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COVID-19: Como lidar com esta crise?

A nova pandemia do coronavírus continua inabalável e a afetar a sociedade de várias maneiras. No entanto, é precisamente nestes momentos que a sabedoria budista é mais necessária.

Nós damos como garantida a vida que temos, se estamos num momento da história com alguma estabilidade, sem guerras, sem grandes convulsões políticas, tendemos a achar que isso tudo está garantido, mas a realidade é que nós somos tão frágeis como uma bolha de sabão, a sociedade onde nós vivemos, o mundo onde estamos, a qualquer momento pode ter uma mudança abrupta. Uma das características da existência ensinada pelo Buda é que tudo é impermanente, todos os fenómenos compostos são impermanentes. É precisamente esse um dos motivos porque no budismo os mestres nos tentam passar um senso de urgência para praticar, pois dessa forma estaremos melhor preparados para os piores momentos, além de que a qualquer momento podemos deixar de ter as mesmas condições para praticar.

Para lidar com esta crise, Ajahn Paisal Visalo, o abade do mosteiro Wat Pasukato, na Tailândia, dá-nos uma perspectiva budista sobre esta situação turbulenta, pedindo que façamos uma pausa, façamos um balanço, e consideremos alguns dos aspectos positivos e oportunidades que podemos extrair deste período conturbado. Ajahn Visalo diz-nos que temos:

  1. Uma oportunidade para entender e aceitar a realidade: “Temos que entender que a humanidade continuará a conviver com doenças infecciosas de várias formas. No passado, poderíamos usar as nossas mãos para limpar e tocar o nosso rosto, mas agora não podemos mais fazê-lo. Mesmo se for necessário, temos que garantir a limpeza completa das mãos primeiro. Essa lavagem consciente das mãos ajuda a tornar-nos mais cuidadosos e, ao mesmo tempo, nos dá mais oportunidades para estarmos com plena atenção na nossa vida diária, enquanto que no passado poderíamos ter tomado muitas coisas como garantidas, incluindo tocar no nosso rosto até 15 a 20 vezes por hora sem perceber.”
  2. Uma oportunidade de praticar uma vida consciente: “As notícias sobre conflitos e combates armados ficaram em segundo plano no surto do coronavírus. Até as notícias sobre os EUA e o Irão pararam. Na Tailândia, os relatórios sobre a agitação política também diminuíram. Os conflitos entre o governo e os partidos da oposição estão sendo ignorados pelo povo, pois a atenção está focada no COVID-19, ao ponto de deixá-los loucos.

    Temos que encontrar um equilíbrio cuidadoso entre o descuido e a loucura. Devemos estar cientes de que o coronavírus não é o único vírus perigoso que está se espalhando na nossa sociedade – mesmo que o COVID-19 prejudique o nosso corpo. O medo também está-se espalhando, prejudicando as nossas mentes e até impactando a nossa humildade, fazendo-nos egoístas e menosprezando aqueles que estão infectados.

    Temos stocks de máscaras, álcool e outros produtos de higiene, mesmo que não sejam necessários, principalmente para aqueles que não estão infectados. Agora, as máscaras estão esgotadas em toda a Tailândia e não estão disponíveis para quem sofre de tuberculose, pneumonia ou gripe. A escassez de máscaras tem sérias repercussões, pois significa que cuidadores e pessoal médico não têm máscaras suficientes para usar enquanto trabalham. Estão sendo enviados avisos às pessoas que não estão doentes para não comprarem e usarem máscaras. Isso demonstra que o próprio COVID-19 pode ser menos prejudicial do que o medo do COVID-19. Portanto, além de reconhecer que precisamos agir para impedir que o COVID-19 infecte o nosso corpo, também devemos garantir que impedimos que o nosso medo do COVID-19 infecte a nossa mente. Vamos nos apoiar nos dois níveis.”
  3. Uma oportunidade para sermos generosos e apoiarmo-nos mutuamente: “Vamos estar gratos às inúmeras pessoas e grupos que foram voluntários em hospitais. Ouvimos histórias de que, quando o COVID-19 começou a se espalhar em Wuhan, China, muitas pessoas começaram a se oferecer para apoiar umas às outras. Esses atos de abnegação e bondade incluíam oferecer boleia para as enfermeiras voltarem para casa para descansarem e depois levá-las de volta ao hospital para trabalharem. Alguns voluntários dirigiram a noite toda para servir esses médicos e enfermeiras, para que pudessem descansar antes de continuarem o seu trabalho. Ações como essas podem começar com um voluntário, mas podem se multiplicar rapidamente à medida que muitas outras seguem o seu exemplo. Essas pequenas atividades voluntárias podem se transformar numa rede que compartilha o espírito voluntário em tempos de crise.

    Esta situação tem um grande potencial para ajudar cada um de nós a reduzir os nossos comportamentos e atitudes egoístas e aumentar a nossa generosidade em apoiarmo-nos uns aos outros. Precisamos permanecer conectados e incentivar as pessoas a expressarem a sua bondade, o que acaba ajudando outros.”

