Ensinamentos

O medo e o destemor

O medo exacerbado costuma surgir do apego, aversão e ilusão. Apego: medo de perder o que se ama.
Aversão: medo de encontrar o que se rejeita. Ilusão: medo porque tomamos como sólido e controlável aquilo que é impermanente. De seguida vejamos o que alguns mestres budistas têm a dizer sobre o medo.

Monja Coen

Transcrição do vídeo “Monja Coen Responde: Síndrome do pânico, ansiedade exacerbada, terror? Como lidar com o medo?“, do canal oficial de Monja Coen no YouTube. 28/10/2023

O medo é necessário. Vamos lembrar o seguinte: o medo faz-nos ficar mais atentos. Quando você tem medo de alguma coisa, os seus sentidos ficam todos alerta. Ele foi necessário e tem sido sempre necessário para a nossa sobrevivência. Uma pessoa que não tem medo de nada pode se machucar muito. Ela pode chegar na frente de um abismo e sem paraquedas ou qualquer proteção, dizer “vou pular porque não tenho medo” — e vai morrer, sem medo. Portanto, o medo é necessário para nós.

O medo nos protege. Agora, quando ele é exacerbado, aí surge o pânico. O que acontece com as pessoas que têm Síndrome do Pânico é que o medo — aquilo que nos protege, que nos guarda e que é benéfico — funciona como se tivéssemos um pequeno despertador na cabeça. Toca uma campainha: “medo, medo, medo, cuidado, cuidado, cuidado”. E de repente, essa campainha fica com defeito e ela fica dando um alarme o tempo todo, como se tudo fosse assustador e pavoroso. As pessoas acabam por se trancar em casa: “não quero sair, não quero ir para lugar nenhum porque tenho medo; tenho medo de mim, tenho medo do mundo”. É um medo tão grande que paralisa. A campainha do medo, esse sinalizador disparou e não está a funcionar bem.

Em alguns casos, é necessário procurar um psiquiatra ou um psicólogo e ter acompanhamento. Eu tive um aluno que sofreu de síndrome de pânico por muito tempo; ele tinha acompanhamento com psiquiatra, com psicólogo, e tomava alguns remédios. Depois parou com os remédios e ficou só com o psicólogo. Quando ele começou a fazer zazen, nós falámos muito sobre isto: não tenha medo do medo. O medo faz parte. Onde é que ele começa? Em que parte do seu corpo você sente? Você sente arrepio? Sente quente ou frio? O seu coração dispara? O que é o medo? Como é que isso se manifesta no seu corpo? E como é que você respira o seu medo? Observe à sua volta. O medo é necessário neste momento onde você está? Se não for, perceba que a campainha está desregulada. Então, respire. Não é fácil, mas é um treinamento incessante. Primeiro, reconhecer que o medo é natural e necessário.

Há muitos cantores e atores que dizem sempre que, antes de entrarem em palco ficam com medo. Mas esse medo, essa pequena contração no baixo abdómen é o que vai fazer com que se manifestem ainda melhor. “Não quero errar, quero acertar, tenho medo de falhar” — tudo isso faz um pouco parte de nós, não é errado. Há muitos medos diferentes e temos de os reconhecer como parte de nós mesmos.

Há uma história de que gosto muito sobre Buda, em que ele contava o caso de um homem que chega à noite para dormir. Ele já está na cama quando olha para o lado e, na sombra da lua que entra pela janela, vê que tem uma cobra no quarto. Ele passa a noite inteira em claro, quietinho, morrendo de medo que a cobra viesse até ele. Quando chega a luz do sol, ele vê que era apenas um tronco. Assim somos nós: muitas vezes temos medo daquilo que não vemos com clareza.

Procurar ver com clareza afasta o medo, porque eu vejo exatamente o que é. “E se for uma cobra?”, também dizia Buda. Não durma com uma cobra peçonhenta, porque não será bom nem para você nem para a cobra. Há muitas maneiras de se pegar uma cobra: chame alguém que a possa pegar e tirar do seu quarto, ou retirar-lhe o veneno, mas não fique convivendo com aquilo que é pavoroso e assustador para você. Procure afastar isso de você.

A luz da verdade é o que faz com que nós possamos nos libertar de muitos medos.

Ringu Tulku Rinpoche

Journey from Head to Heart*

Sem medo

O que estou falando é de um destemor que surge porque você entende profundamente que não há necessidade de ter medo. Quando esse tipo de compreensão experimental acontece, então você se torna livre. É por isso que o destemor é uma das principais coisas comentadas do ponto de vista budista.

Às vezes Buda é descrito como os Quatro Destemidos. Ele está completamente confiante, completamente claro e completamente seguro sobre as coisas, para que não haja mais nada a duvidar ou a temer. Quando esse tipo de entendimento profundo acontece, não apenas como uma compreensão intelectual, mas como uma compreensão experimental; quando esse tipo de destemor surge, então é um nível muito alta de realização. Traz grande liberdade. E traz a maior paz para si mesmo.

Thich Nhat Hanh

Tradução de trechos da palestra “Overcoming the Fear of Death”.

[…] Ontem falámos um pouco sobre o não-medo. O Buda sabe que existe medo dentro de cada um de nós. É por isso que nos exorta a tocar o nosso medo, a abraçá-lo. O nosso medo da solidão, o nosso medo de sermos abandonados, o nosso medo de envelhecer, o nosso medo de morrer, o nosso medo de adoecer, e assim por diante. Aprenderam que de cada vez que abraçamos o nosso medo, ele perde alguma da sua força; de outro modo, os blocos de medo continuarão fortes nas profundezas da nossa consciência e continuarão a moldar o nosso comportamento.

