As Seis Yogas de Naropa, chamadas também de Seis Dharmas de Naropa, são um compêndio avançado de práticas tântricas do Vajrayana, originadas na tradição Kagyu do Tibete. Naropa (1016–1100) foi um famoso mahasiddha indiano que recebeu estas instruções do seu mestre Tilopa e as transmitiu a Marpa, o Grande Tradutor do Tibete, que por sua vez as transmitiu ao seu discípulo Milarepa.
Elas são apresentadas como meios hábeis que visam acelerar o caminho, unindo grande bem-aventurança (mahasukha) gerada pelo trabalho com canais, ventos e essências, com a realização da vacuidade (shunyata) dos fenómenos. São consideradas práticas de yoga interior ou de conclusão (dzogrim), e trabalham diretamente com o corpo e mente do praticante.
Estas práticas requerem transmissão qualificada e orientação direta de um mestre. Além disso, tradicionalmente requer-se a tomada de refúgio nas 3 Joias (Buda, Dharma, Sangha), cultivar bodhicitta (mente compassiva) como motivação, receber iniciação (abhiseka) específica para o ciclo dos Seis Dharmas, assumir e manter votos e compromissos de samaya, estabelecer uma base sólida de ética e de prática meditativa com shamatha, ter a visão correta da vacuidade (shunyata), a preparação do corpo-mente por meio de preliminares (ngöndro), e familiarização gradual com os métodos de canais, ventos e essências.
Este artigo não contêm instruções, apenas dá a conhecer a existência das Seis Yogas de Naropa:
- Tummo | Yoga do Calor Interior
- Gyulü | Yoga do Corpo Ilusório
- Ösel | Yoga da Clara Luz
- Milam | Yoga dos Sonhos
- Bardo | Yoga do Estado Intermédio
- Phowa | Yoga da transferência da consciência no momento da morte
Existem variações semelhantes, por exemplo, a yogue Niguma (séc. XI) ensinou um conjunto quase idêntico conhecido como os “Seis Dharmas de Niguma“.
Tummo | Yoga do Calor ou Fogo Interior
Tummo é uma prática avançada do Vajrayana que combina respiração, postura e visualização para orientar a “energia interior” (prana/lung) e gerar calor interno. Há relatos e algumas pesquisas mostrando a capacidade de tolerar frio extremo e de elevar a temperatura periférica; esses efeitos porém são considerados secundários. O propósito é estabilizar a mente numa bem-aventurança clara inseparável da vacuidade; nessa clareza, as emoções aflitivas perdem a fixação e se transformam, em vez de serem suprimidas.
Gyulü | Yoga do Corpo Ilusório
O Yoga do Corpo Ilusório (gyulü) treina ver todos os fenómenos, inclusive o próprio corpo, como aparências dependentes de causas e condições, sem existência inerente. Assim como o reflexo num espelho não possui substância própria, reconhece-se que o eu e o mundo surgem como aparências vazias, isto é, interdependentes. Com essa contemplação, o praticante solta o apego à forma e experimenta liberdade: os objetos de desejo e medo perdem a fixação.
Este treino é inseparável de bodhicitta e da visão de vacuidade: ao reconhecer a “ilusão“, cresce a compaixão imparcial e aprofunda-se a liberdade do apego. Sinais de progresso incluem menor comoção diante de mudanças, lucidez mais estável, conduta ética e humildade. Armadilhas comuns são reificar sutilmente a “ilusão” ou cair em niilismo; por isso, enfatiza-se a via do meio, evitando tanto o eternalismo quanto o niilismo.
Ösel | Yoga da Clara Luz
O Yoga da Clara Luz é o reconhecimento direto da clareza-vacuidade (‘od gsal/prabhāsvara), a natureza luminosa e vazia da mente. Não é uma coisa ou brilho material, mas a cognoscibilidade livre de elaboração que se manifesta quando se reconhece e solta a elaboração conceitual (prapañca). Em termos de caminho, é inseparável de bodhicitta e de ética; em termos de fruto, revela a natureza búdica já presente, antes encoberta por obscurações temporárias.
Milam | Yoga dos Sonhos
O Yoga dos Sonhos é a prática de manter lucidez e intenções específicas durante o sonho para usar o mundo onírico como campo de aplicação da visão Mahāmudrā. Conforme Tsongkhapa sistematiza, consiste em quatro treinos principais: 1) permanecer consciente durante o sonho; 2) flexibilidade no sonho (por exemplo, procurar prolongar sonhos lúcidos bons, transformar cenários); 3) superar o medo reconhecendo que toda a aparência onírica é como uma ilusão; 4) meditar na talidade do sonho, reconhecendo a sua natureza vazia de existência própria. Mantém-se também os preceitos no sonho: mesmo sem formas físicas, as ações oníricas imprimem hábitos mentais, por isso um praticante ético age corretamente no sonho (neste contexto em que existe um controlo do sonho). Com a prática, consolida-se o hábito de tomar todos os sonhos como campo de investigação budista e de refletir que a vigília também é “como um sonho”.
Bardo | Yoga do Estado Intermédio
O treino do bardo prepara o praticante para reconhecer os sinais do morrer e para manter lucidez entre morte e renascimento. À medida que os elementos e sentidos se dissolvem em etapas (terra, água, fogo, ar e os ventos-mente), surgem sinais internos característicos, culminando nas aparências branca, vermelha, escura e, por fim, na clara luz. As instruções de linhagem enfatizam recolher as energias dos sentidos, dirigir a atenção ao coração e reconhecer todas as aparências como semelhantes a sonhos, mantendo-se a atenção no guru ou no yidam (divindade meditativa) como suporte. Se o praticante treinou previamente a clara luz no sono, pode reconhecer a luminosidade do morrer como da mesma natureza e assim permanecer nela; isso pode levar à libertação no próprio momento ou, ao menos, estabelecer causas muito fortes para evitar renascimentos indesejados.
Phowa | Yoga da transferência da consciência
Phowa é a prática de transferir a consciência, especialmente no momento da morte para uma Terra Pura ou para a clara luz. Pode ser praticada por uma pessoa para si mesma ou por um praticante para outra pessoa ou até animal. Existem diferentes versões de phowa. Sogyal Rinpoche, no “Livro Tibetano da Vida e da Morte”, sugere fortemente que médicos e enfermeiros pratiquem phowa para os seus doentes terminais, que as pessoas o façam para os seus amigos e familiares e também para elas próprias. Além disso, segundo Sogyal, não serve apenas para moribundos, pode ser utilizada para purificar e curar, e é tão importante para os vivos e saudáveis como para os doentes.
Referências: Six Dharmas of Naropa (Wikipedia); Naropa – His Life and Teachings (Karmapa – The Official Website); Request to Practice Six Yogas of Naropa (Lama Yeshe Wisdom Archive); Entering the Vajrayana Path (Luminous Wisdom); Six Yogas of Naropa (Tsongkhapa’s commentary entitled A Book of Three Inspirations); The Bliss of Inner Fire: Heart Practice of the Six Yogas of Naropa (Lama Yeshe).
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