Tsering Paldron, mestra portuguesa do Budismo Vajrayana, diz-nos que nós budistas temos as ferramentas para passar este momento de uma maneira mais apaziguadora, mais pacífica para nós próprios, mas também para fazer de contrapeso em relação à outra parte de pessoas mais desesperadas. Um contrapeso luminoso que vai ser muito necessário nos próximos tempos. No entanto talvez também notemos que ainda temos muito caminho para percorrer, que estamos muito longe da perfeição, porém, também podemos chegar à conclusão que o pequeno caminho que percorremos foi muito importante, e essa pequena bagagem que temos é melhor do que não termos nada. Tsering diz-nos que devemos estar gratos pelo que temos, por temos água para lavar as mãos e tomar banho, por termos acesso a alimentos, por existirem vários profissionais, desde os médicos e enfermeiros aos caixas de supermercados que contribuem para assegurar as nossas necessidades. Neste momento desafiante, nós budistas vamos poder testar o valor das ferramentas que temos. Esta quarentena pode ser um momento de retiro, reflexão e transformação. Tsering Paldron deixa-nos ainda 5 conselhos:

  1. Escolha o amor: Lavar as mãos, ter os cuidados recomendados, não por medo, mas por amor, pensado em proteger os outros.
  2. Refletir sobre as prioridades: Esta situação obriga-nos a repensar a nossa existência, o mundo está em pausa, e podemos verificar a necessidade que temos de nos conectarmos com os outros.
  3. Um dia de cada vez: Neste momento surgem muitas incertezas, mas não vale a pena “morrer por antecipação” e nos preocuparmos com o que poderá ou não vir. A preocupação que podemos ter agora não vai evitar as coisas negativas ou positivas que poderão vir. O melhor é viver o presente. Tudo passa e esta situação também vai passar.
  4. Estamos todos juntos: Esta é uma situação para estarmos todos juntos, porque o “inimigo” é um inimigo comum a todos.
  5. Da competição à cooperação: Se nós enquanto humanidade conseguirmos dar as mãos, vermos-nos uns nos outros na nossa humanidade, talvez saiamos desta situação para um mundo com um paradigma melhor; em vez da competição e rivalidade, possa ser um paradigma da cooperação, empatia e solidariedade.

Ajahn Mudito, monge brasileiro do Budismo Theravada, numa palestra dada no dia 22/03/2020, alerta-nos que na verdade tudo isto é normal, o mundo é mesmo assim, pandemias e todo o tipo de doença sempre existiram ao longo da história e vão continuar a existir. Mas nos momentos de maior crise, com todo o stress acumulado e com a falta de preparação e pratica que temos, é quando muitas vezes fazemos surgir mais conflitos e atritos. Normalmente as únicas coisas que as pessoas sabem fazer para lidar com o stress é consumir prazeres sensuais ou agredir os outros. Estando limitado os prazeres sensuais (como ir ao cinema, restaurante, etc.), e estando em quarentena dentro de casa com familiares, o ambiente propicio para a agressividade surge. Mas é precisamente nesta altura que devemos evitar isso, este não é o momento para “acertar contas”, é preciso fazer um esforço duplo ou triplo para ser educado, para ser gentil, cordial. Esta é um momento para não ficar reclamando, resmungando, é um bom momento para ficar mais em silêncio, para ler um livro. Mudito diz que precisamos saber administrar as nossas emoções, aprender a sentir medo e ansiedade sem entrar em pânico, aprender a sentir insatisfação sem explodir em ira e raiva, aprender a sentir desejo sem explodir em ganância e egoísmo.

Esta situação também nos devia fazer refletir sobre o modo como a nossa sociedade tem operado. Covid-19, Gripe das Aves, Gripe Suína H1N1, o que têm em comum todos estes vírus que têm surgido nas últimas décadas? Todos eles são fruto da exploração animal. Com meio mundo em quarentena, a poluição diminuiu drasticamente e isso já se reflecte na diminuição do buraco da camada do ozono. Não conseguimos nem ficar fechados 15 dias em casa, mas animais são colocados em jaulas durante uma vida inteira, seja para espectáculos em circos, seja para uso pessoal como pássaros em gaiolas, seja para serem vendidos para alimentação ou outros fins. Será que retiraremos lições de toda esta crise?

O suspiro da Terra | TVI

Até ao momento (25/03/2020), a nível global o vírus infectou 438749 pessoas, com 19675 mortos confirmados e 111895 recuperados. Portugal regista 2995 infectados, 43 mortos e 22 recuperados. No Brasil existem 2274 infectados, 47 mortos e 2 recuperados.

Referências: Buddhistdoor, Tsering Paldron, Palestra de Ajahn Mudito, Coronavirus COVID-19 Global Cases.

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