era suposto os filhos cuidarem bem dela, mas não foi esse o caso, o que fez ela ficar triste e dececionada. Ela acaba por seguir a vida monástica, mas devido à sua idade e memória já debilitada, era pouco respeitada por outras monjas e teve de enfrentar grandes adversidades. Soṇā Theri como tinha dificuldades nos estudos dedicou-se prioritariamente à meditação.

Num dia particular as monjas estavam saindo do mosteiro para um compromisso e a monja sénior pediu para Soṇā ferver água para quando elas retornassem. Soṇā colocou um caldeirão com água no fogo e voltou para os seus outros deveres: substituir folhas velhas por novas, assim como incensos. Soṇā utilizava vários objetos como assuntos de meditação e contemplação, e então ao fazer essas atividades experiencia uma profunda alegria e sensação de liberdade e alcança o despertar. O fogo para aquecer a água já estava apagado e quando a monja que lhe pediu para a aquecer retorna, vê Soṇā Theri sorrindo e repara que o caldeirão está com a água fria. A monja a repreende por ser preguiçosa e não cumprir as tarefas. Soṇā Theri com o foco da mente faz o fogo se acender e a água fica instantaneamente quente. As monjas vão até ao Buda e ele confirma que Soṇā Theri agora é uma Arhat. As monjas que pensavam que ela era um caso perdido e não a respeitavam pediram desculpa pelo seu comportamento. O Buda elogiou Soṇā Theri como sendo a melhor em perseverança entre as monjas.

Sakulā Theri

Nos textos budistas, além de existirem relados sobre os discípulos e discípulas do Buda na sua época, também estão descritos as vidas passadas da maioria deles. Segundo a história, Sakulā Theri havia se encontrado com um iluminado de eras passadas: O Buda Padumutra. Assim como muitos outros discípulos e discípulas, esse encontro lhe inspirou a plantar as raízes meritórias que mais tarde dariam frutos mais elevados no caminho espiritual. Sakulā Theri presenciou o Buda Padumutra a elogiar uma monja como sendo a “mais notória na habilidade de visão divina”, ou seja, ela era capaz de ver seres celestiais, seres de outros reinos, bem como o destino de renascimento daqueles que faleciam. Quando Sakulā Theri viu o Buda Padumutra elogiando tal habilidade, ela fez o voto de no futuro conseguir realizar a mesma façanha. Mais tarde ela nasceu na época do Buda Kassapa, e finalmente na época do Buda Gautama. Ela renasceu numa família rica mas abandonou a sua condição para seguir a vida monástica. Graças às boas qualidades cultivadas nas vidas passadas, em pouquíssimo tempo ela se tornou uma Arhant e cumpre os seus votos antigos, ficando conhecida como a discípula mais notória no uso da visão celestial. Ela se equiparava ao Ven. Anuruddha, que se destacava entre os monges pela proeminência na mesma habilidade.

Bhaddā Kuṇḍalakesā

Bhaddā Kuṇḍalakesā nasceu numa família abastada e se apaixona por um ladrão quando o viu a ser arrastado entre a multidão para ser executado, pois foi condenado à morte. Ela convenceu os pais a salvarem o ladrão, prometendo que deixava de falar e se mataria se não o fizessem. Os pais que eram influentes acederam ao seu pedido e conseguiram libertar o infrator. Todos tinha esperança que ele mudasse mas isso não aconteceu. Depois de eles já estarem casados, o ladrão elaborou um plano para a matar e roubar-lhe as joias. Ele a convenceu a se vestir com muitas joias para irem às montanhas fazerem uma oferendas aos deuses. Quando estavam nas montanhas à beira do precipício, ele conta a ela o seu plano. Bhaddā Kuṇḍalakesā, que estava encurralada, resolveu usar um estratagema que lhe permitisse empurrá-lo para o precipício. Ela disse que gostaria de se despedir com um último abraço, ele aceitou o pedido e quando foi para lhe abraçar ela o empurrou. O homem caiu do precipício e morreu.

Cheia de remorsos, Bhaddā Kuṇḍalakesā decide tornar-se uma asceta errante em busca de um caminho espiritual. Ela conheceu várias seitas e ficou hábil em vencer debates. Certo dia ela vai ter com Sāriputta, que era um discípulo de Buda conhecido pela sua sabedoria e poder de análise. Ela pensou que podia ganhar um debate com ele, mas acaba por o perder. Bhaddā Kuṇḍalakesā passa então a seguir o caminho budista, é ordenada monja, e atinge o estado de Arahant mais rápido que qualquer outra monja. Mais importante que a sua vitória contra o ladrão, foi a sua vitória sobre as aflições mentais, ela derrotou os ladrões internos chamados ira, cobiça e ignorância.

Bhaddā Kapilānī

Bhaddā Kapilānī foi a esposa do Mahākassapa, um dos mais importantes discípulos do Buda. Durante a vida leiga ambos tinham um grande interesse pela vida espiritual e viveram felizes e em harmonia durante muitos nos. Mahākassapa foi o primeiro a ser ordenado monge, e quando a ordem monástica feminina foi estabelecida, foi a vez de Bhaddā Kapilānī ser ordenada. Bhaddā Kapilānī tornou-se na monja mais habilidosa em recordar as suas existências passadas.

