Perto do templo onde vivia o mestre Hakuin, morava uma jovem com seu pai. Seu nome era Osatsu, e embora segunda a tradição japonesa ela estivesse em idade para casar, por mais que seu pai insistisse ela não queria fazê-lo, preferindo estudar os Sūtras. Certo dia, após ler um Sūtra, atirou o livro para cima de uma mesa e sentou-se em cima dele, dando gostosas gargalhadas.
Assustado, seu pai foi ver Hakuin em busca de conselhos. Então o mestre resolveu ir falar com a menina. Ao ver Hakuin chegar ela sorriu e sentou-se à sua frente.
“Disseram-me que sentastes em cima de um Sūtra” – perguntou o mestre.
“Sim,” – respondeu a mulher – “pois sou mais digna de respeito do que um simples livro de sūtras.”
Hakuin olhou-a e disse: “Nesse caso é melhor ir para o templo e não mais ficar em casa.”
A partir deste dia Osatsu praticou o Zen sob a orientação de Hakuin. Depois de algum tempo, seguindo os conselhos do mestre, ela casou-se e teve filhos, ainda que continuasse a praticar o Zen. Quando ficou mais velha, ela teve netos, os quais amava muito. Já então era considerada uma sábia mestra.
Um dia aconteceu de um de seus jovens netos adoecer e morrer. No dia do funeral, Osatsu abraçou o esquife, e chorou muito. Um dos presentes, estranhando o fato, disse-lhe: “Então, embora sejas Iluminada pela Sabedoria, sofres mais do que nós?”
“Eu amava muito este meu neto!” – disse simplesmente a sábia Osatsu, entre lágrimas.
Fonte: Histórias para a Sabedoria – Uma Ontologia de Koans, Contos, Lendas e Parábolas Orientais.
Compilação e Edição de: Shén Lóng Fēng.
Comentário de Kōmyō Sensei
No Podcast Gotas do Dharma, ep. 262 Ensinamento Zen – Sentimentos, 03/04/2023
«É ensinado, todos os sentimentos são em essência vazios. Mas sentir faz parte da natureza fundamental de todos os seres. O zen possui um coração, e o sentimento jamais abandona quem é sábio. Rir, chorar, celebrar, lamentar. A mente livre sabe que viver não é o problema, o real problema é se perder em cobiças, fantasias, ódios ou desesperos, ainda enquanto vivemos.
A Ven Osatsu, de mente clara como água límpida, compreendeu a chave do zen. Quando estiver com fome, coma, quando estiver com sono, durma, quando estiver alegre, dê gargalhadas. quando estiver triste, chore. Vazios, livres, abnegados, despertos, nós simplesmente sentimos.
Assim sendo eu pergunto. Qual é o segredo do amor sem apegos? Assim sendo eu respondo. Quando voce for cativado, ame. Sentimentos fazem parte da nossa natureza. E a prática do zen, não pode de modo algum retirar do praticante sentimentos.
A grande questão, o grande desafio da prática zen em relação a sentir, a ter emoções, é não se perder nelas, não se deixar controlar por sentimentos e emoções. Porque nesse caso, até mesmo bons sentimentos acabam se tornando fonte de insatisfação, magoa e desespero.
Sentir não é o problema, viver não é o problema. A prática zen não pressupõe que cada um de nós deixemos de ser humanos. A prática zen e a sabedoria que a prática zen oferece, pretende dar a todos nós a leveza, a liberdade, o equilíbrio para que nós possamos experimentar as sensações, as emoções, os sentimentos, na maneira mais clara e límpida possível.
O verdadeiro amor, ele é puro, ele não tem expectativas. O ensinamento de Buda, ensina sobre metta, metta é traduzido normalmente como fraternidade amorosa, é o sentimento de amor que se manifesta de uma forma livre, sem apegos.
A mestra Osatsu, amava o neto, e o neto morreu, ela chora pelo neto. Sábios, pessoas de esclarecimento, não são pedras, frias; possuem sentimentos. A questão é a perspectiva que nós amadurecemos em relação aos nossos sentimentos.
Esses conceitos parecem muito difíceis de serem alcançados, nós pensamos… humm… será que é assim mesmo?
A vida é muito rica em experiências, e é muito difícil, pelo menos para mim, fazer uma afirmação sem consentir que a realidade de cada um de vocês que me ouvem, é muito particular e distinta. O amor e o equilíbrio de sentimentos que se fala no Dharma, é uma experiencia a ser alcançada. Mas na vida muitas vezes a gente encontra muitas pessoas que conseguem acessar esses sentimentos de maneira equilibrada. Mesmo que não sejam budistas ou pratiquem o zen, existem pessoas que acessam essa experiência, porque como ja falei em outras vezes, o que o Buda ensina não é budista, o que o Buda ensina é humano, é existencial, qualquer ser humano pode despertar para o estado búdico, qualquer um. O budismo não cria uma espécie de controlo, declarando que apenas budistas podem atingir a mente búdica. Não, todos os seres podem atingir a mente búdica.
a experiencia, a aprendizagem, e a capacidade de observar com plena atenção, são os fatores importantes para levar o individuo a reconhecer em si sentimentos, experimentar os sentimentos, e não se perder em sentimentos.
Osatu, commo uma mestra, poderia fingir que não estava triste, ela poderia fingir que ela lida com a morte do neto de maneira disciplinada. Osatsu se sente triste, e como grande sabia, ela chora. Ela amava o neto, ela esta triste. Reconhecer os sentimentos é extremamente importante. Prestem por favor muita atenção a isso, é preciso que a gente aprenda a reconhecer os nossos sentimentos e não sermos controlados pelas paixões.
O caminho é viver, praticar a plena atenção, respirar, e viver. Quanto mais vocês se dedicarem, com honestidade pessoal, a esses pequenos passos, mais a maneira como vocês percebem sentimentos, sensações, emoções, mais essa maneira será clara, direta, tranquila.
O centro não se perde. Você pode se sentir irritado, mas você no centro está calmo; você pode se sentir triste, mas no centro você está calmo; você pode se sentir muito alegre, mas no centro você está calmo. Isso faz com que as emoções adquiram outra qualidade em nossa vida, porque a mente condicionada, ela vai sem controlo por sentimentos. Ela cai em altos e baixos de emoções. As emoções são sentidas, mas com muito pouca profundidade, e portanto nós não compreendemos corretamente as nossas emoções.
Eu não afirmo para vocês que atingir esse tipo de experiência em equilíbrio seja sem esforço. Mas eu digo pela minha própria experiencia, que o próprio esforço já vale a pena. Mesmo que a gente fale de vez em quando em manter o equilíbrio interno e observar os nossos sentimentos, mesmo o esforço, vale muito a pena. E a vida é maravilhosa demais para que nós percamos essa oportunidade de tornar a nossa percepção da existência mais profunda e mais livre. Vale a pena nos esforçarmos para sentir melhor.»
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