O não-medo é a verdadeira base para a verdadeira felicidade. Temos estado a aprender sobre Dana, a doação, a generosidade; e o não-medo é o tipo de dádiva considerada a melhor, a mais preciosa. Se puderem oferecer o não-medo a alguém, oferecem o melhor tipo de presente. As pessoas que estão a morrer podem sentir muito medo. Se tiverem o não-medo convosco, sentam-se com a pessoa nesse momento difícil da sua vida. Fazem-na morrer pacificamente, sem medo. Esta é uma grande dádiva. Se forem alguém que aprende a acompanhar a pessoa em fim de vida, têm de cultivar o vosso não-medo. Porque sem o não-medo, não podem dar o vosso melhor para a ajudar.

Há três tipos de dádivas de que se fala no budismo. A primeira dádiva é a piedade. Significa dádiva material. Dão isso para aliviar o sofrimento das pessoas que são pobres, que estão desprovidas de alojamento, de comida, de medicamentos.

O segundo tipo de dádiva é o Dharma. Com o Dharma, podem ajudar as pessoas a aliviar muito do seu sofrimento. Ajudam as pessoas a saber como organizar as suas vidas, a fazer as coisas de forma a trazerem felicidade a si próprias e às suas famílias, como transformar o seu sofrimento, como amar e ajudar os outros a parar de sofrer.

Por fim, o terceiro tipo de dádiva chama-se não-medo. Gostaria de vos contar a história de uma pessoa que viveu há dois mil e seiscentos anos, que era um discípulo laico do Buda e que praticava a doação, a generosidade, de tal forma que obteve muita felicidade. Finalmente, conseguiu a dádiva do não-medo quando morreu, porque morreu de forma bela, em paz. O seu nome é Anathapindika. […]

Estas linhas podem parecer um pouco abstratas para ti, mas é possível que todos nós venhamos a ter uma compreensão profunda, uma experiência profunda disso. Tens de conhecer a verdadeira natureza da morte, a verdadeira natureza do morrer, para compreenderes verdadeiramente a verdadeira natureza do viver. Se não compreendes o que é a morte, também não compreendes o que é a vida. Por conseguinte, é muito importante conhecer a natureza do nascimento e da morte. O ensinamento do Buda serve para nos aliviar do sofrimento, e a base do sofrimento é a ignorância — a ignorância sobre a verdadeira natureza de ti próprio e das coisas à tua volta. Como não compreendes, tens demasiado medo, e o medo tem-te trazido muito sofrimento. É por isso que a dádiva da ausência de medo é o melhor tipo de dádiva que podes fazer a alguém.

Nós temos ideias. Falamos sobre isso, mas podemos não ter uma compreensão real das palavras que usamos, das ideias que temos. Na nossa mente, morrer significa que de alguém passas repentinamente a ser ninguém. Deixas de ser. Deixas de existir. Essa é a nossa compreensão. Da mesma forma, pensamos no nascimento como o nosso começo. O que significa nascer? Nascer significa que do nada passas repentinamente a ser algo. De ninguém, passas repentinamente a ser alguém. Essa é a nossa definição de nascimento e de morte. Por causa destas noções, temos mantido o nosso medo dentro de nós durante demasiado tempo. O Buda convida-nos a trazer o nosso medo ao de cima e a olhar profundamente para o objeto do nosso medo: o medo de morrer, o medo de deixar de ser. Essa é a essência do ensinamento do Buda. Não te podes dar ao luxo de não o aprender, porque esta é a melhor coisa nos ensinamentos do Buda. […]

Vazio significa a ausência de um eu separado. Se estás preso à ideia de um eu separado, sentes um enorme medo. Mas se olhares e fores capaz de ver o “tu” em todo o lado, perdes esse medo. Eu tenho praticado como monge. Tenho praticado olhar profundamente todos os dias. Não me limito a dar palestras sobre o Dharma. Consigo ver-me nos meus alunos. Consigo ver-me nos meus antepassados. Consigo ver a minha continuação em todo o lado neste momento. Não me tem sido possível regressar ao meu país nos últimos trinta anos. Fui embora para pedir a paz, para parar com os morticínios, e não me foi permitido voltar a casa por vários governos sucessivos. No entanto, sinto que estou lá, muito real. Muitos novos alunos, monges e monjas, têm surgido. Não os vi diretamente, mas aprenderam comigo através de livros, gravações e outros discípulos que foram ao Vietname. Não tenho aquele tipo de sentimento doloroso de uma pessoa que está no exílio, porque muitos dos meus amigos vão ao Vietname e sentem a minha presença lá ainda com mais intensidade do que noutros países, incluindo a França. Vejo-me nos meus alunos. Todos os esforços que faço todos os dias destinam-se a transmitir aos meus alunos o melhor que recebi dos meus professores e da minha prática. Isso é feito com amor. […]

Veja também:

✨ Ajude a manter este projeto

Manter o Olhar Budista implica custos e exige tempo e dedicação. Para que este espaço possa continuar disponível, atualizado e acessível a todos, o seu apoio é essencial. Se considera que este conteúdo é útil para si e para outros, e se partilha da visão de tornar os ensinamentos do budismo mais acessíveis, considere apoiar este projeto com um donativo. O seu contributo ajuda diretamente a manter e a desenvolver este trabalho.

Dana é uma palavra Páli que significa generosidade, é uma das 10 qualidades nobres referidas no budismo. Ao longo dos tempos os ensinamentos do Buda foram preservados e transmitidos devido à Dana, à generosidade das pessoas. É através do apoio, do suporte, do patrocínio, da patronagem, das doações, que as atividades ligadas ao Dharma (ensinamentos de Buda) podem continuar e prosperar. A sua doação será muito apreciada.


Discover more from Olhar Budista

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Deixe um comentário