Kisā Gotamī

Kisā Gotamī é protagonista de uma das histórias mais famosas do budismo. Depois de perder o seu único filho, Kisā Gotamī ficou desesperada, perguntando por todos os lados se alguém poderia ajudá-la. A sua tristeza foi tão grande que muitos pensaram que ela havia enlouquecido. Certo dia ela encontrou alguém que disse para ir ter com o Buda. O Buda disse a ela que ele poderia trazer a criança de volta à vida se ela encontrasse sementes de mostarda branca de uma família onde ninguém tivesse morrido. Ela foi desesperadamente de casa em casa, mas, para sua deceção, não conseguiu encontrar uma casa com uma família que não tivesse sofrido com a morte de um familiar. Finalmente, a perceção a atingiu de que não há casa livre de mortalidade. Ela voltou para o Buda, que a confortou e lhe deu ensinamentos. Kisā Gotamī por fim atinge o despertar.

Uma tradição literária evoluiu em torno da história de Gotami, grande parte dela em forma oral e em peças locais em grande parte da Ásia. Um número de versões alternativas similares populares também existe.

Ambapali

Ambapali ou Āmrapālī, foi uma cortesã generosa. A sua história começa quando um governante de Licchavi que estava num mangueiral colhendo frutas, encontrou uma linda menina deitada debaixo de uma mangueira. Ele a adotou e deu-lhe o nome de Ambapali. Ela cresceu na casa real e cada ano que passava ficava mais bonita e charmosa. Quando ela estava com idade para se casar, muitos príncipes de Licchavi tinham os seus corações voltados para ela, o que levou a disputas. Para evitar isso foi decidido que Ambapali não poderia pertencer a nenhuma pessoa, teria de pertencer a todos. Era também um costume dessas terras que as mulheres mais bonitas em vez de se casarem com um homem se dedicassem ao prazer de muitos. Assim, Ambapali tornou-se uma cortesã. No entanto, ela não ficou ressentida, ela ficou feliz com a sua nova vida. Ela tinha o direito de escolher os seus amantes, mas de acordo com o costume não se podia comprometer com ninguém.

Ambapali doou a maior parte dos seus ganhos para a caridade. Ela ajudava os pobres e indigentes e era muito amada pelo povo da República dos Licchavis. Ambapali era talentosa em muitas formas de arte e sua fama se espalhou e chegou ao Rei Bimbisara de Magadha. O rei desfrutou dos prazer que ela podia oferecer, e como resultado do tempo que passaram juntos Ambapali deu à luz um menino.

Quando o Buda estava em Licchavi, Ambapali foi prestar respeito ao Buda e ouviu um longo discurso sobre o Dharma. Ela ficou tão inspirada que convidou o Buda e os seus monges para uma refeição na sua casa no dia seguinte. O convite foi aceite e Ambapali ficou tão empolgada que correu para casa. Ao longo do caminho, ela encontrou os príncipes de Licchavi que lhe perguntaram porque ela estava viajando com tanta pressa. Ela respondeu que o Buda e os monges no dia seguinte iam à sua casa para uma refeição e que ela precisava de garantir que tudo ficava pronto. Os príncipes imploraram que ela lhes cedesse o privilégio do convite e que até lhe ofereciam 1000 moedas de ouro. Ela respondeu que nem por todos os tesouros de Vesali venderia a refeição. Os príncipes foram ter com o Buda e o convidaram para ir ao palácio deles em vez da casa de Ambapali. O Buda recusou porque já tinha aceitado o convite de Ambapali.

No dia seguinte, o Buda e os seus monges foram à casa de Ambapali e aceitaram a oferta de comida. Após a refeição Ambapali aproximou-se do Buda e ofereceu-lhe o seu amplo Bosque de Mangas. O Buda já tinha dado ensinamentos no bosque de mangas e continuou a fazê-lo, levando à iluminação de muitos. Vários importantes ensinamentos e episódios da história budista acontecem no Bosque de Mangas de Ambapali.

Algum tempo depois, Ambapali acabou por se juntar à ordem de monjas e tornou-se uma Arahant.

A lenda de Ambapali se perpetuou entre as gerações futuras porque ela se tornou mais que um objeto de desejo. Ela acabou dando todo o seu dinheiro para os pobres, iluminou o mundo com a sua bondade, e provou que qualquer mulher, incluindo uma cortesã, pode tornar-se monja e alcançar o mais alto nível de iluminação. Há cerca de 2600 anos, numa das primeiras vezes da história, o budismo permitiu que as mulheres recebessem uma educação igualitária. A era de Ambapali foi uma era inteiramente nova na qual mulheres bem-educadas e independentes começaram a receber grande respeito. Por isso, Ambapali tornou-se uma heroína da cultura pop da Índia moderna. A história de Ambapali deu origem a filmes, séries e foi tema de vários livros.

Parte anterior:
1 – Monges

Partes seguintes:
3 – Leigos | 4 – Leigas

Referências: The Buddha & His Disciples (S. Dhammika); The Great Chronicle of Buddhas (Mingun Sayadaw); Buddhivihara: Great Male Disciples Of Buddha; Buddhivihara: Great Female Disciples Of the Buddha; Buddhivihara: Lay Disciples; Buddhivihara: Royal Patrons; Budismo sem Dúvidas: Principais Discípulas do Buddha; Wikipedia: Śrāvaka; Wikipedia: Ten principal disciples; Wikipedia: List of Buddhists; Buddhist Dictionary of Pali Proper Names.

Veja também:

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